A teoria não é um bom músico de free jazz

Teoria não é manual, nem – muito menos – bíblia, mas já que nós brasileiros, e latino-americanos em geral, adoramos – mesmo os ateus – manuais – e bíblias – mesmo as escritas por fervorosos ateus, então é melhor conhecer mais do que um versículo. Império, (2000),  Multidão (2004) e Commons (2009)  fizeram – talvez – algum sentido em determinado momento, mas o mundo gira e a teoria não é o que cria o movimento do mundo, mas o que tenta – sempre sem sucesso acompanhá-lo. A teoria não é um bom músico de jazz e eu não sou um leitor de Negri & Hardt, mas até onde sei em um texto subsequente, “Assembly”, a dupla tenta – não sei se com sucesso – dar conta desse tipo de problema colocado pelas próprias dinâmicas imprevisíveis do mundo à teoria;  mantêm a crítica às formas tradicionais e centralizadas de liderança política, mas parecem reconhecer que organizações políticas sem liderança são insuficientes. A proposta, se a compreendo minimamente, seria uma liderança responsável por ações táticas de curto prazo porosa para a multidão, ou se quisermos para um base democrática radicalmente ampliada, convocada para a formulação da estratégia.”The Shape Of Jazz To Come” fez 60 anos em 2019. Qual será a forma da revolução por vir? Ela precisa mesmo de uma forma ou a forma é criada no movimento com improviso, mas também com técnica? A este respeito as obras de Ornette Coleman, e por que não Itamar Pretobrás Benedito João dos Santos Silva Beleléu Vulgo Nego Dito, Nego Dito Cascavel Assumpção, têm muito a nos inspirar.


Crítica à crítica instrumental

Parece imprudente estudantes de filosofia simpáticos à teoria crítica atribuírem a filósofos como Foucault uma certa responsabilidade, por exemplo, pelo neoliberalismo. Tal atribuição não configuraria um uso instrumental da razão? Os estudantes, neste caso, não estariam instrumentalizando o pensamento de um filósofo, confundindo eventuais, bem reais é verdade, capturas instrumentalizadoras de conceitos filosóficos com a filosofia do pensador, e assim virtuosos, orgulhos de tanta sapiência, adormeceriam, eles e seu público cativo, acometidos pelo que mais, em tese, abominam?


Sem grana para Bacurau

A classe-média ilustrada espera a revolução popular mediada pelas imagens cinematográficas comercializadas no presente pelo capitalismo autoritário. Não percebe, imersa em sua experiência estética, que é antes de mais nada uma experiência de classe, da classe que não precisa escolher entre o pão ou a entrada no cinema, que o cinema é muito caro em um país de milhões de desempregados e milhões de subempregados. Quantos desempregados ou subempregados viram Bacurau, por exemplo? Em muitas das análises do filme há, parece, um desejo por um levante popular, mas em nenhuma delas uma reflexão sobre a ausência nos cinemas deste povo que se deseja que se levante. Falta à classe-média ilustrada a experiência da pobreza. Tal experiência é a que pode instaurar um princípio de aliança entre o desejo, por enquanto satisfeito esteticamente, de trair sua classe e a traição efetiva feita politicamente e, sim, esteticamente. “Biscoito fino para as massas”, não era assim que dizia Oswald de Andrade? A quebrada antropofágica tá no apetite para devorar Bacurau, Coringa e a classe-média. Que suas parcelas ilustradas banquem o banquete dos famintos é urgente para provar de vez que a identificação com a pobreza não é só estética, mas também política e econômica, superestrutural e infraestrutural, revolucionária. Querem mesmo o comum? Realizem-no para além dos seus círculos de consumo e reprodução. Quem sabe assim teremos o princípio de um cinema que não se satisfaz nem se esgota com a representação da revolta consumida com pipoca cara no shopping center.