“Só o céu dos otários é neutro”

Em uma “sociedade administrada” e sob controle informático, “Ilhas de Calor” (2014), álbum lançado pelo cantor, compositor e instrumentista Negro Leo, pode ser ouvido como uma greve geral não programada num dia quente de verão que possibilita aos trabalhadores robotizados um pouco de delírio, de caos, de improviso, de urgência e de inacabamento, elementos reprimidos por capitalistas lógicos e também por muitos jovens artistas brasileiros que pensam a arte como lógicos capitalistas.

A ação estética e ética de Negro Leo, claro, não é exatamente um fora da “sociedade de controle”. Pelo contrário, é justamente a partir dela, mas também contra ela que o artista dispara suas canções que transpiram temperaturas altíssimas de free-jazz e tropicalismo.

Ninguém jamais ouvirá “Ilhas de Calor” na televisão, mas isso pouco importa, porque uma nova geração de artistas explora múltiplas linhas de fuga fora, debaixo, sob, sobre e para além dos esquema$ viciados do poder midiático. Exceções existem! E não são poucas. A questão é: temos acesso a elas? Ou devemos consumir/produzir a arte que a grande mídia diz ser a verdadeira arte? Uma arte autônoma e anticapitalista é possível?

Sim, é possível, mas não basta ficar em cima do muro e de bem com todas as forças estéticas e políticas. É necessário se posicionar, porque como canta/declama Negro Leo: “só o céu dos otários é neutro”.


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