Aylan Kurdi

Conheci há alguns meses um grupo de refugiados sírios que abriram um pequeno comércio próximo à Praça Tiradentes. Entre eles há um que fala inglês e recebe os fregueses. Os outros escutam atentamente e percebo que já aprederam a dizer o preço dos seus produtos: “e treis reals” ou algo assim. Entre um shawarma e um za’atar esse que fala inglês perguntou-me: “is there terrorism in Brazil?” Respondi que não (embora, pensando bem, deveria ter dito que temos uma absurda violência policial que é exercida contra pobres, negros…). Enfim disse que não porque sabia que ele estava se referindo ao terror praticado pelo Estado Islâmico em seu país. “I hope you never have terrorism in Brazil”, falou-me por fim com uma expressão triste na superfície do olhar, mas também confiante nas suas profundezas. Ele e os homens se entreolharam. Ficamos todos em silêncio. Talvez volte qualquer dia desses para falar do terrorismo da polícia militar brasileira e também do terrorismo dos ruralistas contra os indígenas. Hoje passei rapidamente lá perto e vi que, diferentemente dos outros dias em que só haviam homens adultos, havia também um menino. Pensei em Aylan Kurdi.

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