identidade

de repente, você percebe que perdeu a identidade. você olha para os lados e não há ninguém. desce as escadas e confessa para a velha do prédio que perdeu a identidade. ela sorri. você caminha pelas ruas com a respiração em descontrole atrás de sua identidade. “e se eu perguntar para aquela mulher que passa rápido com uma bolsa vermelha a tira-colo se ela viu por acaso minha identidade por aí?” você atravessa no meio de um bando de pombos na praça tiradentes. “melhor não”, você pondera, ela já dobra a esquina e os pombos formam uma mancha cinza escura no outono. “ou então para aquele homem que lê um livro por dia na porta da igreja? “ele pode pensar que enlouqueci”, você raciocina. as horas estão girando e a identidade não volta, você sente e está no meio da XV faminto como um bicho sem identidade. você decide almoçar e a comida tem gosto de identidade. resolve cortar o cabelo na rua são francisco. não comenta nada com o cabeleireiro, mas ele diz que mora em Curitiba há 41 anos e que o frio mesmo começa no dia 1 de junho porque certa vez no dia 31 de maio estava ensolarado e no dia seguinte estava gelado e brusco, que  frio mesmo é lá em são joaquim a cidade natal dele cujo inverno é bravo e neva 3 vezes. você limita-se a encarar o espelho. – se não cair neve 3 vezes o povo diz que não é inverno. à medida que o cabelo é cortado seu rosto vai mudando e você lembra que não tem mais identidade. – sou descendente de espanhóis e portugueses, 70% da população daqui não é daqui. é díficil encontrar alguém com mais de 50 anos que seja curitibano nato. – quanto é? – é 8. – obrigado. você sai apressado como se pudesse alcançar a velocidade da luz e voltar no tempo, de preferência, antes do instante em que perdeu a identidade, você delira. entra na padaria. sai da padaria, entra de novo e aborda a loira do caixa. – as pessoas sempre perdem suas identidades nos bares e padarias, você insinua.  –  é verdade. tem uma aqui. você diz que não é sua. fala obrigado e sai. olha para cima, afinal ela pode estar voando por aí. olha para baixo e nada, você quase chora.  – “lá há uma lista  com nomes de pessoas que perderam a identidade”, algúem diz. você vai, você acredita que seu nome possa estar lá. a lista é enorme, você confere. há uma pessoa com o mesmo nome que você mas não é você, você conclui. não é só com você que isso acontece, você exercita sua alteridade. mesmo assim seu caso é especial porque a sua identidade é a sua identidade, você é egoísta. você volta para seu apartamento. você perdeu o dia atrás de sua identidade. esfria um pouco. você põe um casaco. você põe a mão no bolso esquerdo e depois no bolso direito e a identidade está aí.


pois bem

devia ter uns 17 anos. dia de trote. a testa com o nome da universidade e as roupas empapadas de farinha e tinta. um certo ar de satisfação por ser, digamos, humilhado em praça pública depois da aprovação familiarmente gloriosa no vestibular para direito.

– um ajuda de custo, por favor, disse-me com um chapéu panamá na mão.
– hoje estou sem grana, respondi, sem completar “como sempre” no entanto.
– pois bem, respondeu já exercendo a advocacia.

quase voltei, todavia já interpelava o próximo cliente …


que bicho te mordeu?

1 picada de formigaranha estranha no dedo médio da mão esquerda. 34 graus. arde. no local do ataque uma bolinha vermelha do tamanho da ponta de um compasso surge. arde muito. 35 graus. “será que mais alguém foi picado?”  quando senti o ódio do bicho nem olhei para ele.  só o esfreguei contra minha pele com o dedo indicador até desintegrar. de que outro modo agir com uma formigaranha? foi tudo muito rápido como olhar para alguém de relance enquanto caminhamos apressados pela cidade e reter sua imagem até a próxima. “Será que vou morrer sem o mundo saber que bicho me mordeu?” o dedo incha. “deveria ter pelo menos o guardado”.  36 graus. arde ao extremo e  já não consigo dobrar o dedo. “deveria tê-lo fotografado”. o inchaço evolui para a mão. ando bem rápido. 37 graus. penso em pedir álcool num comércio qualquer. “mas seria bem estranho chegar dizendo que fui picado por um bicho no banco da praça”.  um ônibus bate numa banca de revista e a destrói. 38 graus.  “estou com cara de quem foi atacado por uma formigaranha?”  vejo meu reflexo no vidrô fumê de um hotel. almoço e tenho dificuldade com a faca. “pelo menos não morrerei com fome”. era meio verde esbranquiçado. 39 graus. “vamos embora antes do sol do meio dia”, escuto a mulher que conduz o cego dizer. reduzo os passos, afinal para que pressa para quem não sabe que horas morrerá?  “vamos ficar mais cinco minutos aqui”, ouço o cego responder à mulher e os perco para sempre. atravesso dezenas de ruas e cruzo com milhares de faces. entro até em uma pequena igreja vazia e vejo pessoas ajoelhadas. não é nem uma hora. “elas não foram picadas”. Será que deus sabe o que é uma formigaranha?  não deixo ninguém ver minha mão que vira um balão vermelho. começo a flutuar sobre a cidade. “todos daqui se parecem com formigaranhas”. 40 graus. explodo em milhares de formigaranhas.