Incomunicabilidade

Um homem matará outro homem na minha rua hoje.

– Cala a boca!
– Não pelo amor de Deus! Cala boca e deita!
É medonho o choro de um homem.
– Não! Por favor!
– Cala a boca!
Entre a agressão e o medo um silêncio absurdo, um silêncio de trevas paranaenses gélidas.
– Cala a boca seu filho da puta!
(Silêncio)
– Por favor! Não!
4 tiros secos.
Cachorros latem.
Começa a chover.

Um homem matou outro homem na minha rua ontem.

Advertisements

ontem todos os meus problemas não estão tão longe

Ontem pela primeira vez precisei de hospital em Curitiba e às 3h me pergunto : “há algum hospital público no Centro que atende a estas horas?” . As ruas estariam vazias se não fosse homens vagando com cobertores cinzas me perguntando as horas sob um nevoeiro fantasmagórico sobre as ideias e a cidade. Não acho nenhum hospital e me descubro conversando com um taxista que “a estas horas somente em Campo Comprido você poderá ser atendido a não ser que você tenha um plano de saúde”. Pensei, olhando para o taxímetro acelerado: “o público é intermediado pelo privado, mas a morte é pública”. Sim, a morte é pública. Enquanto aguardava ser atendido, senhores e senhoras não paravam de chegar morrendo no Centro Municipal de Urgências Médicas de Campo Comprido. Na saída, através do nevoeiro vi uma igreja e um táxi surgindo. Aceno, entro, olho para o taxímetro acelerado enquanto novamente o público torna-se privado. O problema é seu, a vida e a morte também. Aprendi muito com aquela senhora que chegou entre a vida e a morte desacordada em uma velha cadeira de rodas empurrada pelo seu marido aflito, aprendi sobre solidão com aquele senhor que estava na emergência desacompanhado e queria ir ao banheiro. Público e privado se embaralham, vida e morte também. O que é público? O que é privado? O que é vida? O que é morte? O que é é às 3h da manhã lá em Campo Comprido. Deve ser o nevoeiro gelado sobre as ideias. A morte pública daquelas pessoas pode ser tanto a minha própria morte privada agora e pública depois quando forçado ao longo de uma vida de humilhações pelas estruturas do capital a me tornar exatamente o que sou. Não! É preciso resistir, combater, aniquilar a morte pública e isso passa por uma luta radical durante a vida e pela vida nem que ao fim e ao cabo essa luta se resuma no direito de ter uma morte digna e que não seja às 3h em Campo Comprido.