Hegemônia reformista

Intelectuais pedreiros do “reformismo fraco” unidos intelectualmente para legitimar o status quo que é seu próprio status. O que são dados dada a realidade? Não caminham nem até a padaria da esquina temendo o assalto ou a abordagem do viciado. Morrem antes de medo. Vomitam dados nas redes e em rede. Acredito mais no vômito da mulher que morre todo dia um pouco nas ruas do centro revitalizado de antemão com discursos de todo tipo. Discursando-se despidos de toda ideologia escondem uma posição de classe que precisa de muitos dados para ser defendida e ocultada. “Dadologia”: a ciência da parte pelo todo. Estatística política. Para que tentar entender a complexidade e as variações se se pode justificar sua própria posição oferecendo dados, tabelas, percentuais, estatísticas de uma teórica realidade que desmorona assim que se coloca o pé fora do castelo?


Da série B: cracks no país do futebol

– Ou! Arruma um gole desta coca aí!
– Ou! Descola um careta aí tio!
– Tá vendo aquela mulher? Se eu fosse lá e dissesse que sou um viciado em crack você acha que ela diria que eu mereço uma chance ou que tenho que ser morto?
– Estacionei carro a noite inteira. Daí fui fumar meu crack sossegado e a guarda municipal chegou no arregaço piá.
– Tava lá na Praça do Gaúcho. Parou um carro e uma voz disse: – entra aí. Entrei e só saí 4 anos e 8 meses depois.
– Participei de duas rebeliões na cadeia piá.
– Lá na cadeia a polícia atirou com bala de borracha na mão de um cara. Arregaçou os dedos. No outro dia, os ‘polícia’ ficaram fazendo piada, rindo na cara dura.
– Eu era bem de vida piá. Morava ali na Mateus Leme. Meu pai era empresário.
– Sei tocar saxofone, clarinete e flauta. Dizem que quem sabe música é bom de matemática, mas sei lá, acho que qualquer um pode tocar.
– Faz sete anos que estou no crack.
– Três dias sem dar notícia em casa.
– Tenho uma filhinha de sete anos, linda, linda …
– Quando comecei cheguei até a gozar na calça. Desculpa estar dizendo isso pra você, mas aconteceu mesmo, tá ligado.
– Tá vendo aquele tiozinho? Tem problema mental. Os caras não entendem essas pessoas e as espancam. Dá uma coisa foda no coração, um corte.
– O morador de rua que teve a cabeça apedrejada na Santos Andrade é meu amigo. Foda piá. Se tinha que ver a tristeza do cachorro dele no enterro. Bocão era muito gente boa. Tinha treta com ninguém não.
– Ontem eu e uma turma passamos a noite cheirando pó em um motel. Dei um tiro numa linha da grossura do meu indicador. Deu uma coisa ruim, um vazio, meu coração disparou, achei que era a morte.
– Que fome cara, que fome cara!
– Ou! Descola um pedaço deste lanche aí.
– Ou! ‘Ajeita’ um careta aí! Empresta o fogo também e se possível o pulmão.
– Daqui a pouco vou dar uma revirada nos lixos aí.
– Você acha que eu tenho alguma chance piá?
– Já distribui currículo pra tudo que é lugar. Não me chamam pra nada. Acho que é por causa da cadeia.
– Então. Eu faço os corre e recebo em pedra. Foda que os caras não pagam em dinheiro. Ontem movimentei uns mil e quinhentos e hoje tô aqui com fome.
– Crack é da hora piá. O mundo some.