Democracia

A democracia – se substancial – é o que permanece mesmo na mudança. Golpe não tem substância. Golpe é acidente. Um golpe na substância democrática não pode destruir a democracia, se ela é mesmo substancial. E como saber se a democracia permanece mesmo neste momento em que ela é golpeada? Uma maneira de saber é recusar qualquer possibilidade de substancialidade do golpe, negar a ele o sentido de substância, resistir à violência do golpe violentamente, suportá-lo sem esmorecer, fazê-lo retornar à sua condição acidental (não somos inocentes a ponto de ignorar que se há substância democrática há sempre risco de acidente golpista). No atual estado de coisas parece-nos que não afirmar radicalmente a substancialidade democrática equivale a admitir – não o risco de um acidente golpista – mas a substancialidade do golpe mesmo, pior ainda, não afirmar a substancialidade da democracia equivale a, inconsequentemente, rebaixá-la a acidente. Não trata-se aqui de uma ingênua defesa da representação democrática, pois a representação é também algo que se atribui a democracia, trata-se da luta pela democracia como substância que sustenta uma miríade de direitos conquistados (com organização, luta e sangue da classe trabalhadora) e que pode legitimar muitos outros a serem reivindicados pelos movimentos sociais e legitimamente conquistados, trata-se da democracia como princípio multitudinário de luta, de resistência, de conquistas de minorias, de afirmação constituinte, e não de suas meras variantes apaziguadoras universalistas. A democracia é a soma diferencial de todos nós enquanto participantes ativos da sua composição heterogênea e selvagem. Se substancial a democracia persistirá, e enquanto partícipes dela resistiremos, não como forças passivas perante as forças que a querem fraca ao ponto de perder toda sua substancialidade, mas ativamente como forças radicalmente e substancialmente democráticas. Retornar à substância democrática e multiplicar a diferença contra o golpe homogeneizador (que quer impor ao múltiplo o signo da identidade para, então, desferir um golpe único contra todas as potências progressistas) parece-me uma posição que as esquerdas não podem deixar de considerar. Logo não trata-se de defender apaixonadamente o que nem quem representa a democracia, mas sim de Ser a própria Democracia, de se dizer radicalmente a partir de todas as forças que somos capazes de colocar (e estar) em relação contra a força golpista reativa que quer abolir – num golpe só – todas estas forças para afirmar seu poder absolutamente antidemocrático com aparência constitucional. A democracia não é uma força só, nem uma só força, mas a síntese disjuntiva de todas as forças democráticas, são estas que precisam se (re-)encontrar e se afetarem sem rancor nem ressentimento, o que implica em conviver com a diferença sem, o egoísta desejo de dominação, de levá-la à contradição seja para fazer dela um manso idêntico seja para expô-la como a detentora de todos os males da humanidade que deve ser destruída. A democracia é o espaço que se abre entre todas as perspectivas, entre todas as diferenças existentes e insistentes. Este espaço resultante de diferenças é a própria diferença enquanto diferença de diferenças e é dele que dizemos a democracia sempre em devir. Se democracia não é, pura forma vazia, se democracia tem conteúdo no Brasil essa é mais uma oportunidade histórica de uma geração afirmar isso com força desejante e criadora. Como dito no início, se é substância, a democracia permanecerá mesmo na mudança. E a mudança desejada não é este acidente reacionário com máscara democrática, a mudança desejada é uma tal que possibilite que a Democracia – finalmente (para alguns) novamente (para outros) – se instaure no Brasil através do desejo democrático de sua gente, isto é, aquela imensa parcela que acredita que a Diferença é nossa substância primordial e é dela que dizemos: Democracia, mais uma vez, e quantas vezes forem necessárias, diferenciando assim a democracia sempre para melhor, jamais para pior.

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::: (Des-)culpa :::

Cidade agitada: ecoa na manhã o grito da madrugada. Ar elétrico: chove frio em Agosto: “mês do cachorro louco”, dizem. Um – movido por imperativos categóricos – crê – nesta altura do fim do mundo – a pureza da razão, da sua razão. Que razão há no que crê numa moral superior, mesmo depois de ter sido condenado por ela? Razão? Moral? Sujeito transcendental? Consenso? Razão. Prefiro a loucura do cachorro. Que razão há nestes motores em disparada pelas ruas? Que razão há no carro que furou o sinal ontem e quase arrancou minha perna direita? Um passo atrás antes do estraçalhamento final. Ainda tive tempo de observar o desespero no rosto da carona. Quanto ao motorista não o vi, deveria ser um fantasma como quase todos os motoristas da cidade sempre atrasados para nada ou para aquilo que é importante hoje e esquecimento amanhã. Parece-me que estamos a um passo do estraçalhamento, que vai ser imediatamente esquecido assim que ocorrer. Acostumar ao estraçalhamento é o à priori da razão do XXI? Espero que seja uma impressão ruim, uma afecção destes meses que enfraquecem as vidas enfiando goela abaixo uma tristeza, um temeroso discurso, um circo sem palhaço, um blues: um caos, um medo, um grito: perdidos na rua. Enquanto isso, no cemitério crianças caçam pokémons e nas ruas somos caçados por policiais e fascistas, tanto faz, mas deve ser só impressão, representação – de algo bem pior – que se liga mal à imaginação, perturbando corpo e espírito, ou ainda mais daquela crise de representatividade que insiste em Brasília, tanto-faz-tanto-fez. Talvez o fantasma seja eu – ou você – e assim é melhor para nossa pujante democracia, pátria amada brasil e sangue escorrendo no meio-fio. Alguém grita fora temer e viva o espírito olímpico! Tem alguém batendo na porta. Quem é? Não é ninguém, só mais um desses embrulhos com ressentimento dentro que não param de chegar às casas de alguns brasileiros desde a última eleição e que quando aberto toca a introdução do hino nacional com gritos terríveis ao fundo, como uma fita k7 gravada sobre outra desde 1964 … O embrulho é também sinônimo de jornal (do povo, garante a propaganda). Mas tudo bem, penso seduzido pela falsa consciência de que está tudo realmente bem. Tudo bem? Tudo bem responde o hábito de dizer tudo bem. Até as flores mortas do velório da “democracia” estão lindas. Respiro monóxido de carbono e sigo em frente. Tudo bem? Tudo e com você? Há ainda bastante besteira até a verdade se mostrar: e se ela for monstruosa? Vai temer? Vai encará-la com os olhos que dispõe? Afinal é tudo culpa do … E, finalmente, agora que temos – cínicos moralistas – como aquele que se vê como um Kant tropical de esquerda pronto para denunciar toda e qualquer corrupção – o culpado por cinco séculos de desgraças – para que se mover? E assim de culpa em culpa, de culpado a culpado, encontramos a desculpa ou a culpa perfeita, para não mais viver a própria vida e – pior – infectar de culpa tudo o que quer viver diferentemente, atribuindo-lhe, por analogia, todas as culpas atribuídas ao Grande Culpado, ao Corrupto, ao Doente, a Doença que deve ser extirpada. Se isso não é o fascismo me diga o que é, mas não atrás da mais nova neo filosofia reacionária que – capturado – quer me capturar como se dela fosse saltar um outro mundo livre de corrupção (um céu cristão cheio de anjos de olhos azuis?) Não, obrigado, o espírito absoluto pode ser bem perigoso às vezes. Batem à porta. Deve ser outro pacote de culpa. Atende para mim. Ou foi você quem mandou?