O que fazer?

A ampulheta do século XXI escoa e ainda, habitantes da Terra, não nos demos conta dos desafios que temos ali na frente. O clima do planeta está mudando aceleradamente e vivemos como se estivéssemos no século XX. O avanço da extrema-direita com seus programas hiperliberais reforça o ciclo destrutivo. A esquerda precisa se reformular para fazer o enfrentamento e apresentar novas propostas, mas não sei realmente se as pessoas estão dispostas a ouvirem, a dialogarem, a mudarem seus hábitos e atitudes. Os professores que neste grave momento de profundas incertezas deveriam ser ainda mais valorizados enquanto agentes estimuladores da transformação são menosprezados, insultados, humilhados. O mesmo acontece com os cientistas que confirmam o avanço da destruição da fauna e da flora pelo homem. Suas bases de dados e metodologias desenvolvidas por anos a fio são desconsideradas por idiotas como Donald Trump e Bolsonaro que estão a milhões de anos luz de compreenderem o que os principais cientistas do mundo chamam de “antropoceno”, isto é, a entrada do Sistema Terra em uma nova era geológica na qual o homem torna-se um fator de desequilíbrio e de desencadeamento de catástrofes. Os artistas que poderiam produzir novas formas sensíveis também são escanteados com o desmonte de organismos e instituições culturais. Isso sem falar na liberação de pesticidas cancerígenos, na volta da fome, do desemprego em massa e de reformas que destroem direitos históricos conquistados com sangue e suor pelos trabalhadores. Atolados em políticas fracassadas, conservadorismos tacanhos, fascismo, austeridade, exploração do homem pelo homem, não estamos conseguindo avançar para as questões que serão importantes em poucos anos, especialmente a questão climática… Se as previsões da ciência se confirmarem a humanidade não passa do século XXI. O aumento de mais dois graus Celsius na temperatura global pode produzir uma catástrofe inimaginável, agravamento do derretimento das geleiras, desequilíbrios de ecossistemas inteiros, o fim da humanidade. O que nomeamos de Terra continuará. Sem nós. O que podemos fazer? Poucos sabem e estes poucos, como os povos indígenas, estão sendo massacrados.

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Geologia da moral petropolítica

O discurso moralista sobre corrupção não é o resultado de um esforço de entendimento do sentido ou dos múltiplos sentidos que a corrupção tem em uma determinada sociedade e em um determinado período histórico, mas expressa uma satisfação perversa em atribuir a alguém ou a um conjunto de pessoas a pecha de corrupto, como se aqueles que o proferem pairassem desde sempre acima de toda e qualquer corrupção. Visa-se antes, por interesses escusos (e corrompidos?), a aniquilação de uma pessoa ou de um grupo do que propriamente a corrupção, esse obscuro objeto do desejo de acusar e condenar (em muitos casos sem provas). Em seu famoso texto “Teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista” Adorno diz que “a esmagadora maioria dos pronunciamentos de todos os agitadores é direcionada ad hominem”. Os convictos discursos da corrupção na Petrobras serviram aos moralistas não exatamente para criarem “um Brasil livre da corrupção” (como tanto alardearam) mas para, através da personalização da corrupção, produzirem o simulacro de uma empresa corrompida, quebrada, deficitária e estabelecerem as condições para, progressivamente, venderem-na a preço menor do que o preço da banana nanica sob o aplauso e os likes dos cidadãos de bem irmanados de verde e amarelo contra a corrupção dos outros, nunca a de si próprios e de seus heróis justiceiros, flagrados com as mãos sujas de óleo. O moralizador da corrupção não é, entretanto, tão esperto quanto esforça-se para parecer, deixou no caminho suas manchas. Um vazamento de informação encontra um vazamento de óleo. É como se informação e petróleo corressem agora nos mesmos dutos. O filósofo Reza Negarestani chama de “petropolítica” a cartografia do óleo como uma entidade onipresente narrando as dinâmicas da Terra. A língua do século XXI está suja de petróleo. “A petropolítica pode ser estudada para perseguir a emergência da Xerodrome (Terra-Deserto) como um clímax plano para a Odisséia da Tubulação ou um mundo cuja narrativa é primariamente conduzida através e pelo petróleo”.


Fature-se

Começaram com a escola sem partido, concomitantemente passaram a atacar o ensino de filosofia, sociologia, história e geografia no ensino médio, com a PEC do teto de gastos aboliram investimentos em saúde e educação por 20 anos, aprovaram a reforma do ensino médio e desestruturaram o programa de iniciação à docência (PIBID), acusaram as universidades públicas de balbúrdia, colocaram a população contra professores e pesquisadores, cortaram verbas, pregaram violência e ignorância, espalharam narrativas delirantes como a da terra plana para deslegitimar o discurso científico. Depois de anos de ataques à educação, às ciências e às instituições públicas de ensino encenam o receituário retrógrado neoliberal num cenário kitsch futurista. A “ponte para o futuro” criou as condições de possibilidade para o “future-se”. Sopra-nos melodicamente o Luiz: “tá tudo solto na plataforma do ar. Tá tudo aí, tá tudo aí. Quem vai querer comprar banana? Quem vai querer comprar a lama? Quem vai querer comprar a grana?” Quem vai futurar-se, ou melhor, quem – “empresário de si” – vai faturar-se? Quem obedecerá a velha e nova ordem (e progresso?) da destruição em curso?


Beira-mar

Se fôssemos bons em política como somos em memes estaríamos feitos, mas nos jardins os urubus continuam a passear a tarde inteira entre os girassóis. “Aqui é o fim do mundo. A bomba explode lá fora. E agora, o que vou temer Oh, yes, nós temos banana até pra dar e vender”. “Veja que beleza em diversas cores, veja que beleza em vários sabores a burrice está na mesa”. “O Glauber chorava as crianças com fome”. “Uma criança sorridente, feia e morta estende a mão”. “O Glauber chorava esse país que não deu certo. “Não chegaremos a uma civilização pela harmonia universal dos infernos”. O Glauber chorava a brutalidade. “Soldados e otários do Brasil. O que é o Brasil? O que é o brasileiro? Na mansão dos Aranha alguém grita de fome”. “Quem vai querer comprar banana? Quem vai querer comprar a lama? Quem vai querer comprar a grana?”. “O Glauber chorava a estupidez, a mediocridade”. “Aranha, alto financista, banqueiro, político e testa-de-ferro internacional, do coração da favela para o resto do Brasil”. “No meio da esperteza internacional a cidade até que não está tão mal. E a situação sempre mais ou menos: sempre uns com mais e outros com menos”. Chega de lights e all rights, good nights e faufaits isso não dá mais pra mim”. “Aqui é Capão Redondo “tru” não Pokemon”. E “a cidade não pára, a cidade só cresce, o de cima sobe e o de baixo desce”. “O Terceiro Mundo vai explodir” no “dia em que o morro descer e não for carnaval”. “Quem tiver de sapato não sobra, não pode sobrar!”. Beira-mar …


No abismo das convicções

Nesta época em que o mais certo é o incerto verifica-se o uso recorrente da palavra convicção. Uma defesa? “Eu tenho convicção de que X é culpado”. “Eu tenho convicção de que a reforma X é boa para o povo brasileiro”. “Eu tenho convicção de que a esquerda …”. Este ‘eu’ convicto incapaz, ou com medo, de colocar-se em questão afirma estar convicto de alguma que sabe, profundamente, questionável, frágil. Ele próprio, admitamos logo, é questionável, frágil, e por isso fantasiar-se como absolutamente inquestionável passa a ser necessário para produzir uma aparência de verdade quando expressar suas convicções. O sujeito de convicção deve ser uma convicção aceita tácita e passivamente por todos. Convicto de sua própria substancialidade, e certo de que o público não tem dúvidas quanto a isso, declara sua convicção em alguma coisa: “eu tenho plena convicção de que a reforma X vai gerar mais empregos”. O sujeito convicto de si, e questionável, declara sua convicção em alguma coisa incerta, que não consegue demonstrar. A convicção neste segundo nível opera para doar um efeito de verdade, gerar uma atmosfera de credibilidade, para um discurso sem fundamento. A convicção é uma âncora lançada no sem fundo. Hoje, ao amanhecermos mais uma vez com menos futuro, os brasileiros não debatemos a, terrível para a maioria, normal para a minoria, aprovação da reforma da previdência, mas o voto de um eu convicto. E a convicção neste eu convicto – seja para defendê-lo seja para criticá-lo – mais uma vez nos estraçalha e a previdência, a questão, o problema, é abandonado. Lembro de Nietzsche para quem “não foi o conflito de opiniões que tornou a história tão violenta, mas o conflito da fé nas opiniões, ou seja, das convicções”.


Extinção

O mundo em que nascemos existe cada vez menos. O século XXI só está começando e pode não acabar bem [para a humanidade]. O fim do mundo não é o fim do mundo, mas o fim do mundo como nós conhecemos. Veja as notícias: os seres humanos estão divididos em grupos como macacos em guerra. No Brasil, o “presidente” naturaliza estupro, defende trabalho infantil, goza com armas e sonha com torturadores. Um juiz de província, tornado ministro da justiça pelos serviços sujos prestados, condena e absorve a seu bel prazer sádico. Nos EUA a entidade no poder constrói um muro na fronteira com o México para segregar. Você consegue perceber os signos da mais completa decadência e da destruição? Ou o vírus zumbi já te infectou e tudo o que consegue dizer é que odeia o (complete). Você foi programado para odiar? Game over. Não há remédio para curar o ódio do corpo, da mente ou da língua. Não adianta gritar que isso é ideia de esquerdista. As categorias políticas do século XX não fazem mais sentido. Esquerda? Direita? Ninguém sabe quem realmente está no comando (ou sabe, mas tem pavor de assumir). Ninguém sabe o que vai acontecer no próximo segundo (ou sabe, mas tem pavor de admitir). O fato é que não há ponto de retorno do apocalipse zumbi desencadeado. A aceleração de todos os processos terrestres é evidente. Mesmo o Paraíso de céu azulado faz sua parte. Memes [aparentemente inocentes] são micro-dispositivos da escalada total. A inteligência artificial não é previsível como os seres humanos. Máquinas venceram as eleições. A verdade morreu no zap com a terra plana sob os pés e com uma mamadeira de piroca na mão. Celulares e fake news sejam louvados. Steve Bannon é um homem ou um robô? Tudo que parece pode não ser.