antropologia

depois da utopia da revolução escorrer das lentes embaçadas da professora na sala do nonagésimo nono andar francis ganhou as ruas daquela tarde de primavera sem flores, fria.

quase sem pensamentos atravessou as ruas sem olhar para os lados. se fosse atropelado morreria de azar, imaginou de brincadeira. os ladrilhos da praça formavam um caracol cinza e branco úmido e brilhante, chovia.

enquanto caminhava, cada vez mais veloz, observava a multidão que, como ele, decidia se procurava um abrigo ou se molhava.

a última coisa que cogitava é que seria interpelado, assim de repente,  em frente à catedral gótica onde os últimos pombos negros e velhos bicavam o milho que não virou pipoca.

– oi. você pode me ajudar?

francis pensou em ir mas voltou e acenou com a cabeça como quem diz: “vai, diga” …

– eu não sou daqui e estou sem dinheiro para o ônibus, disse o rapaz que francis de relance percebeu estar usando uma camiseta ao contrário por baixo do casaco marrom puído; a etiqueta parecia grudada ao seu pescoço, moreno, gordo e curto.

–  amigo, estou sem dinheiro, respondeu francis já pronto para mergulhar novamente nas profundezas da tarde escura.

– & meu namorado você quer ser?

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