pop

Os intelectuais de luvas brancas seguem confusos sobre a distinção entre cultura popular e cultura de massas. Bastaria-lhes, já que conhecem o mundo quase que tão somente através dos livros, lerem algumas páginas de Morin, Martin-Barbero ou Canclini, para entenderem que a cultura popular é obviamente anterior à massificação da cultura operada pelos meios de comunicação de massa e consequentemente anterior à cultura de massa aí (re-)produzida; e que mesmo no âmbito da cultura de massa e da indústria cultural há muitas produções esteticamente potentes como é o caso, gostemos ou não, dos Racionais MC’s. Walter Benjamin via na massificação da arte promovida pelo cinema um meio de romper a aura burguesa da fruição estética. Por fim, tanto o popular em sua conceituação original quanto o pop estão sujeitos à crítica estética e bem argumentada, formalmente distinta de nossa doxa vomitada nos dispositivos de simulação de interação social da indústria cultural neste tempo de financeirização de cada coisa, átomo e bit do planeta.


Casa-grande necroliberal & cibersenzala

O argumento dos liberais com as ideias fora do lugar e dos neoliberais da escola de pinochet de que as estatísticas sobre desemprego são inválidas porque as metodologias não captam o trabalho informal é falso.

Sim elas captam. Quando somos informados acerca da população com emprego o dado é a soma dos trabalhadores formais e informais. As estatísticas oficiais acerca do emprego indistinguem o trabalho formal do informal (a distinção quando feita é feita secundariamente num nível de formalização dos dados primários e ela é fundamental para que se obtenha uma medição da qualidade dos postos de trabalho que estão sendo gerados).

O IBGE adota parâmetros definidos pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e não exatamente o que Bolsonaro ‘acha’.

As estatísticas do desemprego referem-se às pessoas que, dentro do universo da população economicamente ativa, está procurando emprego. Neste quesito são – SIM – 12 milhões de desempregados dentro do universo da população economicamente ativa. Esses 12 milhões não são trabalhadores formais nem informais.

E mais: o número do desemprego pode ser ainda maior pois há ainda os desalentados que nem entram nas estatísticas pois sequer estão procurando emprego (cerca de 4,9 milhões estão nesta situação). Poderíamos mencionar ainda os 6,7 milhões de subocupados.

Se o desemprego parou de crescer não é difícil ver que é porque muitos brasileiros foram vender fruta e bugiganga na esquina (literalmente) e porque muita gente parou de procurar emprego.

Penso que o atual governo reflete a incapacidade histórica de uma certa elite em superar uma mentalidade escravagista, expressão extemporânea da insistência da casagrande em manter à mão a senzala em pleno século XXI, abolindo direitos trabalhistas, apostando na flexibilização, no trabalho intermitente, para assumir de vez, e desavergonhadamente, a precarização da vida de milhões de cidadãos.

Enquanto no primeiro mundo governos apoiam, por exemplo, pesquisa em computação quântica que processará dados a velocidades hoje inimagináveis por aqui o pior governo da história bate bumbo para aplicativo de entrega com bicicleta.

Não por acaso, a fuga de capital do país segue vertiginosa. Quem vai apostar numa país em que sua juventude está condenada a, informalmente, pedalar para empresas de fast food ou a dirigir para a uber?


A vertigem da democracia sem predicado

O problema fundamental não é “Democracia em Vertigem” (ainda que problemas de diferentes ordens possam aí ser apontados e analisados), mas as classes para as quais pensar a democracia em seu sentido radical, sem o predicado liberal, causa-lhes vertigens terríveis (leia-se medo de perderem privilégios) e por isso negam qualquer processo vertiginoso de contestação da ordem e do progresso capitalista, especialmente se esta contestação vier de fora das teias do poder “democrático” instituído. Antes de ser estética a vertigem é política. Ninguém passa fome ou mora na rua esteticamente. A vertigem da democracia em que amplas parcelas do demos são excluídas do governo da cidade e do governo de si é nossa coisa pública mais bem, tática e estrategicamente, distribuída.


Ditadura do precariado?

O plano do “governo” é um livro em branco editado por algum banco de algum branco padrão, sem nenhuma sociologia nem história contada a contrapelo pelos condenados da terra (talvez alguns cases dos que venceram num uber, ou numa bicicleta alugada, sem direitos trabalhistas, sem direitos previdenciários), sem nenhuma filosofia e, principalmente, sem nenhuma poesia.

Além das imagens da terra plana, da mamadeira de piroca, do cinismo das risadas dos emojis do facebook, da hipocrisia dos que, só por pirraça e avacalhação, decidiriam em 2019 o voto em 2022, do negacionismo climático, há sim algumas outras imagens, poucas, bem poucas, só para dar uma ar de democracia aos voluntários da servidão e uma alegria que não dura na ditadura [do precariado?].