A morte entrópica do bolsonarismo

Bolsonaro introduz confusão no sistema comunicacional democrático. Os jornais, sites, blogs e redes sociais ao reproduzirem seus atos elevam a força que lhe resta a uma força que ele não tem. O resultado desse processo é o fortalecimento político do bolsonarismo (vide tomada de corpo do frame #obrasilnãopodeparar) e o enfraquecimento relativo das forças que se articulam de diferentes maneiras contra Bolsonaro e, principalmente, contra a pandemia, pois acabam por permanecerem dispersas, sem capacidade para compor um antagonismo destituinte com relação ao presidente, e sanitário com relação ao vírus. Com o avanço da pandemia, e a multiplicação de casos confirmados e de mortos, mais informações sobrecarregarão o sistema já sobrecarregado. Há informações também que as comunidades pobres não têm mais condições materiais para permanecerem em quarentena (estão sem alimento e sem dinheiro). Para onde dissipará toda essa energia social que circula nos territórios da cidade e nos territórios informacionais numa retroalimentação constante? Bolsonaro, a meu ver, age de forma a mobilizar um quantum de força suficiente para tentar um movimento que ele sozinho, isolado, não tem capacidade de realizar. O bolsonarismo não é um movimento político, mas um movimento informacional que modula uma política que temos dificuldade de conceituar pois assume formas variáveis, moventes, disformes, dinâmicas, contextuais, dúbias: são fascistas, populistas e suicidárias para uma grande parte da população, mas também são salvadoras, míticas para a outra parte que o elegeu e que, em larga medida, ainda o sustenta pois ainda submetida a altas doses de desinformação providas por robôs, mas também por uma ampla rede de pequenos e médios empresários com poder sobre a vida dos trabalhadores que só têm o tempo e a força de trabalho para vender. Se o ruído Bolsonaro não for retirado de circulação, a pandemia da Covid-19 matará ainda mais pessoas do que as estatísticas apontam, pois o presidente desorganiza a sociedade, ao ponto de conduzi-la para a morte entrópica, quando o Brasil deveria estar organizado para lidar com os efeitos do vírus Sars_Cov_2 sobre a população.


Xawara

Lembro que em 2019 Davi Kopenawa disse em um vídeo da Hutukara (Associação Yanomami) que percebeu algo estranho na ‘imagem’ de Bolsonaro, mas que preferia não tirar conclusões precipitadas como o presidente fizera à respeito dos povos indígenas. Diplomata cósmico, o líder e xamã Yanomami pediu na ocasião um encontro com Bolsonaro “para olhar bem dentro dos seus olhos”. Este encontro não aconteceu. Hoje, permitam_me o exercício de especulação e “perspectivismo”, imagino que Bolsonaro teve medo de Kopenawa revelar ser o presidente um portador (em potencial) da epidemia xawara. Todos da comitiva presidencial que foi aos Estados Unidos estão doentes menos Jair Bolsonaro. Ele não receia ser descoberto como positivo, mas como negativo, a epidemia em pessoa ou alguém possuído pelos xawarari, os espíritos da epidemia.

O que os Yanomami chamam de xawara, explica Kopenawa em “A Queda do céu”, “são o sarampo, a gripe, a malária, a tuberculose e todas as doenças que nos matam para devorar nossa carne. Gente comum só conhece delas os eflúvios que as propagam. Porém nós, xamãs, vemos também nelas a imagem dos espíritos da epidemia, que chamamos de xawarari”.


sinais desconcertantes

[17/03/2019]: “Brasil confirma primeira morte por coronavírus e vítima é de São Paulo. Trata-se de um porteiro aposentado, de 62 anos.”

[..]

“A morte do porteiro, pode-se dizer, marcou o fim desse período, cheio de sinais desconcertantes, e o início de outro relativamente mais difícil, em que a surpresa dos primeiros tempos se transformou, pouco a pouco, em pânico”. (Camus)


“Corpo não é pecado”

4 dias proibido pelos moralistas do facebook de postar. Na verdade, mais uma vez proibido. Motivo: compartilhar uma reportagem sobre índios isolados e sobre os riscos que estes povos correm com a carta branca dada pelo desgoverno federal ao garimpo e à extração do metal, à “new tribes mission” e à extração do espiritual. A inteligência artificial – vejam só: feita de metal – detecta pecado na nudez de povos que desconhecem o pecado. Índio morto pode. Índio pelado não. Nestas horas, em que já não sei se estou condenado a encarnar episódios de um passado que não vivi ou se vivo num futuro que nada é do que imaginava que seria, só um Tom Zé para desopilar: “corpo não é pecado, corpo não é proibido, corpo não é mentira”.