Se você morrer você não saberá

Já não me assusto com aglomerações, gente com máscara no pescoço ou sem máscara.

Já não me pergunto por que as pessoas não se revoltam e exigem do Estado o controle da pandemia e a garantia, sim econômica, de poderem permanecer seguras em casa enquanto isso não ocorre.

Afasto-me. Viro o rosto. Quem olha demais para o abismo arrisca-se a cair disse um destes filósofos há mais de 100 anos.

Muitas – das mais de 170 mil – mortes poderiam ter sido evitadas; se falAr (falta ar) adiantasse.

Lembro do filósofo, do risco do abismo e afasto-me.

O Estado optou pelo genocídio. Não tenho, ninguém sozinho tem, forças para deter uma máquina que opera em nome da morte que não deve angustiar.

A morte é o “novo normal”. É o morto sob o guarda-sol no Carrefour, é João Alberto espancado até a morte, ou o morto na padaria sob um saco preto enquanto o expresso é servido (para outros mortos?).Uma senhora escreveu: “eles não fazem nada”. Eles não farão nada senhora. Por incrível que pareça (aos que ainda se importam com a vida) a estratégia do governo federal é que o máximo de pessoas se exponha ao contágio viral.

É o que os operadores da necropolítica, da política que administra a morte, da banalidade do mal, chamam de “imunidade de rebanho”.

Ninguém impedirá. Nem polícia, nem lei, nem fiscalização, nem a moral cristã.

A maioria da população faz exatamente o que o governo de extrema-direita ordena e arrisca-se a contaminar-se para adquirir uma pretensa imunidade.

“É só tomar cloroquina que tudo ficará bem”.

O resultado todos sabem: pilhas e mais pilhas de cadáveres e a frase pronta para os que se impressionarem: “não se importe com os mortos, o importante são os curados e estes são maioria”.

Sim, este é um país que perdeu o amor à vida. O que são milhares de mortos? “Pelo menos não é você”.

Há uma voz que diz uma coisa desde o começo e agora mais: “salve-se quem puder”.

1 de Dezembro de 2020: 173.165 mortos e nenhum sinal de que o extermínio retrocederá.

Mais um brasileiro afoga-se em seu próprio pulmão cheio de sangue.

A morte é insípida, inodora, mas tem cor.