#necrocapitalismo

Quando a esfera do capital engolir totalmente a do pensamento então pensar só será admitido se provar que pode fazer o capital render ainda mais; a médio prazo nem isso será permitido ao pensamento ‘uberizado’. O capital se move aceleradamente para alcançar um patamar de presença em todos os estratos da vida e dispensar mesmo o pensamento mais obediente para se reproduzir. Não é que “nós não vimos nada ainda”. Nós já vimos tudo. O capital faz do aniquilamento da vida sua fonte de rentabilidade: #necrocapitalismo. Se há alguma possibilidade de resistir à asfixia do pensamento ela já deve estar presente, pois o pensamento é justo o que resiste (não um pensamento justo, mas justo um pensamento). Cabe ao pensamento realizá_la. Mas como? Uma primeira hipótese seria encontrar uma relação ainda não totalmente determinada pelo capital. Seria esta a tarefa do pensamento na contemporaneidade entrópica? No limite sobreviver ao sistema de valores assassinos e suicidários do capitalismo passaria, talvez, por suportar a desvalorização monetária do corpo e da mente, isto é, o desemprego, a fome e até a miséria, e ao mesmo tempo em ser capaz de instituir com outras mentes (“modos do atributo pensamento”) outros valores que não mais os valores de produção e de reprodução nauseante do capital. Morrer para a morte transcendente imposta pela máquina capitalista e afirmar a vida em outra direção, em múltiplas direções. A parada e o salto criador. A aurora do XXI é o tempo que se abre para que esta tarde seja a do crepúsculo do capitalismo.

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No abismo das convicções

Nesta época em que o mais certo é o incerto verifica-se o uso recorrente da palavra convicção. Uma defesa? “Eu tenho convicção de que X é culpado”. “Eu tenho convicção de que a reforma X é boa para o povo brasileiro”. “Eu tenho convicção de que a esquerda …”. Este ‘eu’ convicto incapaz, ou com medo, de colocar-se em questão afirma estar convicto de alguma que sabe, profundamente, questionável, frágil. Ele próprio, admitamos logo, é questionável, frágil, e por isso fantasiar-se como absolutamente inquestionável passa a ser necessário para produzir uma aparência de verdade quando expressar suas convicções. O sujeito de convicção deve ser uma convicção aceita tácita e passivamente por todos. Convicto de sua própria substancialidade, e certo de que o público não tem dúvidas quanto a isso, declara sua convicção em alguma coisa: “eu tenho plena convicção de que a reforma X vai gerar mais empregos”. O sujeito convicto de si, e questionável, declara sua convicção em alguma coisa incerta, que não consegue demonstrar. A convicção neste segundo nível opera para doar um efeito de verdade, gerar uma atmosfera de credibilidade, para um discurso sem fundamento. A convicção é uma âncora lançada no sem fundo. Hoje, ao amanhecermos mais uma vez com menos futuro, os brasileiros não debatemos a, terrível para a maioria, normal para a minoria, aprovação da reforma da previdência, mas o voto de um eu convicto. E a convicção neste eu convicto – seja para defendê-lo seja para criticá-lo – mais uma vez nos estraçalha e a previdência, a questão, o problema, é abandonado. Lembro de Nietzsche para quem “não foi o conflito de opiniões que tornou a história tão violenta, mas o conflito da fé nas opiniões, ou seja, das convicções”.


Máquina de Renda Universal

Para a máquina capitalista nenhuma utopia soa problemática desde que não se apresente como um problema de magnitude tal capaz de colapsar gravemente seu funcionamento e reprodução infernal. A renda universal, por exemplo, não é revolucionária, pois, pode ser perfeitamente conjugada aos fluxos loucos do capitalismo. Revolucionário seria, por exemplo, propor uma (re-)distribuição universal da produção (que excede em muito o consumo) e da propriedade privada (poderíamos começar pelos latifúndios improdutivos dentre os 70 mil existentes no Brasil).


Não-comunicação

A opinião pública – se há a possibilidade de uma – na era dos debates no quadrado privado burguês – é uma opinião (de-)formada sobre tudo; uma das causas disso é a impossibilidade – dada a urgência de ter a opinião publicada curtida, apoiada, aplaudida pelos pares – de se pensar profundamente sobre o que se está opinando. Jürgen é platônico demais, e o pensamento se perde tentando encontrar a saída na caverna cada vez mais escura da possibilidade de comunicação. Talvez Gilles esteja certo, “talvez a palavra, a comunicação, esteja podre”. É provável, até mesmo, que não seja por moda que o filósofo da diferença seja, por exemplo, o autor mais citado nos trabalhos apresentados na “Compós”. “Elas estão completamente impregnadas de dinheiro: não por acidente, mas por natureza. É necessário subverter a palavra. Criar sempre foi coisa diferente de comunicar. Importará, talvez, criar vacúolos de não-comunicação, interruptores, para escapar ao controle”.