Lockdown & luta de classes (2)

Está cada vez mais claro que os micro e pequenos empresários caíram no canto de sereia dos neoliberais, representados em Minas por Zema e em Brasília por Bolsonaro.

Na hora mais grave da pandemia, os micro e pequenos empresários que buzinaram histericamente nas eleições em nome do mito serão abandonados à própria sorte . Bolsonaro não tem uma política emergencial para eles. Tudo o que Bolsonaro lhes dirá é que devem lutar pela liberdade sem, no entanto, lhes dizer que ser livre para se contaminar e contaminar o outro com um vírus mortal não é ser exatamente livre. Liberdade para morrer? Quem em sã consciência se dispõe a arriscar a vida enquanto luta para sobreviver? Ninguém trabalha para morrer, muito pelo contrário!

Os micro e pequenos empresários precisam olhar para o espelho do real e se verem, se identificarem, e agirem, em conjunto com a classe trabalhadora pela efetivação de direitos existentes e também para a criação coletiva de novos. O que não dá mais é caírem, ou melhor, continuarem a cair na retórica da destruição dos direitos em nome de uma liberdade que se torna cada vez mais distante na medida em que, paradoxalmente, e cinicamente, se assenta sobre a própria destruição de direitos.

Imagine se aquela retórica (do Novo mais arcaico…) de privatização do SUS tivesse vingado!? O que seria do Brasil nesta hora em que o SUS é o único recurso que a maioria da população tem para respirar.

Para avançar é preciso também criar e não apenas destruir. Se querem a liberdade terão que criar o reino da liberdade e isso não se faz com buzina e gritos histéricos. Quem sabe agora aprendam na prática e na praxis a lição histórica.


Lockdown & luta de classes (1)

Só vai haver um lockdown de verdade no país no dia em que o governo federal em articulação com os governadores e prefeitos compreenderem a necessidade de criação e aprovação de um novo pacote de auxílio emergencial para os micro e pequenos comerciantes e trabalhadores em geral.

No nível das municipalidades, penso ser necessário um projeto de lei que proponha nas ocasiões de grave crise social, como é uma pandemia, descontos nos impostos, nas contas d’água, etc. Estas “ondas” do Minas Consciente, tomando o exemplo de Minas Gerais, são inconscientes da realidade dos trabalhadores e dos pequenos e microempresários do país.

A pauta dos micro e pequenos empresários deve se unir à pauta de todos os trabalhadores e reivindicar um programa robusto de auxílio financeiro, acompanhado de testagem em massa, rastreamento e isolamento de casos e, claro, aceleração do Programa Nacional de Imunização (PNI). Somente assim, o país começará a sair deste abismo sanitário e econômico que políticos irresponsáveis, sem visão e compreensão da complexidade social, estão criando.


Gestores da morte

A política em sua forma necropolítica contemporânea faz a gestão da morte. Políticos de direita e de extrema-direita se negam a defenderem a população por meio de proposições de medidas econômicas e sanitárias que permitam às pessoas se protegerem do vírus e da aniquilação da existência. E, ao ocultarem, que o Estado tem sim poder e dever de defender a população vitalmente e economicamente terminam por defender que as pessoas se exponham ao contágio viral e à morte.

Nesta época de retorno à barbárie, a política, desvirtuada de sua orientação clássica para o bem viver, decide quem pode morrer e a vida humana torna-se objeto de cálculo, planilhas, estatísticas, controle e certamente objeto de cálculo eleitoral. Para alguns “representantes do povo” nenhuma das vidas entre as mais de 260 mil aniquiladas pelo sars-cov-2 é mais importante do que uma nota suja de dinheiro ou uma possibilidade de voto numa futura eleição que, pasmem dado a gravidade dos últimos acontecimentos, nem sabemos mais se haverá. Acostumaram tanto com o passado que nem cogitam que o futuro depois dessa tragédia poderá nem chegar e se chegar será em um mundo completamente diferente do que o que até hoje conhecemos. Bem vindos ao século XXI, bem vindos ao mundo em que o homem destruiu. Mas enquanto esse futuro para eles não chega (pois para nós que estamos mortos já chegou e eles não perceberam) continuarão a insistir na ideia de que a roda não pode parar, tomando sempre o cuidado, “e os devidos protocolos”, de que o número de mortes seja administrável e não impressione muito a população.

Durante o holocausto haviam os homens que operavam os trens que levavam os judeus para os campos de concentração e de extermínio. Esses homens, como vimos através do conhecido caso Eichmann, não se importavam com o que se passava depois que os trens eram liberados, afinal o trabalho deles era apenas fazer com que a logística funcionasse e nisso eles eram exímios cumpridores do dever a eles incumbido.

Quando ouvimos certos discursos que vão do “economia primeiro saúde depois” até as promessas de milhões de vacinas (que nunca chegam de fato), lembro de Eichmann, cujo depoimento, mais tarde, em tribunal internacional revelou que sua participação na barbárie nazista fora uma participação alienada, de alguém que estava apenas cumprindo ordens, as quais desconhecia de onde vinham e a que visavam. Ele apenas tinha que liberar os trens… O mal às vezes é feito por homens como Eichmann, “cidadãos do bem”, acima de qualquer suspeita, a isto a filósofa Hanna Arendt chamou de “banalidade do mal”.

A defesa de volta às aulas num cenário de mutação viral acelerada, e de óbitos atingindo também a camada mais jovem da população, é mais um capítulo da continuidade da política macabra, da “necropolítica”, em operação no Brasil da cloroquina, mas sem vacina. Poderia agora resumir tudo isso, notando que em geral os que fazem essa defesa não são ignorantes e passaram orgulhosos por diversas instituições de ensino, e lembrando aquele senhor que muitos devem odiar assim como odeiam todos aqueles educadores que agora questionam ações imprudentes que podem colocar milhares de vida em risco: “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.


Vida & economia

A constituição em caráter de urgência de um comitê de cientistas brasileiros para definir os passos a serem seguidos pelo país na pandemia do novo coronavírus é fundamental. O cenário é catastrófico e a postura do governo federal contribuiu e continua a contribuir para que o Brasil seja ao lado dos EUA o país com mais vítimas da Covid-19.

Estes cientistas, lotados em instituições brasileiras, seriam responsáveis por apresentar às instituições e à sociedade civil as diretrizes do que deve ser feito no país como um todo no que diz respeito à pandemia.

O governo federal usa a pandemia para dividir a população a fim de manter uma base fiel visando unicamente as eleições de 2022. Pandemia é antes de mais nada uma questão de saúde pública e neste campo temos instituições públicas de ponta e cientistas capacitados que podem traçar os passos para fora do abismo em que o país e seu povo foi lançado por declarações e atitudes anticientíficas e extremamente perigosas, com consequências terríveis como as que estamos observando em todos os âmbitos da vida.

Segundo o Observatório Covid-19 BR, “a falta de uma coordenação centralizada pelo governo federal tem dificultado todas as medidas eficazes no combate à epidemia no País, que até o momento conta com poucas estratégias de testagem e rastreio de contactantes, atrasos na vacinação e demora para retomada de auxílio emergencial às pessoas mais carentes, para que elas possam sobreviver a este período de restrições econômicas e de mobilidade”.

Se o Brasil continuar a se dobrar ao negacionismo, à desinformação, às fake news e ao discurso do “novo normal” milhões morrerão em poucos meses e a economia, que tantos hoje defendem como primordial, também será destroçada, pois a escolha entre vida e economia é artificial, falsa, e está sendo taticamente produzida com finalidade eleitoreira.

Ainda para o Observatório Covid-19 BR: “sem nenhuma estratégia de contenção da epidemia, o Brasil tornou-se terreno fértil para a emergência de novas variantes de Sars-Cov-2 e sua propagação, ameaçando não apenas o País, mas todo o mundo. A intensa circulação do vírus no Brasil possibilita o surgimento de novas mutações de preocupação”.

Quem defende salvar vidas evidentemente não defende a retirada do pão da mesa da classe trabalhadora, muito pelo contrário. Os defensores da vida são justamente os defensores dos trabalhadores expostos, pela necropolítica do governo federal, ao vírus e à morte. Para sair dessa situação, de crise sanitária e econômica, é necessário sim retirar a gestão da pandemia das mãos do facínora que desgoverna o país e, simultaneamente, construir uma coordenação em âmbito nacional com pessoas com conhecimento técnico, médico, epidemiológico, econômico, antropológico, logístico, etc., capazes de abordar o problema de uma perspectiva multidisciplinar, ética e sem, evidentemente, jamais se render a interesses escusos internacionais que podem, perigosamente, se camuflar para a realização de operações de intervenção militar.