chicken de macumba

Se a lenda é o vestígio histórico da passagem do mito na terra, hoje a apresentação do “o lendário chucrobilly man

na festa “Garage Shock”  – blues, soul, tosqueiras & selvageria no kubrick –

foi lendária – pelo menos para mim & para as meninas que emitiam gritinhos orgásmicos estimuladas pelo som selvagem, sixty, sexy, blues rock, rock blues, bang punk bang recheado de ecos & delays de arrancar pelo pescoço qualquer neurótico de casa à meia noite em ponto & sei lá mais o que

do one-man band de Itararé (SP) radicado em Curitiba.

esta percepção vem de um ponto de vista construído através da tentativa de entrar no transe do próprio artista em ação que se nos bares é koti klaus no palco recebe todas as entidades do blues, de robert johnson a jon spencer, de tião carreiro (!?) à hasil adkins,  e transfigura tudo isso em acordes, riffs,  refrões ganchudos, destreza rítmica, solos de corneta, ataques no chimbal, uivos ginsbergnianos, slides matadores

para, metaforicamente, claro, incendiar o galinheiro honey.

quando abro mais o olho só há um homem & seu destino que é a sua própria manifestação artística no palco.

não sei porque quincas berro d`água os demônios do blues, ou as entidades da macumba me reservaram a encruzilhada da visão: tive o privilégio (para não dizer a cara de pau ou a sensibilidade) de me posicionar no lugar reservado à galinha e à cachaça. abri mão do som dos pa`s para sorver diretamente as emanações macumbeiras provindas do palco &  ainda conseguia enxergar a juventude sônica a dançar …

engolido pelo ritual antropofágico

onde oriente & ocidente é logo aqui,

macumba blues, mantras & cervejas

se fundem num turbilhão sonoro

capaz de colocar em estado de choque

um fã de sertanejo universitário, por ex.

que foda! sou um cara de  sorte

essa noite…

microfonias esparsas, problemas no pedal galizé são menos piores do que titica de galinha na sola da bota

& os problemas técnicos da apresentação são apenas uma  “negative vibration” passageira

,

momento de transição

entre toda negatividade
que os corpos elétricos
trouxerem da semana

para o número 351 da trajano reis

mas se tudo correr bem

será canalizada num

transe selvagem primitivo!

os iniciados gritam: “chuta que é macumba!”

até perderem totalmente a voz para

somente seus corpos falarem a língua do deus rock

este que tem a idade da pedra &  unifica todos

por um momento num grande ritual de exorcismo

de egos em direção ao êxtase coletivo mitológico …

o deus do rock acelera o caminhão. saí da frente mermão!

porque o som da macumba em curitiba é o blues.

avancemos alguns minutos após a perfomance lendária do lendário chucrobillyman:

renê q é francês mas também índio diz que gosta de curitiba por causa do rock; sua amiga polonesa mas também cabocla & cigana.

“por isso eu gosto desta cidade”, ele diz sob um céu azul às 02:45

de volta para o passado

estamos no delta do iguaçu onde o encontro do blues e  da viola caipira possibilitou a criação do “estilo da galinha” …

divagações estilísticas à parte para outras divagações mais objetivas & diretamente conectadas à noite de ontem que ainda ecoa nas ideias:

gênio é o míope que organiza o caos. e o q é o rock senão o domínio e a amplificação do caos do universo em um universo próprio construído a partir de uma constelação de referências que plasmam numa linguagem que pode ser original ou mero pastiche?

rock dionísiaco macumbeiro cada vez mais sofisticado e percussivo desde o lançamento do “Chicken Album” em 2008 , mas não menos primitivo do que “Rock’n Roll Primitivo” (2004) é a minha definição para o agora deste ser cujo som só tinha ouvido falar & hoje posso falar depois de ouvir. Apesar de toda macumba que

“somebody put macumba on you
somebody put macumba on me”

o rock rola

porque hoje é sábado

“hare krishna
hare hare”

bêbado & louco o chimbal boca grita,
a viola envenenada

com uma santa colada

em seu corpo marrom

com um botão prata &

tarrachas que emitem luzes
vermelhas

suas cordas não deixam nenhum fascista vivo!

o bumbo explode boom!

a caixa hipnotiza a moça de piercing no umbigo que faz movimentos de cobra no centro da plateia

entre um acorde & outro

um buraco negro de silêncio absoluto

se faz & reina sobre o caos: nada existe,

nenhum corpo, nenhum som e préimmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

é o ápice … que o ocorre entre uma nota e outra baby!

gritos delirantes na pista
garotas com febre de rock
meninos aprendendo a voar

o sistema esqueceu o meu corpo anarquia que se desprendeu de meu juízo

“essa vai pra quem já teve problemas de amor & foi para a cadeia”

que se foda quando tudo está fodido mesmo

um verdadeiro espetáculo de rock ocorre

num espaço parelo ao tempo

através do domínio total do tempo

da música

(…)

de volta ao planeta terra

saio em disparada pela noite

para lembrar do que aconteceu

com o coração na boca &

uma cerveja gelada na mão

estamos agora por aqui

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jornalismo de garagem

Enquanto casais mastigam seus cachorros
-quentes o rock come solto no subsolo da

cidade sorriso

de banguelo.

esta noite foi a vez
do Pie`n`Gusso  no TUC

Quando será a sua noite?

bem continuo sem refrão
& eu continuo
sem patrão

uma olhar de jornal pode ser um poema
ou até mesmo uma canção garageira

& esta noite foi a vez
do Pie`n`Gusso no TUC
& quando será a nossa?

você sabe continuo sem refrão
& sigo livre sem patrão

não pagando nada pela carona
com o rock no meio da semana

podemos cantar a canção
sem refrão & sem patrão

desde que você não tenha um automóvel
desde que você tenha amigos na banda

esta noite foi a vez
do Pie`n`Gusso no TUC
amanhã será a próxima


Alguns degraus abaixo

Clima de feriado. A cidade está vazia. Até as almas penadas foram viajar. O que poderia ser sinônimo de depressão sabática para um pobre jornalista pobre se modifica quando estes ouvidos que os vermes irão comer escuta exatamente no instante em que pisa na esquina da Rua José Bonifácio um som vindo das profundezas da terra curitibana.

Alguns degraus abaixo, encontro dois caras saindo da sala que irradia rock. É Fábio, técnico de som da Fundação Cultural e Isac que descobri momentos depois ser o baixista da banda Líricos Platônicos que encerrou a primeira semana do Garageira Curitibana, projeto do músico e produtor musical Marcus Gusso (Coelho) que acontece no TUC (Teatro Universitário de Curitiba, na Galeria Julio Moreira), de quinta a domingo, às 20h30, durante todo o mês de novembro, com entrada franca.

19h45. Isac me oferece uma cerveja e um cigarro. Pergunto qual é a da banda e o simpático baixista responde: – Rock and roll. Estou no lugar certo baby! O batera André Molina também cola na roda. Fábio, o técnico de som mais gente boa do estado, totalmente elétrico, bota pilha no papo e, em menos de um segundo, cita Jesus não Tem Dentes no País dos Banguelas, Nelson Rodrigues, os mexicanos do Molotov e funk carioca (!). Sem dúvida é no rock que tu vai encontrar seus melhores amigos…

O público aparece e os Líricos Platônicos disparam seu rock de guitarra versátil, baixo encorpado e bateria nervosa sobre letras ácidas, irônicas e concretas que flutuam no espaço antes de atingirem em cheio o sistema auditivo. A performance no palco do hiperativo vocalista Edgar Fratt lembra-me uma maluca mistura de Tom Zé, Cazuza e Arnaldo Antunes devidamente deglutida.

A canção “Outdoor” que está sendo tocada na Rádio Música Curitibana é o ponto alto da noite.  Edgar explica que a compôs para um amigo que apareceu em sua casa vestindo uma camiseta com o logo da marca do refrigerante mais consumido no planeta estampado na altura do peito. “Eu perguntei ganhou? Ele respondeu comprei. Otário!”

Sem filosofar em excesso, os Líricos Platônicos saíram da caverna (ops! da garagem) e fizeram uma apresentação dionisíaca alguns degraus abaixo da terra e alguns degraus acima da média.

– Espero todo mundo no Chinaski, convoca Edgar. Vai ter uma festa legal lá! Boa noite!


O dia em que o vampiro foi no arrasta-pé

1

Enquanto bebericava a cerveja e aguardava a apresentação das meninas prestimosas do Espinho na Roseira na histórica Sociedade 13 de Maio cheguei à conclusão de que ser um vampiro em Curitiba não é tão difícil assim. É fácil e óbvio viver nas sombras e no anonimato nesta cidade. Paraíso dos voyeurs? Quem sabe.

2

Vampiro arrasta-pé daltoniano quando o mundo perceber tua ausência já terás escrito.

3

O fato aqui é que é

um pecado não saber

dançar um pé de serra

& eu não sei seu Luís!

Mas hei Dionísio tropical de aprender!

Resta a riqueza de apreciar a beleza da mulher brasileira, sua musicalidade, seus ritmos & mistérios & tudo isso & muito mais tem o Espinho na Roseira para os sentidos de quem se permite permitir.

4

Deve estar uns 50 graus esta noite. A cerveja é o néctar dos deuses do carnaval fora de época.

Cabelo curto, magrinha, rosto angular.

– É um pecado não saber dançar um forró pé de serra?

Ela sorri.

– Não. Fica sussi!

– Você salvou minha vida por um momento.

Sai rodopiando com molejo pelo salão. Seu vestido colorido vira uma cor veloz só.

5

Vejo um homem de chapéu no fundo do bar  na observação do movimento.

– Gostaríamos de chamar Seu Zezé!

O homem de chapéu se levanta e caminha em direção ao palco enfeitado com fitas coloridas onde se transforma num rei sanfoneiro!

Agora a ciranda está completa. Meus ouvidos deliram com a conjunção de

Priscilla Pontes (voz e percussão), Paula Back (percussão e voz), Luana Godinho (violão, voz e percussão), seu Zezé (sanfona) somada à participação especial de Gabriela Bruel (percussão, viola caipira).

A platéia com os corpos liberados aproveita o sol desta noite em Curitiba.

6

Eu ginguei para chamar a sua atenção

No futuro os poetas serão dançarinos

O globo dentro da estrela gira no teto

7

A morena vestidinho roxo enfeita o salão

dança sozinha pequenina rainha

tem todos os parceiros ao seu dispor

ah! se eu soubesse movimentar-me

africanamente livre seria bem mais

feliz & belo neste país continental.

8

Amanhã meu corpo permeado por forró, xote, xaxado, baião, capoeira, maracatu, coco de roda, cirandas e fandangos precisa se lembrar do refrão cantado com tanta doçura, pura sedução de sereias. Sou um pescador iludido. “Restará uma rosa dentro de mim”.

9

– você tem algum tipo de bala?

– não.

Penso em mais uma cerveja, mas meu dinheiro só daria para umas balinhas de hortelã.

10

Imagino ser capoeirista no salão e entro na roda de um grupo de amigos. De princípio elas se assustam, mas contagiadas pelo berimbau aderem à dança e nos abraçamos como velhos amigos para no próximo segundo sermos eternos desconhecidos, afinal ainda estamos no Paraná.

11

Findo o show  me deparo na saída

com uma fotografia do Tim Maia

& ganho a rua com fogo no pé.

Freud não sabe dançar forró.

Vamos todos sair do divã &

cair na vida!

12

A fotografia do Tim, pandeiro, a placa de 100 anos da sociedade 13 de Maio, zabumba, o globo girando, sanfona, pessoas maravilhosas e normais no palco e no salão, agogô, o perfume da morena, violão, o sabor da índia, triângulo, o requebrado da polaquinha, a beldade de vestido vermelho, a deusa de vestido azul com estampas florais ficam para trás enquanto eu caminho de novo pela Rua Clotário Portugal.

“Um cigarro”, penso ou todo o sistema capitalista pensa através das minhas vísceras. Tanto faz desde que se tenha um trocado no bolso para a máquina toda funcionar e o desejo ser satisfeito temporariamente.

13

Largo movimentado. 23:00 quinta-feira. Noite quente sem estrela nem lua. Compro 2 soltos. As pessoas bebendo cerveja. O bloquinho do garçom lotado. – Obrigado.

Na esquina da igreja do rosário sou abordado pelo demônio.

– Ei cara é possível arrumar este cigarro.

– Comprei agora vamos fumar aí…

Passo o cigarro.

– Não…  Pode fumar na boa.

– Beleza. Vamos aí e te dou na esquina da 13 de maio

– Tá certo. O demo sorri

O  cigarro vai ser pra … Cê tá ligado, né!?

– A escolha é sua. Não posso opinar.

– Tá certo então.

– Você precisa ouvir Sabotage mano! O Sabota era firmeza, mandava várias ideias que poderiam auxiliar na digestão de toda essa parada que te esmaga hoje. Quem sabe tu entenda que está intoxicado por este sistema e quanto mais você traga mais ele te traga.   Encontro minha liberdade ouvindo um som. Toma aí. Falou aí.

– Falou!

Acendo outro cigarro na esperança de fumar tranquilo. Subo o Largo. Volto a ser fantasma nocturno, vampirinho daltoniano invisível para as massas ruidosas, o som da água salta da garganta do Cavalo Babão impassível, silêncio nas ruínas, vôo e volta a ficar de ponta cabeça até amanhã à noite.

Post script

Espinho na Roseira  é legal para quem sabe dançar

& para quem não sabe também!

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