O logos do xamã

É bem possível que o que chamamos hoje pejorativamente de “astrologia” não tem o mesmo sentido do discurso (logos) sobre os astros dos povos da antiguidade. A arquitetura da pólis grega era planejada conforme a posição dos astros. É como se não houvesse – porque de fato não há – a separação entre o cosmos e a Terra (Gaia). A política tinha uma dimensão cósmica assim como até hoje têm para, por exemplo, os povos indígenas que vivem no Brasil. Uma questão instigante seria pensar uma articulação entre astronomia e astrologia, mas isso não é coisa para gente como Olavo de Carvalho e outros charlatões, mas sim para o líder e xamã Yanomami Davi Kopenawa que escreveu o clássico “A queda do céu” e hoje faz parte da Academia Brasileira de Ciências. O logos xamânico sobre as forças e entidades cósmicas e o discurso das ciências se aproximam.


::: Educação para a Democracia e para a Vida :::

1
A decisão de retorno às aulas deve ser técnica seja quem for o/os/a/as responsável/eis. Não é falando das posturas de A ou B a saída. Pandemia não é, a princípio, uma questão de ordem pessoal nem de grupos políticos, mas de SAÚDE PÚBLICA universal. Assim, os critérios que devem balizar qualquer deliberação e tomada de decisão referente a discussão sobre a volta presencial (mesmo híbrida) às salas de aula devem orbitar questões como: números de novos casos, número de óbitos, risco de contágio em ambiente fechados ou com baixa circulação de ar, experiências em outros estados, disponibilidade de vacina, etc.
1.1
Se ainda há transmissão comunitária em curso, risco de infecção, casos em que profissionais da educação se contaminaram em outros estados em que as aulas retornaram no modelo presencial/híbrido, tudo isso têm que ser exposto à comunidade escolar com muita transparência e tecnicidade.
2
Se tem pai de aluno indo à praia ou à balada a responsabilidade, ou melhor, a falta de responsabilidade é de quem age assim. Usar desse artificio retórico para tentar forçar um retorno apressado às aulas já que em tese “todo mundo relaxou” é revelador de um desprezo mal disfarçado à ampla maioria de professores e aos demais funcionários da educação que estão levando a sério as medidas de distanciamento e isolamento, e cumprindo da melhor forma possível suas funções pedagógicas. Ora, por que os professores e funcionários têm agora que pagar por atitudes irracionais de grupos de negacionistas da pandemia? Educação começa em casa, não se esqueçam.
3
Muitos cobram dos professores e demais funcionários para voltarem às salas e demais espaços escolares, mas quase ninguém cobra “vacinação já” para todos os brasileiros. Estranho não?3.1″Ah! Mas não dá para vacinar todo mundo do nada”, alguém logo dirá. Sim, não dá, mas daria, pelo menos de uma maneira muito mais eficaz do que o atual PNI em curso, se houvesse, por parte do estado brasileiro, planejamento e negociação antecipada com governos e laboratórios. Não faz sentido resolver um problema (vacina em número insuficiente) criando outro (trabalhadores sem vacina expostos ao risco de contágio pelo Sars_Cov_2 por horas a fio em ambientes fechados).
4
As frases mais usadas pelos defensores da “volta às salas de aula” são todas de ordem impessoal: “as escolas precisam funcionar”, “as aulas precisam voltar imediatamente”, “os pais de alunos estão indo à praias e baladas”, “os protocolos serão todos cumpridos”. Tais discursos revelam da parte de seus enunciadores uma postura de invisibilização e desconsideração dos profissionais e demais funcionários da educação, percebidos como seres anônimos e fantasmáticos, que têm a obrigação automática, em um contexto pandêmico gravíssimo e de inexistência de vacinação em massa, de receberem centenas de alunos todos os dias, vindos dos mais diversos lugares da cidade e de famílias com diferentes hábitos e condições socioeconômicas.
5
Os professores e demais profissionais da educação jamais se negaram e não se negam ao trabalho e, num contexto de uma pandemia de um vírus altamente contagioso e mortal, precisam ser, como todos os trabalhadores deveriam ser, considerados, antes de mais nada, em sua dignidade humana e não obrigados – por decreto ou outro dispositivo – a retornar ao trabalho em salas muitas vezes abafadas, sem ventilação adequada, para não dizer insalubres.
6
Usar para justificar o retorno das aulas o argumento da exposição de determinados grupos de trabalhadores ao vírus e ao contágio é revelador do menosprezo de certas parcelas da sociedade por todos os trabalhadores. Não faz sentido, a não ser por vingança, defender que mais um grupo de trabalhadores deva se arriscar a contaminar quando, na verdade, os trabalhadores deveriam todos ter garantida a vacina.
7
Se o horripilante “novo normal” da humanidade implica expor o outro ao risco de morte, se a política tornou-se, como diz o filósofo Mbembe, “necropolítica”, isto é, mera gestão da morte, então é preciso se perguntar sobre que humanidade estamos nos tornando em que o valor abstrato do dinheiro se sobrepõe ao valor concreto e sagrado da Vida.
8
A pandemia do novo coronavírus é uma questão de saúde pública e no caso da Covid-19 o único tratamento 100% eficaz chama-se vacina. Então temos todos que nos unir, democraticamente, em uma única voz: #VacinaJá para TODA população e pelo #SUS.


Economia primeiro. Saúde depois?

As redes sociais hoje operam como vitrines para a exibição de modelos humanos. A máquina capitalista adentrou o espaço da intimidade. Tudo deve ser exposto, todos devem se tornar influencers, todos devem ditar modas, hábitos de consumo. Nesta nova configuração do capitalismo consumir não basta, é preciso que o consumidor faça a propaganda do seu consumo atraindo para si o olhar de potenciais consumidores. Casas, carros, motos, roupas, bicicletas, sapatos, cervejas, cafés, passeios, bebidas, relógios, animais, livros, cargos, diplomas, parceiros, filhos, boletins, contratos, tudo, sem exceção, deve ser mostrado. Até o reflexo no espelho na academia deve ser reproduzido na tela. O sucesso se mede pela capacidade de consumir. Se você consome você é alguém. Se você não consome não existe, é um fantasma na sociedade de consumo total. Imaginem como isso é problemático numa sociedade de 16 milhões de desempregados e mais de 30 milhões de miseráveis vivendo com menos de dois reais por dia? Imaginem os traumas em adolescentes que não podem reproduzir padrões existenciais e de consumo impostos pelo mercado!Já o tempo de trabalho, as horas infinitas no trânsito, na loja, na fábrica, as dificuldades, os assédios morais, os direitos previdenciários e trabalhistas destruídos tudo isso deve ser ocultado. Vale mais a performance artificial de si em rede social do que o desmascaramento das estruturas de exploração da mão de obra e espoliação do trabalhador. Vale mais defender um mito idiota, ou assistir ao BBB, do que pensar na destruição total em curso no país que caminha, claramente, para uma guerra civil. Ou você acha que um decreto que libera até a produção caseira de munição é para ir para a disney? Antigamente diziam: “o importante é ter saúde”, “sem saúde não somos nada”. Agora, o importante é a economia, mas não uma economia em que os recursos existentes beneficiam a todos igualmente, e sim uma economia para uma minoria que faz a maioria brigar até a morte por migalhas. Nesta economia parasitária se você não tem mais saúde é logo descartado como os mais de 240 mil mortos na pandemia (e sabe se lá quantos mais até que toda população esteja imunizada). Quem se importa? E se for você o morto ou a morta as máquinas continuarão a girar exatamente como estão girando agora. Eles já têm até a frase pronta para fingirem que a sociedade brasileira não está sendo trucidada por um genocida que não trouxe a vacina para todos e em tempo hábil antes de novas e mais perigosas mutações: “é o novo normal”. No antropoceno, tempo em que o humano se torna a maior ameaça para o Planeta Terra, a própria humanidade é capitalizável. Você deve render ao máximo como uma aplicação financeira. O humano tornou-se “capital humano” e o trabalhador – sem direitos – “empreendedor”. Índios? Natureza? Ecologia? Alimentos sem pesticidas cancerígenos? Vacina para todos? Aquecimento global? Poluição? Derretimento das geleiras? Perda de biodiversidade? Pandemias? Racismo? Homofobia? Democracia? Tudo isso é coisa de vagabundo, de esquerdista, dirão os nazistas sobre as pilhas de mortos que não param de aumentar. A felicidade é um imperativo. Você precisa estar sempre sorrindo, sempre de bem com a vida. Apenas os fracos adoecem. Se você não venceu é porque é um perdedor. Se você está deprimido é “mimimi”. Na era fitness estar acima do peso é um crime. Na era em que todos querem ser os burgueses felizes da propaganda de refrigerante diet a tristeza é uma aberração. Pare de reclamar e trabalhe, ordenam os filhotes de Hitler. Mal sabem eles que a frase “Arbeit macht frei” (“o trabalho liberta”) era colocada nas entradas dos campos de extermínio do regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Na era em que a extrema-direita institui a barbárie reivindicar direitos é um crime. Os trabalhadores devem aceitar as piores condições, pois, a burguesia cínica dirá: “se você não quer tem uma fila de miseráveis lá fora”. O importante é que, apesar da crise total da humanidade, você encene a fama, ainda que dure 5 minutos, isso se você não for cancelado antes por turbas digitais fascistas que sempre terão a última palavra sobre sua vida até elegerem uma outra pessoa para destruírem amanhã. Mas não se esqueça: o cancelador de ontem pode ser tornar o cancelado hoje. Neste tempo de subjetividade colonizada pelo capital, os laços de solidariedade, colaboração e coletividade são rompidos. A competição adentra todos os espaços: no trabalho, na escola, na empresa, na academia e até no mundo das artes. Todos estão em competição, e não apenas com o outro mas consigo próprios. O indivíduo torna-se seu próprio algoz. Deve sempre se superar, ir além de seus próprios limites. O céu é o limite. Elon Musk é o homem mais rico do mundo. Ele tem 188,5 bilhões de dólares. Isso não o livrará do fedor da morte, embora hoje busque um meio de comprar a fórmula da vida eterna. Cabe a cada um pensar sobre as práticas e hábitos vigentes na contemporaneidade e se perguntar se vale a pena serem cultivados ou se devem ser revistos no sentido de repensar novos modos de existir, menos vinculados aos ditames da ordem capitalista que transformou tudo e todos em meros objetos de consumo e, pior, descartáveis como a pandemia do novo coronavírus demonstra todos os dias. Economia primeiro. Saúde depois? Escute, o sinal tocou. Agora é a vez dos professores irem para o abate.


:: Carnaval populista ::

Uma das estratégias de dominação cada vez mais perceptível na arena política é o populismo. Através do populismo, políticos se dirigem ao povo como se fossem “do povo”, porém o fazem para obter uma posição de poder e, tendo o alcançado, para se manterem acima da população empobrecida como se estivessem ao seu lado . O populista quer ser “o representante do povo”, “a voz do povo”. Mas o que é “o povo”? Quem é “o povo”?

Para o populista a existência objetiva do povo não importa desde que o chamado ao povo surta um efeito nas massas e produza uma identificação delas com o político. O que importa, em suma, é que um grupo de pessoas se sinta com partícipe desta miragem de povo e dê guarida para as ações do político populista.

A política populista é antes de tudo um “modo” de exercício do poder. Sua característica básica é o contato direto entre as massas urbanas desorganizadas empobrecidas e o líder carismático, facilitado na contemporaneidade pelas redes sociais.

Para ser eleito e se manter no poder, o político populista procura estabelecer um vínculo emocional com o “povo”. Isso implica em um sistema de táticas, discursos que criam um nós e um eles, promessas e ações efetivas para o aliciamento das classes sociais de menor poder aquisitivo, além da classe média urbana, como forma de angariar votos e prestígio através da produção de uma simpatia crescente.

O populista geralmente começa seus discursos com a palavra “povo”. Além deste artifício retórico, alguns populistas, no presente, têm abdicado do famoso terno e usado camisas de time de futebol. Afinal, se alguém usa uma camisa de um time popular é do povo, não é mesmo?

Ao lado das críticas há também considerações positivas do populismo. O cientista político Ernesto Laclau vê no populismo um espaço em que as classes excluídas são convocadas para exercerem o poder do qual foram historicamente alijadas. Para ele, essa prática política representa uma articulação profunda por mudanças institucionais e “teve um papel positivo para a democracia” na América Latina, onde os movimentos de massa têm provocado mudanças políticas, com a ascensão de governos de corte nacional-popular.

Porém, na prática, a inclusão dos excluídos pelos populistas no jogo político nunca é integral. Afinal, os populistas precisam dos precariamente integrados para permanecerem no jogo. Eles, como se costuma dizer, doam as migalhas para permanecerem na mesa da casa grande com direito a um naco da fatia mais nutritiva do pão ou então dizem “chega de migalhas para nosso povo! faremos a nova política”, porém tão logo eleitos dobram-se ao mais velho jogo (que nunca na verdade deixaram de jogar), em que a maioria permanecerá excluída, embora acreditando que finalmente participa do banquete.

Em sua versão de extrema-direita, a política populista tira do povo (que a legitima com seu voto de confiança) direitos trabalhistas e previdenciários conquistados através de lutas históricas, mas utilizando leite condensado torna o arrombamento dos direitos amargamente conquistados muito mais doce.


A representação da política da representação

Na “sociedade do espetáculo”, para relembrarmos o conceito do filósofo Guy Debord, a atividade política é antes de mais nada espetáculo. Incapaz de transformar a realidade, a política torna-se imagem ideal desta transformação que nunca acontece. Parecer é condição suficiente para as redes sociais se movimentarem.

As imagens e os discursos não devem tornar visíveis a decadência que são obrigados a abordar mas apenas, mobilizados através de uma narrativa que vai do moderno ao vaporwave, modulados por dispositivos computacionais de edição, operar uma retórica de progresso abstrato, desenhar um arco-íris de esperança sobre o abismo a fim de convencer as massas silenciadas que amanhã vai ser maior.

A catástrofe ecológica não deve ser percebida em sua magnitude apocalíptica, mas apenas como imagem fantasmagórica veloz a ser esquecida tão logo o próximo assunto for também rapidamente abordado. O problema do desemprego não deve ser problematizado a fundo desde suas causas, mas ao desempregado deve ser dada a esperança retocada pelo photoshop de uma vaga em um local de trabalho que ainda nem concretamente existe (apesar da fila imensa no lá fora não enquadrado).

A gravidade da pandemia do novo coronavírus e os milhares de mortos não devem fazer as pessoas pensarem sobre o risco de infecção nem, muito menos, pensarem sobre a própria morte. A mensagem que circula acima dos 230 mil caixões de brasileiros é que apesar dos cadáveres importam as cores de uma economia (que no final da contas mantém mais de 14 milhões de brasileiros na miséria absoluta).

Porém, por alguma força subsistente do real, algo vaza pelas brechas da estetização espetacular da política: a decadência velada se revela. A verdade é horrível, mas a mentira mais ainda.

Nós sabemos quem vocês são e o que representam.