“Apaguei um no Paraná, pá, pá, pá, pá”

Benedito João dos Santos Silva Beleléu

Vulgo Nego Dito, Nego Dito cascavé

Estrelas da constelação Itamar Assumpção foram vistas nesta noite de inverno quente em Curitiba.

Eu me invoco eu brigo

Eu faço e aconteço

Eu boto pra correr

Eu mato a cobra e mostro o pau

Pra provar pra quem quiser ver e comprovar

Me chamo Benedito João dos Santos Silva Beleléu

Vulgo Nego Dito, Nego Dito cascavé

A banda-estrela Isca de Polícia – Paulo Lepetit (baixo), Luiz Chagas (guitarra), Marco da Costa (bateria),  Jean Trad (guitarra), Vange Milliet (voz) e Suzana Salles (voz) – e a estrela de primeira grandeza Jards Macalé – há alguns minutos (ou seriam anos luz?) – foram

vistasouvidas a olhouvido nu

no céu da capital paranaense

Tenho o sangue quente

Não uso pente meu cabelo é ruim

Fui nascido em Tietê

Pra provar pra quem quiser ver e comprovar

Me chamo Benedito João dos Santos Silva Beleléu

Vulgo Nego Dito, Nego Dito cascavé

Jards Macalé iluminou a plateia com Negra Melodia viajada em parceria com Wally Salomão lá pelos idos da era 1977 e gravada pelo pretobrás em 1983, no disco “Às Proprias Custas”.

Não gosto de gente

Nem transo parente

Eu fui parido assim

Apaguei um no Paraná, pá, pá, pá, pá

Meu nome é Benedito João dos Santos Silva Beleléu

Vulgo Nego Dito, Nego Dito cascavé”

Segundo astrônomos de vanguarda, amanhã (30/07) será possível observar o músico e ator Arrigo Barnabé e Serena Assumpção, filha de Itamar, e no céu de domingo estará a cantora e compositora estrela Ná Ozzetti.

Quando tô de lua

Me mando pra rua pra poder arrumar

Destranco a porta a pontapé

Pra provar pra quem quiser ver e comprovar

Me chamo Benedito João dos Santos Silva Beleléu

Vulgo Nego Dito, Nego Dito cascavé

Prezadíssimos ouvintes saímos da órbita anos 2000 e flutuamos na louca dimensão 80 com:

E para sentir a noite girar a 300 mil Km por segundo entramos na espaçonave do Leminski

O tempo e o espaço foram abolidos: sampa midnight.

Se tô tiririca

Tomos umas e outras pra baratinar

Arranco o rabo do satã

Pra provar pra quem quiser ver e comprovar

Me chamo Benedito João dos Santos Silva Beleléu

Vulgo Nego Dito, Nego Dito cascavé

& nessa viagem interestelar “enquanto você dormia” Alice Ruiz e Itamar de um passado tão futuro como agora emitiam sinais coloridos

Se chamar polícia

Eu viro uma onça

Eu quero matar

A boca espuma de ódio

Pra provar pra quem quiser ver e comprovar

Me chamo Benedito João dos Santos Silva Beleléu

Vulgo Nego Dito, Nego Dito cascavé

9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2,1, Zero!

A versão espacial de Laranja Madura do álbum “Ataulfo Alves por Itamar Assumpção (Pra sempre agora)” de 1996 decolou

Se chamar polícia

Eu vou cortar tua cara

Vou retalhá-la com navalha

Volto para casa rindo em minha bike espacial

Meu nome é

Benedito João dos Santos Silva Beleléu

Vulgo Nego Dito, Nego Dito cascavé

Enquanto aterRISO penso: o planeta terra é o melhor lugar para se viajar à noite na velocidade da luz!

“Nego Dito – Homenagem a Itamar Assumpção”

Quando: 29, 30 (21h) e 31 (19h) de julho

Onde: Caixa Cultural – Teatro da Caixa, Curitiba

Quanto: R$ 20 e R$10

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Vadias desmistificadas

Texto: Jota Geraldo
Fotos: Marcos Lima

Se eu pudesse definir uma marcha, primeiramente a chamaria de passeata, em seguida diria:

sucessivos tsunamis sociais agitam a maré mansa nacional: Marcha da Maconha, Marcha da Liberdade e agora, seguindo o modelo internacional, mas acrescida de ondas alegres, espontâneas, irreverentes, e coloridas, a Marcha das Vadias que teve sua versão curitibana, neste sábado, 16 de julho de 2011.

Céu da cor dos olhos do Chico, vento ameno cortando as ruas da capital paranaense, 26 graus, estou no Passeio Público, local de concentração da Slut Walk paranaense, onde acabei de encontrar uma profissional do sexo tomando sol:

– Oi! Você sabe se a Marcha das Vadias já saiu?

Ela me olha, vestido roxo cintilando, e sorri.

– Marcha das Vadias?

– É! Vai rolar uma marcha hoje pelo respeito à mulher, contra o machismo, contra a violência. A Marcha das Vadias surgiu no Canadá após um policial dizer em uma palestra sobre segurança em uma universidade que as estudantes deveriam evitar se vestir como vagabundas para evitarem assédio, violência sexual e estupro

– Sério? Até parece que mulheres são estupradas por causa de suas peças de roupas!

– Você tem razão. Nada justifica a violência contra as mulheres.

– Não mesmo!

– Daí as estudantes canadenses criaram a “Slut Walk” ou Marcha das Vadias…

– Que interessante!

– Então… A tevê noticiou que a marcha sairá daqui.

– Nossa! Será que alguma amiga minha apareceu?

– Talvez. Vou procurar o local porque a informação é de que a marcha sairá daqui do Passeio Público às onze horas. Assim que eu achar te aviso. Qual seu nome?

– Lua.

Sigo só o meu caminho e encontro o Plá com sua inseparável bicicleta…

– Ah! O pessoal está logo ali em frente!

Ufa! Encontrei! A marcha ainda não saiu.

Enquanto isso…

Imagino um personagem – o homem-conserva – que está aqui motivado pelos dizeres de um lambe que viu colado em um poste. O homem-conserva é um ser cujo corpo é um grande olho.

O nome Marcha das Vadias é polêmico. A palavra vadia tem uma conotação extremamente pejorativa no país.

Imagino que este homem-olho-leigo-conservador-machista viu num poste um lambe anunciando a marcha e pensou com seus botões enferrujados que a tal Marcha das Vadias seria uma marcha nos moldes do significado popular e distorcido da palavra …

Mas e se esse olho se desvencilhasse deste “pré-conceito” inicial  e tivesse a coragem de ver com novos olhos os bastidores daquela mensagem que chamou sua atenção?

Compreenderia ele que tudo o que pensou até as 11h43min, quando a marcha saiu do tubo do Passeio Público, não passava de uma visão mesquinha e reducionista que seria literalmente devolvida para as zonas abissais do oceano turvo da intolerância e do preconceito, algumas horas depois quando chegasse na Boca Maldita.

Por prazer ou profissão, sexo não é convite à violência.

– A Marcha das Vadias é a Marcha de todas as bandeiras, amigo. Que bom que trouxe o seu respeito, digo ao ser em conserva.

– É pensei que fosse outra coisa.

– Tá vendo agora cara?

– Calma… Esse é só o começo da Marcha. Slut Walk, isso?

– Isso mesmo. Vê se joga fora essa lente que deturpa a sua visão. “É preciso ter olhos livres para ver”, já dizia o Chico (dessa vez o Science).

– Espero que sua concepção quando chegar à Boca Maldita sobre o termo vadia, não seja mais aquela maledicente que te trouxe até aqui… Enjoy babe!

11h44min

Neste momento, os alto-falantes do carro de som vibravam a mensagem:

“acompanhamos as discussões acerca da dificuldade de resignificar um termo tão carregado de preconceito, como vadia, e consideramos que é urgente que todos os nomes pejorativos como puta, biscate, vagabunda, piranha, “mulher fácil” sejam reapropriados e que a discussão sobre a sexualidade feminina, e tudo o que ela representa, seja pauta política e social”.

Cantos, gritos, protestos, palmas, risadas, poesia, teatro, dança, corpos, cartazes, caminhão de som, gente de todas as cores, texturas, tribos, motivações, ideias e ideais. Uma Marcha é um tsunami de estímulos mentais.

“Se cuida/ se cuida seu machista / que a América latina vai ser toda feminista”;

“Mulher não é mercadoria / a nossa luta é todo dia”.

“Vem / Vem / Vem pra rua vem / contra o machismo!”

E vou no fluxo deste encontro geracional. Crianças, adolescentes, jovens, adultos, senhoras, todos com os olhos brilhando de entusiasmo. É impossível ser uma coisa só. E a marcha como um organismo vivo fagocita a cidade e vai crescendo, se metamorfoseando, mudando de cor, de timbre, de ritmo, mas não do grande objetivo: o respeito à mulher.

Meu corpo, minhas regras

E nesta batalha caleidoscópica em prol do respeito estão mulheres corajosas e livres

que lutam contra a violência sexual, a submissão, a exploração do corpo; que combatem o conservadorismo daqueles imbecis que tem a capacidade de culpar a mulher pela violência da qual são vítimas; que abominam seres que dizem que mulher feia deveria agradecer por ser estuprada, que abominam o moralismo que cerceia sua sexualidade, sensualidade e beleza;  que combatem o machismo que impede que a mulher seja livre e impõe que seja apenas um objeto; que acreditam num feminismo, renovado, que acolha as mulheres e oriente na melhor forma de exercer a feminilidade, com força, determinação e respeito; que lutam pela criação de políticas públicas efetivas de proteção aos direitos da mulher, que puna agressores e estupradores; que acreditam no fim do preconceito contra os grupos LGBT; que clamam por respeito às diferentes formas de orientação sexual.

Não sou puta, não sou santa, sou livre

E chamei Lua para representar às prostitutas, maiores vítimas de violência e agressão sexual, pelo reconhecimento profissional e por uma condição mais digna, sem exploração.

– Vou chamar mais meninas!

“Maria Bueno protege as vadias curitibanas!”

“Eu sou cyborg / não me pentelha / ovelha Dolly já está grelha.

Na Praça 19 de Dezembro, a estátua da mulher nua se libertou do todo onipotente e poderoso homem nu. Simbolicamente, deixou de ser a “estátua da mulher do homem”, para ser a estátua que representa uma nova mulher: dona de si própria, de seu corpo, de seu desejo, de suas idéias e destino.

Claro que, olhando o entusiasmo e a vitalidade dos participantes da marcha, uma estátua estática não é uma metáfora muito boa para significar todas as sensações e novas concepções à respeito do universo feminino que brilharam como o sol nesta tarde quente de inverno…

“As pessoas que criticam esta marcha são pessoas que não fazem nada para transformar a realidade”

O presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABLGT), Toni Reis,  em seu discurso disse “ eu trouxe a família para dizer que nós precisamos de respeito. As mulheres precisam do respeito e de autonomia do corpo”.  Além disso, Tony anunciou que no dia 25 de setembro acontece a Passeata GLBT, que terá como foco a diversidade.

“Pra vir pra rua tem que ter peito / é pra vadia de respeito”

O provável candidato do PT às eleições municipais 2012, Dr. Rosinha, também estava presente na marcha. Perguntei a ele se sua participação em movimentos libertários como a Marcha da Liberdade e a Marcha das Vadias, não poderia ser alvo de críticas de setores conservadores da sociedade e isso ser usado contra ele no jogo sujo que os conservadores são capazes de jogar para se perpetuarem no poder como fazem a mais de 300 anos no Estado.

“Na última campanha quando me posicionei em favor da união civil homossexual fui muito criticado pelos setores conservadores. Eu penso que o futuro não é do setor conservador. Num eventual debate tenho condição de fazer a defesa de todos esses movimentos sem agredir ninguém”, explicou Dr. Rosinha.

E a caminhada prosseguiu:

Até o libertário poeta Roberto Piva foi inconscientemente mencionado por um jovem exaltando ironia no megafone:

“Sexo anal para romper com o capital!”

Na Barão do Serro Azul, sob os desígnios de Nossa Senhora da Luz, a marcha organizada por um grupo de artistas, comunicadoras e estudiosas da cidade já estava madura o suficiente para dialogar com o coração da cidade e caminhar com as próprias pernas.

“A nossa luta é todo dia / somos mulheres e não mercadoria”

A partir daquele momento, a marcha passou a existir por si própria. Já não é possível prever o que acontecerá, se vai crescer, se vai se dissipar, ela se integra – coreografia urbana –  ato performático popular – à dinâmica da cidade de tal modo que ninguém mais se importa se existe centenas de carros buzinando ou se estamos no meio da rua bloqueando o tráfego fazendo um minuto de silêncio em homenagem à menina Rachel Maria Lobo de Oliveira Genofre, cujo brutal assassinato em 2008, segundo denunciou Janeslei Aparecida Albuquerque do APP-Sindicato em seu discurso muito aplaudido,  ainda não foi esclarecido.

Pétalas de rosas são lançadas de um apartamento, moradores aplaudem os manifestantes, sacodem das sacadas bandeiras, toalhas, os manifestantes aplaudem os moradores. As pessoas sorriem de dentro das lojas. Uma mulher que limpa uma vitrine para o serviço para ver a passeata passar.

“Mais amor, por favor!”

Assim como aconteceu na Marcha da Liberdade, o número de internautas que confirmaram presença (10.972) na Marcha das Vadias através da mídia social facebook foi absolutamente inferior ao número de presentes. Se existe uma verdade em nossa época é que a realidade é muito mais interessante que o mundo virtual. Se há algo que vale à pena ser curtido é a realidade por mais paradoxal que eu possa parecer escrevendo isso aqui.

A Marcha das Vadias representou um palco móvel de expressão coletiva para mulheres conscientes de seus direitos, mas muitas vezes sem voz social, caladas no silêncio dos seus lares, locais de trabalho e espaços de convivência.

16 de julho de 2001: este dia deve entrar para a história como o dia em que as mulheres se posicionaram sem medo perante a conservadora sociedade curitibana; algumas com pautas mais radicais, outras com demandas mais moderadas, muitas conscientes (outras buscando esta consciência) de seu papel e da situação da mulher na sociedade brasileira.

 “Legalizar o aborto. Direito ao nosso corpo!”.

Rumo à Maria Lata d’água da Praça Generoso Marques, encontro com o aposentado Celso da Silva, 61, que aprovou as motivações da passeata. “Cada um tem que defender seu lado”, declarou.

Por prazer ou por profissão: sexo não é um convite à violência

O manifesto “A Marcha de todas as bandeiras” é distribuído para os participantes e transeuntes que são atraídos pela energia contagiante e positiva da passeata.

“1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17 , 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24. Uma mulher acaba de ser violentada no Brasil”.

Na Monsenhor Celso, converso com a gari Graciane da Silva, 29, que varria a rua no momento da passagem da passeata e estava com um manifesto nas mãos. Ela, que mora no bairro Nova Alvorada, ficou surpresa com a movimentação na região central e achou bonita a seguinte passagem do texto “se você também não concorda com uma sociedade que aplaude piadas sobre estupro, que segue lideranças que afirmam que se a mulher foi estuprada é porque de alguma forma ela consentiu, que banaliza a agressão física, moral e sexual, marche com a gente”.


Estou de serviço, mas de alguma forma participei, diz a jovem que veio de Alagoas e há uma semana varre as ruas do centro da capital paranaense. Ela conta que está feliz por estar empregada e sonha em continuar os estudos e conseguir uma melhor posição social. Para isso, sabe que terá que batalhar e vencer muitos preconceitos. “Nós mulheres temos mesmo que lutar pelos nossos direitos”, diz Graciane.

– Você não vai filmar não né!?

– Não Graciane. Sou vou gravar a entrevista para não esquecer de sua história (como se fosse possível esquecer destas histórias …)

A sociedade ensina “não seja estuprada” ao invés de ensinar “não estupre”. É hora de mudar essa mentalidade.

Rua XV de novembro. Encontro com a simpática moradora do Bairro Boa Vista Maria Francisca Martim dos Santos, 64, que sobrevive “de artesanato e de latinha” e luta por um mundo melhor. “A marcha foi de grande inteligência porque a violência está demais e ninguém faz nada. Eu sozinha não posso mudar o mundo, mas unidas as pessoas podem lutar por mudanças e exigir que os políticos cumpram o que prometem e deixem de fingir que nada está acontecendo”, diz. Despeço-me de Dona Francisca ao som do Plá que canta na rua das flores o hit underground:

“pra andar de bicicleta tem que ter moral”

& sob os ecos dos versos urbanos “mais bicicleta, menos carro! Mais bicicleta menos carro!”, encontro Jade Marques, 17, que participou da marcha por se identificar com movimentos que propõem mudanças políticas e sociais relevantes e como uma forma ativa de se solidarizar com as mulheres que sofrem ou sofreram abusos. A jovem declarou que veio com um shortinho para exercitar o direito de se vestir livremente, “afinal nenhuma mulher se veste para ser alvo de comentários machistas ou para ser violentada”.

Enquanto a entrevistava, um grupo de rapazes se aproximou proferindo comentários maliciosos e invasivos. É Jade… Estes ainda não foram capazes de irem além de seus próprios conceitos e compreender uma parte mínima de tudo o que se passou neste dia histórico em CWB.

Ah! Se eu pudesse entregava a cada um deles o panfleto do blog ativismoracional.blogspot.com que recebi durante a marcha e que diz: “sim temos o direito de ousar, mas o pudor é que deve ser intrínseco a nós, sendo homens ou mulheres”.

“a nossa luta / é por respeito / mulher não é só bunda e peito”

Darcy Tomaz dos Santos, 59, da Associação Cultural OMOAYE revela que a mulher negra sofre bastante preconceito em Curitiba. “Aqui o preconceito se dá de forma velada. A pessoa não fala, mas como trabalhamos há muito tempo com conscientização, nós sentimos”.

Darcy Tomaz da associação OMOAYE (primeira da esq. para dir)

& a poeta

gritou

: – haverá um dia

Em que vadia

será somente

a forma

abreviada

de dizer

que um dia

em direção

a outro

dia

melhor

vai dia!

vai dia!

Vá dia!

Vadia

como hoje

ser amanhã

um lindo dia

“Agora vamos penetrar na Boca Maldita e relembrar de Gilda! Gilda beijava as pessoas, Gilda era nossa vadia, Gilda se emocionava, Gilda quebrava padrões”

No auge da Marcha, duas mulheres mostraram os seios. Centenas de máquinas digitais e celulares foram imediatamente sacados…

Uma das mulheres ironizou:

– Não é para tirar foto para ficar batendo punheta em casa!

Minha cabeça girava de tanta informação, estava desde cedo sem comida nem água, e agora pensava como trataria tantas anotações e gravações, tinha uma missão quando chegasse em casa, minha contribuição seria esse texto que tenta fugir dos textos padrões (o que, quem, quando, como, onde, por que) que começaram a pipocar na rede antes da marcha terminar, textos por demais burocráticos, sem a emoção das ruas, mas faltava algo … Ah sim!

Estou ao lado de Stephany Mattanó, 28, uma das organizadoras da marcha. No exato instante em que o evento se torna um fato histórico e o sol se põe sobre Curitiba pergunto à jovem, formada em direção teatral, se ela sentiu que a Marcha teve efeito sobre a sociedade enquanto acontecia. A história é a noite da humanidade.

– A marcha mexeu muito com a cidade por falar de respeito, por propor a quebra de tabus e por questionar a violência inerente ao sistema. Homens, mulheres, crianças, está todo mundo dançando a dança deste sistema violento. Então, quando você fala desta violência que esse sistema proporciona o efeito social é muito grande porque realmente não está tudo bem, porque a realidade não é a retratada pelas novelas. E quando essa situação é amplificada num evento de mobilização como este, por exemplo, o efeito sobre as pessoas é muito grande. Sair para a rua e movimentar as pessoas para que saiam das suas casas, isso já é muita coisa para Curitiba onde existe um discurso conservador do tipo que afirma que está tudo bem, que aqui é a capital ecológica, que está tudo limpo e maravilhoso. Eu me sinto vitoriosa, vitoriosa no sentido de minha missão porque quando trabalhamos com público queremos dialogar com o maior número de pessoas possível. Então, penso que a Marcha das Vadias teve essa amplitude. Nunca foi tanta gente num espetáculo meu, por exemplo. Eu consegui traduzir na minha performance a minha cultura e a minha educação. Gostaria que as pessoas estudassem, que houvesse no Brasil mais oportunidades para as pessoas estudarem, porque daí as pessoas teriam mais consciência e poderiam se mobilizar.

Vida de repórter não tem fim…

Momentos antes da marcha se dissipar, um homem foi detido pela PM depois de “esfregar o sexo contra o corpo” da estudante R.W., 24, que participava da Marcha. “Eu pensei que era a mão, o que já seria horrível, mas era pior”. R. fez questão de prestar queixa e o indivíduo, segundo informação da PM,  poderá ser indiciado por prática de atentado grave ao pudor. Este vai ter que aprender a duras penas a respeitar as mulheres.

– Ele alega que esbarrou, diz um PM.

– Se tivesse esbarrado não teria corrido do jeito que correu, disse um jovem ao PM.

Aproximadamente 15 mil mulheres são estupradas por ano no país.

Dados da Secretaria de Políticas para as Mulheres do governo federal e Dieese apontam que quatro em cada dez mulheres brasileiras já foram vítimas de violência doméstica.

O número de atendimentos feitos pela Central de Atendimento à Mulher Ligue 180 cresceu 16 vezes de 2006 para 2010. Em 2006, foram feitos 46 mil atendimentos. Já no ano passado, foram 734 mil.

Lua estava ali com suas amigas e me reconheceu. Dona Francisca se fundiu à dinâmica humana da XV. Seu Celso chegou em casa e contou à família sobre o dia em que as mulheres saíram às ruas para reivindicarem seus direitos. Graciane levou o manifesto para casa. As organizadoras da Marcha das Vadias eram cumprimentadas pelo sucesso do evento enquanto participavam do piquenique coletivo que celebrou o término da caminhada que certamente transformou o conceito de vadia daquele personagem em conserva (lembra?) do começo do texto e abriu novas veredas mentais para se pensar na condição feminina no século XXI para frente…

Eu aprendi que existe muita coisa para compreender entre o Passeio Público e a Boca maldita que a minha vã poesia jornalística ou seria jornalismo poética ou não seria nada disse possa imaginar.

– Ei. Ei!

– Ah! É você homem-conserva… E aí mudou sua concepção?

– Entendi que não existe mulher vadia, mulher santa ou mulher vagabunda, existem vários tipos de mulheres e cada uma explora sua sexualidade do jeito que achar mais adequado.

– E onde estão aqueles óculos que distorciam seu olhar sobre a realidade das mulheres?

– Deve ter sido pisoteado pela Marcha das Vadias.

Para saber +

>> marchadasvadiascwb@gmail.com

>> http://marchadasvadiascwb.blogspot.com/

>> http://slutwalkbrasil.blogspot.com/


Jota Geraldo em falsos cognatos da Han(S)olo

Nas horas vagas, entre uma página virada e uma palavra escrita, inventei de ser ator de videoclipes caseiros em baixa definição.  O Lepha da Han(S)olo veio de Minas para Curitiba e, além do sol, trouxe uma câmera e então …


“Marcha das Vadias” em CWB


Da série Crepúsculos Curitibanos (I)

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Outros Ares

A Revista Outros Ares  em sua terceira edição publicou o conto Sujeitos Indeterminados

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