#redeforadarede

Por muitos anos falou-se no “””poder””” de mobilização da internet, das redes, dos aplicativos. Falou-se até mesmo que o ciberespaço seria uma “ágora virtual”.

Tais discursos, é verdade, não são absolutmente falsos; dialogam com tendências da sociedade, da tecnologia, do mercado, etc.

Mas hoje não vivemos um momento, se não oposto, distinto? Ou seja, vemos o número de pessoas conectadas crescer exponencialmente, todavia não vemos surgir movimentos, organizações, coletivos (etc.) capazes de confrontar, não apenas com postagens, as ações retrógradas do(s) Poder(es) [penso no momento político do Brasil].

Seria, talvez, interessante pensarmos o lado obscuro das redes [como conhecemos], ou seja, numa função de desmobilização em rede [bem como pensar em outras formas [e, talvez, plataformas] de mobilização para a ação política efetiva].


Velocidades imanentes

Não existe em definitivo uma coisa superior a todas as outras. O que existe são graus da mesma multiplicidade. E a maioria destes graus são nos desconhecidos. Perspectivamente, nós mesmos somos os desconhecidos. Os graus estão em constante variação. O discurso da superioridade – seja de qual parte for – expressa ainda outro desconhecimento: a superioridade ignora a multiplicidade, ou quando a considera o faz de maneira recortada. Fala-se da rosa como se falasse da roseira e da relação desta com a terra e com a Terra, com a galáxia e com o Cosmos. Diz metonímica o absoluto da parte. Pensar em termos de superioridade e inferioridade é desconhecer o infinitamente infinito da multiplicidade e das linhas díspares que saltam em velocidades absolutas dela dando consistência à formações rochosas, animais, pássaros, humanos, máquinas, culturas, obras de arte na mais radical imanência. Você devém pássaro quando voa para o amor. O discurso, em geral moral, parte de uma superioridade, da sua pretensa superioridade, em relação àquilo que se refere, para inferiorizar e para condenar, em bloco o que não é um, nem dois, mas muitos. Ele, contra a própria natureza, torna-se um e assim passa a ver o que não é um como um. Isso-lhe permite simplificar o mundo: a direita, a esquerda, o machista, o corrupto, o partido tal. A velocidade infinita que herda do movimento da Terra é congelada em um determinado momento no espaço. A guilhotina desce. A ignorância proposital é uma ferramenta analítica útil para o pensamento do uno decepar a multiplicidade que ele não pode conter. Mas ele precisa conter a velocidade infinita da multiplicidade. Então ignora, finge que ignora, que “a esquerda” e/ou “a direita” são significantes vazios quando pensados fora de um movimento contínuo. Mesmo assim os aciona como meio de atingir a vida, as vidas, que fervilham por baixo, virtualmente, como milhões de formigas, larvas, ovos, sob o formigueiro. Reduz-se as formigas ao formigueiro. Condena-se o formigueiro. Algo deve ser sempre condenado: seu imperativo categórico. Depois do julgamento, da humilhação, do veneno e do do fogo, algo ainda se move. “Como é possível que continue a viver depois de tanta má-consciência aplicada com zelo diariamente?”, pensa. Descobre que as palavras não transformam o mundo, pelo contrário, fixam-no em um espaço qualquer, numa timeline de rede social, por exemplo. A verdade é que ignoramos o que ignoramos e cada descoberta é a descoberta dessa verdade, mas, claro, é mais fácil, prático, útil, falar do que achamos que sabemos, senão o que seria da comunicação!? A comunicação não seria a tentativa de dizer o que não sabemos ainda? Mas estamos tão cheios de uma certa comunicação, de uma comunicação que, na atualidade, é uma emissão de afetos tristes, indiretas, humilhação, desprezo, morte. Isso não é tudo, todavia. Ainda há outras conexões abertas ao infinito, experiências a tomar nossos corpos. Conhecer é se espantar e se afetar com o desconhecido que se manifesta numa abertura fundamental e manter a distância deste assombro para compor com suas velocidades e lentidões outras velocidades e lentidões para ser e estar na velocidade da Terra. Relançar-nos ao infinito da duração perdida para sermos os outros que podemos ser sem nunca todavia ser. Manter o movimento da experiência é afirmar a inevitabilidade da experiência do movimento.


Máquina de Renda Universal

Para a máquina capitalista nenhuma utopia soa problemática desde que não se apresente como um problema de magnitude tal capaz de colapsar gravemente seu funcionamento e reprodução infernal. A renda universal, por exemplo, não é revolucionária, pois, pode ser perfeitamente conjugada aos fluxos loucos do capitalismo. Revolucionário seria, por exemplo, propor uma (re-)distribuição universal da produção (que excede em muito o consumo) e da propriedade privada (poderíamos começar pelos latifúndios improdutivos dentre os 70 mil existentes no Brasil).


::: Cuidado :::

Em pouco mais de um século “recursos” constituídos ao longo de milhões de anos de história terrestre (muito mais tempo para os lençóis freáticos) estão perto do esgotamento.

O mundo vai acabar?

Não, o mundo continuará, o que acabará é o humano. E quem acabará com o humano? O próprio humano, ou melhor, o modo de produção capitalista sustentado pelos humanos, mas precisamente por humanos_homens_brancos_rentistas_cientistas_ocidentais.

Não é sem razão, portanto, que a filósofa belga Isabelle Stengers chama nosso tempo de “tempo das catástrofes”, tempo em que as condições essenciais de existência na Terra entram em um processo de esgotamento irreverssível.

A Terra – desértica, sem água, com altas temperaturas, sem flores nem frutos – talvez continue, mas nós certamente não continuaremos, pelo menos não da maneira como “vivemos” no presente.

O fim do mundo é na verdade “o fim do mundo dos homens”.

Stengers não se limita, todavia, ao discurso catastrofista e propõe, como forma de resistir “a barbárie que vem” uma “arte do cuidado”.

“O que fomos obrigados a esquecer não foi a capacidade de ter cuidado, e sim a arte de ter cuidado. Se há arte, e não apenas capacidade, é por ser importante aprender e cultivar o cuidado, cultivar no sentido em que ele não diz respeito aqui ao que se define a priori como digno de cuidado, mas em que ele obriga a imaginar, sondar, atentar para consequências que estabeleçam conexões entre o que estamos acostumados a considerar separadamente” (Stengers).

O reaprendizado da “arte de ter cuidado”, ressalta Stengers, não é um imperativo moral, nem um apelo ao respeito ou a uma prudência que “nós” teríamos esquecido.

Quem mais precisa dar-se conta da importância desse reaprendizado são os que, no presente, na sanha de multiplicar o capital, ou pressionados por essa sanha, não esboçam nenhum sinal da arte de cuidar. Ligados à máquina capitalista, tornam a Terra improdutiva, seca, desértica, morta. Desligados da Terra cuidam apenas de “seus negócios privados” como se estes não dissessem mais respeito a tudo o que se passa no mundo.

Uma das figuras que devem aprender a arte do cuidado, segundo Stengers, é o Empresário. Para essa figura tudo é oportunidade. Ele “exige a liberdade de poder transformar tudo em oportunidade – para um novo lucro, inclusive o que põe em xeque o futuro comum”.

As coisas tendem a piorar com a articulação Empresário-Estado-Ciência. Aí, diz Stengers, aproximamo-nos da “lenda dourada” que prevalece quando se trata da “irresistível escalada de poder do Ocidente”. “Essa lenda põe efetivamente em cena a aliança decisiva entre a racionalidade científica, mãe do progresso de todos os saberes, o Estado que se livrou enfim das fontes de legitimidade arcaicas que impediam essa racionalidade de se desenvolver, e o crescimento industrial que a traduz em princípio de ação enfim eficaz”

Se o poder do empresário por si só é perigoso, quando articulado aos poderes do estado e da ciência cresce exponencialmente. A comercialização de pesticidadas cancerígenos, por exemplo, só é possível por causa desta aliança. A lenda dourada Empresário-Estado-Ciência revela-se então o oposto de uma “arte do cuidado”.

É dessa lenda, ou melhor, é das poderosas teias empresariais fortalecidas pelo poderio do Estado e da Ciência que precisamos escapar, mas, se a arte de ter cuidado deve ser reconquistada, é importante começar tendo cuidado com a maneira pela qual somos capazes de escapar. Como já diziam os antigos: “todo cuidado é pouco”.


[[[OcupAções & CorpoAções]]]

A alegria dos corpos das ocupações primaveris chegaram ao corpo que nos quer tristes de Temer.

O corpotemer
teme o corpo.

O corpotemer, claro ou obscuro[?], recebeu reativamente a ressonância da potência de milhares de corpos que, confrontados pela destruição em série de direitos e políticas públicas, procuram pensar em formas de resistência capazes de, simultaneamente, no presente construir ações coletivas no espaço público, e no devir criar e experimentar um comum que é constituído por todos & para todos os corpos ocupados (Afinal, se a tendência é o “sem nenhum direito”, experimentar o direito comum e fazê-lo funcionar, ainda que no escopo de uma ocupação, deveria ser pelo menos visto com bons olhos e (por que não?) como uma tentativa de fazer uma outra ciência social e política, outra porque não apenas com os pares, mas também com os ímpares…).

Num tempo em que o ressentimento, o medo, a tristeza generalizada enfim, tentam impossibilitar os corpos de se agenciarem coletivamente, por que esses mesmos corpos, ao invés de caírem na impotência como desejam os impotentes, não podem descobrir o que são capazes? Por que devem permanecer no campo discursivo dos corpos fascistas que negam toda a experiência, mas que não abrem mão de criticá-las reativamente? Por que não podem diferencialmente expressar o que sentem? Por que devem ouvir eternamente as enunciações de certos intelectuais que não sabem fazer nada além do que criticar [por likes?] os quem tentam produzir algo?

O que pode um corpo, pergunta-nos Spinoza? O que podem diversos corpos juntos quando se ocupam de pensar e agir politicamente?

Para Temer nada. De acordo com declarações feitas durante um seminário em Brasília para industriais, ele vê com menosprezo os corpos que ocupam porque estes fazem, segundo sua perspectiva, uso de “argumentos físicos”, “fora do campo das ideias”, que desmobilizam a opinião pública dos enquadramentos do “””discurso oficial”””.

“Hoje, ao invés do argumento intelectual, verbal, usa-se o argumento físico. A pessoa vai e ocupa não sei o quê, põe o pneu velho, é o argumento físico”, discursou para a burguesia industrial Temer, o ilegítimo, cuja “racionalidade” já reservou para o próximo ano R$ 224 bilhões em desonerações tributárias e crédito subsidiado para o setor empresarial, incluindo a indústria. …

Para Temer, os Corpos_Cidadãos devem se ajoelhar perante o Corpo_Estado_Capital e às suas “verdades” (podemos imaginar seus presupostos) claras, distintas, pretensamente consensuais e racionais. (De certo para Temer uma taxa de desemprego de 11,8% também pode ser justificada pelo tribunal da razão?).

As ocupações não precisam se envergonhar do Corpo como deseja – para um gozo triste com sua classe – Temer. “Corpo não é pecado / Corpo não é proibido / Corpo não é mentira”, dá nos o tom Tom Zé.

Na verdade, podemos aventar, o medo de Temer do(s) Corpo(s) e a desclassificação deste(s) como CorpoPolítico, Corpolítico, oculta o medo de um outro Corpo que devém da prática ética e política dos Corpos: o Corpo_Multidão.

Sabemos desde Spinoza que a Multidão pode destituir o Corpo_Tirano.

O que o tirano Temer teme é que as ocupações se tornem ações multitudinárias.

O corpo de Temer treme perante à possibilidade de retorno do recalcado, do retorno de selvagens ações coletivas dos Corpos no espaço público, por isso ele precisa os desclassificar, os despontecializar, os desCORPOrificar, porque – talvez ele não saiba, mas seu corpo reativo pressinta – um devir revolucionário nos corpos que passaram a se ocupar, juntamente com suas ocupações do cotidiano, não apenas esta ou aquela instituição, mas por extensão, a esfera da Política.

Os políticos temem que os corpos, fora dos padrões de racionalidade esperados, e inesperadamente ocupados com questões políticas, descubram que os corpos enrolados em ternos bem alinhados e retórica vazia não os representam?

Somente um corpo potente, resultado mutante da conexão das forças movimentadas por múltiplos corpos políticos em relação, pode destituir um poder impotente e ir além da sua destituição em direção à produção de, quem sabe, uma democracia radical jamais corporificada e absolutamente fora da estrutura capitalista. Mas esse corpo ainda nos falta. Todavia, ele parece existir – ou mesmo resistir – ou ainda (re-)existir – virtualmente nas ocupações, nas quebradas do mundaréu, no som de “ilhas de calor”, debaixo das marquises, nas filas dos desempregados, nos movimentos minoritários, no filme que tremeu um cinema em SP, e mesmo nas entrelinhas das atuais falas de uma esquerda entristecida e impotente, e impotente porque triste, e triste porque atolada em disputas intestinas que não criam nada além de tristes debates no buraco negro azul do facebook.

Se Temer ataca o Corpo_Ocupação, o Corpo_Ocupação pode responder, mas não reativamente, ao contrário, pode utilizar também essa força reativa a seu favor para, dobrada, potencializar o nascimento do CorpoMultidão.

Em Curitiba as ocupações dos secundaristas já são parte desse CorpoMulitudinário.

Tatuquara presente! CIC presente! A periferia se reterritorializa no centro. O centro desterritorializado dá um rolê com a periferia no Batel e os trabalhadores/trabalhadoras, ao invés de baterem panelas como seus patrões, integram-se, uma piscadela quase imperceptível, à multidão. “A linha de fronteira se rompeu!” (Waly Salomão).

O Corpo_Multidão não captura as singularidades, porque estas preexistem (pré – existem!) a ele.

O CorpoMultidão é a multidão de singularidades criadoras. As ruas estão progressivamente sendo tomadas por relações inesperadas de cores, falas, projetos, territórios, desejos.

As ruas ganham a multidão dos corpos que ganha o corpo da multidão: CorpoMultidão.

O Corpo_Ocupação intensivo (re-)existirá “OcorpAção”. As ocupações que incomodam Temer com seus “argumentos físicos” responderão também com a “física dos argumentos”, porque esses Corpos, ao contrário do que pensa deles Temer, pensam entretanto, diferentemente do que é capaz de pensar (se pensa) Temer, porque não pensam sozinhos do alto, pensam juntos horizontalmente um horizonte de ampliação de direitos, pensam em redes [& rimam como Sabotage!] descentralizadas, pensam o que é comum a partir do desejo múltiplo e o desejo múltiplo a partir do que é comum.

O tirano que ocupa o poder, com o corpo do que há de mais violento neste país, deve cair; e a fila de cara lambida da sucessão também! O teatro burguês_oligarca_empresarial_capitalista_latifundiário_rentista que esses poderosos inconsequentes, e seu servil aparato midiático, judiciário e policial, representam como se fosse “Democracia” é incapaz de inCORPOrar os incontáveis fluxos de desejo minoritários que explodem por todos os lados o campo social, e quando os incorpora o faz para desmerecê-los, controlá-los, assujeitá-los, explorá-los, reprimi-los, encarcerá-los, violentá-los, matá-los.

A democracia não é a representação repressora da vida pelas forças molares da morte e pretensamente superioras (porque armadas até os dentes), mas a apresentação de todas as forças da vida no mesmo plano, forças humanas e não humanas, que “entre os dentes segura a primavera”. #PrimaveraSecundarista


::: Escola Autônoma Tiradentes :::

“Proibida entrada de fascistas”. Essa é uma das mensagens no portão do Colégio Estadual Tiradentes, ocupado há mais de 20 dias.

Num Estado governado por fascistas a frase é a expressão resistente de uma célula viva de autonomia no corpo de um sistema educacional gerido por um poder repressor [quem não se lembra do 29 de abril de 2015 quando Richa deu ordem à PM para ferir física e emocionalmente os professores].

Richa não é bem vindo às escolas do estado que governa. Seu poder uno e vertical vale pouco perto da potência horizontal irradiada por mais de 800 escolas ocupadas. Pedidos de reintegração de posse têm sido continuamente rejeitados ao governador cujas declarações revelam um completo despreparo para compreender as novas formas organizativas das singularidades.

Se o Estado detém o monopólio da violência, as escolas são laboratórios vivos de criação de um outro estado, mas que fique claro: não estado no sentido de Estado, mas sim estado de alegria, de experimentação de novas relações entre saberes, estudantes, professores e cidade, estado de invenção contra o poder de repressão do Estado, estado ético-afetivo contra a moral culpada do Estado.

Eu e minha amiga Brenda acabamos de entrar no Colégio Estadual Tiradentes – Curitiba, ou melhor, Colégio Autônomo Tiradentes (OCUPA Tiradentes). Assim que chegamos havia um homem do lado de fora do portão. Sua entrada não foi autorizada. Ficamos sabendo momentos depois que se tratava do diretor! O secundarista Z., que nos recebe, conta que “o diretor não apoia a ocupação e ainda está obrigando professores a assinarem uma lista em que têm que confirmar para o governo que são contra as ocupações. Além disso, diz ele, “esses dias, descobrimos uma sala com cinco microscópios, sendo que ele informou ao Grêmio Estudantil que não havia esse equipamento na escola. Sem falar nas bolas novinhas que encontramos. Jogávamos há meses com uma toda estourada”.

É uma alegria sermos recebidos pelos estudantes do Tiradentes que nos últimos dias têm vivido os dias mais difíceis desde o início do movimento. O Estado assassino tenta colar ao movimento sua pulsão de morte… Apesar da dor sentida por todos e todas pela morte de um secundarista – por razões alheias ao desejo de vida potente e de conhecimento que percorre as ocupações – os estudantes prosseguem. Eles sabem muito bem que aqueles que querem fazê-los culpados de um crime que não cometeram cometem crimes impunemente e diariamente.

“Nós não vamos desistir. A mídia e o governador dizem que somos massa de manobra como se o que dizem fosse neutro, como se eles mesmo não estivessem manobrando a opinião pública”, afirma com uma propriedade de quem está a altura da questão que coloca, a estudante X. numa sala onde acontecem oficinas e debates.

No último final de semana ela fez a primeira fase do vestibular para nutrição na UFPR. “Estou muito confiante. Vou passar! Eu e meus colegas queremos mostrar para os que estão nos criminalizando que somos capazes. E também para alguns familiares que acabam sendo influenciados pelo discurso da mídia. Meu pai até que entende porque estou aqui, mas bato de frente com minha mãe, embora entenda sua preocupação, ainda mais quando a mídia cria uma falsa imagem que não corresponde à realidade”.

O jovem Y. está no segundo ano. “Ainda não sei o quero ser, talvez advogado”. Y. é responsável pela segurança da ocupação e é perceptível seu cuidado com os colegas e com o prédio. Enquanto ele fala comigo vejo que está atento aos ruídos externos. Nos últimos dias movimentos fascistas como o MBL ameaçam invadir as ocupações. “A tensão aumentou muito. É mídia, é governador, é polícia, é mbl. É como se a pec241 e a mp746 tivessem um corpo, um corpo fascista e violento como o de dois grandalhões que estavam rondando a escola ontem à noite. Acho que eram nazis”.

Durante nossa conversa, eles retiraram suas máscaras e vendas que utilizam para não sofrerem retaliação posteriormente. Foi muito emocionante esse momento, senti que – de alguma forma – estávamos sendo integrados a algo que continuará depois, uma amizade, um vínculo, uma revolução desejante. “Eu nunca mais vou deixar de lutar”, diz X. com os olhos em estado de devir-revolucionário contra a impotência reacionária do Estado.

Nem nós X.

Curitiba, 26 de outubro de 2016, Escola Autônoma Tiradentes.


::: vergonha intelectual :::

Três anos para concluir o que todos sabíamos: o tiro que matou Oziel Terena em 2013 veio da Polícia Federal, mas esse [outro] 2013 não é lembrado pela memória seletiva dos moralistas da esquerda e da direita que, em suas narrativas estratégicas, parecem preocupar-se com as causas das minorias, mas apenas enquanto elas lhes servem para – taticamente – golpear o poder que criticam e desejam. Quando enfraquecem seus adversários políticos, ou alcançam um certo poderzinho, questões – como a questão indígena – ou mesmo a desmilitarização da polícia [ e tantas outras] – desaparecem de seus discursos tão rapidamente quanto surgiram. Alguém aí sabe quem matou o Amarildo? Pois é. E, de maneira perversamente simétrica, os que estão no poder – sempre provisoriamente – preocupam-se com as minorias apenas quando estas lhes servem para mostrar como o Estado é eficiente, mas quando o Estado é a própria máquina genocida permanecem em silêncio cúmplice, pois isso pode arranhar a imagem da representação política… No meio do fogo cruzado, das disputas interessadas das oposições e da situação [seja qual esta for], a vida [sempre em risco] das minorias, das múltiplas sociedades sem Estado, sem partido e sem capital. Onde está toda aquela revolta contra Belo Monte? Onde está a indignação com a situação dos Guarani? Onde estão aqueles extensos artigos sobre a questão indígena publicados quase que semanalmente? Estamos diante da vergonha intelectual de falar pelos outros justamente porque não podemos sustentar essa fala para além de interesses localizados, muito aquém do verdadeiro problema, ou melhor, dos verdadeiros problemas do Brasil. Para nós, concordamos com Deleuze, “o intelectual teórico deixou de ser um sujeito, uma consciência representante ou representativa. Aqueles que agem e lutam deixaram de ser representados, seja por um partido ou um sindicato que se arrogaria o direito de ser a consciência deles”