Máquina de Renda Universal

Para a máquina capitalista nenhuma utopia soa problemática desde que não se apresente como um problema de magnitude tal capaz de colapsar gravemente seu funcionamento e reprodução infernal. A renda universal, por exemplo, não é revolucionária, pois, pode ser perfeitamente conjugada aos fluxos loucos do capitalismo. Revolucionário seria, por exemplo, propor uma (re-)distribuição universal da produção (que excede em muito o consumo) e da propriedade privada (poderíamos começar pelos latifúndios improdutivos dentre os 70 mil existentes no Brasil).


Representação da representação

O problema não é a “democracia representativa” mas a representação ilusória da “democracia representativa” e a crença cega na representação da representação.

Acessamos a aparência de uma democracia produzida por
estratégias de comunicação eleitoral e de marketing.

O Brasil é lindo.

As plantações de soja transgênica e as colheitadeiras da John Deere também.

Símbolos de pujança!

Na televisão.

Falamos de uma aparência democrática como se tratasse da democracia em si.

Alguma vez já tivemos democracia no Brasil? O que é democracia afinal? Democracia palavra vazia? Democracia pura forma sem conteúdo? Não pode ser. Deve haver democracia, mas ainda não a acessamos ou acessamos apenas suas sombras. Medo? Prudência? Covardia? Dependência? Regras do jogo (que tem que ser jogado sempre com o pmdb)?

Resistimos a ver além da aparência e dizemos estar resistindo a um golpe. Não que ele não exista. A aparência da democracia pode ficar sempre pior. O que não pode piorar é a qualidade de vida das classes dominantes.

Golpe(s).

“O brasileiro é um povo humilde, pacífico, trabalhador”, dizem para produzir em nós uma subjetividade interessante à reprodução do capital.

Resistimos para proteger uma aparência. Uma aparência democrática que, sabemos historicamente, é melhor do que qualquer ditadura.

Falam-me de resistência, mas resistir contra o que oprime sem problematizar a democracia aparente que temos (e somos!) e sem visar a realização de uma democracia que exploda os limites da aparência parece-me, sim, uma luta – & digna – mas ainda no campo da aparência, da preservação (interessada?) da aparência democrática que – é verdade – resolve alguns problemas, mas também cria muitos, alguns deles capazes até de fazerem retornar arcaicos problemas que achávamos resolvidos …

Votamos em imagens. Aécio de papelão … Somos golpeados por pessoas. Os golpes são cada vez mais violentos. As imagens sorriem.

Resistir? Ou atacar?

Resistir & atacar &, principalmente, criar! Mas criar não outra imagem da democracia como a que alimenta a representação da representação, mas uma democracia (ainda que representativa) real e viva, democracia que sozinhos não podemos imaginar, mas juntos, & com todas as nossas diferenças, podemos fazer aparecer.


:: Confessionário maquínico :::

Isentão. Governista. Golpista. Quem quer saber? Por que quer saber? Para que? Para controlar?

As sombras do poder deitam-se sobre o saber. O saber torna-se um dispositivo para o poder e os pequenos poderes obterem a confissão.

Quem é você? Qual é a sua identidade? Quais são suas ligações? Quais são suas conexões? Conte-nos sua história de vida.

Ao poder do padre e do psicanalista de obter a confissão somam-se dois novos poderes: o poder do facebook (e máquinas semelhantes) de saber de todos e o poder (policial?) de todos saberem de cada um.

O Facebook, o WhatsApp (e outros mídias sociais) – encarnações comunicacionais do capitalismo – obtêm diariamente nossas confissões. O que compramos? O que desejamos comprar? O que comemos? Com quem comemos? Onde vou? Onde estou? Com quem estou? Em que horário?

A confissão é gratuita. As ações destas empresas estão em alta. Alguém paga por essas confissões.

Ao lado do poder de saber destas multinacionais – que capturam a comunicação humana – o poder [ou o ilusório poder] de sabermos sobre o outro, o amigo, o vizinho, o colega de trabalho, o isentão, o fascista, o governista.

Tornamo-nos todos padres. Padres dos movimentos. Padres dos partidos. Padres de instituições em que – por um lugar ao sol – aceitamos a condição de sombrios burocratas, prontos para atacar qualquer sinal – mesmo ilusório – de ameaça.

Não seria o caso de nos perguntarmos se essa produção, reprodução, reforço e fixação identitária a que nos submete estas pequenas máquinas da engrenagem da máquina capitalista não estaria produzindo também um campo obscuro em que o outro, o que difere minimamente, torna-se potencialmente alguém que devemos desconfiar e, mais gravemente, um inimigo a ser isolado e até mesmo abatido?

Ou ‘Ser ‪#‎hashtag‬ aqui’ – facilmente mapeáveis e significáveis – é tudo o que somos [para os que desejam poder_saber quem somos?]


:::: & Hegel & Marx & Engels & seus filhos monstruosos & :::

O promotor do MP-SP que juntou Marx & Hegel para justificar prisão preventiva de Lula provavelmente é um mau filósofo [goo.gl/AJpjAl]. Pelo menos isto é consenso entre coxinhas, governistas e terceira via. Mas, tem algo que ninguém aventou. Pode ser que o dito cujo não estava falando, mas sendo falado por forças muito mais potentes do que sua consciência ressentida, forças históricas que falaram através dele para nos dizerem um caminho nestes dias – aparentemente – sem caminho: um caminho onde juntar Marx & Hegel pode fazer sentido revolucionário.

“Aufheben”, conforme Hegel, é suprimir conservando. O velho Hegel retorna e nos possibilita pensar na série de desafios históricos colocados para nossa geração: suprimir todos os retrocessos desde a redemocratização do país (bem como aqueles herdados da ditadura), conservar todas as conquistas alcançadas nas últimas décadas e ainda instaurar novas!

Como abrirmos o país para um novo tempo de conquistas sem a necessidade de abrirmos mão das conquistas obtidas (e reconhecidas por muitos mais brasileiros e brasileiras (54,5 milhões, certo?) que nossos herméticos grupelhos podem conceber)? Conquistas que, diga-se, não vieram de mão beijada afinal, sabemos bem: não há santos na política real.

A “elevação” da democracia a outro patamar não é mera abstração da consciência, nem transcendência. Ela é absolutamente concreta como podemos entender lendo o “Manifesto ‪#‎PeriferiasContraOGolpe‬” [goo.gl/it3lUn]. “Nós, que conquistamos só uma parte do que sonhamos e temos direito, não admitimos retrocesso. […] Reivindicamos a desmilitarização das polícias, da política e da vida social. Reivindicamos o avanço das políticas públicas, dos direitos civis e sociais”.

Que fique claro: quando falamos em preservar o que foi conquistado não falamos em preservar partidos golpistas (e/ou decadentes) nem em blindar determinados políticos (ou imagens), não somos tão apaixonados assim por estruturas de poder enrijecidas ou por identidades fixas. Falamos em conquistas concretas da sociedade brasileira com e apesar de todas as suas contradições históricas que neste momento saltam aos olhos dos seus observadores passivos, mas que nunca deixaram de estar aí (as letras dos Racionais MCs e Facção Central nos dão uma perspectiva disso).

A supressão dos retrocessos, a preservação das conquistas efetivas, a efetivação de direitos dormentes, e a possibilidade de novos avanços, entendo, só é possível num ambiente radicalmente democrático.

A preservação da democracia (não da democracia burguesa ou derivações, mas da ‘Democracia’ [aquela que custou e custa muito sangue e dor dos movimentos progressistas]) é o plano de imanência para sua radicalização, para uma democracia de alta intensidade.

Se com a potência desejante de parcelas significativas da sociedade brasileira (que reconhece, sem abrir mão da crítica, a substancialidade dos avanços nos últimos anos e não está disposta a ceder aos discursos retrógrados) conseguirmos produzir uma histórica mobilização ‪#‎PorMaisDemocracia‬ e, por essa via forçar o sistema político e midiático a sintonizarem definitivamente os agenciamentos de corpos e de enunciação das ruas na direção desse desejo talvez seja possível abolir de uma vez por todas o joguete político_partidário_judicial_midiático – que está reprimindo as energias vitais e revolucionárias do povo brasileiro de tal maneira torpe que essas energias estão se chocando violentamente. Precisamos canalizar essas energias numa mobilização radicalmente democrática (imagino mais de 50 milhões de brasileiros nas ruas!) para, a um só tempo, fazer recuar o delírio golpista (que pensa ser maior do que é) e recolocar o Estado brasileiro na órbita da democracia. Somente assim, restabelecendo a normalidade democrática o que demandará, como se vê, uma mobilização efetiva de forças capazes de fazer frente às forças golpistas sem, contudo, ferir mortalmente a democracia sequestrada pela sanha golpista e o próprio Estado, preservando a função deste de produzir/ampliar (etc) direitos que o Capital, por óbvio, jamais gerará. Visão: o Estado como “máquina de guerra” ao Brasil que encarcera massivamente pobres e negros [https://goo.gl/whUXJU], que exclui e não inclui como pode incluir, que não compreende a riqueza das diferenças, que se abre aos interesses particulares do capital e se fecha aos interesses da ampla maioria dos seus representados. Realmente, e não apenas publicitariamente: a sociedade contra o Estado dentro do Estado…

Pensar taticamente possuindo no horizonte uma estratégia clara permite perceber que – na atual conjuntura – pensar Hegel ao lado de Marx não é tão absurdo assim, muito embora – é óbvio e ululante – a situação que ensejou esta possibilidade seja absurda. Mas importa aqui o que ela nos deu a pensar: contra ela mesma e à favor daquilo que ela era (e, de certo, é ainda) contra: uma democratização radical das instituições do Estado conjuntamente à (re-)abertura do estado às forças progressistas da sociedade.

Um detalhe: o tal promotor de injustiça disse “Marx & Hegel”. Nós propomos uma inversão: Hegel & Marx, simples sutileza, mas que nos possibilita recolocar Engels ao lado de Marx (Hegel & Marx & Engels). Além disso, podemos adicionar a esta caixa de ferramentas [que deverá servir para (re-)abrir a máquina estatal e fazê-la produzir mais e mais democracia] outros pensadores e pensadoras que nos auxiliem nesta tarefa histórica da qual não podemos nos desviar por vaidade intelectual, ressentimento, esperança ou medo, etc. Façamos então um filho monstruoso em Hegel…

E se chegar o momento do próprio Estado ser suprimido por que não fazê-lo? Todavia, pelo menos por enquanto, como nos faz compreender um pensador brasileiro: no Brasil o Estado é um mal necessário…

“A ideia de uma abolição do estado nas presentes condições é fantasia. Existem algumas contradições que não podemos evitar. Por exemplo, o maior inimigo dos índios brasileiros, num certo plano, é o Estado, que representa uma sociedade que os invadiu, exterminou, escravizou, expropriou de suas terras. Ao mesmo tempo, o Estado brasileiro é a única proteção que os índios têm contra a sociedade brasileira. Se não fosse o estado, os fazendeiros já teriam aniquilado todos os índios” (https://goo.gl/LkdRTr).

‪#‎DemocraciaRadical‬ ‪#‎PeriferiaContraOGolpe‬


O Brasil da Janela

Penso no Brasil enquanto vejo “Da Janela do Meu Quarto” [Cao Guimarães, 2004], vermelho & azul em combate, um avança, outro retrocede, um cai, outro também, às vezes azul parece mais forte, de repente vermelho revela sua potência, azul faz pose de mais experiente, vermelho incansável, a chuva cai impassível, lama, vida, um assovio fantasmático cósmico, mais lama, trovoadas, vidas; há um terceiro, de calção escuro [será um verde? um anarquista? a terceira via?] que não entra efetivamente na luta, espera, chuta o ar; vermelho & azul continuam a lutar & a chuva a cair, trovões, não, não posso comparar esses corpos inocentes com as terríveis disputas do presente, já perdemos a sutileza & a plasticidade dos golpes que não ferem, resta-nos a crueldade, um amargor, uma possibilidade de derrocada geral e uma queda solitária, resta também imaginar que nossas crianças se pareçam com aquelas que fomos [nós em antigos presentes], na chuva, na lama, de vermelho, de azul, de verde, de preto, quando o desejo era viver [sem saber que vivíamos], espontaneamente vivos então, quando o desejo era já a próxima aventura que emergia do interior da aventura que construíamos juntos, é tarde, primeiro desencantamos os mitos, depois matamos deus, é muito tarde, ajoelhamos perante o capital, é absolutamente tarde, sim, é verdade, admitamos: perdemos a inocência para sempre e estamos a perder a política, resta-nos ver o temporal da janela, resta-nos a lama já sem aquelas crianças que um dia fomos nós, resta-nos utópicos assombrados pelo ceticismo acreditar que as crianças do agora não sejam como nós agora somos, que encontrem outros devires, que tracem outras linhas de fuga, linhas multicoloridas, se vermelhas, azuis, amarelas, verdes, pretas, rosas ou violetas, não importa, importa saber lutar sem machucar, importa saber cair e se levantar, mas também saber fazer cair sem destruir, importa conectar as forças ativas & elevá-las à enésima potência & compartilhar invenções & cultivar bons encontros & paixões alegres & se abrir radicalmente à diferença & tentar, ao máximo, não mais afirmar – por birra – eternamente uma coisa só &/ou negar todas as coisas em nome desta coisa só, importa uma verdadeira política dos corpos singulares como é a grande política que aquelas crianças duplamente devêm, importa um “acordo discordante”, uma renovada beleza onde menos se espera, uma “nova suavidade” sem ponto nem final


Golpe sórdido

Dizem ser ‘branco’ o golpe que se trama contra o governo eleito porque para se efetuar não derramará sangue; executado por homens de razão pura, de terno, gravata e toga, o tal ‘golpe branco’ seria por isso limpo, técnico, aparentemente legal. Mas também podemos pensar diferentemente: que os ‘golpes brancos’, ‘dos brancos’, são a revelação da sordidez oculta destes “homens de bem” e de suas “belas almas” nem um pouco belas como a história revela. O retrato pacificador que pintam de si próprios tem um fundo tempestuoso, vingativo. Quem garante que o sangue que não é derramado agora por este ‘golpe branco’ não será depois? Quem garante que tanques não tomarão as ruas convulsas? Tal ‘golpe branco’ é o que ele sempre foi: mórbido, tramado por homens sórdidos, pois, aconteça o que acontecer – ou não aconteça o que pretendem fazer acontecer – estarão – estes pálidos homens – sempre blindados pela força (meramente formal) da lei e das armas (e das armas!), com as mãos impecavelmente limpas sem, portanto, uma mísera gota do sangue dos rios de sangue que são capazes de fazer correr.

Em 1972, o Clube da Esquina relembrava alguém que, acostumado a não ouvir, não quis, obviamente, escutar …

“Mensageiro natural, de coisas naturais
Quando eu falava dessas cores mórbidas
Quando eu falava desses homens sórdidos
Quando eu falava deste temporal
Você não escutou
Você não quer acreditar,
mas isto é tão normal”


Guerra dos afetos

O medo que os odiadores (de tudo o que não odeia nestes dias bruscos) querem nos fazer sentir não diminuirá nossa vontade de viver e não nos entristecerá como almejam. Resistiremos para reafirmar que esta terra não pode mais ser terra de ressentimento e de vingança. Provaremos – com Oswald de Andrade – que a alegria é a prova dos nove! Suas armas não nos alcançarão! Cantaremos com Jorge. Se esta é uma guerra, ela – para nós – não é uma guerra sanguinária, mas uma guerra afetiva. Produziremos e lançaremos afetos tais que reverterão todas as paixões tristes que dominam no presente seus corações e pensamentos. Não admitiremos mais tristezas além daquelas que já combatemos em nossas lutas diárias. Bloquearemos todo o ódio (atirado, gritado, buzinado, inventado, escrito, etc) contra nossos corpos através da afirmação simultaneamente singular e coletiva de nosso intenso desejo de viver uma vida realmente potente e daí faremos nascer e florescer uma política que visará a elevação (à enésima potência) da potência de viver de toda nossa gente que cantará novamente e, pensando com Gonzaguinha, não terá a vergonha de ser feliz.