#Uai_Fi_Bar

Vim visitar minha mãe no interior de Minas Gerais. Nas últimas noites comecei a escutar sons, músicas, risadas e conversas vindos da rua de onde, num passado não tão longínquo, depois das dez ouvia-se, o uivo do vento, o miado de um gato atravessando o telhado, no máximo os passos de alguém que fez hora extra na fábrica e que voltava depressa para casa. “Depois das dez a cidade morre”, dizia-se por essas bandas. Abro a porta e vejo espalhados pelas calçadas e no meio-fio dezenas de adolescentes iluminados, na noite quente sem luar, pela luz do celular, mais ou menos em frente a um barzinho aqui do lado. “O bar tá fechado, mas o wi_fi tá aberto uai”.


A resistência está viva

Enquanto intelectuais constatam há anos a morte em tudo o que analisam (sintoma mórbido de origem gástrica ou intestinal diria um certo alemão), os índios, mas também, os quilombolas do Paiol da Telha, os moradores das comunidades ocupadas pelo exército e pelas milícias, fazem guerra pela vida por dentro da maquinaria da política da morte. Movimento indígena recusa o Projeto de Lei (PL) 191/2020, de autoria do governo Bolsonaro, que libera a mineração em terras indígenas. A esquerda não morreu; talvez algumas de suas figurações (e figurões). Ela expressa o que sempre a moveu: desejo de mudança, movimento em pleno deserto. Resiste minoritária, indígena, sem-terra, sem-teto, sem apê em região nobre de sampa (“aqui é capão redondo ‘tru’ não pokemon”), desempregada ou precarizada, com fome ou mal alimentada, sem direitos, sem possibilidades de continuar os estudos, sem grana pra nada, sem dólar para incendiar a disney (“as ruas não são como a disneylândia”), moradora de rua ou com a casa invadida pela enchente ou ainda destruída por mais um deslizamento de terra. Ela é cada um e cada uma capaz de dizer junto “vida” quando a maioria diz “morte”. Brada a cacica Iracema Kaingang, do Paraná: “chega de matar a mãe terra, chega de tanto desmatamento. Já derramaram muito o nosso sangue em mais de 500 anos. Eu estou aqui com minha neta de 10 anos de idade. Quero saber se ela vai ter que continuar brigando por causa disso também”.