::: Tudo o que desmancha-se no ar pode compor outros ares :::

A crise tem um aspecto duplo: é uma espécie de abalo irreversível ou mesmo desaparição de estruturas, perspectivas, ideologias (etc), aparentemente sólidas e perenes; é também abertura para novas possibilidades existenciais, políticas, econômicas, éticas e estéticas dantes ofuscadas e/ou reprimidas por aquelas concepções e constructos sólidos que a crise reduz a pó. Se “tudo que é sólido desmancha-se no ar” deduz-se que as partículas da solidez desmanchada podem ser recompostas em outros possíveis. Tudo que se desmancha no ar não desaparece, mas, e justamente, por ser matéria eterna e infinita, pode aparecer de outra forma e esta outra forma de outras formas. O problema deixa de ser a crise em si quando desdobrado em outros problemas os quais podem abrir saídas na sensação de fechamento causada pela crise. Na duração da crise reuniremos forças o suficiente para não sermos tragados pelo que afunda violentamente em direção ao caos? Durante a crise seremos capazes de elevarmo-nos a partir deste mesmo caos como uma vida vibrante e mais potente (ou menos impotente, conforme o caso)? Tais questões dão a ver ainda outro problema, pois sair da crise ou afundar-se nela tem a ver com os encontros e as relações que estabeleceremos no olho do furacão. O problema aí, não mais um problema paralisante e sim um problema que nos põe em movimento, é: com que forças se aliar? Com forças apenas destituintes que, movidas por ressentimento e ódio, não constituem nada além de ódio e ressentimento, ou então transversalmente com uma miríade de forças constituintes que, diante da crise, não se restringem a apontar culpados nem assumir a culpa que os ressentidos e moralistas lhes atribuem, mas que num grandioso sim à crise extraem dela o que ela tem de potente e constituinte e, simultaneamente, compreendendo neste movimento de afirmação das potencialidades da crise que a sua outra face, ou seja, a sua dimensão negativa, embora inevitável, é aquilo que ela tem de mais impotente, ou seja, efeito de podre disputa por poder podre. Sair da crise é – ou parece ser – não fugir dela ou fazê-la fugir sem encará-la, mas optar por aquilo que ela tem (ou pode ter) de mais potente, localizar e potencializar o que ela sutilmente revela de diferente, de novo (mesmo se o novo seja inusitado [desde que não seja triste]) nas suas dobras. É também não se deixar capturar pelo(s) discurso(s) dos ressentidos, dos que não sabem perder, dos que não enxergam na derrota algo de sublime. É, enfim, afirmar uma renovada alegria que, aprendamos definitivamente a matemática da potência afirmativa com Oswald de Andrade, é a prova dos nove. Sair da crise é entrar nela para elevar à enésima potência o que ela traz à tona de diferente e positivo. Precisamos retornar à crise, mas desta vez para sair dela.

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Trabalhar as bases sem, simultaneamente, alterar as condições do topo é rolar eternamente como Sísifo uma pedra até o cume da montanha e, pior ainda, ser esmagado por esta mesma pedra assim que ela começar a rolar montanha abaixo.


Para além da liberação

Há alguns anos assistimos a uma intensa “liberação. Liberação dos discursos, dos movimentos, dos corpos, da música, das relações, mas essa liberação, confrontada com os recentes fatos, está ainda muito distante do que poderíamos chamar de “liberdade”.

“Mas é sabido, nesse caso aliás preciso, que essa prática de liberação não basta para definir as práticas de liberdade que serão em seguida necessárias para que esse povo, essa sociedade e esses indivíduos possam definir para eles mesmos formas aceitáveis e satisfatórias da sua existência ou da sociedade política. É por isso que insisto sobretudo nas práticas de liberdade, mais do que nos processos de liberação, que mais uma vez têm seu lugar, mas que não me parecem poder, por eles próprios, definir todas as formas práticas de liberdade” (Michel Foucault).

Procurar pensar e desenvolver práticas de liberdade pode, justo neste momento em que a liberdade é cerceada, conduzir-nos para além da liberação em alguma medida experimentada por muitos de nós.

Mas o que é a liberdade? Ou melhor: o que pode ser a liberdade? É possível pensar em uma liberdade que não seja meramente a liberdade de consumir? É possível ser livre no capitalismo ou a liberdade significa neste momento justamente livrarmo-nos dele? Como?

Não há respostas sem práticas de liberdade para além da liberação.


desejo (+)

Pense numa lógica que afirma uma coisa pela própria positividade desta coisa (e pela positividade das outras coisas que estão na mesma órbita desta coisa
com todas as suas diferenças não consensuais
Experimente não ir simplesmente pela negação de outra(s) coisa(s) que também é/são múltipla(s) por natureza, mas que para ser/em negada/s em bloco precisa/m ser/em reduzida/s a um universal_molar.
Afaste-se do que vê a diferença negativamente.
Afaste-se da tristeza. Os afetos do corpo são os afetos do pensamento.
Procure – no campo da esquerda – a multiplicação do que difere positivamente.
Trace uma linha transversal nas redes e avalie se é capaz de entrar em todas elas.
Eu sou.
“Em sua rede há inimigos inconciliáveis”, disse-me o hacker.
“Eu sei”, respondi.
Consigo que minha diferença seja afirmada por campos que hoje são ou dizem ser opostos. Você também consegue. Na verdade, você já faz isso. Virtualmente.
Aquém da linguagem política: o campo das forças políticas. Quantas conexões possíveis! É maravilhoso! Quantas cores! Quanta criação!
Gente que se desconectou se conecta na virtualidade em que me (des-) encontro.
Movimento de movimentos de movimentos de movimentos sem começo nem fim.
Observe o meio do rio, suas velocidades, seus giros, seus momentos de perigo, suas velocidades, e seus momentos de abertura.
Entre.
O virtual da política é pura potência, é devir, é caldo diferencial, é um outro melhor dos mundos possíveis mas, intuo, talvez a “transversalidade” necessária para a (re-) composição das forças que hoje no plano real se anulam só seja possível para quem está (você está?) disposto a pensar uma política cuja ontologia parta da conexão de potências das mais variadas matizes, no caso aqui à esquerda, e se (con-) funda com elas.
Parece-me impotente uma política para o século XXI que necessite abolir já na saída tudo o que difere (ou que necessite para se afirmar que as diferenças se fundam numa identidade centralizadora), parece-me impotente afirmar uma identidade que não condiz com a multiplicidade que a gerou, mas que é apenas reflexo dela própria.
Vejo daqui do virtual (que é absolutamente real) brilhando no horizonte uma política sem identidade justamente porque tornou-se capaz de mergulhar nas diferenças virtuais que a constitui e elevar essas diferenças a sua própria condição.
Encontrei e afetei-me alegremente como uma política pulsante, política viva de conexão e elevação de potências e não de mera disputa de poder e supressão de potências. Essa política existe, como efetuá-la? Como deixar de entender a diferença como algo simplesmente negativo? Como abrir o conceito da política para o que ela não é, mas pode ser para ser outra coisa diferente da impotência que hoje ela é. Aproximei o microscópio dos meus críticos e dos que critico e me surpreendi com o movimento dos movimentos. Estar à esquerda não é estar no mesmo lugar, mas em outro lugar tão real como este, mas com potencialidade de revolucioná-lo, torná-lo mais alegre, mais apto a possibilitar aquilo que podemos. Agora tenho dificuldade de simplesmente negá-los, vejo-os como forças, intensidades, luzes, inteligências, instintos, desejo revolucionário. Abstenho-me de julgar, apenas pergunto: como permanecermos absolutamente singulares quando sairmos deste caos e afirmamos definitivamente a política que aqui encontramos? O novo já nasceu. O velho deve morrer. Vimos a cara dele: é horrível. Mas o que temos a propor é infinitamente mais belo: é a tarefa revolucionária de nossa geração. Seremos capazes de sair daqui para a atualização definitiva de uma política à altura de nossos desejos?


:: Confessionário maquínico :::

Isentão. Governista. Golpista. Quem quer saber? Por que quer saber? Para que? Para controlar?

As sombras do poder deitam-se sobre o saber. O saber torna-se um dispositivo para o poder e os pequenos poderes obterem a confissão.

Quem é você? Qual é a sua identidade? Quais são suas ligações? Quais são suas conexões? Conte-nos sua história de vida.

Ao poder do padre e do psicanalista de obter a confissão somam-se dois novos poderes: o poder do facebook (e máquinas semelhantes) de saber de todos e o poder (policial?) de todos saberem de cada um.

O Facebook, o WhatsApp (e outros mídias sociais) – encarnações comunicacionais do capitalismo – obtêm diariamente nossas confissões. O que compramos? O que desejamos comprar? O que comemos? Com quem comemos? Onde vou? Onde estou? Com quem estou? Em que horário?

A confissão é gratuita. As ações destas empresas estão em alta. Alguém paga por essas confissões.

Ao lado do poder de saber destas multinacionais – que capturam a comunicação humana – o poder [ou o ilusório poder] de sabermos sobre o outro, o amigo, o vizinho, o colega de trabalho, o isentão, o fascista, o governista.

Tornamo-nos todos padres. Padres dos movimentos. Padres dos partidos. Padres de instituições em que – por um lugar ao sol – aceitamos a condição de sombrios burocratas, prontos para atacar qualquer sinal – mesmo ilusório – de ameaça.

Não seria o caso de nos perguntarmos se essa produção, reprodução, reforço e fixação identitária a que nos submete estas pequenas máquinas da engrenagem da máquina capitalista não estaria produzindo também um campo obscuro em que o outro, o que difere minimamente, torna-se potencialmente alguém que devemos desconfiar e, mais gravemente, um inimigo a ser isolado e até mesmo abatido?

Ou ‘Ser ‪#‎hashtag‬ aqui’ – facilmente mapeáveis e significáveis – é tudo o que somos [para os que desejam poder_saber quem somos?]