Ando, logo penso

Experienciar o estar no movimento requer um método adequado ao movimento, ou seja, um método também em movimento e, talvez mesmo interno a ele, para, quem sabe, vivenciarmos, ‘estarmos’ profundamente, ainda que por um instante mais veloz que a luz, em todo o seu desenrolar que pressentimos em nós quando hoje ao invés de dizer que somos algo fixo e determinado dizemos simplesmente que estamos.

Que método seria esse que possibilitaria assistirmos a vida em todo seu desenrolar imensurável movente e não apenas a cada um dos seus quadros estaticamente (mesmo que dados todos de uma só vez)?

Marx apreciava fazer pesquisas de campo, gostava de estar no movimento, em movimento.

O método ressoa na prática e a prática renova o método.

Descartes chegou no cogito sentado defronte à lareira.

Nietzsche valorizava os pensamentos ao ar livre.

Cogito para um andarilho: ando sem destino, logo errante penso no movimento.

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Drama e trevas com volume

“Abrimos um portal muito perigoso”, enunciava Tantão na faixa “Portal” do álbum “Espectro” de 2017. Dois anos depois, em “Drama”, álbum recém lançado no oceano dos sons digitais, o artista carioca parece enfrentar os fantasmas que saíram por aquele portal “letal, perigoso, maravilhoso, barra pesada”.

Na imanência de agenciamentos eletrônicos desconcertantes, que afetam o corpo para uma dança caótica, e versos cortados com precisão do caos informacional e existencial, Tantão, numa incorporação de Burroughs e Andy Stott, apresenta com volume, declama grave, berra, repete até a exaustão, o drama que o afeta, não como uma essência idêntica a si mesma – o drama ali não se define – antes é a experiência, o vivido, de um fluxo caótico de acontecimentos ora sublimes ora absolutamente banais.

O artista vive o drama do tempo fora dos gonzos do contemporâneo e devém dramático.

Blocos de informação sonoros ruidosos e imagéticos intensos são repetidamente disparados por “Tantão & os Fita”. O entendimento tenta organizar um conhecimento sustentando-se nestas repetições que parecem fornecer-lhe o tempo necessário e suficiente para operar um juízo e oferecer uma explicação. Entretanto, a série de repetições verbovocovisuais é entrecortada por uma nova série. O entendimento desiste e deixa a fruição para a sensibilidade e para a imaginação que, em colaboração, não se atêm a emitir um juízo desinteressado de beleza e mergulham no caos, na velocidade das informações, para uma experimentação.

A música do futuro, expressa terríveis acelerações, mas também incríveis lentidões, fricciona com um presente político vivido em uma rede social iluminada por luzes estroboscópicas.

Vivemos num mundo perigoso, o mundo corre um grande perigo, sabemos de tudo, acompanhamos os fatos quase no instante em que acontecem, fixados no horizonte das telas, assaltados a cada instante por uma sucessão ininterrupta de urgências angustiantes e memes que nos aliviam. O casamento do príncipe William torna-se mais próximo do que as balas perdidas que encontram nossos corpos, do que a política de extermínio e encarceramento da juventude negra e pobre.

Nos interstícios das repetições do disco digital que toca no bandcamp ou no youtube o ouvinte muda de tela e mantém a música de fundo, não suporta a repetição e quer uma novidade, mas a fuga compõe-se com a repetição, a fuga é mais ainda para dentro da repetição.

A imagem da lama de rejeitos capturada pelas câmeras da empresa de extração predatória de minérios é assistida em um vídeo no youtube compartilhado no facebook e no twitter enquanto “Drama” continua a tocar no bandcamp. “Crise nas infinitas terras”. “Crise nas infinitas terras”.

A obra não transcende os dados, continua a ser composta com eles, deles. O mundo é trilha imagética para o disco.  “Infinitas são as dores e a dor não para, a dor nunca para”; (…) “ninguém nunca voltou”;

“Vai rolar a divisão dos mundos”. O espectador, atraído por uma enunciação fulgurante que inaugura uma nova série de repetições, volta à tela de Tantão.

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De uma série Tantão fulgura, a partir de uma palavra diferencial, uma nova série que passará a ser repetida sem transcender àquela.  Mas a repetição não é do mesmo. O que repete são série iniciadas com um dado diferencial. O dado é ele mesmo uma diferença que inicia uma série que repete até a inserção de um novo dado.

Obra, mundo, ouvinte compõem uma estranha máquina com múltiplas entradas e saídas.

Em um de seus regimes de funcionamento não haverá mais um Eu substancial que ouve a obra, o eu descobre-se fragmentado, ora tragado ora centrifugado, forçado a compor com a obra que lhe abre outras condições de composição do mundo, que lhe aparece em processo de decomposição.

“Crise nas infinitas terras” “crise hídrica”; “crise”; “infinitas são as dores e a dor não para, a dor nunca para”; “se você cair, vai”; “ninguém nunca voltou”; “vai não volta”; “vai rolar a divisão dos mundos”; “está pegando fogo”; “está pegando”; “a brutalidade do estado”; “você tem coragem?”; “Choque! “Um corpo estranho. Um golpe estranho!” “Cabeças vão rolar”; “Eixo do Mal”. Estas são as informações que temos.  O drama é o que se presentifica sob a hegemonia do “eixo do mal”?

A imaginação e a sensibilidade parecem não suportar a quantidade excessiva de informações. As informações disponíveis também não possibilitam uma afirmação política. Enxames de fakenews atacam o sistema de segurança humano.  Um imenso ruído envolve os ouvidos e faz tremer a carne agora glitchzada.

Não há criação possível no “eixo do mal”, ao lado de justiceiros moralistas e tiranos patéticos no poder. Incêndios, rompimentos de barragens, reformas impopulares, extermínio de pobres em favelas e ocupações, perseguição a movimentos sociais e intelectuais, comemoração da morte de uma criança, obscurantismo, recrudescimento penal e licença para a polícia matar. Encontramo-nos sob a subordinação, quase completa, do drama que Tantão sintoniza e nos informa logo nos primeiros instantes do disco.

Dados dispersos, despedaçados, fragmentados, signos da decadência entre signos de potência ativa e resistência, alcançam o pensamento e este em sua crueza maquínica é forçado, violentado, a pensar, a selecionar, e a expressar um outro sentido – não reativo – para estas forças violentíssimas que o confrontam como um pássaro que canta sob as sirenes de emergência em Mariana ou em Brumadinho ou em…

A repetição repete até que o pensamento_ouvinte dissolvido sintetize um outro sentido. A criação tem relação com novos sentidos. A criação de Tantão, mas poderíamos incluir aqui perfeitamente Negro Leo, levada ao limite força o pensamento a criar. A arte encontra a filosofia.

“Há um corpo estranho. Há um golpe estranho. Há um corpo estranho. Há um golpe estranho”.

Há uma possibilidade de resistência descobre o pensamento que não dirá que a resistência agora é impossível, mas criará um novo conceito para resistência. Concomitantemente ao anúncio do avanço do “choque”, de que “cabeças vão rolar” e da presença do “eixo do mal”, os signos concretos da resistência se manifestam… Nem tudo é dominação. Onde há poder, há resistência. E Tantão pergunta quantos Negros tem aqui? Quantos Índios tem aqui? Quantas Trans têm aqui? Quantos Gays tem aqui? Quantas Minas tem aqui? Quantas Vidas tem aqui?

A entidade Tantão toma o partido da vida, das minorias, dos ameaçados, do que se esforça para viver e criar, da vontade potente a que nada falta, um sintoma para um novo conceito de resistência que traça uma linha de fuga radicalmente democrática ao mesmo tempo em que faz fugir as forças tiranas do iluminismo sombrio que Jards Macalé, antena da raça, em sua evocação antropofágica ao Cantos I de Pound, também captara.

“Trevas, Trevas                                    Treva, a mais negra, sobre homens tristes”

Ameaçadas pelo terror necropolítico que deseja perversamente se impor sobre o corpo e sobre a alma que é o pensamento do corpo, as obras de Macalé e Tantão atravessam-se.

“Há um golpe estranho”; “Chegamos ao limite da água mais funda”; “Há um golpe estranho”; “Chegamos ao limites da água mais funda”.

Ao pensamento abalado com o que lhe chega através do delírio disjuntivo da sensibilidade, do entendimento, da imaginação resta resistir. Mas reagir aos sinais do fascismo é insuficiente. Girar no denuncismo alivia a consciência, mas não muda as coisas de fato. Resistir nesses termos é reação às relações determinadas pelos poderes da máquina estatal completamente engolida pelo regime capitalista. Resistir precisa também ser ação, início de uma cadeia causal, criação e não apenas resposta à ação da tirania.

Parece necessária a criação, ou recuperação, de um conceito de resistência que não se limite a simbolizar estaticamente um mover-se reativo, culpabilizante, ao terror, mas sim, e principalmente, que encarne uma prática, um enxameamento, um revesamento de ações estéticas (por que não?), éticas, políticas, organizativas, moleculares e molares, individuais e sociais. Ao conceito de resistência somam-se componentes de criação, organização e ação, nas redes e nas ruas. Resistência como máquina revolucionária e não apenas reacionária.

“Chegamos ao limite da água mais funda” e, neste afogamento desesperador, sufocante, as forças da vida prevalecem, e então: levantamos, com Macalé e Tantão, o olhar pro céu. Conforma-se aí “uma nação” enquanto multiplicidade de vidas que resistem ao baixo, ao vil, ao escravizador, em diferenciação criadora.

Através dos álbuns “Drama” de Tantão e “Besta Fera” de Macalé escutamos que é possível resistir às forças retrógradas sem reatividade, mas com invenção. Resistência, criação e ação no mesmo plano de imanência que mergulha no caos e traça linhas para uma organização revolucionária.

Macalé e Tantão nos fazem pensar um conceito de resistência criadora para que o mundo, este mundo, mundo de extermínios como o cometido no Fallet por forças policiais (com amplo apoio, ou vista grossa, dos setores remediados das classes médias) nunca mais se repita.

Situados no terceiro gênero de conhecimento estes artistas convidam à produção de algo novo, “para que a vida possa passar, para que novas linhas estéticas, éticas, politicas, cientificas, filosóficas passem, para que novas formas de vida surjam”.