::: roteiro p/ uma fuga das subjetividades políticas impostas :::

por todos os lados
palavras de ordem

assediam,
envolvem,
sufocam,

– tome uma posição!
– diga alguma coisa
– expresse todos os
seus ressentimentos!

queima
amargo

brasil

– avante!
– recue!
– venha!
– vá!

para onde? por que? por quem?

– faça silêncio
– agora grite!
– defenda!
– ataque!

os homens farejam
até quando dormem
o cheiro do dinheiro
& enquanto fazem isso
fingem fazer alguma coisa

pelo povo brasileiro

salvam a pátria,
defendem teoricamente a revolução,
propõem reformas, proferem discursos

cristos
redentores

– escrevem para os jornais conservadores
(inclusive sonham em ter coluna fixa
em um desses uma hora dessas)

“Eu avisei”, “só não viu quem não queria”, informam-nos

COMO SE NÃO SOUBÉSSEMOS!

Mas eles são “Os Intelectuais”,
sabem antes pelos livros,
por intermédio dos círculos restritos

escrevem de suas ilhas
privadas refrigeradas

falam “em nome do povo”
– sem nenhum sinal de rubor –

SUAS VERDADES PARTICULARES

sobre “a crise”
sobre “as mentiras”
sobre “o caos”
sobre “o presente” &
sobre “o futuro” triste
(que possuem em seus fígados & estômagos)

mas

– se examinarmos bem descobriremos que esses que apontam a crise
não sentiram – e não sentirão – realmente os efeitos da crise

[a não ser aquela que – edipianos! – mantêm com papai & mamãe]

então é mais fácil alimentar uma crise que não os atingirá
também é mais fácil aprofundar a crise com gordas contas bancárias, regando-a com cerveja importada
& exibições de seus caros apetrechos tecnológicos
& consumo cult cultural

é mais fácil desejar a crise bem empregados, dentro de um carro com ar condicionado, com mestrado e doutorado, de terno e sapato (“quem tiver de sapato não sobra! não pode sobrar!”), garantidos, portanto sem correr um mísero risco sequer.

já alcançaram o sucesso entre seus pares
ja chegaram lá então que se foda, não é?

é sempre mais fácil falar da crise do que propor soluções
é sempre mais fácil falar sobre a crise bem longe dela & dos que realmente são & serão afetados por ela
é sempre cômodo depois do bicho morto avançar sobre suas vísceras [sobre isso os urubus já nos explicaram bem melhor]

poder: os que têm
não querem perder
& os que não têm
querem conseguir

poder & mais
& mais poder

imagem: elites – para quem tudo é jogo (de cartas marcadas) de poder – em disputa & a população – massa de manobra (p/vcs!) – no meio do fogo cruzado

mas há outros, outras, muitos … que não estão nem aí, nem aqui, que não cabem nos seus cálculos eleitoreiros, nos seus delírios golpistas, nos seus desejos de dominação, nos seus regimes semióticos

que estão realmente na luta, na labuta, em movimento e fazendo esse país continental se mover apesar da inércia das elites …

Sabia que o brasil é maior do que brasília, sp, rj e suas teses especulativas?

Quer um pedacinho de Estado [democrático de direito?]!

democracia mesmo? nem sinal!
democracia mesmo? nem sinal para a família debaixo da marquise
democracia mesmo? nem sinal para os jovens trucidados pela pm carioca
democracia mesmo? no mato grosso do sul? no pará? em mariana?

qual é a próxima cena?

devo rir ou devo chorar?

desaba o cenário

da política

sobre o

real

&

resta a realidade

crua!

estamos agora cara a cara

Eu digo sim para transformações
profundas na estrutura social,
econômica, política
& cultural brasileira

E digo não para os golpistas de que tendência forem!
E digo não para os que – no poder – não assumem os riscos!
E digo não para os que – desejando poder – não medem os riscos de seus discursos frouxos serem capturados pelas correntes de ódio que atravessam o país!

Seus projetos de poder não me afetam!
Seus discursos morais não me culpam!

Se o pau quebrar não adianta se esconder!
“Comprou briga agora segura as pontas”,
diz-se assim nas ruas embora eu saiba
que quando vocês falam rua
não sabem bem o que é ou têm uma
ligeira ideia pós-junho de 2013
quando – “playboys de prédio” –
descobriram as ruas & seus fluxos
multitudinários selvagens absolutamente
independentes de vossas palavras de ordem

quando vocês chegaram no rolê
o rolê já tinha ido & voltado …

Antes disso onde estavam?
Qual era o proceder?
Escrevendo artigos, livros & tecendo elogios ao projeto que levantaram e agora querem ver desmoronar? Alguma teta secou? E aquela antropofagia? E aquelas redes biopolíticas? Tudo jogo de cena, né?

Eu quero mais democracia
Como os estudantes de SP

Eles & elas FAZEM democracia
& não demagogia em rede social

Eu quero mais & mais democracia

& não a farsa dos poderosos
& dos sedentos por poder – “essa
coisa triste” – que para alcançarem
seus intentos – teorizam – hipocritamente
– a partir da Ética – mas praticam
mesmo a culpabilização &
a desmoralização incutindo
uma moral ainda mais nefasta,
absolutamente distante
de seus discursos
de liberdade.

Se o pau comer – eu sei – você vai ser o primeiro

a correr.

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::: Da(s) esquerda(s) :::

I – A esquerda no poder diz-se esquerda;
II – Uma outra esquerda diz-se mais esquerda e diz que a esquerda no poder é na verdade de direita;
III – Quando a esquerda no poder que se diz de esquerda mas que a outra esquerda diz – muitas vezes com razão – ser de direita leva porrada da direita (que se diz direita sem papas na língua) a esquerda que diz que a esquerda no poder é de direita passa a emitir opiniões idênticas às da direita.
IV – O que dizer sobre a esquerda que diz que a esquerda no poder é de direita, mas cujos pensamentos numa bela e cinza manhã em que acordamos de sonhos intranquilos dizem exatamente o que a direita está dizendo?
V – Não há nada há dizer em termos morais e condenatórios, mas em termos éticos é possível supor que estejamos dentro de um pesadelo em que as esquerdas ao degladiarem-se por uma suposta verdadeira identidade de esquerda arriscam-se a exterminar tudo o que não corresponde a este transcendente “ser de esquerda” e, no limite do niilismo, a si próprias.
VI – Talvez também seja o caso de se admitir que não há – e nunca haverá – “uma esquerda”, mas uma multiplicidade de posições – mais ou menos – à esquerda que se conectam nos momentos em que o que está em risco não é esta ou aquela esquerda, mas a (sim pouca) democracia (que nos resta). Depois é dispersar & debater & disputar eleições & cobrar (por + & + democracia) & mobilizar & criticar sem medo nem rabo preso, mas agora – parece-me – o papo é outro: um “papo reto” à esquerda sem a menor brecha para que o pesadelo anti-democrático que nos abala agora torne-se realidade incontornável daqui a pouco e feche todas as possibilidades políticas à esquerda que existem e resistem.
VII – Tenho muito o que aprender com as práticas – políticas, éticas, afetivas, culturais – efetivas dxs estudantes de São Paulo.