Ágatha

Ela segura balões coloridos. Está fantasiada de mulher-maravilha. Ela sorri. É feliz como são felizes todas as crianças de 8 anos. Ágatha não sabe que nasceu num país em que o extermínio de crianças e adolescentes pobres tornou-se “dano colateral” de uma malfadada “política” de “segurança” e mais uma notícia no jornal. Inocente, não pode conceber, nem em seus piores pesadelos infantis, que um governador, apoiado pelo presidente e pelo ministro da “Justiça”, conduz uma guerra aos pobres. Ágatha jamais saberá teoricamente o que é “Racismo de Estado” ou o que significa “Necropolítica”. Marielle soube mas, assim como Ágatha, foi executada. Ágatha Félix, Marcos Vinícius da Silva, Marielle Franco, Evaldo Rosa dos Santos, Luciano Macedo, todos mortos por um poder que não deixa viver e faz morrer. Durante a madrugada penso em Ágatha e na palavra grega “agathón”. Agathon significa ‘bem’ e seu superlativo ‘áriston’ o “supremo bem”. “Áriston” é o fim último do indivíduo e do Estado. No caso de Ágatha, o Estado que, em tese, deveria visar o “Sumo Bem” fez-lhe o mal, arrancou-lhe brutalmente a vida com um tiro de fuzil nas costas. Agathón sangra. Ágatha Vitória Sales Félix está morta. O exercício do mal torna-se cada vez mais banal no país: quase ninguém se importa com o extermínio de crianças como Ágatha, muitos inclusive apoiam efusivamente a política que conduz esse extermínio; tantos outros fingem que nada acontece, precisam, entre um elogio ou crítica a Bacurau, multiplicar os negócios do capital. Quem disse que nossa bandeira jamais seria vermelha se equivocou: nossa bandeira é sim vermelha: vermelho-sangue dos mortos de uma história em que, como lembra Walter Benjamin, “o inimigo não tem cessado de vencer”.

Advertisements

Devir dos sentidos

Estamos fazendo um curso sobre Kant e uma das teses postas – isso se entendo direito (o que em geral não acontece) – opera uma aproximação (obviamente não para dizer que são a mesma coisa) de Kant com Hegel e mesmo de Kant (via Hegel) com Marx não pela coisa em si que para Kant, sabemos bem, não é objeto de apreensão pelo jogo das formas apriorísticas da sensibilidade e das categorias do entendimento, mas uma aproximação pelo tema do “incondicionado”. O incondicionado na teologia racional permite Kant pensar a liberdade desvinculada da causalidade meramente subjetiva além de operar como o que dá, em última instância, sentido à experiência do sujeito que conhece. Esse sentido total à experiência particular segundo nosso sempre pontual professor (pelo qual acertamos nossos relógios) pode ser aproximado à ideia de totalidade hegeliana e, pasmem, – de maneira radical – ao capital em Marx. Deus, no sistema kantiano, é uma “ilusão necessária”: não pode ser conhecido, mas pode ser pensado. Com isso, Kant contorna via teologia racional a apreensão imediata defendida pelo velho Jacobi que via em todo mundo ateísmo e/ou panteísmo (Jacobi, claro, não sai convencido e prefere o ‘salto mortale’), e na mesma tacada Kant neutraliza, ou tenta neutralizar, uma possível acusação de niilismo do mesmo Jacobi com a proposição de uma esfera de sentido divino. Quando chegamos na filosofia de Marx descobrimos que o que é total e ilusório é o capital. Não é por acaso, se admitimos o devir dos conceitos filosóficos, que o contemporâneo Agamben afirma que “Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro”. Se Deus era uma ilusão necessária para dar sentido à experiencia em Kant, hoje mais do que nunca o dinheiro é a ilusão total e necessária pela qual o capitalismo determina a vida. Se Deus está morto ou não isso ainda está em discussão e permanecerá para sempre. Resta à filosofia contemporânea uma tarefa mais humilde, mas grandiosa, trabalhar ativamente para a destruição da ilusão da experiência capitalista (e isso lhe impõe uma revesamento teórico_prático) e, ao mesmo tempo, trabalhar para criar (ou recuperar) um campo imanente de sentido, eu diria uma multiplicidade de sentidos, para uma outra experiência vital …


Filosofia braZileira?

O sonho de uma filosofia brasileira é o sono pesado do colonizado – mais ainda depois de uma cumbuca de feijoada, três garrafas de cerveja e duas doses de caipirinha – simplesmente porque Brasil é um mundo sem cercas tornado latifúndio após um batismo de sangue que escorre aos nossos pés ainda hoje. Não precisamos de uma filosofia brasileira deste Brasil a não ser que queiramos repetir ad infinitum, e ad nauseam em caso de indigestão com o bispo sardinha, tudo o que se passou após a colonização portuguesa até a colonização miliciano_fascista do presente. O Brasil é um “projeto” colonial e tudo o que se seguiu é o desdobramento e o redobramento de tal “projeto”, inclusive a ideia transcendente, novamente em voga, de uma filosofia brasileira. Brasileira? Brasileira de que Brasil? Do Brasil em que Olavo de Carvalho é filósofo desde os EUA? Ou do BraZil que bate continência para Trump? Do Brasil dos bacharéis-sabe-com-quem-você-está-falando? Do Brasil classe-média que, em 2015, cantou enfastiada de macarronada, coca-cola e democracia (e democracia!) o hino nacional com camisa da seleção e saudade da ditadura e da tortura? Do Brasil do “doutor” Mouro e das ideias fora do lugar? De um Brasil governado por uma besta fascista louca para exterminar o pensamento no canto da praia? Sinto muito (não, não sinto muito; não por isso): este Brasil, espero, que acabe junto com sua pretensa “filosofia”. Se quisermos mesmo uma filosofia podemos … pensar. No infinitivo, na imanência da terra e da Terra, sem adjetivos, sem pátria, sem universais, sem escola, sem catecismos, sem ídolos, sem ressentimento, sem culpa nem culpabilização e, principalmente, sem (re-)produzir tanta besteira.