O signo da morte & da vida por vir

O brutal assassinato do professor Marcondes Namblá do povo Laklãnõ-Xokleng é a terrível continuação do extermínio da população indígena no Brasil.

Em outubro de 2017, o relatório “Violência contra os povos indígenas no Brasil”, divulgado pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), informou que 118 indígenas foram assassinados no país em 2016.

O maior número de vítimas, 44, foi registrado em Roraima, entre o povo Yanomami. O Mato Grosso do Sul, onde vivem os Guarani-Kaiowá, registrou 18 mortes por agressões.

O relatório do CIMI [https://goo.gl/yQFbGS] traz ainda uma série de artigos que apontam que os assassinatos estão associados a um processo mais amplo de desconstrução dos direitos indígenas estabelecidos na Constituição Federal.

Os dados referentes a 2017 ainda não foram divulgados, todavia os números da violência (que não é só uma questão numérica!) que se abate sobre os povos indígenas serão novamente alarmantes haja vista a intensificação da relação espúria de Temer com a bancada ruralista e da bala, e o desmonte da FUNAI.

A morte de Namblá não pode ser apenas um número nas estatísticas de 2018 (nem conhecemos as de 2017!). Ela pode ser o começo, o signo disparador, de uma profunda reflexão, com e para além dos círculos ativistas e acadêmicos, acerca do extermínio em curso dos povos indígenas no Brasil.

Até quando receberemos passivamente as estatísticas da violência contra indígenas?

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Aylan Kurdi

Conheci há alguns meses um grupo de refugiados sírios que abriram um pequeno comércio próximo à Praça Tiradentes. Entre eles há um que fala inglês e recebe os fregueses. Os outros escutam atentamente e percebo que já aprederam a dizer o preço dos seus produtos: “e treis reals” ou algo assim. Entre um shawarma e um za’atar esse que fala inglês perguntou-me: “is there terrorism in Brazil?” Respondi que não (embora, pensando bem, deveria ter dito que temos uma absurda violência policial que é exercida contra pobres, negros…). Enfim disse que não porque sabia que ele estava se referindo ao terror praticado pelo Estado Islâmico em seu país. “I hope you never have terrorism in Brazil”, falou-me por fim com uma expressão triste na superfície do olhar, mas também confiante nas suas profundezas. Ele e os homens se entreolharam. Ficamos todos em silêncio. Talvez volte qualquer dia desses para falar do terrorismo da polícia militar brasileira e também do terrorismo dos ruralistas contra os indígenas. Hoje passei rapidamente lá perto e vi que, diferentemente dos outros dias em que só haviam homens adultos, havia também um menino. Pensei em Aylan Kurdi.


Cidade industrial

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Em Curitiba, enquanto na Zona De Exclusão da FIFA tudo está pronto para a World Cup 2014 (“Falta só tirar o pó”, informa o jornal) em diversos territórios da Zona Excluída pela FIFA & pelo poder público, a chuva (que não é um problema em si) faz emergir problemas em forma de tragédias que poderiam ter sido evitadas justamente se a vida nestes territórios não fosse deixada à míngua enquanto outros interesses industriais & políticos eram escutados & potencializados. Ao fim & ao cabo, a culpa será atribuída à natureza (mas não é ela que polui o Rio Barigui, por ex!) & políticos & marqueteiros dormirão & acordarão tranquilos em suas moradas luxuosas. Quando for tempo de pedir votos pedirão sorridentes, trajando azul, & apresentarão, “biopoderosos” que são, projetos mirabolantes capazes até de evitarem certas catástrofes (que não são tão naturais assim) cujas causas – não imaginam (?) – estão associadas às suas próprias práticas “políticas” bem como à inexistência de uma outra política que não se sabe se foi perdida, se nunca existiu ou se existirá.

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“Essa imagem é perto da minha casa, no CIC… Antes era muito difícil de alagar aí no Rio Barigüi. No ano passado deu uma enchente dessas e agora de volta, a frequência está aumentando e em 23 anos que conheço essa região nunca senti esse rio feder tanto composto químico, tá foda” – Mensagem de A.V. –

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Há uma “Zona de Exclusão da FIFA” & uma “Zona Excluída pela FIFA” que é toda cidade, ou seja, a Copa do Mundo nunca pode ser uma Copa para todo mundo. Ou ainda, a Copa do Mundo é uma metáfora do próprio Mundo que é de todo mundo, mas não para todo mundo.

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“Uma cidade chamada industrial: Curitiba é ecológica, CIC é infernal”

 

 


Dil(e)ma

Suspeito – todavia não como Nuno Ramos – que há uma classe-média em processo de empobrecimento que não é essa que tem preconceito contra pessoas de bermuda no aeroporto, nem com rolezinhos de jovens nos shoppings, nem é a que está dizendo que não vai ter copa.

No interior desta classe-média estão pessoas jovens – & não tão jovens assim – que, mesmo na era do “pleno emprego”, estão com dificuldade de encontrar seu espaço, restando-lhes – em muitos casos – empregos precários, temporários, sem carteira-assinada.

O próprio Lula reconheceu em sua entrevista à Carta Capital que “nós temos um setor médio da sociedade, que ficou esmagado entre as conquistas sociais da parte mais pobre da população e os ricos, que ganharam dinheiro também”.

Estes setores da classe-média empobrecida navegam & agem nas redes, leem, são politizados & próximos ou simpatizantes de movimentos de base, portanto, tendem mais à esquerda do que à direita, mas estão perdendo as esperanças no projeto petista – embora reconheçam a importância histórica dele – justamente por estarem excluídos no momento em que ele se apresenta como vitorioso.

É como aquela festa que todos seus amigos foram convidados menos você.

Ao invés de apontar que novas vitórias são possíveis, o partido abre as portas para os fantasmas do passado que acabam por assombrar os horizontes do possível.

O planeta melancolia aproxima-se de Pindorama?

Discursos de fim de mundo são alçados à categoria de verdades incontestáveis na ausência de discursos capazes de rasgar o véu da realidade e atualizar um outro mundo que deseja-se diferente dos mundos pretéritos & do mundo presente.

Discursos de que estamos todos fodidos escritos pela classe-média que não empobreceu são lidos com pesar pelas classe-média que não empobreceu.

Negando Neves & Campos, & questionando os limites do desenvolvimentismo corrente, o “precariado” encontra-se espremido entre propagandas & discursos militantes que lhes garante que este é o melhor dos brasis & a sua própria realidade que não se enxerga nele. Loucura? Inadequação? Nada disso. O reformismo fraco não os incluiu & não sinaliza que o fará tão cedo. Como consequência o flerte com outras posições de esquerda mais radicais é inevitável.

Ainda não é possível dizer se são muitas as pessoas nessa condição, mas elas existem & resistem.


Aqui também é o Haiti: “A Festa da Bandeira do Haiti” em Curitiba (ou o ritmo que faltava)

Caminhando pelo Largo da Ordem deparei-me com um evento organizado pelos haitianos que estão em Curitiba em busca de novas possibilidades existenciais.

Diariamente os encontro – sempre em pequenos grupos – nas caminhadas que faço pelo centro da cidade. Ainda não tive a oportunidade de trocar ideias.

Percebo que são (ou estão nesta fase) mais na deles, embora em seus grupos pareçam se divertir.

Dias desses estava num dos bancos da Praça Tiradentes e um jovem sentou do meu lado. Falava ao telefone. Fiquei pensando que talvez estivesse ligando para seus parentes e falando do frio da nova terra como fiz um dia.

Observando o evento de hoje o qual, infelizmente, não fiquei sabendo antes, mas que, no acaso do lance de dados, encontrei enquanto acontecia, senti que todos aqueles pequenos grupos dispersos pela cidade haviam sido conectados. O Centro Histórico tornara-se uma TAZ.

Entusiasmei-me pensando: “estão se organizando e a arte, especialmente a dança e a música, tem um papel importante nesse processo político”.

Perguntei-me onde estariam as linhas que sustentam o movimento e que também o expandem. Desta vez, no ciberespaço as encontrei, descobrindo ainda que o evento se chamava “Festa da Bandeira” e que “celebrar os 211 anos da independência do Haiti” era um dos seus objetivos.

Ainda preciso saber mais sobre o grupo haitiano “Recife” que “evolui” em Curitiba e sobre o “Compas”, um estilo de música e dança do Haitiano cultivado agora também nas terras frias do Paraná.

“Para comemorar a memória do nosso bicolor (bandeira) o grupo haitiano Recife vai dar-lhe a atmosfera. Recife é um grupo musical de jovens do Haiti que evolui em Curitiba (Brasil). Venham dançar o Compas do Haiti com Recife o domingo do 18 maio de 2014, na vizinhança de 15H ao Memorial de Curitiba. Entrada gratuita…

Pou fete memwa drapo nou an 18 me 2014, Resif pral ba nou anbyans.
Resif se yon gwoup mizikal Ayisyen k ap pèfome nan Curitiba(Brezil).
Brezilyen e Ayisyen vini danse konpa.
Nan 3 zè aprè midi
lokal Memoryal Curitiba
Antre gratis…”


A dimensão molecular da Reforma Agrária Popular (II)

Parece-me interessante perceber que o MST não conforma uma unidade e não está livre de contradições.

No mesmo solo que viceja o capim ermate corre-se o risco da hegemonia da braquiária.

Neste sentido, há fortíssimos debates internos acontecendo dentro do movimento sobre seus rumos e práticas. No Assentamento do Contestado (LAPA, Paraná), por exemplo, não há uma produção 100% orgânica. Alguns produtores preferem trabalhar na lógica antiga e até mesmo da monocultura. A diferença é que o movimento está debatendo tais questões e seus membros – pelo menos os que conheci – não escondem isso e apontam sem medo as contradições.

Sobre os posicionamento de Stédile neste debate – até onde sei – a princípio ele era contrário a essa nova tese do MST, chamada Reforma Agrária POPULAR, mas hoje ele encampa esta orientação que proclama a viabilização econômica dos camponeses já assentados através da agroecologia, contra o agronegócio e a indústria dos químicos agrícolas, bem como a construção de articulações campo-cidade-campo.

Conforme me explicou Arthur Dantas esta “é a tese da Via Campesina, é a política agrária tanto de Cuba quanto da Costa Rica, que busca no campo ideológico, propor a tese da soberania alimentar”.

Sobre a relação MST X Estado a entrevista com João Paulo Rodrigues, um dos coordenadores do movimento é esclarecedora desta discussão. Entendo que o posicionamento do MST em relação ao governo no presente é mais tático do que estratégico, visto que – apesar do pesares – existe interlocução direta com as instâncias do poder como fica também claro na entrevista do ministro do Desenvolvimento Agrário publicada no site da Carta Capital.

Neste sentido penso um “outro mundo” sendo prefigurado pelo MST como: 1) resultado do abandono progressivo de práticas cristalizadas do movimento; 2) desdobramento de práticas novas que precisam ser potencializadas (agroecologia, produção e distribuição de orgânicos em larga escala, educação voltada para a autonomia, conexões do campo com a cidade, implementação de técnicas e tecnologias de cultivo orgânico nos espaços urbanos, etc); 3) resultado da adoção de práticas ancestrais, o que pode levar o movimento a se conectar às redes indígenas.

Entendo que é através da intensificação destes processos e experiências que o movimento poderá de fato mostrar a viabilidade deste outro mundo justamente por já estar vivendo nele. Por enquanto, as experiências são isoladas. Como conectá-las? Como permitir que a produção de alimentos, saberes e técnicas circule? São questões que também o movimento está enfrentando.

No Assentamento do Contestado há uma cooperativa funcionando e conseguindo distribuir semanalmente em Curitiba milhares de quilos de alimentos produzidos pelas famílias assentadas. Então poderíamos dizer que o que se tem hoje são laboratórios deste novo mundo, laboratórios com imperfeições, contradições, tensões, erros, mas também importantes acertos que precisam ser experimentados, pesquisados, discutidos e criticados na prática.

Pode ser que me deslumbrei um pouco, mas posso garantir que há sementes – não todas as necessárias – de um mundo novo ali.

O movimento – a meu ver e isso é uma opinião – aparenta não querer ser o dono da verdade que conduziria a uma “terra sem males” e nem poderia. Se a decisão de Stédile de não se manifestar durante a Copa será um erro ou um acerto só o tempo dirá, mas entendo que este posicionamento está diretamente relacionado às necessidades táticas do movimento para avançar em direção às suas estratégias que convergem para uma transformação estrutural.

Então pode-se dizer que hoje o movimento faz um recuo derrotado na possibilidade de expandir as áreas de assentamento, mas – como explicou-me Arthur Dantas “contrapõe fortemente o governo e o agronegócio ao recuperar as tradições camponesas da agricultura familiar em detrimento da lógica tecnicista do agronegócio. De certo, cala fundo na psique de todo agricultor familiar e cria uma força poderosa dentro da dinâmica da economia agroecológica nacional, já que em números produtivos, o MST é um ator a ser considerado”.

A questão da corrupção,  que muitos intelectuais criticam o MST de não debater, é complexa e sabemos que não ocorre apenas nas esferas da política institucional. Um debate sobre corrupção deve levar em conta esse fator para não se prender na fórmula política = corrupção o que poderia conduzir à negação da política e não de uma “política específica” que deve sim ser questionada e que, como apontou o Maffesoli em um texto recente, está com os dias contados…

Além desse silêncio sobre a corrupção, que pode sim ser revertido em um debate sobre a corrupção que considere as diversas instâncias em que a corrupção ocorre e que, sabe-se, excedem os ambientes da política institucional, há um outro silêncio – com relação às populações indígenas que, convenhamos, é um silêncio não apenas do MST, mas da sociedade brasileira em seus mais diversos estratos.

Não consigo imaginar outro mundo ou este mundo sem os indígenas, mas consigo imaginar outro mundo sem os ruralistas e o agronegócio que têm absoluta responsabilidade sobre o genocídio indígena em andamento (Tupinambás na Bahia, Guarani-Kaiowá e terenas no MS são alguns dos casos mais gritantes nestes dias). Neste ponto, a luta do MST converge com a dos indígenas, afinal o agronegócio é um inimigo comum.

Por fim, esta discussão me conduz a pensar também que o MST tem muito a aprender com a experiência Zapatista e, quem sabe, vice-versa.

Portanto, este mundo que prefigura-se através do mundo observado resulta de uma complexa ecologia em rede capaz de conectar camponeses, populações indígenas, trabalhadores rurais, moradores de rua que se transformam em agricultores nos espaços inutilizados e improdutivos das cidades, quilombolas (as cooperativas do MST já recebem produção de populações quilombolas!), pesquisadores, pensadores, educadores e operadores logísticos para a circulação da produção de alimentos saudáveis para o consumo de milhões de brasileiros que hoje se alimentam literalmente de agrotóxicos (alguns nem se alimentam direito e muitos ainda passam fome).

No lugar da política: uma cosmopolítica.


A dimensão molecular da “Reforma Agrária Popular”

Ontem conheci o “Assentamento do Contestado” do MST – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra na zona rural da Lapa no Paraná.

Conversando com as lideranças locais percebe-se claramente que hoje para o movimento não importa somente possuir terra para plantar, mas também ter condições de produzir alimentos saudáveis, desenvolver pesquisas, aprimorar & compartilhar saberes & técnicas.

Mais de 70% na produção deste assentamento, onde vivem dezenas de famílias, é orgânica. A meta é que seja 100%. “O pessoal está percebendo que quem planta orgânico tem ido menos no médico”, conta umas das jovens lideranças.

Conjuntamente ao adensamento desta promissora “linha de fuga” agroecológica, o MST busca se conectar às lutas urbanas & desse modo estender seu campo de ação renovado – focado na preservação ambiental e na produção de alimentos orgânicos e saudáveis – em direção às cidades, respondendo de maneira consistente a uma conjuntura onde o agronegócio impera e impossibilita a reforma agrária nos moldes até então defendidos pelo movimento.

Tal barreira, ao invés de bloquear as complexas articulações do movimento, fez com que este pensasse a si próprio de fora para dentro & de dentro para fora simultaneamente e assim encontrasse a via para o projeto da “Reforma Agrária Popular” que aposta na viabilização econômica dos camponeses já assentados através da agroecologia, contra o agronegócio e a indústria dos químicos agrícolas, além de conectar o movimento às diversas lutas e movimentos populares que acontecem nas cidades.

Ouvindo as falas destes trabalhadores-lutadores & trabalhadoras-lutadoras, vendo o brilho dos seus olhos quando mostram sua produção ou quando olham para o pasto vivo, alimentando-me com a comida saborosa que partilharam com alegria, e tocando suas mãos calejadas, senti de maneira muito forte a seriedade e a capacidade do MST – este movimento de movimentos – que se atualiza, apontando um devir potente, saudável, sem cristalização de ideias e muito menos de ações.

É surpreendente ouvir camponeses falando com desenvoltura de bioenergia, permacultura, agroecologia, terapias alternativas e novas possibilidades educacionais, sociais e políticas.

Este devir-outro do MST, sem contudo abandonar sua dimensão revolucionária, parece-me muito potente, tanto para a renovação do próprio MST, o maior movimento social da América Latina, como para o Brasil que tem a partir desta experiência absolutamente concreta a possibilidade de também ser diferente, de fazer diferente, de produzir diferente, de reconhecer suas diferenças sem anulá-las.

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