Representação da representação

O problema não é a “democracia representativa” mas a representação ilusória da “democracia representativa” e a crença cega na representação da representação.

Acessamos a aparência de uma democracia produzida por
estratégias de comunicação eleitoral e de marketing.

O Brasil é lindo.

As plantações de soja transgênica e as colheitadeiras da John Deere também.

Símbolos de pujança!

Na televisão.

Falamos de uma aparência democrática como se tratasse da democracia em si.

Alguma vez já tivemos democracia no Brasil? O que é democracia afinal? Democracia palavra vazia? Democracia pura forma sem conteúdo? Não pode ser. Deve haver democracia, mas ainda não a acessamos ou acessamos apenas suas sombras. Medo? Prudência? Covardia? Dependência? Regras do jogo (que tem que ser jogado sempre com o pmdb)?

Resistimos a ver além da aparência e dizemos estar resistindo a um golpe. Não que ele não exista. A aparência da democracia pode ficar sempre pior. O que não pode piorar é a qualidade de vida das classes dominantes.

Golpe(s).

“O brasileiro é um povo humilde, pacífico, trabalhador”, dizem para produzir em nós uma subjetividade interessante à reprodução do capital.

Resistimos para proteger uma aparência. Uma aparência democrática que, sabemos historicamente, é melhor do que qualquer ditadura.

Falam-me de resistência, mas resistir contra o que oprime sem problematizar a democracia aparente que temos (e somos!) e sem visar a realização de uma democracia que exploda os limites da aparência parece-me, sim, uma luta – & digna – mas ainda no campo da aparência, da preservação (interessada?) da aparência democrática que – é verdade – resolve alguns problemas, mas também cria muitos, alguns deles capazes até de fazerem retornar arcaicos problemas que achávamos resolvidos …

Votamos em imagens. Aécio de papelão … Somos golpeados por pessoas. Os golpes são cada vez mais violentos. As imagens sorriem.

Resistir? Ou atacar?

Resistir & atacar &, principalmente, criar! Mas criar não outra imagem da democracia como a que alimenta a representação da representação, mas uma democracia (ainda que representativa) real e viva, democracia que sozinhos não podemos imaginar, mas juntos, & com todas as nossas diferenças, podemos fazer aparecer.

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redes metonímicas

O Facebook (e assemelhados) produz nas consciências uma falsa sensação de poder. Para isso, basta que acreditemos que as “mídias sociais” (recuso a chamá-las de “redes sociais”) representam fielmente a realidade. A timeline torna-se o real a partir da falsa crença de que o real é idêntico à timeline. Não é falso dizer que o que está na timeline é real, mas é preciso ponderar que este mundo de dados é apenas uma parcela do real, e que estamos tomando – metonimicamente – como se fosse todo o real. Depois que a timeline aparece como “todo o real” o Facebook desfere seu golpe mais fatal: nos dá a sensação que controlamos o real, que podemos por meio da produção e reprodução de dados, por meio da construção e desconstrução de discursos, por meio de discussões intermináveis, influenciar midiaticamente a maquinaria imediata do real. Esta possibilidade, como se saberá, sempre tarde demais, é falsa. O real é sempre outro e mais outro e mais outro, sempre muito mais complexo, mais fragmentado e múltiplo do que a unidade real na qual fomos enredados pelas próprias redes que tecemos e que, no desenrolar dos bytes, transformam-se na “minha rede”, na “nossa rede”, sim, redes reais, mas, cada vez mais fechadas e demarcadas semioticamente por elas próprias, tanto que são facilmente identificadas e formalizadas por softwares de mapeamento de redes; sinal, claro, de que o cenário é de cristalização de posições, de fechamento para as diferenças, de endurecimento dos fluxos, de medo dos encontros, por parte de quem até há bem pouco tempo falava na potência de tudo isso. A multiplicidade sem rosto torna-se identidade mascarada. O que vemos e lemos parece ser tudo o que há. Então devorar os textos compartilhados para falarmos das mesmas coisas, dominar certos códigos, reproduzir certos gestos, imitar posturas, curtir reciprocamente posts, admirar-nos nos mapas de nossas existências agora previsíveis, compartilhar as mesmas hashtags, tornam-se imperativos, mas há algo que sempre escapa, que não está na timeline. Mas o que escapa não pode ser percebido – nem pelo mais meticuloso paranoico – enquanto se está na crença de que tudo o que há está na timeline. O que escapa é o que nos surpreenderá para o bem e para o mal. No caso brasileiro, infelizmente, parece – neste momento – que para o mal, um exemplo disso é que não são poucos aqueles que foram negativamente surpreendidos pela composição medonha do Congresso e, mais ainda, com a força dela de esmagar os mais sinceros desejos revolucionários das belas almas da esquerda brasileira. Um choque de realidade e de “real politik” portanto que nos revela que o poder político que se acredita possuir aqui no Facebook, esta máquina de controle, na realidade atual tem pouca potência e baixa influência sobre os processos políticos institucionais que, ao fim e ao cabo, são os que estão conduzindo a nós e a democracia para o buraco negro da repressão e do fascismo. Enquanto esquerda controla, imobiliza e neutraliza esquerda por aqui, lá a direita mais conservadora ganha mais poder e pode até neutralizar toda a(s) esquerda(s) numa canetada só. A direita não vê a esquerda como multiplicidade como a esquerda vê a esquerda. A direita – do pensamento_uno – vê a esquerda como uma coisa só & que deve ser, se possível, destruída num só golpe. Acolá Mark zuckeberg vê a todos como possibilidade de faturar mais & mais. Todo discurso revolucionário em rede social vale a mesma coisa no mercado de ações. Toda movimentação política em rede social com vistas a ações no espaço público hoje é facilmente capturada pelos órgãos de inteligência do Estado e/ou do capital que podem calcular antecipadamente a força repressiva que será aplicada sobre os corpos que ousarem enfrentar os poderes constituídos. Quanto mais acredita-se estar no controle com o aumento de conexões mais somos controlados e expandimos o raio do controle a que estamos submetidos. Já passou da hora de identificarmos fora da timeline os verdadeiros inimigos que estão realmente no controle e expandindo-o a cada segundo sobre nossos corpos, mentes e vidas virtuais e atuais, enfraquecendo por antecipação a já parca potência democrática que nos resta, dando-nos uma única possibilidade de fuga: para dentro de suas máquinas totalitárias de controle. Hackers de todos os mundos, uni-vos!


Contra a máquina capitalista dos “direitos humanos”

Se há direitos humanos é porque antes deve haver violações tais que nos movem a clamar por direitos.

E se ao invés de haver direitos humanos não houvessem violações?

Hoje muitos entre os que clamam por direitos humanos não fazem a crítica às violações que levaram a tal clamor.

O que possibilita tais violações? Quais instituições? O que se oculta nos bastidores?

Uma das consequências desta ausência do questionamento das causas das violações é a afirmação da máquina capitalista, esta sim:

a) máquina produtora das condições de naturalização da violação dos corpos humanos e não-humanos;

b) máquina sombria de violação dos corpos.

A contradição dolorosa desse processo é que o clamor por direitos humanos acaba por afirmar o capitalismo.

A saída, pelo menos discursiva, seria então – sim – clamar por direitos humanos taticamente, pois não se trata de inviabilizar discursos, mas também estrategicamente pensar e articular a destruição da máquina sanguinária capitalista que, para alcançar seus intentos, esmaga tudo o que parece-lhe indesejável e, cinicamente, entrega o cartão dos direitos humanos.

Sem a destruição do capitalismo e de suas máquinas acessórias (entre elas a máquina policial e a máquina judicial cuja produção principal é a punição dos pobres) falar em direitos humanos será sempre um paliativo.


::: O PT e o sublime :::

É estranho ler frases vindas da própria esquerda como: “o PT morreu”, “o PT está morto”.

Muitas das subjetividades de esquerda que dizem tais coisas, que são absolutamente livres para as dizerem, desenvolveram-se, direta ou indiretamente, intelectualmente na “Era PT”.

Muitos dos mais ácidos críticos do “governismo” respiraram os ares de um clima democrático de potencialização das diferenças; foram até massageados pelo “do – in antropológico” de Gil.

Não trata-se de, moralmente, dizer: “ingratos” ou que “cospem agora no prato que comeram”, mas de experimentar algo de trágico e sublime na própria história do PT.

O PT, parece-me, o pobre na festa dos ricos quando estes, assim que a festa fica chata, inventam algum jogo sádico e encurralam aquele. Neste momento da festa, os ricos – ou os que pensam como ricos – se unem para humilhar o pobre diabo.

Humilhado, ele, todavia, sabe que, no final da festa, os ricos, de esquerda ou de direita, se unem para exorcizar àquele que passam a considerar como “invasor”.

Ele aprendeu a lição antes da lição terminar. É trágico, e é sublime, ouvir – agonizante, mas vivo – essas vozes de esquerda e de direita misturadas: “ele está morto”.

Mais trágico e sublime ainda é saber que isso tudo aconteceria, que isso fazia parte do plano, como evidencia Guattari num texto de 1982 (!):

“O que dá um caráter de estranhamento à ascensão política e social de pessoas como Lula é o fato de sentirmos muito bem que não se trata apenas de um fenômeno de ruptura em relação à gestão dos fluxos sociais e econômicos. Mas sim de colocar em prática um tipo de processos de subjetivação diferente do capitalístico, com seu duplo registro de produção de valores universais por um lado, e de “reterritorialização” em pequenos guetos subjetivos, por outro lado. Colocar em prática a produção de subjetividade que vai ser capaz de gerir a realidade das sociedades desenvolvidas e, ao mesmo tempo, gerir processos de singularização subjetiva, que NÃO vão confinar as diferentes categorias sociais (minorias sexuais, raciais, culturais, etc) no esquadrinhamento do poder”.

Sim, está claro, algumas subjetividades, mais cedo ou mais tarde se voltariam contra o projeto petista que, enquanto jogava o jogo do poder, debaixo da mesa, entretanto, as produziu ou permitiu que se produzissem como se produziram, no limite contra ele próprio. Não se trata de ver tal acontecimento como algo ruim ou merecedor de culpa, mas como resultado natural do jogo político, da imprevisibilidade dos dados lançados. Talvez seja isso mesmo a democracia: um jogo em que vencer e perder se equivale. Pena que alguns não sabem perder e outros veem em tudo isso apenas morte, fim, e não passagem, abertura de outras possibilidades.

O convidado aceitou participar da festa que sem ele seria outra. Ele não foi enganado nem se enganou. A festa aconteceria com ou sem ele; então foi. Agora – que essas vozes confusas proclamam: “ele está morto” – sabe, pelo menos, quem diz isso. Sabe quem deseja sua morte. Sabe que nem todo mundo que está na festa é confiável.

Enquanto assiste a própria morte ser projetada por antigos aliados sabe, melhor do que nunca, as regras do jogo. Sabe que a luta de classes não é uma luta entre direita e esquerda, não apenas. Sabe que estar ou se dizer esquerda não significa muito no fim de uma festa trágica.

As fotos da festa não ficaram ótimas, mas algumas são reveladoras como, por exemplo, aquela em que entre os convivas vemos gente de direita com falsa consciência de classe, pensando ser de esquerda e enchendo os copos de declarados golpistas. Que ressaca!

Há uma foto meio borrada, mas que dá para perceber no fundo uma luta de classes dentro da própria esquerda.

Quem diz “o PT morreu” não diz toda história, mas tenta matá-la antecipadamente antes que ela se desdobre a partir das forças vivas da sociedade, forças que podem ser incontroláveis por qualquer institucionalidade seja à direita seja à esquerda.

Lugar discursivo estranho esse dos que sentenciam a morte do PT, lugar escuro em que a esquerda encontra-se com a direita num desejo de morte.

Diria a esses pregadores da morte que tudo isso parece-me muito mais uma derrota de um campo específico do PT do que propriamente sua morte absoluta, afinal, há muito desejo de vida por aí capaz de tecer uma crítica ao PT sem costurá-la com o fio da morte. Há também muita subjetividade com vontade e vitalidade para fazer diferente do que o PT fez, mas sem sujar as mãos na lama do fascismo.

Nem todas as subjetividades que pulularam nestes anos tem a palavra morte na boca, nem todas são petistas, obviamente, contudo nem todas são anti_petistas. São forças que se afirmam pela própria positividade e não pela negação e/ou pelo ressentimento.

Nem tudo é morte como alguns proclamam por aí. Se quiserem fazer luto que façam. Faremos música e revolução. Faremos revolução e música.

Não seria então o caso de escapar desta condenação total do PT à morte e afirmar os fluxos de vida que, como disse Guattari em 82, seriam (e foram!) também estimulados?

Há muita vida por aí e é essa que interessa (re-)encontrar e (re-)afirmar diferentemente.

Desconfio dos que falam de uma morte transcendente sem se referirem minimamente à vida imanente.

Por que esse desejo de morte? Por que esse desejo de reduzir uma multiplicidade complexa a uma unidade a ser destruída?

É … Chegou o fim da festa. Os convidados se entreolham. Alguém precisa ser humilhado. – “Quem é o mais pobre?”