Cores & valores

Ao ler a recente entrevista do Mano Brown [https://goo.gl/WhS7v2] entendi um pouco melhor “Cores & Valores”, o último álbum de estúdio dos Racionais. Nesse disco de 2014, algumas canções acabavam antes do que sentíamos que poderiam acabar [https://youtu.be/LUCmRVPY2Qc], cortes bruscos [https://goo.gl/ZyUdQk], picos foda que não duravam [https://goo.gl/j8fGp1], talvez como nossos surtos democráticos. Enfim, “Cores e Valores” se colocava, assim como o Brasil, numa encruzilhada, e assumia contradições, ambiguidades, tensões históricas, reveses momentâneos, sem demasiadas, além das já existentes, ilusões.

Em “Eu Compro” é possível constatar uma dimensão desta encruzilhada. Nesta composição, ouvimos versos que podemos identificar com o discurso de pessoas que ascenderam economicamente durante os governos do PT, que o sociólogo Jessé de Souza denominou “batalhadores”, mas algo parece incompleto ou em aberto (como soam algumas músicas de “Cores & Valores”) para esses indivíduos. O próprio Jessé em sua obra “Os batalhadores brasileiros” reconhecia a importância do fator econômico, via políticas sociais, por exemplo, para a ascensão dos batalhadores (que não podem ser confundidos com a classe-média), mas insistia também em investimentos em “capital cultural”. Apenas o capital econômico, sem o cultural, não produziria, a longo prazo, diminuição da desigualdade, pois as classes superiores se reproduzem também culturalmente e não apenas economicamente ….

“Minha ambição tá na pista, pode pá que eu encosto
BM branca e preta M3 com as roda cinza eu gosto
Os nego chato no rolê de Mercedes
Apenas dois, três, quatro é foda poucos vencem
E seu sonho de ter a Fire Blade vermelha Repsol CBR
Uma VMax, um apê, R8 GT
Ou uma Porsche Carrera, pôr no pulso um Zenith
Ou um Patek Philippe”

Estes versos cantados por Ice Blue contêm uma ambivalência no âmago. Há neles, ao mesmo tempo, uma satisfação por ter vencido (ou ter uma representação do que é vencer na contemporaneidade) e um lamento porque são poucos os que venceram até então. “Os nego chato no rolê de Mercedes / Apenas dois, três, quatro é foda poucos vencem”.

Uma das direções possíveis de “Cores e Valores” é a afirmação de valores éticos, políticos, comunitários, estéticos, mas também monetários [“O vil metal só não quer quem morreu”, afirma Brown em “Você Me Deve”]); uma outra direção é puramente a dos valores monetários e seus esperados desdobramentos: status, distinção, ostentação, as cores do dinheiro e os valores do capitalismo em primeiro plano e talvez único plano. Explosões, rajadas de metralhadora, vitrines estilhaçadas, sirenes e armas sendo engatilhadas impregnam a atmosfera do álbum. Tensão na encruzilhada.

As canções de “Cores & Valores”, ouvidas em conjunto e da perspectiva do presente, tentavam, assim parece-nos, interpretar uma situação política, econômica e social marcada pelo expressivo aumento do poder de consumo entre os mais pobres (quem não se lembra do “funk ostentação”?), buscavam pensar o instante atribulado e seus devires a partir de signos confusos e desencontrados, davam uma letra sobre um estado de coisas que sentíamos não ser completa (talvez propositalmente se considerarmos a irresolução no plano político que vivíamos e vivemos), lançavam estilhaços de ideias, propunham ações sem desenrolar todo o plano [https://goo.gl/sJxtbp], apontavam possibilidades [https://youtu.be/y61PWnBp2sU], caiam, por vezes, em contradições terríveis, dilemas [https://goo.gl/3m9L8T], mas não decidiam unilateralmente, pois, como lemos na entrevista de Brown quem decide (e decidiu) é o povo. “O povo elege quem quer. Consome o que quer, come o que quer, veste o quer”.

E Ice Blue prossegue:

“Pingente de ouro com diamante e safira
No pescoço um cordão, os bico vê e não acredita
Que o neguinho sem pai que insiste pode até chegar
Entrar na loja, ver uma nave zera e dizer:
“Eu quero, eu compro e sem desconto!”

Mas, assombrando a ascensão econômica e o sucesso no capitalismo, o fantasma estrutural do racismo:

“À vista, mesmo podendo pagar
Tenha certeza que vão desconfiar
Pois o racismo é disfarçado há muito séculos
Não aceita o seu status nem sua cor”

Esses versos de “Eu compro” apontam que ter apenas o valor para pagar à vista não apagará da vista, não da noite para o dia, uma história de exploração, preconceito e violência (simbólica e no corpo) contra os pobres e negros no Brasil, como atesta também “Preto Zica”: “um truta meu me disse que o chicote estrala, o inimigo dá risada da sua vala no sofá da sala”.

Mas em 2018 Brown analisa que a escolha foi feita. A encruzilhada foi transposta. Os valores que os Racionais defendiam, segundo ele, foram negados para a afirmação de um único valor: “eu compro”, valor que, ressalte-se, os Racionais em “Cores e Valores” não negaram, mas propunham que fosse pensado no plural enquanto “valores” [https://youtu.be/TouWW2VoW8A] e em relação com a multiplicidade da gente pobre brasileira e de suas cores. Mas, constata Brown,

“hoje, a maioria está reclamando porque não tem iPhone. Você tem realidades distintas. Hoje, a luta que as pessoas dizem ter é individual. Não vejo mais luta de classes. A luta é por conforto. A periferia está pedindo segurança, votando em polícia, se escondendo dentro de igreja e atrás de pastor, não assumindo a parte que lhe cabe. Então, qual seria a importância dos Racionais hoje? Falar de Deus, de família? Não. Isso é o que fala o discurso da direita no Congresso. Que é homofóbica, racista, um monte de coisas. Os discursos se misturaram. A extrema-esquerda, hoje, virou direita, de tão à esquerda que está. A gente vai ter de rever os conceitos. Você pega os pensadores do movimento (hip hop): eles estão neutros. Porque, hoje, você é apedrejado por falar de Lula. É linchado na internet, junto à opinião pública. Então está todo mundo com medo. A gente sabe o que é bom para o povo, a gente sabe em que momento o povo esteve melhor ou pior. Eu tenho idade suficiente para dizer: vivi vários momentos e vi o Brasil muito mal. Já vi o negro neste país mal a ponto de alisar o cabelo, de clarear a pele, afinar o nariz. Mal a ponto de esconder onde morava, ter vergonha da mãe. A gente não vive mais isso. Hoje, o negro vive o orgulho, e o branco vive a vergonha do que fez. E muitas vezes as pessoas se confundem por isso”.

“Eu compro” volta a tocar e acaba como um tiro, seco, repentino, com mais de 13,2 milhões de pessoas desempregadas [https://goo.gl/iB2X76] segundo as estatísticas. Cada vez mais menos pessoas podem comprar. E os que compraram, e que hoje já compram menos, não querem perder e, para se protegeram deste risco iminente, arriscam até votar em que defende a volta da ditadura militar, aquela que nunca foi, para muitos, embora de verdade. Ou seja, na interpretação de Brown, a periferia chama a polícia, justamente a máquina viva da ditadura que prosseguiu, no interior da democracia, exterminando seus filhos.

No capitalismo, “apenas dois, três, quatro, é foda, poucos vencem”. Brown, Pedro Paulo Soares Pereira, “negro drama entre o sucesso e a lama”, sabe bem disso e diz não ter nada a celebrar nestes 30 anos de caminhada dos Racionais. “É luto, meu parceiro. Os caras que eram fãs, hoje, me perseguem. Me chamam de maconheiro, defensor de bandido, petralha, Lei Rouanet – que nem sei como usa, nunca usei. Celebrar?”

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::: um nome :::

Tento lembrar seu nome. Escavo as grutas da memória. Perfuro as paredes do tempo, alcanço as linhas do seu rosto, seu cabelo, pele, corpo, movimentos, pausas, hesitações e decisões. Quase ouço a sua voz. Mas onde está a palavra etérea que designa o conjunto do seu ser? Seu nome: o nome que seus pais lhe deram. Seu nome registrado em cartório. Seu nome seguido de um sorriso depois de pronunciado. Faço listas de nomes, nenhum deles parece ser o seu. Tento o alfabeto. A, B, C… Nenhuma letra me leva a ele. Nenhuma letra traz seu nome a mim. Sei que tens um nome. Qual? Qual é o seu nome? Um nome entre todos os demais nomes, o seu nome. Te vejo em sonhos. Te vejo numa praça imaginária. Te vejo de joelhos na Igreja. Te vejo com sono. Te vejo adormecer. Te vejo desparecer. Fantasmático, obscuro, enigmático nome. Talvez nunca tenha sabido seu nome. Talvez você nunca soube meu nome. Não, não é possível, ao menos uma vez ele foi dito. No dia em que nos conhecemos provavelmente. E depois perdemos nossos nomes por um tempo até nos perdemos para sempre. Se ao menos eu ouvisse seu nome sendo dito por alguém. Sentiria que é, enfim, seu nome? Mas seu nome ninguém diz ou eu não escuto quando é dito. Percorro a lista telefônica, o facebook, o twitter, sites de nomes, perscruto nome a nome. Nenhum é o seu. Ninguém é você, mas você é alguém com um nome. Não que o nome seja mais importante que sua existência. Na verdade, o nome é só uma exterioridade, uma palavra que envolve o corpo vivo. Um nome consagra o sagrado. Mas se insisto nessa busca ensandecida é porque sinto que ao proferir seu nome revelar-se-á o indizível. Seu nome oculta um mistério, um lugar, uma possibilidade, um sentido perdido, um mapa. Seu nome escapa assim como o meu nome lhe escapa? Uma distância se abre. Um abismo se põe entre o desejo de nomear e a impossibilidade de o fazê-lo. Seu nome na ponta da língua se ausenta na eternidade. Escalo montanhas, atravesso florestas, enfrento feras, mergulho em mares profundos, atrás de seu pequeno nome. Seu nome me chama sem dizer meu nome. É provável, começo a desconfiar, que quanto mais eu busco mais me afasto dele. Quando encontrá-lo, se encontrá-lo, rirei. Seu nome será tão simples, tão obvio, como são todas as coisas belas da natureza.


Para onde foram as andorinhas?

 A ideia de “fim do mundo” na perspectiva indígena traz elementos interessantes para pensarmos em outros termos a relação humanidade_natureza e a partir daí repensarmos a própria ideia de “fim do mundo” como concebemos.

Para o índio o mamão queimado, o sumiço das borboletas da beira do rio, a cigarra que não canta e as andorinhas que já não mais anunciam a chuva são mundos que estão acabando. “O calor excessivo cozinhou os ovos da cigarra”, diz um índio no documentário “Para onde foram as andorinhas?” que compartilho aí embaixo.

No documentário vemos que não há exatamente um fim do mundo total, isto é, um evento catastrófico que nos aniquilaria sem mais nem menos.

O fim do mundo, na verdade, na perspectiva ameríndia, seria o fim de múltiplos mundos que existem (e resistem) no mundo. Os índios experienciam isso como ninguém e, por isso mesmo, percebem também toda e qualquer alteração climática. “O vento traz o cheiro do veneno que é jogado na soja”. Assim, se houver um fim do mundo é porque antes houve o fim de múltiplos mundos diferentes uns dos outros, mas em relação.

A morte de um mundo implica na morte de muitos outros. A morte da floresta para o cultivo de soja por grandes fazendeiros influencia negativamente nos cultivos indígenas. O velho índio diz-se preocupado porque seus netos poderão não ter o que comer no futuro.

Uma vida se faz no equilíbrio de todas as outras vidas & todas as outras vidas fazem ‘A Vida’.


O signo da morte & da vida por vir

O brutal assassinato do professor Marcondes Namblá do povo Laklãnõ-Xokleng é a terrível continuação do extermínio da população indígena no Brasil.

Em outubro de 2017, o relatório “Violência contra os povos indígenas no Brasil”, divulgado pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), informou que 118 indígenas foram assassinados no país em 2016.

O maior número de vítimas, 44, foi registrado em Roraima, entre o povo Yanomami. O Mato Grosso do Sul, onde vivem os Guarani-Kaiowá, registrou 18 mortes por agressões.

O relatório do CIMI [https://goo.gl/yQFbGS] traz ainda uma série de artigos que apontam que os assassinatos estão associados a um processo mais amplo de desconstrução dos direitos indígenas estabelecidos na Constituição Federal.

Os dados referentes a 2017 ainda não foram divulgados, todavia os números da violência (que não é só uma questão numérica!) que se abate sobre os povos indígenas serão novamente alarmantes haja vista a intensificação da relação espúria de Temer com a bancada ruralista e da bala, e o desmonte da FUNAI.

A morte de Namblá não pode ser apenas um número nas estatísticas de 2018 (nem conhecemos as de 2017!). Ela pode ser o começo, o signo disparador, de uma profunda reflexão, com e para além dos círculos ativistas e acadêmicos, acerca do extermínio em curso dos povos indígenas no Brasil.

Até quando receberemos passivamente as estatísticas da violência contra indígenas?


#redeforadarede

Por muitos anos falou-se no “””poder””” de mobilização da internet, das redes, dos aplicativos. Falou-se até mesmo que o ciberespaço seria uma “ágora virtual”.

Tais discursos, é verdade, não são absolutmente falsos; dialogam com tendências da sociedade, da tecnologia, do mercado, etc.

Mas hoje não vivemos um momento, se não oposto, distinto? Ou seja, vemos o número de pessoas conectadas crescer exponencialmente, todavia não vemos surgir movimentos, organizações, coletivos (etc.) capazes de confrontar, não apenas com postagens, as ações retrógradas do(s) Poder(es) [penso no momento político do Brasil].

Seria, talvez, interessante pensarmos o lado obscuro das redes [como conhecemos], ou seja, numa função de desmobilização em rede [bem como pensar em outras formas [e, talvez, plataformas] de mobilização para a ação política efetiva].


Velocidades imanentes

Não existe em definitivo uma coisa superior a todas as outras. O que existe são graus da mesma multiplicidade. E a maioria destes graus são nos desconhecidos. Perspectivamente, nós mesmos somos os desconhecidos. Os graus estão em constante variação. O discurso da superioridade – seja de qual parte for – expressa ainda outro desconhecimento: a superioridade ignora a multiplicidade, ou quando a considera o faz de maneira recortada. Fala-se da rosa como se falasse da roseira e da relação desta com a terra e com a Terra, com a galáxia e com o Cosmos. Diz metonímica o absoluto da parte. Pensar em termos de superioridade e inferioridade é desconhecer o infinitamente infinito da multiplicidade e das linhas díspares que saltam em velocidades absolutas dela dando consistência à formações rochosas, animais, pássaros, humanos, máquinas, culturas, obras de arte na mais radical imanência. Você devém pássaro quando voa para o amor. O discurso, em geral moral, parte de uma superioridade, da sua pretensa superioridade, em relação àquilo que se refere, para inferiorizar e para condenar, em bloco o que não é um, nem dois, mas muitos. Ele, contra a própria natureza, torna-se um e assim passa a ver o que não é um como um. Isso-lhe permite simplificar o mundo: a direita, a esquerda, o machista, o corrupto, o partido tal. A velocidade infinita que herda do movimento da Terra é congelada em um determinado momento no espaço. A guilhotina desce. A ignorância proposital é uma ferramenta analítica útil para o pensamento do uno decepar a multiplicidade que ele não pode conter. Mas ele precisa conter a velocidade infinita da multiplicidade. Então ignora, finge que ignora, que “a esquerda” e/ou “a direita” são significantes vazios quando pensados fora de um movimento contínuo. Mesmo assim os aciona como meio de atingir a vida, as vidas, que fervilham por baixo, virtualmente, como milhões de formigas, larvas, ovos, sob o formigueiro. Reduz-se as formigas ao formigueiro. Condena-se o formigueiro. Algo deve ser sempre condenado: seu imperativo categórico. Depois do julgamento, da humilhação, do veneno e do do fogo, algo ainda se move. “Como é possível que continue a viver depois de tanta má-consciência aplicada com zelo diariamente?”, pensa. Descobre que as palavras não transformam o mundo, pelo contrário, fixam-no em um espaço qualquer, numa timeline de rede social, por exemplo. A verdade é que ignoramos o que ignoramos e cada descoberta é a descoberta dessa verdade, mas, claro, é mais fácil, prático, útil, falar do que achamos que sabemos, senão o que seria da comunicação!? A comunicação não seria a tentativa de dizer o que não sabemos ainda? Mas estamos tão cheios de uma certa comunicação, de uma comunicação que, na atualidade, é uma emissão de afetos tristes, indiretas, humilhação, desprezo, morte. Isso não é tudo, todavia. Ainda há outras conexões abertas ao infinito, experiências a tomar nossos corpos. Conhecer é se espantar e se afetar com o desconhecido que se manifesta numa abertura fundamental e manter a distância deste assombro para compor com suas velocidades e lentidões outras velocidades e lentidões para ser e estar na velocidade da Terra. Relançar-nos ao infinito da duração perdida para sermos os outros que podemos ser sem nunca todavia ser. Manter o movimento da experiência é afirmar a inevitabilidade da experiência do movimento.


Máquina de Renda Universal

Para a máquina capitalista nenhuma utopia soa problemática desde que não se apresente como um problema de magnitude tal capaz de colapsar gravemente seu funcionamento e reprodução infernal. A renda universal, por exemplo, não é revolucionária, pois, pode ser perfeitamente conjugada aos fluxos loucos do capitalismo. Revolucionário seria, por exemplo, propor uma (re-)distribuição universal da produção (que excede em muito o consumo) e da propriedade privada (poderíamos começar pelos latifúndios improdutivos dentre os 70 mil existentes no Brasil).