Afetos da educação

Ontem vi um documentário em que Darcy Ribeiro, dentre outras coisas, defende a escola de tempo integral, especialmente para as crianças das famílias mais empobrecidas, porque as das mais ricas, segundo ele, podem até ter o luxo de ficar fora da escola.

No doc. um menininho, com grande sensibilidade social e astúcia, vai apresentando a escola bem como os colegas e os funcionários … é lindo perceber que a educação fez a diferença naquela vida, possibilitando-lhe uma leitura alegre e afetuosa do mundo.

Minutos antes, porém, tinha lido uma reportagem sobre Ítalo, o garoto morto por uma policial em São Paulo. Na reportagem havia uma fotografia de Ítalo. Seu olhar era sonhador, alegre e inocente como o do menino do CIEP, porém, Ítalo jamais poderá apresentar-nos sua escola…

Que falta faz intelectuais como Darcy Ribeiro neste país! Pensadores que unam a fria análise racional à imaginação criadora! Que a miséria de nossos tempos não nos derrube, mas sirva como exemplo de tudo aquilo que não podemos mais insistir.

Antes da política econômica (não nego sua importância), estou convencido da necessidade de uma política dos corpos, das relações & dos afetos alegres. De nada nos servirá podermos comprar o mais caro celular, a casa mais bonita e o carro mais veloz se perdermos a capacidade de relacionarmo-nos com quem difere, com quem pensa diferentemente.

Para sairmos do pesadelo financeiro e das disputas de poder pelo poder, precisamos despertar para uma educação renovada, capaz de recolocar as finanças e a política no seu devido lugar, ou seja, num lugar em que possamos determiná-las e não apenas viver à mercê delas, bastando um pequeno abalo seja na política seja na economia para nossas vidas enfraquecerem juntamente com nossa capacidade de pensarmos, de forma imanente, em um mundo diferente deste que nos despontecializa ao mesmo tempo em que despontencializa nossa capacidade de afetarmo-nos alegremente.

Ouvir Darcy Ribeiro é uma alegria nestes tempos em que os afetos tristes predominam.

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