Lee & as eleições

Na Rua Riachuelo, 176, centro histórico de Curitiba, entre o Brechó New Look e uma garagem funciona o Restaurante Lee. Durante 16 anos o Lee foi administrado por Lee Fon Guan que há dois anos se aposentou e o vendeu para a família do também imigrante chinês Zhau.

O restaurante funciona de segunda a segunda, inclusive em feriados e dias santos,  servindo pratos da culinária brasileira a preços populares.  O Prato Feito individual cujas opções de carne são bife, bisteca ou frango custa R$ 5,50. Se a escolha for filé de peixe o preço é R$ 0,50 mais caro.  Já o prato comercial serve duas pessoas e custa entre R$ 6,80 (“comercial bife”) e R$ 9,80 (“bisteca completa”).  Geralmente os pratos são acompanhados de salada (duas folhas de alface, uma rodela de tomate, repolho cozido e vagem), batata frita, além de uma porção de macarrão servida em um recipiente plástico.

Além do PF e do comercial, há o “prato do dia”: segunda: virado à paulista, terça lingüiça com ervilha e rabada, quarta feijoada, quinta dobradinha, sexta costela, sábado feijoada novamente, domingo frango assado.

O comércio é freqüentado tanto por moradores e trabalhadores da região do centro histórico, incluindo nesta categoria os cafetões e prostitutas que fazem ponto na esquina da Alfredo Bufren com a Riachuelo ou na Tobias de Macedo com a Riachuelo, como por moradores de bairros distantes da capital paranaense e região metropolitana que vêem ao centro fazer compras, pagar contas ou simplesmente passear. Não é raro observar famílias inteiras com sacolas cheias de compras as quais penduram nas cadeiras de madeira do Lee enquanto se alimentam. Além disso, o local recebe um público que denominaremos aqui de flutuante, ou seja, viajantes, vendedores, turistas, estudantes e motoristas.

Além de Zhau, sua esposa e seus filhos – um menino e uma menina – também trabalham no estabelecimento. O menino, geralmente, no caixa e a menina, assim como os pais, ajudando os clientes a escolherem um prato, os servindo e limpando, assim que deixam o estabelecimento, com um pano de prato umedecido as mesas distribuídas em quatro fileiras de cinco. Na cozinha trabalham três cozinheiras brasileiras que, através de uma fenda aberta na parede que dá acesso à cozinha, recebem os pedidos expressos verbalmente em um misto de português com forte acento chinês.

Durante as eleições municipais do dia 7 de outubro, tentamos descobrir se a dinâmica das eleições influenciou na dinâmica do Restaurante Lee. Nossa hipótese era de que no Restaurante encontraríamos clientes que nunca o frequentaram, mas que em função de votarem nas sessões próximas ao estabelecimento e também pelo fato de grande parte dos restaurantes e lanchonetes da região estarem fechados, pudessem escolher o local para se alimentarem.

Duas sessões estavam funcionando na região de nosso objeto de pesquisa que faz parte da centésima septuagésima oitava zona eleitora de Curitiba: uma no Colégio Estadual Tiradentes e outro no Prédio Histórico da Universidade Federal do Paraná.  Nas proximidades destas sessões, o fluxo humano era mais intenso do que o normal ao domingos, mas bem menor do que durante os dias úteis.

Não havia um clima político nas ruas centrais.  Não escutamos comentários sobre política em nenhum dos espaços pelos quais passamos: Feira do Largo da Ordem, Praça 29 de Março, Praça Tiradentes, Praça Santos Andrade, Calçadão da XV e Feira da Praça Osório.  Nem mesmo na região da Boca Maldita havia movimentação política, exceto um cavalete de cerca de 3 metros com reprodução de uma reportagem do Jornal Gazeta do Povo denunciando a existências de candidatos a vereador que foram contrários à cassação do ex-presidente da Câmara João Cláudio Derosso. Este cavalete gigante era lido e, até mesmo fotografado, pelos transeuntes, poucos, que passavam pelo local, por volta das 15h.  Também não encontramos uma profusão de santinhos como esperávamos nas ruas e nas calçadas. Haviam sim, mas poucos e dispersos. Apesar do silêncio e da relativa limpeza pública, no calçadão da rua XV, encontramos centenas de cavaletes destruídos e virados ao contrário, impedindo a identificação de qual candidato pertenciam.  Na manhã seguinte à eleição, ficamos sabendo que a Prefeitura recolheu cinco toneladas de material de campanha, principalmente nos bairros.

Em frente ao Lee, apenas um santinho do candidato Ratinho Junior flutuava ao sabor de um vento perdido na tarde quente de 32 graus, um pouco mais a frente, na esquina da Riachuelo com uma calada Rua São Francisco revirada por obras discursadas como de revitalização um programa rasgado do vereador Johnny Stica repousava perto de uma lixeira.

Posicionamo-nos na porta do restaurante onde fizemos as seguintes perguntas para os fregueses que saiam dele: Já votou?  Vota na região central? Em qual região da cidade mora? Vem sempre ao Lee?

Enquanto aguardávamos, as portas do Bar e Petiscaria G., bem em frente ao Lee, são abertas por um homem magro e moreno que se posiciona na entrada. Logo, uma mulher aparece, cumprimenta-o e se posiciona na esquina. Em segunda é abordada por outro homem. Eles conversam. Ela aponta em direção da Rua Alfredo Bufrem e eles desaparecem. Em toda extensão da Riachuelo, apenas o Lee, o G. e uma pequena papelaria funcionam. Na porta da papelaria um cartaz escrito à mão informa: “plastifica-se título de eleitor”.

Um grupo de seis homens negros dobra a esquina da Tobias de Macedo com a Riachuelo parando em frente ao bar G. O grupo parece à procura de algo, que logo ficamos sabendo serem mulheres. Em frente ao bar T., diametralmente oposto ao bar G. uma prostituta acena para o grupo, eles sorriem um para o outro, conversam entre si, aparentemente em um uma língua africana, mas não se entusiasmam com a mulher e seguem em direção à Praça 29 de Março.

Na região também encontramos quatro moradores de rua que aparentemente não faziam ideia da eleição nem da Lei Seca. Eles consumiam cachaça em garrafas de água mineral.  Um deles, mais exaltado, caminha de um lado para o outro, olhando para todas as direções. Ele parece participar de uma pequena rede de tráfico que opera na região. Vimos-o diversas vezes passando furtivamente papelotes para homens que desaparecem rapidamente do local assim como surgem. Minutos depois, quando a Polícia Militar abordou um jovem de bermuda e mochila, este mesmo homem guardou diversos papelotes dentro de um tênis velho e encardido que estava do lado de outro morador de rua que dormia enrolado em um cobertor vermelho.

No entremeio destes fatos realizamos as entrevistas. O primeiro entrevistado disse ter votado logo pela manhã em Almirante Tamandaré e que costuma aos domingos frequentar o centro da cidade e “almoçar no China”. Em seguida, outro homem diz morador da Vila Santa Rita no Bairro Tatuquara, zona sul, e que vem domingo de ônibus para o centro e “vai voltando devargazinho” para casa ao longo do dia, parando “aqui e ali”. Ele conta que é aposentado e não votou. Um casal sai apressado do restaurante, perguntamos-lhes se são de Curitiba, se já votaram e onde. Já no meio da rua, o homem responde que votaram cedo; ele em Santa Felicidade e ela “lá pros lados do Pilarzinho”. Assim como o primeiro entrevistado, o quarto cliente abordado disse ser de Almirante Tamandaré e que domingo costuma vir ao China para almoçar e depois passar a tarde no Passeio Público “brincando com os outros velhinhos”.  Em seguida, abordamos outro casal. Novamente, o homem respondeu afirmando terem ambos votado nas proximidades da Vila São Pedro, no Bairro Pinheiro, onde moram. “Há 16 anos freqüentamos aqui aos domingos, desde quando o outro chinês era dono, o senhor Lee”.  A seguir, entrevistamos dois homens que afirmaram ter votado na sessão da Praça Santos Andrade, o primeiro, morador do centro, e que “às vezes” almoça no Lee, o outro, veio do Bairro Santa Cândida e decidiu almoçar no Lee pela primeira vez. Em seguida, um casal, acompanhado de suas duas filhas, disse ser do Pilarzinho e, assim como a maioria dos entrevistados, afirmou já ter votado pela manhã. Eles disseram frequentar o China aos domingos “para variar”.   Por fim, um homem com o Jornal Gazeta do Povo sob os braços disse não votar por não acreditar “no sistema que está aí”.

Nossa hipótese de que a dinâmica das eleições influenciaria na dinâmica do Lee não foi corroborada. Todavia, descobrimos que, pelo menos entre os entrevistados, a maioria não mora no centro, mas vêem ao centro, geralmente aos sábados ou domingos, e que o Lee está entre os lugares que apreciam frequentar.

Outro dado é que durante nosso tempo de observação não vimos jovens no Lee. Em sua maioria, os clientes são pessoas mais velhas, tanto sozinhas como acompanhadas.

Nos entremeios da observação, enquanto esperávamos os clientes saírem do Restaurante acabamos por observar outras dinâmicas humanas operando na região como, por exemplo, tráfico de entorpecentes e prostituição, além de crianças de rua abordando pedestres. Tudo isso num simples dia eleição que nem parecia que estava ocorrendo até os primeiros minutos depois das 17 horas quando o silêncio foi substituído pelos sons das buzinas dos automóveis, pelo ronco dos motores, pelos estrondos dos fogos e gritos aleatórios de vitória.

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