América 19

Em “Europa 51” de Rossellini a personagem de Ingrid Bergman após ver os operários de uma fábrica comenta: “pensei estar vendo condenados”. Em “Arábia”, filme de Uchoa e Dumas, um “condenado” ao trabalho fabril vê a sua própria situação e a possibilidade dos demais trabalhadores se perceberem como condenados. “Queria puxar meus colegas pelo braço e dizer para eles que eu acordei, que enganaram agente a vida toda”. A revolução é também uma questão de abertura de um tempo de percepção em que o trabalhador – esse “cavalo velho”, “cansado” – se dá conta de sua posição subalterna na organização produtiva capitalista que suga todas as suas energias. Nesta abertura temporal, o pensamento, então obstruído pela rotina e pelo cansaço, se reposiciona e intui um tempo vital que não é mais o tempo da exploração da força do desejo para a reprodução de um mundo que não se deseja, mas da produção desejante e imanente de um mundo em que o desejo se satisfaz com sua própria produção, portanto se alegra com o mundo. Um tempo em que não será necessário pedir ao superior abstrato para tomar água.

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