::: Escola Autônoma Tiradentes :::

“Proibida entrada de fascistas”. Essa é uma das mensagens no portão do Colégio Estadual Tiradentes, ocupado há mais de 20 dias.

Num Estado governado por fascistas a frase é a expressão resistente de uma célula viva de autonomia no corpo de um sistema educacional gerido por um poder repressor [quem não se lembra do 29 de abril de 2015 quando Richa deu ordem à PM para ferir física e emocionalmente os professores].

Richa não é bem vindo às escolas do estado que governa. Seu poder uno e vertical vale pouco perto da potência horizontal irradiada por mais de 800 escolas ocupadas. Pedidos de reintegração de posse têm sido continuamente rejeitados ao governador cujas declarações revelam um completo despreparo para compreender as novas formas organizativas das singularidades.

Se o Estado detém o monopólio da violência, as escolas são laboratórios vivos de criação de um outro estado, mas que fique claro: não estado no sentido de Estado, mas sim estado de alegria, de experimentação de novas relações entre saberes, estudantes, professores e cidade, estado de invenção contra o poder de repressão do Estado, estado ético-afetivo contra a moral culpada do Estado.

Eu e minha amiga Brenda acabamos de entrar no Colégio Estadual Tiradentes – Curitiba, ou melhor, Colégio Autônomo Tiradentes (OCUPA Tiradentes). Assim que chegamos havia um homem do lado de fora do portão. Sua entrada não foi autorizada. Ficamos sabendo momentos depois que se tratava do diretor! O secundarista Z., que nos recebe, conta que “o diretor não apoia a ocupação e ainda está obrigando professores a assinarem uma lista em que têm que confirmar para o governo que são contra as ocupações. Além disso, diz ele, “esses dias, descobrimos uma sala com cinco microscópios, sendo que ele informou ao Grêmio Estudantil que não havia esse equipamento na escola. Sem falar nas bolas novinhas que encontramos. Jogávamos há meses com uma toda estourada”.

É uma alegria sermos recebidos pelos estudantes do Tiradentes que nos últimos dias têm vivido os dias mais difíceis desde o início do movimento. O Estado assassino tenta colar ao movimento sua pulsão de morte… Apesar da dor sentida por todos e todas pela morte de um secundarista – por razões alheias ao desejo de vida potente e de conhecimento que percorre as ocupações – os estudantes prosseguem. Eles sabem muito bem que aqueles que querem fazê-los culpados de um crime que não cometeram cometem crimes impunemente e diariamente.

“Nós não vamos desistir. A mídia e o governador dizem que somos massa de manobra como se o que dizem fosse neutro, como se eles mesmo não estivessem manobrando a opinião pública”, afirma com uma propriedade de quem está a altura da questão que coloca, a estudante X. numa sala onde acontecem oficinas e debates.

No último final de semana ela fez a primeira fase do vestibular para nutrição na UFPR. “Estou muito confiante. Vou passar! Eu e meus colegas queremos mostrar para os que estão nos criminalizando que somos capazes. E também para alguns familiares que acabam sendo influenciados pelo discurso da mídia. Meu pai até que entende porque estou aqui, mas bato de frente com minha mãe, embora entenda sua preocupação, ainda mais quando a mídia cria uma falsa imagem que não corresponde à realidade”.

O jovem Y. está no segundo ano. “Ainda não sei o quero ser, talvez advogado”. Y. é responsável pela segurança da ocupação e é perceptível seu cuidado com os colegas e com o prédio. Enquanto ele fala comigo vejo que está atento aos ruídos externos. Nos últimos dias movimentos fascistas como o MBL ameaçam invadir as ocupações. “A tensão aumentou muito. É mídia, é governador, é polícia, é mbl. É como se a pec241 e a mp746 tivessem um corpo, um corpo fascista e violento como o de dois grandalhões que estavam rondando a escola ontem à noite. Acho que eram nazis”.

Durante nossa conversa, eles retiraram suas máscaras e vendas que utilizam para não sofrerem retaliação posteriormente. Foi muito emocionante esse momento, senti que – de alguma forma – estávamos sendo integrados a algo que continuará depois, uma amizade, um vínculo, uma revolução desejante. “Eu nunca mais vou deixar de lutar”, diz X. com os olhos em estado de devir-revolucionário contra a impotência reacionária do Estado.

Nem nós X.

Curitiba, 26 de outubro de 2016, Escola Autônoma Tiradentes.


Cidade industrial

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Em Curitiba, enquanto na Zona De Exclusão da FIFA tudo está pronto para a World Cup 2014 (“Falta só tirar o pó”, informa o jornal) em diversos territórios da Zona Excluída pela FIFA & pelo poder público, a chuva (que não é um problema em si) faz emergir problemas em forma de tragédias que poderiam ter sido evitadas justamente se a vida nestes territórios não fosse deixada à míngua enquanto outros interesses industriais & políticos eram escutados & potencializados. Ao fim & ao cabo, a culpa será atribuída à natureza (mas não é ela que polui o Rio Barigui, por ex!) & políticos & marqueteiros dormirão & acordarão tranquilos em suas moradas luxuosas. Quando for tempo de pedir votos pedirão sorridentes, trajando azul, & apresentarão, “biopoderosos” que são, projetos mirabolantes capazes até de evitarem certas catástrofes (que não são tão naturais assim) cujas causas – não imaginam (?) – estão associadas às suas próprias práticas “políticas” bem como à inexistência de uma outra política que não se sabe se foi perdida, se nunca existiu ou se existirá.

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“Essa imagem é perto da minha casa, no CIC… Antes era muito difícil de alagar aí no Rio Barigüi. No ano passado deu uma enchente dessas e agora de volta, a frequência está aumentando e em 23 anos que conheço essa região nunca senti esse rio feder tanto composto químico, tá foda” – Mensagem de A.V. –

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Há uma “Zona de Exclusão da FIFA” & uma “Zona Excluída pela FIFA” que é toda cidade, ou seja, a Copa do Mundo nunca pode ser uma Copa para todo mundo. Ou ainda, a Copa do Mundo é uma metáfora do próprio Mundo que é de todo mundo, mas não para todo mundo.

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“Uma cidade chamada industrial: Curitiba é ecológica, CIC é infernal”

 

 


Aqui também é o Haiti: “A Festa da Bandeira do Haiti” em Curitiba (ou o ritmo que faltava)

Caminhando pelo Largo da Ordem deparei-me com um evento organizado pelos haitianos que estão em Curitiba em busca de novas possibilidades existenciais.

Diariamente os encontro – sempre em pequenos grupos – nas caminhadas que faço pelo centro da cidade. Ainda não tive a oportunidade de trocar ideias.

Percebo que são (ou estão nesta fase) mais na deles, embora em seus grupos pareçam se divertir.

Dias desses estava num dos bancos da Praça Tiradentes e um jovem sentou do meu lado. Falava ao telefone. Fiquei pensando que talvez estivesse ligando para seus parentes e falando do frio da nova terra como fiz um dia.

Observando o evento de hoje o qual, infelizmente, não fiquei sabendo antes, mas que, no acaso do lance de dados, encontrei enquanto acontecia, senti que todos aqueles pequenos grupos dispersos pela cidade haviam sido conectados. O Centro Histórico tornara-se uma TAZ.

Entusiasmei-me pensando: “estão se organizando e a arte, especialmente a dança e a música, tem um papel importante nesse processo político”.

Perguntei-me onde estariam as linhas que sustentam o movimento e que também o expandem. Desta vez, no ciberespaço as encontrei, descobrindo ainda que o evento se chamava “Festa da Bandeira” e que “celebrar os 211 anos da independência do Haiti” era um dos seus objetivos.

Ainda preciso saber mais sobre o grupo haitiano “Recife” que “evolui” em Curitiba e sobre o “Compas”, um estilo de música e dança do Haitiano cultivado agora também nas terras frias do Paraná.

“Para comemorar a memória do nosso bicolor (bandeira) o grupo haitiano Recife vai dar-lhe a atmosfera. Recife é um grupo musical de jovens do Haiti que evolui em Curitiba (Brasil). Venham dançar o Compas do Haiti com Recife o domingo do 18 maio de 2014, na vizinhança de 15H ao Memorial de Curitiba. Entrada gratuita…

Pou fete memwa drapo nou an 18 me 2014, Resif pral ba nou anbyans.
Resif se yon gwoup mizikal Ayisyen k ap pèfome nan Curitiba(Brezil).
Brezilyen e Ayisyen vini danse konpa.
Nan 3 zè aprè midi
lokal Memoryal Curitiba
Antre gratis…”


A dimensão molecular da “Reforma Agrária Popular”

Ontem conheci o “Assentamento do Contestado” do MST – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra na zona rural da Lapa no Paraná.

Conversando com as lideranças locais percebe-se claramente que hoje para o movimento não importa somente possuir terra para plantar, mas também ter condições de produzir alimentos saudáveis, desenvolver pesquisas, aprimorar & compartilhar saberes & técnicas.

Mais de 70% na produção deste assentamento, onde vivem dezenas de famílias, é orgânica. A meta é que seja 100%. “O pessoal está percebendo que quem planta orgânico tem ido menos no médico”, conta umas das jovens lideranças.

Conjuntamente ao adensamento desta promissora “linha de fuga” agroecológica, o MST busca se conectar às lutas urbanas & desse modo estender seu campo de ação renovado – focado na preservação ambiental e na produção de alimentos orgânicos e saudáveis – em direção às cidades, respondendo de maneira consistente a uma conjuntura onde o agronegócio impera e impossibilita a reforma agrária nos moldes até então defendidos pelo movimento.

Tal barreira, ao invés de bloquear as complexas articulações do movimento, fez com que este pensasse a si próprio de fora para dentro & de dentro para fora simultaneamente e assim encontrasse a via para o projeto da “Reforma Agrária Popular” que aposta na viabilização econômica dos camponeses já assentados através da agroecologia, contra o agronegócio e a indústria dos químicos agrícolas, além de conectar o movimento às diversas lutas e movimentos populares que acontecem nas cidades.

Ouvindo as falas destes trabalhadores-lutadores & trabalhadoras-lutadoras, vendo o brilho dos seus olhos quando mostram sua produção ou quando olham para o pasto vivo, alimentando-me com a comida saborosa que partilharam com alegria, e tocando suas mãos calejadas, senti de maneira muito forte a seriedade e a capacidade do MST – este movimento de movimentos – que se atualiza, apontando um devir potente, saudável, sem cristalização de ideias e muito menos de ações.

É surpreendente ouvir camponeses falando com desenvoltura de bioenergia, permacultura, agroecologia, terapias alternativas e novas possibilidades educacionais, sociais e políticas.

Este devir-outro do MST, sem contudo abandonar sua dimensão revolucionária, parece-me muito potente, tanto para a renovação do próprio MST, o maior movimento social da América Latina, como para o Brasil que tem a partir desta experiência absolutamente concreta a possibilidade de também ser diferente, de fazer diferente, de produzir diferente, de reconhecer suas diferenças sem anulá-las.

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Hurtmold faz show explosivo no paiol de pólvora

Fotografia de Mano Gabz

Hurtmold no Teatro Paiol em Curitiba. Fotografia: Mano Gabz

Assim que tomo meu lugar na plateia para assistir o retorno dos paulistas do Hurtmold em palcos curitibanos, mais precisamente no Teatro Paiol, miro – enquanto a banda não atravessa as cortinas negras, o “set list” que repousa ao lado da bateria.

De acordo com a lista escrita com pincel atômico azul em folha de sulfite a música que abrirá a apresentação da banda em Curitiba é “Guita”. Penso: “Guita? Trata-se de alguma música nova?”

Todos os acentos são ocupados: “estamos trancados no paiol de pólvora“.

– Aê! Uhu! Clap Clap! Aô! Fiu fiu!

A plateia, mesmo sentada, agita-se no teatro de arena enquanto os membros do grupo – Mauricio Takara (bateria e trompete), Fernando Cappi (guitarra), Mário Cappi (guitarra), Guilherme Granado (teclado), Marcos Gerez (baixo) e Rogério Martins (percussão)  –  aproximam-se de suas máquinas estéticas.

Granado diz para “quebrar o gelo”: – “Tá frio, hein?”. O público acostumado a temperaturas bem mais baixas sorriu.

“Sejam bem-vindos à cidade zero grau piazada do Hurtmold”,  diriam os rappers que habitam as entranhas de CWBeats.

Fernando Cappi inicia a apresentação, o som da guitarra ecoa pelos corredores sombrios do Paiol, as luzes vermelhas iluminam a poeira no ar que gira. A música é “Hervi”  (ou “Guita” para os íntimos …)  terceira do novo disco do grupo: “Mils Crianças” (Submarine)

Imediamente após o final preciso da execução, “paralisados no paiol de pólvora“, os curitibanos – natos e também os adotados – aplaudem entusiasmaticamente. A sensação é de um gol do time preferido (pense no seu) logo no primeiro minuto de jogo.

Olho ao redor e não vejo ninguém com os “olhos vendados no paiol de pólvora“, mas alguns “dentes cerrados no paiol de pólvora” sim, talvez intrigados de sentirem corporalmente o que o crítico Bernardo de Oliveira escreveu sobre o álbum Mils Crianças (2013):

“A síntese de estrutura rigorosa e experimentação rítmica em Mils Crianças contribui para demarcar um outro momento estético no trabalho do grupo. Se até então elaboravam uma sonoridade cerebral com descontração punk, desta vez desenvolveram um trabalho punk com uma consciência profunda de estrutura, timbre, composição, instrumentação, etc”.

Ao final da segunda música, Takara anuncia: “a pele do bumbo estourou”. Um homem grita “pô Takara!”, um “e agora?” também surge tímido … Concentro-me tentando enxergar uma saída para uma apresentação que tem tudo para ser histórica.

“Só tem entrada no paiol de pólvora
Ninguém diz nada no paiol de pólvora
Ninguém se encara no paiol de pólvora
Só se enche a cara no paiol de pólvora”

Sim! “O azar é sorte no paiol de pólvora” e Takara com ajuda de Martins soluciona, rapidamente o problema não deixando a vida tornar-se morte no paiol de pólvora. “A vida é morte no paiol de pólvora”, todavia não nesta noite.

O Hurtmold retoma com “Beli” trazendo a sensação de que “são tudo flores no paiol de pólvora“. Na sequência vieram “Telê” música que abre o “Split With The Eternals” lançando em 2003 em conjunto com o grupo de Chicago The Eternals, “Tomele Tomele”, “Chavera”, “SNP”, “Naca”, estas 4 do novo álbum,  além da climática “Olvécio e Bica” do álbum homônimo de 2007.

Entrando com precisão na reta final, Joji aos 2`13″ fez os fãs de hardcore presentes chacoalharem seus cérebros. Vale aqui direcionar o holofote jornalístico para a perfomance intensa e apaixonada do guitarrista Mário Cappi ao longo de toda apresentação.

Na sequência, a percussiva “Churumba” de 2007 – que aos ouvidos deste contador de memórias póstumas foi o ponto alto da perfomance hurtmoldiana em CWB – substitui definitivamente a “TV a cores no paiol de pólvora” pela possibilidade de novas partilhas estéticas vivas ao vivo na capital paranaense.

Shows como o do Hurtmold apontam que o momento é de quebra de paradigmas, de destruição de preconceitos de toda ordem, de pesquisa, de composições e decomposições, de aberturas sonoras ao infinito, experimentações e improvisações sem limites. Artistas “tomem lugares no paiol de pólvora“, explodam as velhas estruturas! Você pode dizer agora um foda-se para a bossa nova sem deixar de achar a bossa nova foda.

Há um novo paradigma estético como anunciou Guattari flutuando como a poeira iluminada pela luz vermelha que agora gira na velocidade de “Pigarro” que encerra “Mils Crianças” e a apresentação do Hurtmold em Curitiba.  Desta forma, enquanto há “mils crianças” correndo dentro de cada um de nós “vai pelos ares o paiol de pólvora“.

* Texto-hibridação: Hurtmold + “Paiol De Pólvora” de Toquinho  &  Vinicius de Moraes

Estamos trancados no paiol de pólvora
Paralisados no paiol de pólvora
Olhos vedados no paiol de pólvora
Dentes cerrados no paiol de pólvora

Só tem entrada no paiol de pólvora
Ninguém diz nada no paiol de pólvora
Ninguém se encara no paiol de pólvora
Só se enche a cara no paiol de pólvora

Mulher e homem no paiol de pólvora
Ninguém tem nome no paiol de pólvora
O azar é sorte no paiol de pólvora
A vida é morte no paiol de pólvora

São tudo flores no paiol de pólvora
TV a cores no paiol de pólvora
Tomem lugares no paiol de pólvora
Vai pelos ares o paiol de pólvora


Haikai

lua crescente
céu limpo estrelado
noite de outono gelado

Não há mais ninguém
nas ruas do São Francisco
em direção sem direção

à Haikai de Roberto Alvim
no Espaço Cênico escurecido
tremor de terra dentro de mim

 já fora enquanto tento voltar
cheio de intensidades, escuro & néon
descubro que não há para onde


Barnabé: o caipira glam

Ontem (23/02) fui literalmente o último da fila para a apresentação do Charme Chule no TUC. Como se tratava do show que marcou o retorno da banda dona dos hits “Polaca azeda” e “Barnabé” todos os ingressos já haviam sido distribuídos para o público que chegou antes das 20h para a apresentação marcada para as 20h30.

Eu cheguei às 20h20. Tinha ido assistir à “Infância de Ivan” do Tarkovski no Museu Guido Viaro (sem fila, claro). Já no TUC, além de mim haviam umas 12 pessoas sem ingresso. Chulo e com certo charme, resolvi aguardar assim como os outros sem-ingresso e alguns minutos depois uma das produtoras do evento liberou – não sem antes negociar com a Guarda Municipal – a nossa entrada para o evento.

O jeitinho brasileiro é foda e o show foi demais com direito a lançamento de videoclipe glam faca na bota pinta como eu pinto porque “quando o rock morrer, ninguém vai perceber porque os rockeiros estarão todos mortos”