Devir dos sentidos

Estamos fazendo um curso sobre Kant e uma das teses postas – isso se entendo direito (o que em geral não acontece) – opera uma aproximação (obviamente não para dizer que são a mesma coisa) de Kant com Hegel e mesmo de Kant (via Hegel) com Marx não pela coisa em si que para Kant, sabemos bem, não é objeto de apreensão pelo jogo das formas apriorísticas da sensibilidade e das categorias do entendimento, mas uma aproximação pelo tema do “incondicionado”. O incondicionado na teologia racional permite Kant pensar a liberdade desvinculada da causalidade meramente subjetiva além de operar como o que dá, em última instância, sentido à experiência do sujeito que conhece. Esse sentido total à experiência particular segundo nosso sempre pontual professor (pelo qual acertamos nossos relógios) pode ser aproximado à ideia de totalidade hegeliana e, pasmem, – de maneira radical – ao capital em Marx. Deus, no sistema kantiano, é uma “ilusão necessária”: não pode ser conhecido, mas pode ser pensado. Com isso, Kant contorna via teologia racional a apreensão imediata defendida pelo velho Jacobi que via em todo mundo ateísmo e/ou panteísmo (Jacobi, claro, não sai convencido e prefere o ‘salto mortale’), e na mesma tacada Kant neutraliza, ou tenta neutralizar, uma possível acusação de niilismo do mesmo Jacobi com a proposição de uma esfera de sentido divino. Quando chegamos na filosofia de Marx descobrimos que o que é total e ilusório é o capital. Não é por acaso, se admitimos o devir dos conceitos filosóficos, que o contemporâneo Agamben afirma que “Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro”. Se Deus era uma ilusão necessária para dar sentido à experiencia em Kant, hoje mais do que nunca o dinheiro é a ilusão total e necessária pela qual o capitalismo determina a vida. Se Deus está morto ou não isso ainda está em discussão e permanecerá para sempre. Resta à filosofia contemporânea uma tarefa mais humilde, mas grandiosa, trabalhar ativamente para a destruição da ilusão da experiência capitalista (e isso lhe impõe uma revesamento teórico_prático) e, ao mesmo tempo, trabalhar para criar (ou recuperar) um campo imanente de sentido, eu diria uma multiplicidade de sentidos, para uma outra experiência vital …

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Filosofia braZileira?

O sonho de uma filosofia brasileira é o sono pesado do colonizado – mais ainda depois de uma cumbuca de feijoada, três garrafas de cerveja e duas doses de caipirinha – simplesmente porque Brasil é um mundo sem cercas tornado latifúndio após um batismo de sangue que escorre aos nossos pés ainda hoje. Não precisamos de uma filosofia brasileira deste Brasil a não ser que queiramos repetir ad infinitum, e ad nauseam em caso de indigestão com o bispo sardinha, tudo o que se passou após a colonização portuguesa até a colonização miliciano_fascista do presente. O Brasil é um “projeto” colonial e tudo o que se seguiu é o desdobramento e o redobramento de tal “projeto”, inclusive a ideia transcendente, novamente em voga, de uma filosofia brasileira. Brasileira? Brasileira de que Brasil? Do Brasil em que Olavo de Carvalho é filósofo desde os EUA? Ou do BraZil que bate continência para Trump? Do Brasil dos bacharéis-sabe-com-quem-você-está-falando? Do Brasil classe-média que, em 2015, cantou enfastiada de macarronada, coca-cola e democracia (e democracia!) o hino nacional com camisa da seleção e saudade da ditadura e da tortura? Do Brasil do “doutor” Mouro e das ideias fora do lugar? De um Brasil governado por uma besta fascista louca para exterminar o pensamento no canto da praia? Sinto muito (não, não sinto muito; não por isso): este Brasil, espero, que acabe junto com sua pretensa “filosofia”. Se quisermos mesmo uma filosofia podemos … pensar. No infinitivo, na imanência da terra e da Terra, sem adjetivos, sem pátria, sem universais, sem escola, sem catecismos, sem ídolos, sem ressentimento, sem culpa nem culpabilização e, principalmente, sem (re-)produzir tanta besteira.


questão espinhosa

Cada uma das coisas (ou aquilo que não existe em si mesmo, mas em outro) está em deus, mas deus não está em cada uma das coisas finitas como um deus pessoal; deus, ente absolutamente infinito, compreende todas as coisas e estas estão em deus: modos finitos (dos atributos) da substância infinita; por aí se vê que as acusações de panteísmo a Bento são, para dizer o mínimo, falsas. O moralismo, ou o medo injustificado do “mal”, este sim, é um cachorro morto.


Simpatias neoliberais

A causa ambiental mobilizada de maneira desarticulada da questão social permite ao burguês performar uma preocupação com o universal sem arranhar seu egoísmo microcósmico. A preservação da natureza é defendida apaixonadamente enquanto o questionamento de sua própria forma de vida, baseada em consumo desenfreado, distinção e, não são poucos os casos, na transformação sub-reptícia da coisa pública em benesse para si e para os mais próximos, é dissimulado. Hume ensinava em suas pesquisas sobre a natureza humana que “não contraria a razão preferir a destruição do mundo inteiro a um arranhão no dedo”. “Preservar a Natureza” pode até vir a ser um imperativo válido para todos, mas só fará sentido se associado à criação de condições e instituições capazes de devastar uma outra natureza: a natureza egoísta de todos os homens sejam eles absolutamente despreocupados com a Natureza sejam eles preocupados apenas com a Natureza e com o trágico destino do próprio dedo. No deserto de captura generalizada da vida fascista e não-fascista pela maquinaria neoliberal um amigo esboçou uma possibilidade de fuga: “conectar as agendas libertárias, trabalhistas, ecológicas será o desafio da esquerda nas próximas décadas. Mas o denominador comum de todas essas lutas é a resistência contra o neoliberalismo. Sem uma crítica concreta a este modelo nefasto, a Amazônia queimará até o fim”.


#necrocapitalismo

Quando a esfera do capital engolir totalmente a do pensamento então pensar só será admitido se provar que pode fazer o capital render ainda mais; a médio prazo nem isso será permitido ao pensamento ‘uberizado’. O capital se move aceleradamente para alcançar um patamar de presença em todos os estratos da vida e dispensar mesmo o pensamento mais obediente para se reproduzir. Não é que “nós não vimos nada ainda”. Nós já vimos tudo. O capital faz do aniquilamento da vida sua fonte de rentabilidade: #necrocapitalismo. Se há alguma possibilidade de resistir à asfixia do pensamento ela já deve estar presente, pois o pensamento é justo o que resiste (não um pensamento justo, mas justo um pensamento). Cabe ao pensamento realizá_la. Mas como? Uma primeira hipótese seria encontrar uma relação ainda não totalmente determinada pelo capital. Seria esta a tarefa do pensamento na contemporaneidade entrópica? No limite sobreviver ao sistema de valores assassinos e suicidários do capitalismo passaria, talvez, por suportar a desvalorização monetária do corpo e da mente, isto é, o desemprego, a fome e até a miséria, e ao mesmo tempo em ser capaz de instituir com outras mentes (“modos do atributo pensamento”) outros valores que não mais os valores de produção e de reprodução nauseante do capital. Morrer para a morte transcendente imposta pela máquina capitalista e afirmar a vida em outra direção, em múltiplas direções. A parada e o salto criador. A aurora do XXI é o tempo que se abre para que esta tarde seja a do crepúsculo do capitalismo.


Anarcocapitalismo de Estado?

Já tinha visto jovens tomando sopa no restaurante universitário e defendendo o fim da universidade pública, mas achava que a confusão parava por aí.

A verdade é que essa juventude “anarcocapitalista”, “ultraliberal” e “libertariana” ocupa cargos no Estado e comanda páginas com mais de 500 mil seguidores e canais no youtube com 570 mil inscritos e vídeos com mais de 700 mil visualizações.

De acordo com a reportagem “Quem são os libertários e anarcocapitalistas, que pregam o fim do Estado” publicada pelo jornal Folha de São Paulo, “Paulo Guedes levou para sua equipe uma vasta gama de liberais, e os libertários e anarcocapitalistas não foram excluídos. Estrategicamente, eles estão em áreas que cuidam da redução do Estado na atividade econômica. Um deles é Geanluca Lorenzon, 26, diretor de Desburocratização do Ministério da Economia e fundador do Clube Farroupilha, de Santa Maria (RS), uma das muitas entidades ultraliberais surgidas nos últimos anos”.

Esse componente juvenil do governo bolsonaro é algo que precisaria ser estudado mais a fundo. Ele, ao que parece, fornece a bolsonaro, no plano ideológico, um tipo de atração entre jovens na faixa entre 20 e 30 anos ligados nas ideias de Mises, Hayek, Ayn Rand e Rothbard, criptomoedas e aceleracionismo de direita.

Parece-me que a política econômica do desgoverno bolsonaro pode, paradoxalmente, ser definida como “anarcocapitalismo de Estado”. Trata-se de um governo que se utiliza dos aparatos do Estado – e da força contestatória da juventude – para destruir o Estado. Lebrun certa vez disse que os liberais são aqueles que serram o próprio galho. Diria que os ultraliberais serram o próprio galho e celebram o acidente. Há um desejo de abolição em suas linhas de fuga.

O desejo revolucionário de significativas parcelas da juventude brasileira foi capturado por uma máquina que estimula seus sonhos de liberdade entregando-lhe no mesmo pacote informacional o delírio sem limites do capitalismo, a ilusão de um “livre mercado” que nada tem de “libertário”. De repente, tornou-se ‘cult’ defender com uma pistola automática ou um rifle o fim do SUS e da universidade pública para todos e todas.

E não pensemos que o desejo por armas é apenas efeito retórico. Ele é real, mas circula fora do radar dos titios e titias do FB e do Twitter. As ameaças recentes de atentado armado a universidades brasileiras estavam sendo planejadas em sub-fóruns do 4chan que permite e encoraja a interação anônima entre seus usuários. O 4chan é o maior fórum do mundo, com doze milhões de visitantes por mês. O que se passa neste momento nas profundezas da web? Quais são seus efeitos na superfície do real? Um deles não se expressaria justamente na defesa do governo por parcelas significativas da juventude? Defesa que na verdade não é a defesa do político (há 30 anos no Estado) Bolsonaro, mas defesa de um desejo geracional capturado por estrategistas de campanha como Steve Bannon e identificado com a imagem vazia do “mito”.


::: E se o céu cair? :::

Indico o belíssimo livro “A Queda do Céu” do xamã e líder Yanomami Davi Kopenawa. É possível pensar e viver sem destruir a Floresta! É possível, cara pálida, vivermos sem termos que apoiar a abertura de mineração predatória por empresas privadas nos ‘tekohas’ (territórios sagrados) dos povos originários desta terra a que se convencionou chamar Brasil. Leiam “A Queda do Céu” e depois reflitam sobre o que se passa neste país em transe. Por que esse delírio fanstasmático pelo metal? Por que tanto investimento do desejo em mercadorias? Qual o sentido de apoiar expansão de garimpo em terra indígena? Qual o intuito de desacreditar informações científicas sobre o aumento do desmatamento na Amazônia? Por que não cuidamos de nossas vidas e deixamos os índios fazerem o que bem entenderem de suas vidas? Por que essa insistência em questionar o modo de vida e a cosmovisão desses povos plurais e singulares? Por que ainda persiste uma crença cega em tudo que certos políticos, claramente incompetentes, discursam sem produzirem efeitos reais e benéficos na realidade? Bolsonaro, por exemplo, está há 30 anos no poder garimpando o Estado brasileiro. Por que devemos acreditar nele? Por que as pessoas acreditaram nele, mesmo sabendo que em toda sua trajetória não apresentou um projeto sequer para o bem dos brasileiros!? Não! A extrema-direita não é a “nova política”, muito pelo contrário, é a materialização das mais velhas práticas e vícios públicos se passando como novo. Leiam “A Queda do Céu” e depois reflitam sobre o presente e o futuro (se ainda houver algum) desse país em que sob o pretexto da mineração prepara-se o extermínio final dos povos indígenas. Os brasileiros permitirão mais esse desastre? E se o céu cair? Palavras de um xamã. Palavras de Omama.

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