A resistência está viva

Enquanto intelectuais constatam há anos a morte em tudo o que analisam (sintoma mórbido de origem gástrica ou intestinal diria um certo alemão), os índios, mas também, os quilombolas do Paiol da Telha, os moradores das comunidades ocupadas pelo exército e pelas milícias, fazem guerra pela vida por dentro da maquinaria da política da morte. Movimento indígena recusa o Projeto de Lei (PL) 191/2020, de autoria do governo Bolsonaro, que libera a mineração em terras indígenas. A esquerda não morreu; talvez algumas de suas figurações (e figurões). Ela expressa o que sempre a moveu: desejo de mudança, movimento em pleno deserto. Resiste minoritária, indígena, sem-terra, sem-teto, sem apê em região nobre de sampa (“aqui é capão redondo ‘tru’ não pokemon”), desempregada ou precarizada, com fome ou mal alimentada, sem direitos, sem possibilidades de continuar os estudos, sem grana pra nada, sem dólar para incendiar a disney (“as ruas não são como a disneylândia”), moradora de rua ou com a casa invadida pela enchente ou ainda destruída por mais um deslizamento de terra. Ela é cada um e cada uma capaz de dizer junto “vida” quando a maioria diz “morte”. Brada a cacica Iracema Kaingang, do Paraná: “chega de matar a mãe terra, chega de tanto desmatamento. Já derramaram muito o nosso sangue em mais de 500 anos. Eu estou aqui com minha neta de 10 anos de idade. Quero saber se ela vai ter que continuar brigando por causa disso também”.

Ditadura do precariado?

O plano do “governo” é um livro em branco editado por algum banco de algum branco padrão, sem nenhuma sociologia nem história contada a contrapelo pelos condenados da terra (talvez alguns cases dos que venceram num uber, ou numa bicicleta alugada, sem direitos trabalhistas, sem direitos previdenciários), sem nenhuma filosofia e, principalmente, sem nenhuma poesia.

Além das imagens da terra plana, da mamadeira de piroca, do cinismo das risadas dos emojis do facebook, da hipocrisia dos que, só por pirraça e avacalhação, decidiriam em 2019 o voto em 2022, do negacionismo climático, há sim algumas outras imagens, poucas, bem poucas, só para dar uma ar de democracia aos voluntários da servidão e uma alegria que não dura na ditadura [do precariado?].


Sem grana para Bacurau

A classe-média ilustrada espera a revolução popular mediada pelas imagens cinematográficas comercializadas no presente pelo capitalismo autoritário. Não percebe, imersa em sua experiência estética, que é antes de mais nada uma experiência de classe, da classe que não precisa escolher entre o pão ou a entrada no cinema, que o cinema é muito caro em um país de milhões de desempregados e milhões de subempregados. Quantos desempregados ou subempregados viram Bacurau, por exemplo? Em muitas das análises do filme há, parece, um desejo por um levante popular, mas em nenhuma delas uma reflexão sobre a ausência nos cinemas deste povo que se deseja que se levante. Falta à classe-média ilustrada a experiência da pobreza. Tal experiência é a que pode instaurar um princípio de aliança entre o desejo, por enquanto satisfeito esteticamente, de trair sua classe e a traição efetiva feita politicamente e, sim, esteticamente. “Biscoito fino para as massas”, não era assim que dizia Oswald de Andrade? A quebrada antropofágica tá no apetite para devorar Bacurau, Coringa e a classe-média. Que suas parcelas ilustradas banquem o banquete dos famintos é urgente para provar de vez que a identificação com a pobreza não é só estética, mas também política e econômica, superestrutural e infraestrutural, revolucionária. Querem mesmo o comum? Realizem-no para além dos seus círculos de consumo e reprodução. Quem sabe assim teremos o princípio de um cinema que não se satisfaz nem se esgota com a representação da revolta consumida com pipoca cara no shopping center.


Ágatha

Ela segura balões coloridos. Está fantasiada de mulher-maravilha. Ela sorri. É feliz como são felizes todas as crianças de 8 anos. Ágatha não sabe que nasceu num país em que o extermínio de crianças e adolescentes pobres tornou-se “dano colateral” de uma malfadada “política” de “segurança” e mais uma notícia no jornal. Inocente, não pode conceber, nem em seus piores pesadelos infantis, que um governador, apoiado pelo presidente e pelo ministro da “Justiça”, conduz uma guerra aos pobres. Ágatha jamais saberá teoricamente o que é “Racismo de Estado” ou o que significa “Necropolítica”. Marielle soube mas, assim como Ágatha, foi executada. Ágatha Félix, Marcos Vinícius da Silva, Marielle Franco, Evaldo Rosa dos Santos, Luciano Macedo, todos mortos por um poder que não deixa viver e faz morrer. Durante a madrugada penso em Ágatha e na palavra grega “agathón”. Agathon significa ‘bem’ e seu superlativo ‘áriston’ o “supremo bem”. “Áriston” é o fim último do indivíduo e do Estado. No caso de Ágatha, o Estado que, em tese, deveria visar o “Sumo Bem” fez-lhe o mal, arrancou-lhe brutalmente a vida com um tiro de fuzil nas costas. Agathón sangra. Ágatha Vitória Sales Félix está morta. O exercício do mal torna-se cada vez mais banal no país: quase ninguém se importa com o extermínio de crianças como Ágatha, muitos inclusive apoiam efusivamente a política que conduz esse extermínio; tantos outros fingem que nada acontece, precisam, entre um elogio ou crítica a Bacurau, multiplicar os negócios do capital. Quem disse que nossa bandeira jamais seria vermelha se equivocou: nossa bandeira é sim vermelha: vermelho-sangue dos mortos de uma história em que, como lembra Walter Benjamin, “o inimigo não tem cessado de vencer”.


#necrocapitalismo

Quando a esfera do capital engolir totalmente a do pensamento então pensar só será admitido se provar que pode fazer o capital render ainda mais; a médio prazo nem isso será permitido ao pensamento ‘uberizado’. O capital se move aceleradamente para alcançar um patamar de presença em todos os estratos da vida e dispensar mesmo o pensamento mais obediente para se reproduzir. Não é que “nós não vimos nada ainda”. Nós já vimos tudo. O capital faz do aniquilamento da vida sua fonte de rentabilidade: #necrocapitalismo. Se há alguma possibilidade de resistir à asfixia do pensamento ela já deve estar presente, pois o pensamento é justo o que resiste (não um pensamento justo, mas justo um pensamento). Cabe ao pensamento realizá_la. Mas como? Uma primeira hipótese seria encontrar uma relação ainda não totalmente determinada pelo capital. Seria esta a tarefa do pensamento na contemporaneidade entrópica? No limite sobreviver ao sistema de valores assassinos e suicidários do capitalismo passaria, talvez, por suportar a desvalorização monetária do corpo e da mente, isto é, o desemprego, a fome e até a miséria, e ao mesmo tempo em ser capaz de instituir com outras mentes (“modos do atributo pensamento”) outros valores que não mais os valores de produção e de reprodução nauseante do capital. Morrer para a morte transcendente imposta pela máquina capitalista e afirmar a vida em outra direção, em múltiplas direções. A parada e o salto criador. A aurora do XXI é o tempo que se abre para que esta tarde seja a do crepúsculo do capitalismo.


No abismo das convicções

Nesta época em que o mais certo é o incerto verifica-se o uso recorrente da palavra convicção. Uma defesa? “Eu tenho convicção de que X é culpado”. “Eu tenho convicção de que a reforma X é boa para o povo brasileiro”. “Eu tenho convicção de que a esquerda …”. Este ‘eu’ convicto incapaz, ou com medo, de colocar-se em questão afirma estar convicto de alguma que sabe, profundamente, questionável, frágil. Ele próprio, admitamos logo, é questionável, frágil, e por isso fantasiar-se como absolutamente inquestionável passa a ser necessário para produzir uma aparência de verdade quando expressar suas convicções. O sujeito de convicção deve ser uma convicção aceita tácita e passivamente por todos. Convicto de sua própria substancialidade, e certo de que o público não tem dúvidas quanto a isso, declara sua convicção em alguma coisa: “eu tenho plena convicção de que a reforma X vai gerar mais empregos”. O sujeito convicto de si, e questionável, declara sua convicção em alguma coisa incerta, que não consegue demonstrar. A convicção neste segundo nível opera para doar um efeito de verdade, gerar uma atmosfera de credibilidade, para um discurso sem fundamento. A convicção é uma âncora lançada no sem fundo. Hoje, ao amanhecermos mais uma vez com menos futuro, os brasileiros não debatemos a, terrível para a maioria, normal para a minoria, aprovação da reforma da previdência, mas o voto de um eu convicto. E a convicção neste eu convicto – seja para defendê-lo seja para criticá-lo – mais uma vez nos estraçalha e a previdência, a questão, o problema, é abandonado. Lembro de Nietzsche para quem “não foi o conflito de opiniões que tornou a história tão violenta, mas o conflito da fé nas opiniões, ou seja, das convicções”.


Máquina de Renda Universal

Para a máquina capitalista nenhuma utopia soa problemática desde que não se apresente como um problema de magnitude tal capaz de colapsar gravemente seu funcionamento e reprodução infernal. A renda universal, por exemplo, não é revolucionária, pois, pode ser perfeitamente conjugada aos fluxos loucos do capitalismo. Revolucionário seria, por exemplo, propor uma (re-)distribuição universal da produção (que excede em muito o consumo) e da propriedade privada (poderíamos começar pelos latifúndios improdutivos dentre os 70 mil existentes no Brasil).


Não-comunicação

A opinião pública – se há a possibilidade de uma – na era dos debates no quadrado privado burguês – é uma opinião (de-)formada sobre tudo; uma das causas disso é a impossibilidade – dada a urgência de ter a opinião publicada curtida, apoiada, aplaudida pelos pares – de se pensar profundamente sobre o que se está opinando. Jürgen é platônico demais, e o pensamento se perde tentando encontrar a saída na caverna cada vez mais escura da possibilidade de comunicação. Talvez Gilles esteja certo, “talvez a palavra, a comunicação, esteja podre”. É provável, até mesmo, que não seja por moda que o filósofo da diferença seja, por exemplo, o autor mais citado nos trabalhos apresentados na “Compós”. “Elas estão completamente impregnadas de dinheiro: não por acidente, mas por natureza. É necessário subverter a palavra. Criar sempre foi coisa diferente de comunicar. Importará, talvez, criar vacúolos de não-comunicação, interruptores, para escapar ao controle”.