Velocidades imanentes

Não existe em definitivo uma coisa superior a todas as outras. O que existe são graus da mesma multiplicidade. E a maioria destes graus são nos desconhecidos. Perspectivamente, nós mesmos somos os desconhecidos. Os graus estão em constante variação. O discurso da superioridade – seja de qual parte for – expressa ainda outro desconhecimento: a superioridade ignora a multiplicidade, ou quando a considera o faz de maneira recortada. Fala-se da rosa como se falasse da roseira e da relação desta com a terra e com a Terra, com a galáxia e com o Cosmos. Diz metonímica o absoluto da parte. Pensar em termos de superioridade e inferioridade é desconhecer o infinitamente infinito da multiplicidade e das linhas díspares que saltam em velocidades absolutas dela dando consistência à formações rochosas, animais, pássaros, humanos, máquinas, culturas, obras de arte na mais radical imanência. Você devém pássaro quando voa para o amor. O discurso, em geral moral, parte de uma superioridade, da sua pretensa superioridade, em relação àquilo que se refere, para inferiorizar e para condenar, em bloco o que não é um, nem dois, mas muitos. Ele, contra a própria natureza, torna-se um e assim passa a ver o que não é um como um. Isso-lhe permite simplificar o mundo: a direita, a esquerda, o machista, o corrupto, o partido tal. A velocidade infinita que herda do movimento da Terra é congelada em um determinado momento no espaço. A guilhotina desce. A ignorância proposital é uma ferramenta analítica útil para o pensamento do uno decepar a multiplicidade que ele não pode conter. Mas ele precisa conter a velocidade infinita da multiplicidade. Então ignora, finge que ignora, que “a esquerda” e/ou “a direita” são significantes vazios quando pensados fora de um movimento contínuo. Mesmo assim os aciona como meio de atingir a vida, as vidas, que fervilham por baixo, virtualmente, como milhões de formigas, larvas, ovos, sob o formigueiro. Reduz-se as formigas ao formigueiro. Condena-se o formigueiro. Algo deve ser sempre condenado: seu imperativo categórico. Depois do julgamento, da humilhação, do veneno e do do fogo, algo ainda se move. “Como é possível que continue a viver depois de tanta má-consciência aplicada com zelo diariamente?”, pensa. Descobre que as palavras não transformam o mundo, pelo contrário, fixam-no em um espaço qualquer, numa timeline de rede social, por exemplo. A verdade é que ignoramos o que ignoramos e cada descoberta é a descoberta dessa verdade, mas, claro, é mais fácil, prático, útil, falar do que achamos que sabemos, senão o que seria da comunicação!? A comunicação não seria a tentativa de dizer o que não sabemos ainda? Mas estamos tão cheios de uma certa comunicação, de uma comunicação que, na atualidade, é uma emissão de afetos tristes, indiretas, humilhação, desprezo, morte. Isso não é tudo, todavia. Ainda há outras conexões abertas ao infinito, experiências a tomar nossos corpos. Conhecer é se espantar e se afetar com o desconhecido que se manifesta numa abertura fundamental e manter a distância deste assombro para compor com suas velocidades e lentidões outras velocidades e lentidões para ser e estar na velocidade da Terra. Relançar-nos ao infinito da duração perdida para sermos os outros que podemos ser sem nunca todavia ser. Manter o movimento da experiência é afirmar a inevitabilidade da experiência do movimento.

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::: Cuidado :::

Em pouco mais de um século “recursos” constituídos ao longo de milhões de anos de história terrestre (muito mais tempo para os lençóis freáticos) estão perto do esgotamento.

O mundo vai acabar?

Não, o mundo continuará, o que acabará é o humano. E quem acabará com o humano? O próprio humano, ou melhor, o modo de produção capitalista sustentado pelos humanos, mas precisamente por humanos_homens_brancos_rentistas_cientistas_ocidentais.

Não é sem razão, portanto, que a filósofa belga Isabelle Stengers chama nosso tempo de “tempo das catástrofes”, tempo em que as condições essenciais de existência na Terra entram em um processo de esgotamento irreverssível.

A Terra – desértica, sem água, com altas temperaturas, sem flores nem frutos – talvez continue, mas nós certamente não continuaremos, pelo menos não da maneira como “vivemos” no presente.

O fim do mundo é na verdade “o fim do mundo dos homens”.

Stengers não se limita, todavia, ao discurso catastrofista e propõe, como forma de resistir “a barbárie que vem” uma “arte do cuidado”.

“O que fomos obrigados a esquecer não foi a capacidade de ter cuidado, e sim a arte de ter cuidado. Se há arte, e não apenas capacidade, é por ser importante aprender e cultivar o cuidado, cultivar no sentido em que ele não diz respeito aqui ao que se define a priori como digno de cuidado, mas em que ele obriga a imaginar, sondar, atentar para consequências que estabeleçam conexões entre o que estamos acostumados a considerar separadamente” (Stengers).

O reaprendizado da “arte de ter cuidado”, ressalta Stengers, não é um imperativo moral, nem um apelo ao respeito ou a uma prudência que “nós” teríamos esquecido.

Quem mais precisa dar-se conta da importância desse reaprendizado são os que, no presente, na sanha de multiplicar o capital, ou pressionados por essa sanha, não esboçam nenhum sinal da arte de cuidar. Ligados à máquina capitalista, tornam a Terra improdutiva, seca, desértica, morta. Desligados da Terra cuidam apenas de “seus negócios privados” como se estes não dissessem mais respeito a tudo o que se passa no mundo.

Uma das figuras que devem aprender a arte do cuidado, segundo Stengers, é o Empresário. Para essa figura tudo é oportunidade. Ele “exige a liberdade de poder transformar tudo em oportunidade – para um novo lucro, inclusive o que põe em xeque o futuro comum”.

As coisas tendem a piorar com a articulação Empresário-Estado-Ciência. Aí, diz Stengers, aproximamo-nos da “lenda dourada” que prevalece quando se trata da “irresistível escalada de poder do Ocidente”. “Essa lenda põe efetivamente em cena a aliança decisiva entre a racionalidade científica, mãe do progresso de todos os saberes, o Estado que se livrou enfim das fontes de legitimidade arcaicas que impediam essa racionalidade de se desenvolver, e o crescimento industrial que a traduz em princípio de ação enfim eficaz”

Se o poder do empresário por si só é perigoso, quando articulado aos poderes do estado e da ciência cresce exponencialmente. A comercialização de pesticidadas cancerígenos, por exemplo, só é possível por causa desta aliança. A lenda dourada Empresário-Estado-Ciência revela-se então o oposto de uma “arte do cuidado”.

É dessa lenda, ou melhor, é das poderosas teias empresariais fortalecidas pelo poderio do Estado e da Ciência que precisamos escapar, mas, se a arte de ter cuidado deve ser reconquistada, é importante começar tendo cuidado com a maneira pela qual somos capazes de escapar. Como já diziam os antigos: “todo cuidado é pouco”.


Democracia

A democracia – se substancial – é o que permanece mesmo na mudança. Golpe não tem substância. Golpe é acidente. Um golpe na substância democrática não pode destruir a democracia, se ela é mesmo substancial. E como saber se a democracia permanece mesmo neste momento em que ela é golpeada? Uma maneira de saber é recusar qualquer possibilidade de substancialidade do golpe, negar a ele o sentido de substância, resistir à violência do golpe violentamente, suportá-lo sem esmorecer, fazê-lo retornar à sua condição acidental (não somos inocentes a ponto de ignorar que se há substância democrática há sempre risco de acidente golpista). No atual estado de coisas parece-nos que não afirmar radicalmente a substancialidade democrática equivale a admitir – não o risco de um acidente golpista – mas a substancialidade do golpe mesmo, pior ainda, não afirmar a substancialidade da democracia equivale a, inconsequentemente, rebaixá-la a acidente. Não trata-se aqui de uma ingênua defesa da representação democrática, pois a representação é também algo que se atribui a democracia, trata-se da luta pela democracia como substância que sustenta uma miríade de direitos conquistados (com organização, luta e sangue da classe trabalhadora) e que pode legitimar muitos outros a serem reivindicados pelos movimentos sociais e legitimamente conquistados, trata-se da democracia como princípio multitudinário de luta, de resistência, de conquistas de minorias, de afirmação constituinte, e não de suas meras variantes apaziguadoras universalistas. A democracia é a soma diferencial de todos nós enquanto participantes ativos da sua composição heterogênea e selvagem. Se substancial a democracia persistirá, e enquanto partícipes dela resistiremos, não como forças passivas perante as forças que a querem fraca ao ponto de perder toda sua substancialidade, mas ativamente como forças radicalmente e substancialmente democráticas. Retornar à substância democrática e multiplicar a diferença contra o golpe homogeneizador (que quer impor ao múltiplo o signo da identidade para, então, desferir um golpe único contra todas as potências progressistas) parece-me uma posição que as esquerdas não podem deixar de considerar. Logo não trata-se de defender apaixonadamente o que nem quem representa a democracia, mas sim de Ser a própria Democracia, de se dizer radicalmente a partir de todas as forças que somos capazes de colocar (e estar) em relação contra a força golpista reativa que quer abolir – num golpe só – todas estas forças para afirmar seu poder absolutamente antidemocrático com aparência constitucional. A democracia não é uma força só, nem uma só força, mas a síntese disjuntiva de todas as forças democráticas, são estas que precisam se (re-)encontrar e se afetarem sem rancor nem ressentimento, o que implica em conviver com a diferença sem, o egoísta desejo de dominação, de levá-la à contradição seja para fazer dela um manso idêntico seja para expô-la como a detentora de todos os males da humanidade que deve ser destruída. A democracia é o espaço que se abre entre todas as perspectivas, entre todas as diferenças existentes e insistentes. Este espaço resultante de diferenças é a própria diferença enquanto diferença de diferenças e é dele que dizemos a democracia sempre em devir. Se democracia não é, pura forma vazia, se democracia tem conteúdo no Brasil essa é mais uma oportunidade histórica de uma geração afirmar isso com força desejante e criadora. Como dito no início, se é substância, a democracia permanecerá mesmo na mudança. E a mudança desejada não é este acidente reacionário com máscara democrática, a mudança desejada é uma tal que possibilite que a Democracia – finalmente (para alguns) novamente (para outros) – se instaure no Brasil através do desejo democrático de sua gente, isto é, aquela imensa parcela que acredita que a Diferença é nossa substância primordial e é dela que dizemos: Democracia, mais uma vez, e quantas vezes forem necessárias, diferenciando assim a democracia sempre para melhor, jamais para pior.


Afetos da educação

Ontem vi um documentário em que Darcy Ribeiro, dentre outras coisas, defende a escola de tempo integral, especialmente para as crianças das famílias mais empobrecidas, porque as das mais ricas, segundo ele, podem até ter o luxo de ficar fora da escola.

No doc. um menininho, com grande sensibilidade social e astúcia, vai apresentando a escola bem como os colegas e os funcionários … é lindo perceber que a educação fez a diferença naquela vida, possibilitando-lhe uma leitura alegre e afetuosa do mundo.

Minutos antes, porém, tinha lido uma reportagem sobre Ítalo, o garoto morto por uma policial em São Paulo. Na reportagem havia uma fotografia de Ítalo. Seu olhar era sonhador, alegre e inocente como o do menino do CIEP, porém, Ítalo jamais poderá apresentar-nos sua escola…

Que falta faz intelectuais como Darcy Ribeiro neste país! Pensadores que unam a fria análise racional à imaginação criadora! Que a miséria de nossos tempos não nos derrube, mas sirva como exemplo de tudo aquilo que não podemos mais insistir.

Antes da política econômica (não nego sua importância), estou convencido da necessidade de uma política dos corpos, das relações & dos afetos alegres. De nada nos servirá podermos comprar o mais caro celular, a casa mais bonita e o carro mais veloz se perdermos a capacidade de relacionarmo-nos com quem difere, com quem pensa diferentemente.

Para sairmos do pesadelo financeiro e das disputas de poder pelo poder, precisamos despertar para uma educação renovada, capaz de recolocar as finanças e a política no seu devido lugar, ou seja, num lugar em que possamos determiná-las e não apenas viver à mercê delas, bastando um pequeno abalo seja na política seja na economia para nossas vidas enfraquecerem juntamente com nossa capacidade de pensarmos, de forma imanente, em um mundo diferente deste que nos despontecializa ao mesmo tempo em que despontencializa nossa capacidade de afetarmo-nos alegremente.

Ouvir Darcy Ribeiro é uma alegria nestes tempos em que os afetos tristes predominam.


redes metonímicas

O Facebook (e assemelhados) produz nas consciências uma falsa sensação de poder. Para isso, basta que acreditemos que as “mídias sociais” (recuso a chamá-las de “redes sociais”) representam fielmente a realidade. A timeline torna-se o real a partir da falsa crença de que o real é idêntico à timeline. Não é falso dizer que o que está na timeline é real, mas é preciso ponderar que este mundo de dados é apenas uma parcela do real, e que estamos tomando – metonimicamente – como se fosse todo o real. Depois que a timeline aparece como “todo o real” o Facebook desfere seu golpe mais fatal: nos dá a sensação que controlamos o real, que podemos por meio da produção e reprodução de dados, por meio da construção e desconstrução de discursos, por meio de discussões intermináveis, influenciar midiaticamente a maquinaria imediata do real. Esta possibilidade, como se saberá, sempre tarde demais, é falsa. O real é sempre outro e mais outro e mais outro, sempre muito mais complexo, mais fragmentado e múltiplo do que a unidade real na qual fomos enredados pelas próprias redes que tecemos e que, no desenrolar dos bytes, transformam-se na “minha rede”, na “nossa rede”, sim, redes reais, mas, cada vez mais fechadas e demarcadas semioticamente por elas próprias, tanto que são facilmente identificadas e formalizadas por softwares de mapeamento de redes; sinal, claro, de que o cenário é de cristalização de posições, de fechamento para as diferenças, de endurecimento dos fluxos, de medo dos encontros, por parte de quem até há bem pouco tempo falava na potência de tudo isso. A multiplicidade sem rosto torna-se identidade mascarada. O que vemos e lemos parece ser tudo o que há. Então devorar os textos compartilhados para falarmos das mesmas coisas, dominar certos códigos, reproduzir certos gestos, imitar posturas, curtir reciprocamente posts, admirar-nos nos mapas de nossas existências agora previsíveis, compartilhar as mesmas hashtags, tornam-se imperativos, mas há algo que sempre escapa, que não está na timeline. Mas o que escapa não pode ser percebido – nem pelo mais meticuloso paranoico – enquanto se está na crença de que tudo o que há está na timeline. O que escapa é o que nos surpreenderá para o bem e para o mal. No caso brasileiro, infelizmente, parece – neste momento – que para o mal, um exemplo disso é que não são poucos aqueles que foram negativamente surpreendidos pela composição medonha do Congresso e, mais ainda, com a força dela de esmagar os mais sinceros desejos revolucionários das belas almas da esquerda brasileira. Um choque de realidade e de “real politik” portanto que nos revela que o poder político que se acredita possuir aqui no Facebook, esta máquina de controle, na realidade atual tem pouca potência e baixa influência sobre os processos políticos institucionais que, ao fim e ao cabo, são os que estão conduzindo a nós e a democracia para o buraco negro da repressão e do fascismo. Enquanto esquerda controla, imobiliza e neutraliza esquerda por aqui, lá a direita mais conservadora ganha mais poder e pode até neutralizar toda a(s) esquerda(s) numa canetada só. A direita não vê a esquerda como multiplicidade como a esquerda vê a esquerda. A direita – do pensamento_uno – vê a esquerda como uma coisa só & que deve ser, se possível, destruída num só golpe. Acolá Mark zuckeberg vê a todos como possibilidade de faturar mais & mais. Todo discurso revolucionário em rede social vale a mesma coisa no mercado de ações. Toda movimentação política em rede social com vistas a ações no espaço público hoje é facilmente capturada pelos órgãos de inteligência do Estado e/ou do capital que podem calcular antecipadamente a força repressiva que será aplicada sobre os corpos que ousarem enfrentar os poderes constituídos. Quanto mais acredita-se estar no controle com o aumento de conexões mais somos controlados e expandimos o raio do controle a que estamos submetidos. Já passou da hora de identificarmos fora da timeline os verdadeiros inimigos que estão realmente no controle e expandindo-o a cada segundo sobre nossos corpos, mentes e vidas virtuais e atuais, enfraquecendo por antecipação a já parca potência democrática que nos resta, dando-nos uma única possibilidade de fuga: para dentro de suas máquinas totalitárias de controle. Hackers de todos os mundos, uni-vos!


Contra a máquina capitalista dos “direitos humanos”

Se há direitos humanos é porque antes deve haver violações tais que nos movem a clamar por direitos.

E se ao invés de haver direitos humanos não houvessem violações?

Hoje muitos entre os que clamam por direitos humanos não fazem a crítica às violações que levaram a tal clamor.

O que possibilita tais violações? Quais instituições? O que se oculta nos bastidores?

Uma das consequências desta ausência do questionamento das causas das violações é a afirmação da máquina capitalista, esta sim:

a) máquina produtora das condições de naturalização da violação dos corpos humanos e não-humanos;

b) máquina sombria de violação dos corpos.

A contradição dolorosa desse processo é que o clamor por direitos humanos acaba por afirmar o capitalismo.

A saída, pelo menos discursiva, seria então – sim – clamar por direitos humanos taticamente, pois não se trata de inviabilizar discursos, mas também estrategicamente pensar e articular a destruição da máquina sanguinária capitalista que, para alcançar seus intentos, esmaga tudo o que parece-lhe indesejável e, cinicamente, entrega o cartão dos direitos humanos.

Sem a destruição do capitalismo e de suas máquinas acessórias (entre elas a máquina policial e a máquina judicial cuja produção principal é a punição dos pobres) falar em direitos humanos será sempre um paliativo.


::: O PT e o sublime :::

É estranho ler frases vindas da própria esquerda como: “o PT morreu”, “o PT está morto”.

Muitas das subjetividades de esquerda que dizem tais coisas, que são absolutamente livres para as dizerem, desenvolveram-se, direta ou indiretamente, intelectualmente na “Era PT”.

Muitos dos mais ácidos críticos do “governismo” respiraram os ares de um clima democrático de potencialização das diferenças; foram até massageados pelo “do – in antropológico” de Gil.

Não trata-se de, moralmente, dizer: “ingratos” ou que “cospem agora no prato que comeram”, mas de experimentar algo de trágico e sublime na própria história do PT.

O PT, parece-me, o pobre na festa dos ricos quando estes, assim que a festa fica chata, inventam algum jogo sádico e encurralam aquele. Neste momento da festa, os ricos – ou os que pensam como ricos – se unem para humilhar o pobre diabo.

Humilhado, ele, todavia, sabe que, no final da festa, os ricos, de esquerda ou de direita, se unem para exorcizar àquele que passam a considerar como “invasor”.

Ele aprendeu a lição antes da lição terminar. É trágico, e é sublime, ouvir – agonizante, mas vivo – essas vozes de esquerda e de direita misturadas: “ele está morto”.

Mais trágico e sublime ainda é saber que isso tudo aconteceria, que isso fazia parte do plano, como evidencia Guattari num texto de 1982 (!):

“O que dá um caráter de estranhamento à ascensão política e social de pessoas como Lula é o fato de sentirmos muito bem que não se trata apenas de um fenômeno de ruptura em relação à gestão dos fluxos sociais e econômicos. Mas sim de colocar em prática um tipo de processos de subjetivação diferente do capitalístico, com seu duplo registro de produção de valores universais por um lado, e de “reterritorialização” em pequenos guetos subjetivos, por outro lado. Colocar em prática a produção de subjetividade que vai ser capaz de gerir a realidade das sociedades desenvolvidas e, ao mesmo tempo, gerir processos de singularização subjetiva, que NÃO vão confinar as diferentes categorias sociais (minorias sexuais, raciais, culturais, etc) no esquadrinhamento do poder”.

Sim, está claro, algumas subjetividades, mais cedo ou mais tarde se voltariam contra o projeto petista que, enquanto jogava o jogo do poder, debaixo da mesa, entretanto, as produziu ou permitiu que se produzissem como se produziram, no limite contra ele próprio. Não se trata de ver tal acontecimento como algo ruim ou merecedor de culpa, mas como resultado natural do jogo político, da imprevisibilidade dos dados lançados. Talvez seja isso mesmo a democracia: um jogo em que vencer e perder se equivale. Pena que alguns não sabem perder e outros veem em tudo isso apenas morte, fim, e não passagem, abertura de outras possibilidades.

O convidado aceitou participar da festa que sem ele seria outra. Ele não foi enganado nem se enganou. A festa aconteceria com ou sem ele; então foi. Agora – que essas vozes confusas proclamam: “ele está morto” – sabe, pelo menos, quem diz isso. Sabe quem deseja sua morte. Sabe que nem todo mundo que está na festa é confiável.

Enquanto assiste a própria morte ser projetada por antigos aliados sabe, melhor do que nunca, as regras do jogo. Sabe que a luta de classes não é uma luta entre direita e esquerda, não apenas. Sabe que estar ou se dizer esquerda não significa muito no fim de uma festa trágica.

As fotos da festa não ficaram ótimas, mas algumas são reveladoras como, por exemplo, aquela em que entre os convivas vemos gente de direita com falsa consciência de classe, pensando ser de esquerda e enchendo os copos de declarados golpistas. Que ressaca!

Há uma foto meio borrada, mas que dá para perceber no fundo uma luta de classes dentro da própria esquerda.

Quem diz “o PT morreu” não diz toda história, mas tenta matá-la antecipadamente antes que ela se desdobre a partir das forças vivas da sociedade, forças que podem ser incontroláveis por qualquer institucionalidade seja à direita seja à esquerda.

Lugar discursivo estranho esse dos que sentenciam a morte do PT, lugar escuro em que a esquerda encontra-se com a direita num desejo de morte.

Diria a esses pregadores da morte que tudo isso parece-me muito mais uma derrota de um campo específico do PT do que propriamente sua morte absoluta, afinal, há muito desejo de vida por aí capaz de tecer uma crítica ao PT sem costurá-la com o fio da morte. Há também muita subjetividade com vontade e vitalidade para fazer diferente do que o PT fez, mas sem sujar as mãos na lama do fascismo.

Nem todas as subjetividades que pulularam nestes anos tem a palavra morte na boca, nem todas são petistas, obviamente, contudo nem todas são anti_petistas. São forças que se afirmam pela própria positividade e não pela negação e/ou pelo ressentimento.

Nem tudo é morte como alguns proclamam por aí. Se quiserem fazer luto que façam. Faremos música e revolução. Faremos revolução e música.

Não seria então o caso de escapar desta condenação total do PT à morte e afirmar os fluxos de vida que, como disse Guattari em 82, seriam (e foram!) também estimulados?

Há muita vida por aí e é essa que interessa (re-)encontrar e (re-)afirmar diferentemente.

Desconfio dos que falam de uma morte transcendente sem se referirem minimamente à vida imanente.

Por que esse desejo de morte? Por que esse desejo de reduzir uma multiplicidade complexa a uma unidade a ser destruída?

É … Chegou o fim da festa. Os convidados se entreolham. Alguém precisa ser humilhado. – “Quem é o mais pobre?”