Flor vermelho sangue

O golpe não é um golpe. São golpes. Golpes diários. Sucessão ininterrupta de golpes. Ameaças anônimas de ataque a pessoas e a instituições. Agressões verbais e corporais. Falsificação histórica. Precarização total dos direitos trabalhistas. Mercantilização dos direitos sociais (em pauta: diminuição do SUS, cobrança em Universidades Públicas, destruição da Previdência). Cerceamento de liberdades. Invasão de tekohas. Mineração desenfreada. Abdicação de todo e qualquer interesse nacional estratégico. Liberação indiscriminada de agrotóxicos cancerígenos. Perseguição a professores. Cortes drásticos na educação. Amor por armas e ódio por livros. Golpes e mais golpes até que a situação não seja mais de golpes, mas de uma sociedade profundamente golpeada, prostrada, se perguntando quando o golpe aconteceu. Não há um golpe. Há golpes e eles estão aí, presentificados de formas diversas em nossas vidas, enquanto, uns mais outros menos, acreditamos ainda, talvez devido a um hábito nefasto, em uma certa “normalidade democrática”. Golpes e mais golpes e mais golpes. Evaldo dos Santos Rosa, Luciano Macedo, Kauã Victor Nunes do Rozário, golpeados com tiros de fuzil pela Ordem. É preciso aguentar? É preciso resistir? É preciso cuidar do jardim? Mas até quando regá-lo com sangue negro, indígena, com sangue de milhões de brasileiros aprisionados no hoje, sem expectativas, numa batalha inglória para garantir tão somente o pão do amanhã? É preciso defender a democracia ou ela existe por si só? É um valor abstrato ou uma expressão concreta de uma sociedade que transforma em valor sua luta por direitos, assim como reconhece a luta dos mortos da história que acreditaram, e por isso foram assassinados, por acreditarem , que esta terra poderia ser diferente, não esse mar de lama e sangue, de ódio e rancor. Vêm-me à memória José Cláudio Ribeiro da Silva e a sua esposa Maria do Espírito Santo, assassinados por defenderem a Floresta [https://youtu.be/i60vlrrRpfA] Uma democracia pode existir exposta a tantos golpes? Pode haver, afinal, uma democracia não cerceada pelos ditames do mercado, pela truculência dos ignóbeis? Faz ainda algum sentido falar em democracia neste país?

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Frio

Nestes tempos cabisbaixos de (tentativas seguidas de) aniquilação preventiva de todo e qualquer horizonte de expectativa, de (seguidas manobras de) destruição do que permanece em presença resistente à deterioração do próprio presente, enxergo o idoso caído, a cabeça apoiada sobre um saco de lixo (talvez com roupas e com um ou outro objeto que lhe restou – ou encontrou – em sua caminhada pelo labirinto da noite sombria que quer tomar conta de todo país). À procura (há dias, meses, anos?) de uma saída resta-lhe – no fio tênue e cortante do hoje – entregar-se ao cansaço (de uma vida?) ou descansar para (combater?) o (terror?) que à existência se discursa como: urgência, reforma, medida amarga, gestão eficiente, salvação do país, mas não passa de preparação (técnica, jurídica, etc.) para a ampliação das populações matáveis, a serem deixadas expostas ao desabrigo, à repressão, aos fuzilamentos, à fome, à morte. Chovia e ventava durante a manifestação. Ele gesticula, trêmulo diz algo que não ouço à princípio. Aproximo para escutar: – não quero dinheiro não. Quero um cobertor. Estou com frio.


#MENTIRA

Assim como o desgoverno mente à população sobre as universidades, sobre a ciência, sobre a educação, mente sobre a reforma da previdência, sobre o salário mínimo, sobre o aprofundamento da crise, sobre o crescimento vertiginoso do desemprego, sobre a volta da fome e da miséria. Sua única verdade é a mentira. As fake news que o elegeram são usadas para sustentá-lo no poder. São diariamente mobilizadas para justificar a destruição dos direitos do povo brasileiro. Inimigos são inventados, culpados, condenados. É sempre um outro fantasmático que justifica um ato de supressão de um direito. Não se assume absolutamente nada. O que mantém o Brasil sem saída é a mentira. A mentira está em cada gesto, em cada ato, em cada olhar, em cada pronunciamento. Estamos sob o governo da mentira. O horror que vivemos é o efeito de uma mentira absurda que nos violenta para justificar outra. Se não sabemos o que a verdade é, ao menos intuímos o que ela não é. O que justifica um governo de mentiras e de mentira é a mentira institucionalizada como modo de governar. Recuperar o sentido da democracia passa por recuperar, ainda que de maneira especular, o sentido da verdade de cada palavra, gesto, corpo. Algo de muito fundamental está sob ataque. À vida, em sua verdade óbvia e inacessível por inteiro, cabe resistir com muita força para expelir o poder maligno da mentira que faz os homens acreditarem nos discursos da servidão como se fossem da liberdade.