Desgoverno

Diante de tudo o que, diariamente, há mais de um ano desde o início da pandemia, observo neste país desgovernado em meio a maior crise de sua história, não é nada absurdo afirmar que nós que estamos vivos agora, e até agora, somos sobreviventes. Espero que consigamos sair desse turbilhão diário de novas infecções, multiplicação de variantes e mortes, porém a cada novo dia, diante dos fatos, assim como das posturas dos que deveriam dar o exemplo, isso parece cada vez mais distante, como uma miragem que se forma no horizonte e desaparece quando nos aproximamos dela. Doloroso saber que todo esse horror resulta de uma escolha deliberada, fruto maldito de uma estratégia (imunidade de rebanho) despropositada, que acabou por provocar o aparecimento de novas variantes mais contagiosas como a P.1, consequência evidente do atraso – proposital – nas negociações e na aquisição de vacinas para toda a população. Sobreviventes de um crime contra a humanidade, simultaneamente negado e aplaudido por milhões, inconscientes de que eles próprios podem ser as próximas vítimas.


Lockdown & luta de classes (1)

Só vai haver um lockdown de verdade no país no dia em que o governo federal em articulação com os governadores e prefeitos compreenderem a necessidade de criação e aprovação de um novo pacote de auxílio emergencial para os micro e pequenos comerciantes e trabalhadores em geral.

No nível das municipalidades, penso ser necessário um projeto de lei que proponha nas ocasiões de grave crise social, como é uma pandemia, descontos nos impostos, nas contas d’água, etc. Estas “ondas” do Minas Consciente, tomando o exemplo de Minas Gerais, são inconscientes da realidade dos trabalhadores e dos pequenos e microempresários do país.

A pauta dos micro e pequenos empresários deve se unir à pauta de todos os trabalhadores e reivindicar um programa robusto de auxílio financeiro, acompanhado de testagem em massa, rastreamento e isolamento de casos e, claro, aceleração do Programa Nacional de Imunização (PNI). Somente assim, o país começará a sair deste abismo sanitário e econômico que políticos irresponsáveis, sem visão e compreensão da complexidade social, estão criando.


Gestores da morte

A política em sua forma necropolítica contemporânea faz a gestão da morte. Políticos de direita e de extrema-direita se negam a defenderem a população por meio de proposições de medidas econômicas e sanitárias que permitam às pessoas se protegerem do vírus e da aniquilação da existência. E, ao ocultarem, que o Estado tem sim poder e dever de defender a população vitalmente e economicamente terminam por defender que as pessoas se exponham ao contágio viral e à morte.

Nesta época de retorno à barbárie, a política, desvirtuada de sua orientação clássica para o bem viver, decide quem pode morrer e a vida humana torna-se objeto de cálculo, planilhas, estatísticas, controle e certamente objeto de cálculo eleitoral. Para alguns “representantes do povo” nenhuma das vidas entre as mais de 260 mil aniquiladas pelo sars-cov-2 é mais importante do que uma nota suja de dinheiro ou uma possibilidade de voto numa futura eleição que, pasmem dado a gravidade dos últimos acontecimentos, nem sabemos mais se haverá. Acostumaram tanto com o passado que nem cogitam que o futuro depois dessa tragédia poderá nem chegar e se chegar será em um mundo completamente diferente do que o que até hoje conhecemos. Bem vindos ao século XXI, bem vindos ao mundo em que o homem destruiu. Mas enquanto esse futuro para eles não chega (pois para nós que estamos mortos já chegou e eles não perceberam) continuarão a insistir na ideia de que a roda não pode parar, tomando sempre o cuidado, “e os devidos protocolos”, de que o número de mortes seja administrável e não impressione muito a população.

Durante o holocausto haviam os homens que operavam os trens que levavam os judeus para os campos de concentração e de extermínio. Esses homens, como vimos através do conhecido caso Eichmann, não se importavam com o que se passava depois que os trens eram liberados, afinal o trabalho deles era apenas fazer com que a logística funcionasse e nisso eles eram exímios cumpridores do dever a eles incumbido.

Quando ouvimos certos discursos que vão do “economia primeiro saúde depois” até as promessas de milhões de vacinas (que nunca chegam de fato), lembro de Eichmann, cujo depoimento, mais tarde, em tribunal internacional revelou que sua participação na barbárie nazista fora uma participação alienada, de alguém que estava apenas cumprindo ordens, as quais desconhecia de onde vinham e a que visavam. Ele apenas tinha que liberar os trens… O mal às vezes é feito por homens como Eichmann, “cidadãos do bem”, acima de qualquer suspeita, a isto a filósofa Hanna Arendt chamou de “banalidade do mal”.

A defesa de volta às aulas num cenário de mutação viral acelerada, e de óbitos atingindo também a camada mais jovem da população, é mais um capítulo da continuidade da política macabra, da “necropolítica”, em operação no Brasil da cloroquina, mas sem vacina. Poderia agora resumir tudo isso, notando que em geral os que fazem essa defesa não são ignorantes e passaram orgulhosos por diversas instituições de ensino, e lembrando aquele senhor que muitos devem odiar assim como odeiam todos aqueles educadores que agora questionam ações imprudentes que podem colocar milhares de vida em risco: “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.


Vida & economia

A constituição em caráter de urgência de um comitê de cientistas brasileiros para definir os passos a serem seguidos pelo país na pandemia do novo coronavírus é fundamental. O cenário é catastrófico e a postura do governo federal contribuiu e continua a contribuir para que o Brasil seja ao lado dos EUA o país com mais vítimas da Covid-19.

Estes cientistas, lotados em instituições brasileiras, seriam responsáveis por apresentar às instituições e à sociedade civil as diretrizes do que deve ser feito no país como um todo no que diz respeito à pandemia.

O governo federal usa a pandemia para dividir a população a fim de manter uma base fiel visando unicamente as eleições de 2022. Pandemia é antes de mais nada uma questão de saúde pública e neste campo temos instituições públicas de ponta e cientistas capacitados que podem traçar os passos para fora do abismo em que o país e seu povo foi lançado por declarações e atitudes anticientíficas e extremamente perigosas, com consequências terríveis como as que estamos observando em todos os âmbitos da vida.

Segundo o Observatório Covid-19 BR, “a falta de uma coordenação centralizada pelo governo federal tem dificultado todas as medidas eficazes no combate à epidemia no País, que até o momento conta com poucas estratégias de testagem e rastreio de contactantes, atrasos na vacinação e demora para retomada de auxílio emergencial às pessoas mais carentes, para que elas possam sobreviver a este período de restrições econômicas e de mobilidade”.

Se o Brasil continuar a se dobrar ao negacionismo, à desinformação, às fake news e ao discurso do “novo normal” milhões morrerão em poucos meses e a economia, que tantos hoje defendem como primordial, também será destroçada, pois a escolha entre vida e economia é artificial, falsa, e está sendo taticamente produzida com finalidade eleitoreira.

Ainda para o Observatório Covid-19 BR: “sem nenhuma estratégia de contenção da epidemia, o Brasil tornou-se terreno fértil para a emergência de novas variantes de Sars-Cov-2 e sua propagação, ameaçando não apenas o País, mas todo o mundo. A intensa circulação do vírus no Brasil possibilita o surgimento de novas mutações de preocupação”.

Quem defende salvar vidas evidentemente não defende a retirada do pão da mesa da classe trabalhadora, muito pelo contrário. Os defensores da vida são justamente os defensores dos trabalhadores expostos, pela necropolítica do governo federal, ao vírus e à morte. Para sair dessa situação, de crise sanitária e econômica, é necessário sim retirar a gestão da pandemia das mãos do facínora que desgoverna o país e, simultaneamente, construir uma coordenação em âmbito nacional com pessoas com conhecimento técnico, médico, epidemiológico, econômico, antropológico, logístico, etc., capazes de abordar o problema de uma perspectiva multidisciplinar, ética e sem, evidentemente, jamais se render a interesses escusos internacionais que podem, perigosamente, se camuflar para a realização de operações de intervenção militar.


::: Educação para a Democracia e para a Vida :::

1
A decisão de retorno às aulas deve ser técnica seja quem for o/os/a/as responsável/eis. Não é falando das posturas de A ou B a saída. Pandemia não é, a princípio, uma questão de ordem pessoal nem de grupos políticos, mas de SAÚDE PÚBLICA universal. Assim, os critérios que devem balizar qualquer deliberação e tomada de decisão referente a discussão sobre a volta presencial (mesmo híbrida) às salas de aula devem orbitar questões como: números de novos casos, número de óbitos, risco de contágio em ambiente fechados ou com baixa circulação de ar, experiências em outros estados, disponibilidade de vacina, etc.
1.1
Se ainda há transmissão comunitária em curso, risco de infecção, casos em que profissionais da educação se contaminaram em outros estados em que as aulas retornaram no modelo presencial/híbrido, tudo isso têm que ser exposto à comunidade escolar com muita transparência e tecnicidade.
2
Se tem pai de aluno indo à praia ou à balada a responsabilidade, ou melhor, a falta de responsabilidade é de quem age assim. Usar desse artificio retórico para tentar forçar um retorno apressado às aulas já que em tese “todo mundo relaxou” é revelador de um desprezo mal disfarçado à ampla maioria de professores e aos demais funcionários da educação que estão levando a sério as medidas de distanciamento e isolamento, e cumprindo da melhor forma possível suas funções pedagógicas. Ora, por que os professores e funcionários têm agora que pagar por atitudes irracionais de grupos de negacionistas da pandemia? Educação começa em casa, não se esqueçam.
3
Muitos cobram dos professores e demais funcionários para voltarem às salas e demais espaços escolares, mas quase ninguém cobra “vacinação já” para todos os brasileiros. Estranho não?3.1″Ah! Mas não dá para vacinar todo mundo do nada”, alguém logo dirá. Sim, não dá, mas daria, pelo menos de uma maneira muito mais eficaz do que o atual PNI em curso, se houvesse, por parte do estado brasileiro, planejamento e negociação antecipada com governos e laboratórios. Não faz sentido resolver um problema (vacina em número insuficiente) criando outro (trabalhadores sem vacina expostos ao risco de contágio pelo Sars_Cov_2 por horas a fio em ambientes fechados).
4
As frases mais usadas pelos defensores da “volta às salas de aula” são todas de ordem impessoal: “as escolas precisam funcionar”, “as aulas precisam voltar imediatamente”, “os pais de alunos estão indo à praias e baladas”, “os protocolos serão todos cumpridos”. Tais discursos revelam da parte de seus enunciadores uma postura de invisibilização e desconsideração dos profissionais e demais funcionários da educação, percebidos como seres anônimos e fantasmáticos, que têm a obrigação automática, em um contexto pandêmico gravíssimo e de inexistência de vacinação em massa, de receberem centenas de alunos todos os dias, vindos dos mais diversos lugares da cidade e de famílias com diferentes hábitos e condições socioeconômicas.
5
Os professores e demais profissionais da educação jamais se negaram e não se negam ao trabalho e, num contexto de uma pandemia de um vírus altamente contagioso e mortal, precisam ser, como todos os trabalhadores deveriam ser, considerados, antes de mais nada, em sua dignidade humana e não obrigados – por decreto ou outro dispositivo – a retornar ao trabalho em salas muitas vezes abafadas, sem ventilação adequada, para não dizer insalubres.
6
Usar para justificar o retorno das aulas o argumento da exposição de determinados grupos de trabalhadores ao vírus e ao contágio é revelador do menosprezo de certas parcelas da sociedade por todos os trabalhadores. Não faz sentido, a não ser por vingança, defender que mais um grupo de trabalhadores deva se arriscar a contaminar quando, na verdade, os trabalhadores deveriam todos ter garantida a vacina.
7
Se o horripilante “novo normal” da humanidade implica expor o outro ao risco de morte, se a política tornou-se, como diz o filósofo Mbembe, “necropolítica”, isto é, mera gestão da morte, então é preciso se perguntar sobre que humanidade estamos nos tornando em que o valor abstrato do dinheiro se sobrepõe ao valor concreto e sagrado da Vida.
8
A pandemia do novo coronavírus é uma questão de saúde pública e no caso da Covid-19 o único tratamento 100% eficaz chama-se vacina. Então temos todos que nos unir, democraticamente, em uma única voz: #VacinaJá para TODA população e pelo #SUS.


Economia primeiro. Saúde depois?

As redes sociais hoje operam como vitrines para a exibição de modelos humanos. A máquina capitalista adentrou o espaço da intimidade. Tudo deve ser exposto, todos devem se tornar influencers, todos devem ditar modas, hábitos de consumo. Nesta nova configuração do capitalismo consumir não basta, é preciso que o consumidor faça a propaganda do seu consumo atraindo para si o olhar de potenciais consumidores. Casas, carros, motos, roupas, bicicletas, sapatos, cervejas, cafés, passeios, bebidas, relógios, animais, livros, cargos, diplomas, parceiros, filhos, boletins, contratos, tudo, sem exceção, deve ser mostrado. Até o reflexo no espelho na academia deve ser reproduzido na tela. O sucesso se mede pela capacidade de consumir. Se você consome você é alguém. Se você não consome não existe, é um fantasma na sociedade de consumo total. Imaginem como isso é problemático numa sociedade de 16 milhões de desempregados e mais de 30 milhões de miseráveis vivendo com menos de dois reais por dia? Imaginem os traumas em adolescentes que não podem reproduzir padrões existenciais e de consumo impostos pelo mercado!Já o tempo de trabalho, as horas infinitas no trânsito, na loja, na fábrica, as dificuldades, os assédios morais, os direitos previdenciários e trabalhistas destruídos tudo isso deve ser ocultado. Vale mais a performance artificial de si em rede social do que o desmascaramento das estruturas de exploração da mão de obra e espoliação do trabalhador. Vale mais defender um mito idiota, ou assistir ao BBB, do que pensar na destruição total em curso no país que caminha, claramente, para uma guerra civil. Ou você acha que um decreto que libera até a produção caseira de munição é para ir para a disney? Antigamente diziam: “o importante é ter saúde”, “sem saúde não somos nada”. Agora, o importante é a economia, mas não uma economia em que os recursos existentes beneficiam a todos igualmente, e sim uma economia para uma minoria que faz a maioria brigar até a morte por migalhas. Nesta economia parasitária se você não tem mais saúde é logo descartado como os mais de 240 mil mortos na pandemia (e sabe se lá quantos mais até que toda população esteja imunizada). Quem se importa? E se for você o morto ou a morta as máquinas continuarão a girar exatamente como estão girando agora. Eles já têm até a frase pronta para fingirem que a sociedade brasileira não está sendo trucidada por um genocida que não trouxe a vacina para todos e em tempo hábil antes de novas e mais perigosas mutações: “é o novo normal”. No antropoceno, tempo em que o humano se torna a maior ameaça para o Planeta Terra, a própria humanidade é capitalizável. Você deve render ao máximo como uma aplicação financeira. O humano tornou-se “capital humano” e o trabalhador – sem direitos – “empreendedor”. Índios? Natureza? Ecologia? Alimentos sem pesticidas cancerígenos? Vacina para todos? Aquecimento global? Poluição? Derretimento das geleiras? Perda de biodiversidade? Pandemias? Racismo? Homofobia? Democracia? Tudo isso é coisa de vagabundo, de esquerdista, dirão os nazistas sobre as pilhas de mortos que não param de aumentar. A felicidade é um imperativo. Você precisa estar sempre sorrindo, sempre de bem com a vida. Apenas os fracos adoecem. Se você não venceu é porque é um perdedor. Se você está deprimido é “mimimi”. Na era fitness estar acima do peso é um crime. Na era em que todos querem ser os burgueses felizes da propaganda de refrigerante diet a tristeza é uma aberração. Pare de reclamar e trabalhe, ordenam os filhotes de Hitler. Mal sabem eles que a frase “Arbeit macht frei” (“o trabalho liberta”) era colocada nas entradas dos campos de extermínio do regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Na era em que a extrema-direita institui a barbárie reivindicar direitos é um crime. Os trabalhadores devem aceitar as piores condições, pois, a burguesia cínica dirá: “se você não quer tem uma fila de miseráveis lá fora”. O importante é que, apesar da crise total da humanidade, você encene a fama, ainda que dure 5 minutos, isso se você não for cancelado antes por turbas digitais fascistas que sempre terão a última palavra sobre sua vida até elegerem uma outra pessoa para destruírem amanhã. Mas não se esqueça: o cancelador de ontem pode ser tornar o cancelado hoje. Neste tempo de subjetividade colonizada pelo capital, os laços de solidariedade, colaboração e coletividade são rompidos. A competição adentra todos os espaços: no trabalho, na escola, na empresa, na academia e até no mundo das artes. Todos estão em competição, e não apenas com o outro mas consigo próprios. O indivíduo torna-se seu próprio algoz. Deve sempre se superar, ir além de seus próprios limites. O céu é o limite. Elon Musk é o homem mais rico do mundo. Ele tem 188,5 bilhões de dólares. Isso não o livrará do fedor da morte, embora hoje busque um meio de comprar a fórmula da vida eterna. Cabe a cada um pensar sobre as práticas e hábitos vigentes na contemporaneidade e se perguntar se vale a pena serem cultivados ou se devem ser revistos no sentido de repensar novos modos de existir, menos vinculados aos ditames da ordem capitalista que transformou tudo e todos em meros objetos de consumo e, pior, descartáveis como a pandemia do novo coronavírus demonstra todos os dias. Economia primeiro. Saúde depois? Escute, o sinal tocou. Agora é a vez dos professores irem para o abate.


Reversão cosmopolítica

19/05/2020: “Nas últimas 24 horas, foram contabilizados 1.179 óbitos pela doença causada pelo coronavírus, com média de uma a cada 73 segundos. Ao todo, o país registra 17.971 mortes pela covid-19”.
 
21/05/2019: Em novo recorde, Brasil registra mais de mil mortes em 24h pela 2ª vez na semana Foram 1.188 mortes por covid-19 confirmadas de quarta para esta quinta; óbitos somam 20.047.
 
Quando a sociedade brasileira perceberá o massacre em curso e que aumenta a cada minuto? Quando perceberá que os irresponsáveis que desgovernam o país não dão a mínima para nenhum dos 20.047 mortos até agora? Quando entenderá que sem uma quarentena bem feita a pandemia não retrocederá? Quando o país e seu “presidente”  perceberão que apenas com isolamento horizontal, distanciamento e realização massiva de testes, as atividades poderão, em algum momento, ser retomadas com um mínimo de segurança? (Digo mínimo, pois sem imunização o risco de contágio permanece).
 
“Economia primeiro e saúde depois”, escreve-me um humano condicionado por um bot. Do jeito que está não vai haver nem saúde nem economia, mas ainda mas mortes e crise social, política e econômica.
 
Daqui de casa escuto por vezes os comentários dos comerciantes lá fora. Já há algum tempo estes comentários podem ser reunidos em um só: “tá fraco”. Este “tá fraco” revela algo sobre eles e sobre nós, os esperados por eles de quem nos distanciamos. Há uma desconexão com um certo modo do capital, mas não uma desconexão com o capital, muito pelo contrário, talvez nunca estivemos tão, impessoalmente, conectados aos fluxos monetários. “Tá fraco” e isso é dito à procura de uma conexão, no caso do comerciante através da mercadoria com um consumidor desejado; mas talvez esse modo de conexão já não exista mais. Quais existem agora? Este (a que estamos reduzidos), mas não só.

Há infinitos processos infinitos articulados que não se deixam pensar separadamente. O novo coronavírus é (mais uma) prova evidente disso. Ao ganhar, cada vez mais, agência na relação com os corpos pode colapsar o mundo como conhecemos, pode afetar economias inteiras, pode matar milhões de humanos, pode, no limite, exterminar a humanidade, ou então criar algo que chamarei de sobreviventes espectrais, capazes de viver assim como estamos “vivendo”.
 
O vírus não vem de fora do mundo, mas está no mesmo mundo que o homem, mundo que este homem, ao se pensar absoluto, aniquila e ao aniquilá-lo aniquila simultaneamente a si próprio, pois não há homem fora do mundo senão nas suas próprias fantasias.
 
Não há homem fora do mundo, mas há mundo, mundos, fora do homem. O mundo não existe só quando subsumido pela percepção sensível e pelo entendimento. Se não houver um pensar ‘da complexidade’, um pensar dos diferentes processos simultâneos reticulares, se não compreendermos que o que chamamos, ilusoriamente à distância, de natureza, como se não estivéssemos imediatamente implicados, tem forças e agências indomesticáveis, vamos ser esmagados por problemas (em larga escala criados e potencializados por nós mesmos): pandemias, aquecimento global, derretimento de geleiras, acidificação dos oceanos, perda de biodiversidade. “Tá fraco”.
 
O ar dos tempos requer uma nova política, uma “cosmopolítica” renovada que desloque o humano do centro da ação política e reconheça efetivamente uma multiplicidade de agências e agentes políticos, inclusive inorgânicos. É preciso aprender (novamente) a respirar neste cosmos povoado por uma infinidade de agências humanas e não-humanas. Esta cosmopolítica, nos lembra Philippe Descola, “não é um prolongamento do projeto kantiano de formular as regras universais por meio das quais os humanos,  onde quer que estejam poderiam levar uma civilizada e pacifica.  Mas literalmente, como uma politica do cosmos. 
 
A presença de um vírus que ao infectar o humano ataca o sistema respiratório talvez seja, não por certo a primeira, mas talvez a decisiva lição desta reversão cosmopolítica para o que há como para o que não há por vir.


Os mortos não têm jet ski

Os mais de 700 brasileiros mortos nas últimas 24h não têm jet ski, nem lancha, nem direito a um velório digno. A cena claramente montada do churrasco em alto mar pelos que desgovernam o país é extremamente violenta, digna de gente incapaz de mostrar um sentimento de pesar, por mínimo que seja, frente às mais de 10 mil mortes (sem falar nas milhares de subnotificações). E, como se não bastasse, ao final do pronunciamento macabro à nação, diz para o grupo de atores que interpretam um grupo de riquinhos negacionistas boçais que mais de 70% dos brasileiros “pegarão o vírus”. Isto que alguns chamam de presidente sabe o que são 70% de mais de 200 milhões de pessoas? Sabe que a taxa de mortalidade por Covid-19 está em 6,9% e é a maior do que as taxas registradas em todos os países do mundo? Obviamente não será bolsonaro quem adoecerá (se já não adoeceu e oculta) ou morrerá, nem as milhares de réplicas dos boçais que aguardavam o presidente para “o teu churrasco né cara” regado com água e sangue de pulmão infeccionado, nem o queiroz, nem os demais milicianos, nem os banqueiros para quem ele e o necroliberal guedes deram 3 trilhões, mas milhões de trabalhadores que não têm nem um milésimo das regalias que essa coisa empesteada, fria e genocida esbanja, pendurada no Estado há 30 anos sem nunca apresentar um projeto sequer para a nação. Mais de 10 mil mortos e ao invés de prestar condolências às milhares de famílias enlutadas tem a desfaçatez de produzir uma montagem nauseante de um churrasco amaldiçoado para defender a continuidade de um regime suicidário que precisa ser, urgentemente, posto no chão sem dó nem piedade. Você sabe o que sente alguém com Covid-19 em estado grave?

Xawara

Lembro que em 2019 Davi Kopenawa disse em um vídeo da Hutukara (Associação Yanomami) que percebeu algo estranho na ‘imagem’ de Bolsonaro, mas que preferia não tirar conclusões precipitadas como o presidente fizera à respeito dos povos indígenas. Diplomata cósmico, o líder e xamã Yanomami pediu na ocasião um encontro com Bolsonaro “para olhar bem dentro dos seus olhos”. Este encontro não aconteceu. Hoje, permitam_me o exercício de especulação e “perspectivismo”, imagino que Bolsonaro teve medo de Kopenawa revelar ser o presidente um portador (em potencial) da epidemia xawara. Todos da comitiva presidencial que foi aos Estados Unidos estão doentes menos Jair Bolsonaro. Ele não receia ser descoberto como positivo, mas como negativo, a epidemia em pessoa ou alguém possuído pelos xawarari, os espíritos da epidemia.

O que os Yanomami chamam de xawara, explica Kopenawa em “A Queda do céu”, “são o sarampo, a gripe, a malária, a tuberculose e todas as doenças que nos matam para devorar nossa carne. Gente comum só conhece delas os eflúvios que as propagam. Porém nós, xamãs, vemos também nelas a imagem dos espíritos da epidemia, que chamamos de xawarari”.