Hurtmold faz show explosivo no paiol de pólvora

Fotografia de Mano Gabz

Hurtmold no Teatro Paiol em Curitiba. Fotografia: Mano Gabz

Assim que tomo meu lugar na plateia para assistir o retorno dos paulistas do Hurtmold em palcos curitibanos, mais precisamente no Teatro Paiol, miro – enquanto a banda não atravessa as cortinas negras, o “set list” que repousa ao lado da bateria.

De acordo com a lista escrita com pincel atômico azul em folha de sulfite a música que abrirá a apresentação da banda em Curitiba é “Guita”. Penso: “Guita? Trata-se de alguma música nova?”

Todos os acentos são ocupados: “estamos trancados no paiol de pólvora“.

– Aê! Uhu! Clap Clap! Aô! Fiu fiu!

A plateia, mesmo sentada, agita-se no teatro de arena enquanto os membros do grupo – Mauricio Takara (bateria e trompete), Fernando Cappi (guitarra), Mário Cappi (guitarra), Guilherme Granado (teclado), Marcos Gerez (baixo) e Rogério Martins (percussão)  –  aproximam-se de suas máquinas estéticas.

Granado diz para “quebrar o gelo”: – “Tá frio, hein?”. O público acostumado a temperaturas bem mais baixas sorriu.

“Sejam bem-vindos à cidade zero grau piazada do Hurtmold”,  diriam os rappers que habitam as entranhas de CWBeats.

Fernando Cappi inicia a apresentação, o som da guitarra ecoa pelos corredores sombrios do Paiol, as luzes vermelhas iluminam a poeira no ar que gira. A música é “Hervi”  (ou “Guita” para os íntimos …)  terceira do novo disco do grupo: “Mils Crianças” (Submarine)

Imediamente após o final preciso da execução, “paralisados no paiol de pólvora“, os curitibanos – natos e também os adotados – aplaudem entusiasmaticamente. A sensação é de um gol do time preferido (pense no seu) logo no primeiro minuto de jogo.

Olho ao redor e não vejo ninguém com os “olhos vendados no paiol de pólvora“, mas alguns “dentes cerrados no paiol de pólvora” sim, talvez intrigados de sentirem corporalmente o que o crítico Bernardo de Oliveira escreveu sobre o álbum Mils Crianças (2013):

“A síntese de estrutura rigorosa e experimentação rítmica em Mils Crianças contribui para demarcar um outro momento estético no trabalho do grupo. Se até então elaboravam uma sonoridade cerebral com descontração punk, desta vez desenvolveram um trabalho punk com uma consciência profunda de estrutura, timbre, composição, instrumentação, etc”.

Ao final da segunda música, Takara anuncia: “a pele do bumbo estourou”. Um homem grita “pô Takara!”, um “e agora?” também surge tímido … Concentro-me tentando enxergar uma saída para uma apresentação que tem tudo para ser histórica.

“Só tem entrada no paiol de pólvora
Ninguém diz nada no paiol de pólvora
Ninguém se encara no paiol de pólvora
Só se enche a cara no paiol de pólvora”

Sim! “O azar é sorte no paiol de pólvora” e Takara com ajuda de Martins soluciona, rapidamente o problema não deixando a vida tornar-se morte no paiol de pólvora. “A vida é morte no paiol de pólvora”, todavia não nesta noite.

O Hurtmold retoma com “Beli” trazendo a sensação de que “são tudo flores no paiol de pólvora“. Na sequência vieram “Telê” música que abre o “Split With The Eternals” lançando em 2003 em conjunto com o grupo de Chicago The Eternals, “Tomele Tomele”, “Chavera”, “SNP”, “Naca”, estas 4 do novo álbum,  além da climática “Olvécio e Bica” do álbum homônimo de 2007.

Entrando com precisão na reta final, Joji aos 2`13″ fez os fãs de hardcore presentes chacoalharem seus cérebros. Vale aqui direcionar o holofote jornalístico para a perfomance intensa e apaixonada do guitarrista Mário Cappi ao longo de toda apresentação.

Na sequência, a percussiva “Churumba” de 2007 – que aos ouvidos deste contador de memórias póstumas foi o ponto alto da perfomance hurtmoldiana em CWB – substitui definitivamente a “TV a cores no paiol de pólvora” pela possibilidade de novas partilhas estéticas vivas ao vivo na capital paranaense.

Shows como o do Hurtmold apontam que o momento é de quebra de paradigmas, de destruição de preconceitos de toda ordem, de pesquisa, de composições e decomposições, de aberturas sonoras ao infinito, experimentações e improvisações sem limites. Artistas “tomem lugares no paiol de pólvora“, explodam as velhas estruturas! Você pode dizer agora um foda-se para a bossa nova sem deixar de achar a bossa nova foda.

Há um novo paradigma estético como anunciou Guattari flutuando como a poeira iluminada pela luz vermelha que agora gira na velocidade de “Pigarro” que encerra “Mils Crianças” e a apresentação do Hurtmold em Curitiba.  Desta forma, enquanto há “mils crianças” correndo dentro de cada um de nós “vai pelos ares o paiol de pólvora“.

* Texto-hibridação: Hurtmold + “Paiol De Pólvora” de Toquinho  &  Vinicius de Moraes

Estamos trancados no paiol de pólvora
Paralisados no paiol de pólvora
Olhos vedados no paiol de pólvora
Dentes cerrados no paiol de pólvora

Só tem entrada no paiol de pólvora
Ninguém diz nada no paiol de pólvora
Ninguém se encara no paiol de pólvora
Só se enche a cara no paiol de pólvora

Mulher e homem no paiol de pólvora
Ninguém tem nome no paiol de pólvora
O azar é sorte no paiol de pólvora
A vida é morte no paiol de pólvora

São tudo flores no paiol de pólvora
TV a cores no paiol de pólvora
Tomem lugares no paiol de pólvora
Vai pelos ares o paiol de pólvora


Hurtmold em CWB

Hurtmold em CWB