As vísceras da imagem do terror

O século XXI começa a ter suas especificidades sinistras também em nossas vidas. Há manifestações óbvias q ainda não conseguimos explicar. O mais arcaico ultrapassa o mais futurista. Neointegralistas filmam e postam no youtube um ataque terrorista à sede de um grupo de humor que opera na netflix. A sociedade controlada nas redes sociais dissemina velozmente as imagens. É real? É mais uma piada? Um episódio transmidiático de uma série total em que todos os espectadores são protagonistas? A imagem do espetáculo agora é uma imagem viral desespetacularizada. O regime grotesco das imagens das vísceras do final do século passado fora suplantando pelas vísceras da imagem em 2019, o ano em que o século XXI começou (a ser transmitido). Alguém postou sobre uma conspiração q não se sabe d onde vem nem p onde vai, q chega aos pedaços, arquivo corrompido, em um download lento de um mundo sem mundo e sem tempo, em chamas e violento ao extremo, registrado por milhões de câmeras de segurança de todos os ângulos possíveis.


Lunga morreu

Bacurau da vida real. “1.546 pessoas foram mortas pela polícia do Rio de Janeiro no ano de 2019. O número é o maior da história”. Se algum Lunga houve nesta história escrita com sangue de gente pobre é bem possível que esteja entre os mortos a golpes de facas pela polícia no Morro do Fallet ou que fosse um dos meninos que no caminho da escola foram encontrados pelas balas “perdidas” dos fuzis do poder necropolítico. Discutimos as leis, os pacotes anticrime, encontramos corretamente maneiras de não serem a encarnação da barbárie absoluta, mas nunca, ou quase nunca, questionamos o poder que as suspende quando bem entende naqueles territórios que nossos olhos, bem policiados, delimitados e adestrados, não podem, e nem querem, ver. O terror em si (de corpos exterminados amontoados, por exemplo) é insuportável então simplesmente, quase que como um defesa natural, o suportamos no marco representacional da lei, mas sabemos que a lei, um universal, por si só não significa nada, mas ainda cremos na sua efetividade particular simplesmente porque preferimos o prazer a dor. Antes um mínimo de prazer do que a dor dos jovens de Paraisópolis, dor que não pode passar, porque não estão mais vivos, para dançar, para amar, para gozar, para que passe. Não é que somos egoístas, somos parciais. Se Lunga está morto lamentamos,  dizemos “é a correlação de forças”, e seguimos em frente.