Reversão cosmopolítica

19/05/2020: “Nas últimas 24 horas, foram contabilizados 1.179 óbitos pela doença causada pelo coronavírus, com média de uma a cada 73 segundos. Ao todo, o país registra 17.971 mortes pela covid-19”.
 
21/05/2019: Em novo recorde, Brasil registra mais de mil mortes em 24h pela 2ª vez na semana Foram 1.188 mortes por covid-19 confirmadas de quarta para esta quinta; óbitos somam 20.047.
 
Quando a sociedade brasileira perceberá o massacre em curso e que aumenta a cada minuto? Quando perceberá que os irresponsáveis que desgovernam o país não dão a mínima para nenhum dos 20.047 mortos até agora? Quando entenderá que sem uma quarentena bem feita a pandemia não retrocederá? Quando o país e seu “presidente”  perceberão que apenas com isolamento horizontal, distanciamento e realização massiva de testes, as atividades poderão, em algum momento, ser retomadas com um mínimo de segurança? (Digo mínimo, pois sem imunização o risco de contágio permanece).
 
“Economia primeiro e saúde depois”, escreve-me um humano condicionado por um bot. Do jeito que está não vai haver nem saúde nem economia, mas ainda mas mortes e crise social, política e econômica.
 
Daqui de casa escuto por vezes os comentários dos comerciantes lá fora. Já há algum tempo estes comentários podem ser reunidos em um só: “tá fraco”. Este “tá fraco” revela algo sobre eles e sobre nós, os esperados por eles de quem nos distanciamos. Há uma desconexão com um certo modo do capital, mas não uma desconexão com o capital, muito pelo contrário, talvez nunca estivemos tão, impessoalmente, conectados aos fluxos monetários. “Tá fraco” e isso é dito à procura de uma conexão, no caso do comerciante através da mercadoria com um consumidor desejado; mas talvez esse modo de conexão já não exista mais. Quais existem agora? Este (a que estamos reduzidos), mas não só.

Há infinitos processos infinitos articulados que não se deixam pensar separadamente. O novo coronavírus é (mais uma) prova evidente disso. Ao ganhar, cada vez mais, agência na relação com os corpos pode colapsar o mundo como conhecemos, pode afetar economias inteiras, pode matar milhões de humanos, pode, no limite, exterminar a humanidade, ou então criar algo que chamarei de sobreviventes espectrais, capazes de viver assim como estamos “vivendo”.
 
O vírus não vem de fora do mundo, mas está no mesmo mundo que o homem, mundo que este homem, ao se pensar absoluto, aniquila e ao aniquilá-lo aniquila simultaneamente a si próprio, pois não há homem fora do mundo senão nas suas próprias fantasias.
 
Não há homem fora do mundo, mas há mundo, mundos, fora do homem. O mundo não existe só quando subsumido pela percepção sensível e pelo entendimento. Se não houver um pensar ‘da complexidade’, um pensar dos diferentes processos simultâneos reticulares, se não compreendermos que o que chamamos, ilusoriamente à distância, de natureza, como se não estivéssemos imediatamente implicados, tem forças e agências indomesticáveis, vamos ser esmagados por problemas (em larga escala criados e potencializados por nós mesmos): pandemias, aquecimento global, derretimento de geleiras, acidificação dos oceanos, perda de biodiversidade. “Tá fraco”.
 
O ar dos tempos requer uma nova política, uma “cosmopolítica” renovada que desloque o humano do centro da ação política e reconheça efetivamente uma multiplicidade de agências e agentes políticos, inclusive inorgânicos. É preciso aprender (novamente) a respirar neste cosmos povoado por uma infinidade de agências humanas e não-humanas. Esta cosmopolítica, nos lembra Philippe Descola, “não é um prolongamento do projeto kantiano de formular as regras universais por meio das quais os humanos,  onde quer que estejam poderiam levar uma civilizada e pacifica.  Mas literalmente, como uma politica do cosmos. 
 
A presença de um vírus que ao infectar o humano ataca o sistema respiratório talvez seja, não por certo a primeira, mas talvez a decisiva lição desta reversão cosmopolítica para o que há como para o que não há por vir.


Espírito em quarentena e alienação material

Enquanto uma parcela considerável da esquerda, detentora de tempo livre, de recursos materiais e intelectuais, expressa-se de modo idealista e moralista nas redes e nas lives, “da ponte pra cá” ouvimos ecoar o seguinte discurso dos pobres (que o bolsonarismo captura e modula para reforçar seu populismo autoritário):
“Tem que abrir, morre quem tiver que morrer, resolve logo isso aí”. “Estão querendo sacanear a gente”. “Enquanto está tudo parado, as contas não param de chegar”.
Acreditar, sem elaborar e efetivar ações concretas na base material, que apenas o apelo humanista e a crítica douta da religião e da política bolsonarista vão funcionar é encaminhar-se para a derrota certa.
Ainda que as lives e os textos sejam importantes para se apreender o que se passa, as atenções e as ações precisam estar voltadas também para as outras dinâmicas materiais da sociedade. Neste campo o bolsonarismo, apesar de toda sua dimensão teológica e de toda escatologia cristã que parece seguir, mostra-se efetivamente materialista.
Se ainda há de fato algum desejo por democracia radical isso passa inevitavelmente por sermos capazes de dobrarmos contra a  extrema-direita a força que ela capturou e utiliza para poder avançar com seu projeto apocalíptico de aniquilação e extermínio.
Não basta desvelar e atacar o bolsonarismo metafisicamente. É necessário também encontrar disposição para se mobilizar por questões práticas em que a máquina bolsonarista falha miseravelmente como, por exemplo, em torno do auxílio emergencial (rapidez e continuidade dos pagamentos, aumento do valor, desburocratização, acesso, redução das filas) e outras medidas como suspensão de pagamentos de alugueis, contas diversas até a efetivação de um programa permanente de renda mínima.
Trata-se de exigir de Bolsonaro e de sua base empresarial de sustentação o que com a esmola de R$ 600, assistencialismo barato e muita oração se desobrigam a garantir, ou seja, a possibilidade de toda a população ficar em casa durante a pandemia com segurança financeira e alimentar.

A morte entrópica do bolsonarismo

Bolsonaro introduz confusão no sistema comunicacional democrático. Os jornais, sites, blogs e redes sociais ao reproduzirem seus atos elevam a força que lhe resta a uma força que ele não tem. O resultado desse processo é o fortalecimento político do bolsonarismo (vide tomada de corpo do frame #obrasilnãopodeparar) e o enfraquecimento relativo das forças que se articulam de diferentes maneiras contra Bolsonaro e, principalmente, contra a pandemia, pois acabam por permanecerem dispersas, sem capacidade para compor um antagonismo destituinte com relação ao presidente, e sanitário com relação ao vírus. Com o avanço da pandemia, e a multiplicação de casos confirmados e de mortos, mais informações sobrecarregarão o sistema já sobrecarregado. Há informações também que as comunidades pobres não têm mais condições materiais para permanecerem em quarentena (estão sem alimento e sem dinheiro). Para onde dissipará toda essa energia social que circula nos territórios da cidade e nos territórios informacionais numa retroalimentação constante? Bolsonaro, a meu ver, age de forma a mobilizar um quantum de força suficiente para tentar um movimento que ele sozinho, isolado, não tem capacidade de realizar. O bolsonarismo não é um movimento político, mas um movimento informacional que modula uma política que temos dificuldade de conceituar pois assume formas variáveis, moventes, disformes, dinâmicas, contextuais, dúbias: são fascistas, populistas e suicidárias para uma grande parte da população, mas também são salvadoras, míticas para a outra parte que o elegeu e que, em larga medida, ainda o sustenta pois ainda submetida a altas doses de desinformação providas por robôs, mas também por uma ampla rede de pequenos e médios empresários com poder sobre a vida dos trabalhadores que só têm o tempo e a força de trabalho para vender. Se o ruído Bolsonaro não for retirado de circulação, a pandemia da Covid-19 matará ainda mais pessoas do que as estatísticas apontam, pois o presidente desorganiza a sociedade, ao ponto de conduzi-la para a morte entrópica, quando o Brasil deveria estar organizado para lidar com os efeitos do vírus Sars_Cov_2 sobre a população.


Xawara

Lembro que em 2019 Davi Kopenawa disse em um vídeo da Hutukara (Associação Yanomami) que percebeu algo estranho na ‘imagem’ de Bolsonaro, mas que preferia não tirar conclusões precipitadas como o presidente fizera à respeito dos povos indígenas. Diplomata cósmico, o líder e xamã Yanomami pediu na ocasião um encontro com Bolsonaro “para olhar bem dentro dos seus olhos”. Este encontro não aconteceu. Hoje, permitam_me o exercício de especulação e “perspectivismo”, imagino que Bolsonaro teve medo de Kopenawa revelar ser o presidente um portador (em potencial) da epidemia xawara. Todos da comitiva presidencial que foi aos Estados Unidos estão doentes menos Jair Bolsonaro. Ele não receia ser descoberto como positivo, mas como negativo, a epidemia em pessoa ou alguém possuído pelos xawarari, os espíritos da epidemia.

O que os Yanomami chamam de xawara, explica Kopenawa em “A Queda do céu”, “são o sarampo, a gripe, a malária, a tuberculose e todas as doenças que nos matam para devorar nossa carne. Gente comum só conhece delas os eflúvios que as propagam. Porém nós, xamãs, vemos também nelas a imagem dos espíritos da epidemia, que chamamos de xawarari”.


sinais desconcertantes

[17/03/2019]: “Brasil confirma primeira morte por coronavírus e vítima é de São Paulo. Trata-se de um porteiro aposentado, de 62 anos.”

[..]

“A morte do porteiro, pode-se dizer, marcou o fim desse período, cheio de sinais desconcertantes, e o início de outro relativamente mais difícil, em que a surpresa dos primeiros tempos se transformou, pouco a pouco, em pânico”. (Camus)


Beira-mar

Se fôssemos bons em política como somos em memes estaríamos feitos, mas nos jardins os urubus continuam a passear a tarde inteira entre os girassóis. “Aqui é o fim do mundo. A bomba explode lá fora. E agora, o que vou temer Oh, yes, nós temos banana até pra dar e vender”. “Veja que beleza em diversas cores, veja que beleza em vários sabores a burrice está na mesa”. “O Glauber chorava as crianças com fome”. “Uma criança sorridente, feia e morta estende a mão”. “O Glauber chorava esse país que não deu certo. “Não chegaremos a uma civilização pela harmonia universal dos infernos”. O Glauber chorava a brutalidade. “Soldados e otários do Brasil. O que é o Brasil? O que é o brasileiro? Na mansão dos Aranha alguém grita de fome”. “Quem vai querer comprar banana? Quem vai querer comprar a lama? Quem vai querer comprar a grana?”. “O Glauber chorava a estupidez, a mediocridade”. “Aranha, alto financista, banqueiro, político e testa-de-ferro internacional, do coração da favela para o resto do Brasil”. “No meio da esperteza internacional a cidade até que não está tão mal. E a situação sempre mais ou menos: sempre uns com mais e outros com menos”. Chega de lights e all rights, good nights e faufaits isso não dá mais pra mim”. “Aqui é Capão Redondo “tru” não Pokemon”. E “a cidade não pára, a cidade só cresce, o de cima sobe e o de baixo desce”. “O Terceiro Mundo vai explodir” no “dia em que o morro descer e não for carnaval”. “Quem tiver de sapato não sobra, não pode sobrar!”. Beira-mar …


Extinção

O mundo em que nascemos existe cada vez menos. O século XXI só está começando e pode não acabar bem [para a humanidade]. O fim do mundo não é o fim do mundo, mas o fim do mundo como nós conhecemos. Veja as notícias: os seres humanos estão divididos em grupos como macacos em guerra. No Brasil, o “presidente” naturaliza estupro, defende trabalho infantil, goza com armas e sonha com torturadores. Um juiz de província, tornado ministro da justiça pelos serviços sujos prestados, condena e absorve a seu bel prazer sádico. Nos EUA a entidade no poder constrói um muro na fronteira com o México para segregar. Você consegue perceber os signos da mais completa decadência e da destruição? Ou o vírus zumbi já te infectou e tudo o que consegue dizer é que odeia o (complete). Você foi programado para odiar? Game over. Não há remédio para curar o ódio do corpo, da mente ou da língua. Não adianta gritar que isso é ideia de esquerdista. As categorias políticas do século XX não fazem mais sentido. Esquerda? Direita? Ninguém sabe quem realmente está no comando (ou sabe, mas tem pavor de assumir). Ninguém sabe o que vai acontecer no próximo segundo (ou sabe, mas tem pavor de admitir). O fato é que não há ponto de retorno do apocalipse zumbi desencadeado. A aceleração de todos os processos terrestres é evidente. Mesmo o Paraíso de céu azulado faz sua parte. Memes [aparentemente inocentes] são micro-dispositivos da escalada total. A inteligência artificial não é previsível como os seres humanos. Máquinas venceram as eleições. A verdade morreu no zap com a terra plana sob os pés e com uma mamadeira de piroca na mão. Celulares e fake news sejam louvados. Steve Bannon é um homem ou um robô? Tudo que parece pode não ser.