Vertigem

Para que a democracia adentre um estado de vertigem pressupõe-se um substrato democrático, mas parece haver uma zona cinzenta (em geral não sensível a quem parte do pressuposto da democracia) a que poderíamos chamar, não sem horror, de zona vertiginosa em que, apesar da garantia de alguns direitos, fundamentalmente distribuídos constam bolsões vertiginosos de miséria, de fome, de desabrigo, de tortura, de racismo, de injustiça, de massacres, de incerteza do amanhã, de ausência de expectativas. E quem, talvez a maioria da população, não tem netflix, dentre tantas outras não posses muito mais essenciais, não é justamente quem vive, de fato, na pele, no corpo, no cérebro, algo – em alguns casos por inteiro – desta vertigem (democrática?)? A questão, compreendida a dimensão material que precede a fruição estética, não seria então, a de podendo ver não ver ou ver, nem gostar ou não gostar, mas anterior ainda, isto é, do poder sobre o visível, do poder do capital de dirigir o olhar, de iluminar, mas também de ocultar, e sempre de cobrar. Pagar pela imagem – póstuma – da derrocada da democracia não seria a imagem da própria derrocada da democracia, esta sim a imagem não documentada pela burguesia, mas vivida pelos pobres sem direitos e, quase sempre, sem internet, sem netflix e outras comodidades tão naturais à(s) classe(s)-média(s) – à esquerda e à direita – possuir? Talvez as imagens do desespero humano, feitas com celular, após o fuzilamento do músico Evaldo dos Santos Rosa e do catador Luciano Macedo pelo exército brasileiro documentem a vertigem de quem nunca teve tempo nem dinheiro aplicado, muito menos democracia, para consumir a imagem da ‘democracia em vertigem’. Os mortos da história têm direito à democracia ou apenas à pura vertigem de seus ‘mecanismos’ sofisticados de ausência? “O exército não matou ninguém”, responde o presidente (o presidente! o presidente?) ou seria aquele torturador vomitando por sua boca? Um filme que se arrisca a pensar o Brasil contemporâneo precisa ser capaz de estimular a libertação dos corpos e das mentes dos automatismos, inclusive midiáticos, do sistema de (re-)produção capitalista, bem como intensificar forças revolucionárias inimagináveis ao ponto de fazer tremer os latifúndios e as coberturas. Prender o desejo, os múltiplos afetos, a possibilidade de criação política, à reiteração do óbvio só serve para entristecer ou dar a cada um uma alegria vazia, a velha boa consciência por estar, ou ter estado, do lado certo da história. Mas e agora? Haverá uma imagem, não uma justa imagem, mas justo um imagem, capaz de nos libertar da passividade dos espectadores da democracia? Uma imagem que não se reduza à representação da vertigem? Uma imagem que não seja a imagem espelhada da vertigem, mas a vertigem numênica como a que sente quem tem fome sob o sol do meio-dia. Que nos coloque diante da inevitabilidade da destruição de todas as estruturas de opressão. Que liberte da mesma vertigem em que se (con-)fundem Lula e Rafael Braga.

Não chegaremos a uma civilização pela harmonia universal dos infernos.

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