::: Cuidado :::

Em pouco mais de um século “recursos” constituídos ao longo de milhões de anos de história terrestre (muito mais tempo para os lençóis freáticos) estão perto do esgotamento.

O mundo vai acabar?

Não, o mundo continuará, o que acabará é o humano. E quem acabará com o humano? O próprio humano, ou melhor, o modo de produção capitalista sustentado pelos humanos, mas precisamente por humanos_homens_brancos_rentistas_cientistas_ocidentais.

Não é sem razão, portanto, que a filósofa belga Isabelle Stengers chama nosso tempo de “tempo das catástrofes”, tempo em que as condições essenciais de existência na Terra entram em um processo de esgotamento irreverssível.

A Terra – desértica, sem água, com altas temperaturas, sem flores nem frutos – talvez continue, mas nós certamente não continuaremos, pelo menos não da maneira como “vivemos” no presente.

O fim do mundo é na verdade “o fim do mundo dos homens”.

Stengers não se limita, todavia, ao discurso catastrofista e propõe, como forma de resistir “a barbárie que vem” uma “arte do cuidado”.

“O que fomos obrigados a esquecer não foi a capacidade de ter cuidado, e sim a arte de ter cuidado. Se há arte, e não apenas capacidade, é por ser importante aprender e cultivar o cuidado, cultivar no sentido em que ele não diz respeito aqui ao que se define a priori como digno de cuidado, mas em que ele obriga a imaginar, sondar, atentar para consequências que estabeleçam conexões entre o que estamos acostumados a considerar separadamente” (Stengers).

O reaprendizado da “arte de ter cuidado”, ressalta Stengers, não é um imperativo moral, nem um apelo ao respeito ou a uma prudência que “nós” teríamos esquecido.

Quem mais precisa dar-se conta da importância desse reaprendizado são os que, no presente, na sanha de multiplicar o capital, ou pressionados por essa sanha, não esboçam nenhum sinal da arte de cuidar. Ligados à máquina capitalista, tornam a Terra improdutiva, seca, desértica, morta. Desligados da Terra cuidam apenas de “seus negócios privados” como se estes não dissessem mais respeito a tudo o que se passa no mundo.

Uma das figuras que devem aprender a arte do cuidado, segundo Stengers, é o Empresário. Para essa figura tudo é oportunidade. Ele “exige a liberdade de poder transformar tudo em oportunidade – para um novo lucro, inclusive o que põe em xeque o futuro comum”.

As coisas tendem a piorar com a articulação Empresário-Estado-Ciência. Aí, diz Stengers, aproximamo-nos da “lenda dourada” que prevalece quando se trata da “irresistível escalada de poder do Ocidente”. “Essa lenda põe efetivamente em cena a aliança decisiva entre a racionalidade científica, mãe do progresso de todos os saberes, o Estado que se livrou enfim das fontes de legitimidade arcaicas que impediam essa racionalidade de se desenvolver, e o crescimento industrial que a traduz em princípio de ação enfim eficaz”

Se o poder do empresário por si só é perigoso, quando articulado aos poderes do estado e da ciência cresce exponencialmente. A comercialização de pesticidadas cancerígenos, por exemplo, só é possível por causa desta aliança. A lenda dourada Empresário-Estado-Ciência revela-se então o oposto de uma “arte do cuidado”.

É dessa lenda, ou melhor, é das poderosas teias empresariais fortalecidas pelo poderio do Estado e da Ciência que precisamos escapar, mas, se a arte de ter cuidado deve ser reconquistada, é importante começar tendo cuidado com a maneira pela qual somos capazes de escapar. Como já diziam os antigos: “todo cuidado é pouco”.

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O Brasil da Janela

Penso no Brasil enquanto vejo “Da Janela do Meu Quarto” [Cao Guimarães, 2004], vermelho & azul em combate, um avança, outro retrocede, um cai, outro também, às vezes azul parece mais forte, de repente vermelho revela sua potência, azul faz pose de mais experiente, vermelho incansável, a chuva cai impassível, lama, vida, um assovio fantasmático cósmico, mais lama, trovoadas, vidas; há um terceiro, de calção escuro [será um verde? um anarquista? a terceira via?] que não entra efetivamente na luta, espera, chuta o ar; vermelho & azul continuam a lutar & a chuva a cair, trovões, não, não posso comparar esses corpos inocentes com as terríveis disputas do presente, já perdemos a sutileza & a plasticidade dos golpes que não ferem, resta-nos a crueldade, um amargor, uma possibilidade de derrocada geral e uma queda solitária, resta também imaginar que nossas crianças se pareçam com aquelas que fomos [nós em antigos presentes], na chuva, na lama, de vermelho, de azul, de verde, de preto, quando o desejo era viver [sem saber que vivíamos], espontaneamente vivos então, quando o desejo era já a próxima aventura que emergia do interior da aventura que construíamos juntos, é tarde, primeiro desencantamos os mitos, depois matamos deus, é muito tarde, ajoelhamos perante o capital, é absolutamente tarde, sim, é verdade, admitamos: perdemos a inocência para sempre e estamos a perder a política, resta-nos ver o temporal da janela, resta-nos a lama já sem aquelas crianças que um dia fomos nós, resta-nos utópicos assombrados pelo ceticismo acreditar que as crianças do agora não sejam como nós agora somos, que encontrem outros devires, que tracem outras linhas de fuga, linhas multicoloridas, se vermelhas, azuis, amarelas, verdes, pretas, rosas ou violetas, não importa, importa saber lutar sem machucar, importa saber cair e se levantar, mas também saber fazer cair sem destruir, importa conectar as forças ativas & elevá-las à enésima potência & compartilhar invenções & cultivar bons encontros & paixões alegres & se abrir radicalmente à diferença & tentar, ao máximo, não mais afirmar – por birra – eternamente uma coisa só &/ou negar todas as coisas em nome desta coisa só, importa uma verdadeira política dos corpos singulares como é a grande política que aquelas crianças duplamente devêm, importa um “acordo discordante”, uma renovada beleza onde menos se espera, uma “nova suavidade” sem ponto nem final


Guerra dos afetos

O medo que os odiadores (de tudo o que não odeia nestes dias bruscos) querem nos fazer sentir não diminuirá nossa vontade de viver e não nos entristecerá como almejam. Resistiremos para reafirmar que esta terra não pode mais ser terra de ressentimento e de vingança. Provaremos – com Oswald de Andrade – que a alegria é a prova dos nove! Suas armas não nos alcançarão! Cantaremos com Jorge. Se esta é uma guerra, ela – para nós – não é uma guerra sanguinária, mas uma guerra afetiva. Produziremos e lançaremos afetos tais que reverterão todas as paixões tristes que dominam no presente seus corações e pensamentos. Não admitiremos mais tristezas além daquelas que já combatemos em nossas lutas diárias. Bloquearemos todo o ódio (atirado, gritado, buzinado, inventado, escrito, etc) contra nossos corpos através da afirmação simultaneamente singular e coletiva de nosso intenso desejo de viver uma vida realmente potente e daí faremos nascer e florescer uma política que visará a elevação (à enésima potência) da potência de viver de toda nossa gente que cantará novamente e, pensando com Gonzaguinha, não terá a vergonha de ser feliz.


A grande saúde do século XXI

Quando adoecemos perdemos – em algum grau – a potência de pensar e de agir e, consequentemente, de viver. Adotamos uma perspectiva doentia e passamos a ver o mundo com desprezo e com má vontade. Pensamos – doentes – que é o mundo que está doente. Talvez estejamos todos doentes, uns mais, outros menos, uns – doentes – diagnosticando a própria doença nos outros, outros – doentes – não assumindo a própria debilidade, outros ainda dizendo gozarem de perfeita saúde sem, todavia, por um só momento, como urubus isentos da carnificina, tirarem os olhos – moralistas, julgadores, difamadores – dos “doentes”. O que há de fisiológico em tantas acusações, denúncias, delações, caguetagens, insultos, humilhações, desqualificações, confrontações e (pré-) julgamentos? Há algo que não foi bem digerido? Não seriam essas tensões um desejo de eliminar alguma coisa que nos faz mal, mas que não sabemos bem o que é? Seriam essas obsessivas e intermináveis disputas políticas, na verdade, sintomas da ‘verdadeira’ doença que terá que ser extirpada no século XXI (século em que todos que vivem agora morrerão)? Será que estamos todos – em algum grau – doentes, e o câncer do fascismo que se espalha pelo organismo democrático tem alguma correspondência com uma forma de vida que já não aguenta mais as opressões diretas e indiretas do capitalismo? “Eu não suporto mais isso”, pensamos, mas insistimos rumo ao buraco negro. As formas repressoras e conformadoras do capitalismo não estariam asfixiando as novas subjetividades – ainda larvares – que pulsam e desejam viver e fazer viver diferentemente? O capitalismo não seria o verdadeiro nome de nossa doença e o que chamamos de doença seria, na realidade, sintoma? Se assim for, a crise política, econômica, ética, cultural e ambiental que nos conduz à depressão incomensurável não é a crise deste ou daquele governo, nem deste ou daquele partido, mas uma acusação interessada (desejo de poder) e não devidamente pensada com toda a força de que o pensamento é capaz, acusação feita por não termos as forças necessárias para diagnosticar e nomear a outra e, suponho, real crise: a crise de uma vida que não aguenta mais não saber o nome daquilo que a afeta negativamente, ou que mesmo conhecendo o que entristece não consegue (ou teme) fazê-lo fugir. O que enfraquece a vida não é vermelho, nem azul, nem amarelo, nem verde, mas o que absorve todas as cores numa totalidade doentia: o modo de produção capitalista, ou melhor, o modo de destruição imposto por um conjunto de relações calcadas unicamente no capital, no lucro, na exploração, na competição infinita, na disputa cega pelo poder. Destruir o capitalismo nunca foi tão urgente assim como encontrar no movimento de sua destruição um outro modo de produção que pressuponha alegria de viver (junto e diferentemente) e uma grande saúde para todo@s – humanos e não humanos – sem exceção & sem estado de exceção!