antropologia

depois da utopia da revolução escorrer das lentes embaçadas da professora na sala do nonagésimo nono andar francis ganhou as ruas daquela tarde de primavera sem flores, fria.

quase sem pensamentos atravessou as ruas sem olhar para os lados. se fosse atropelado morreria de azar, imaginou de brincadeira. os ladrilhos da praça formavam um caracol cinza e branco úmido e brilhante, chovia.

enquanto caminhava, cada vez mais veloz, observava a multidão que, como ele, decidia se procurava um abrigo ou se molhava.

a última coisa que cogitava é que seria interpelado, assim de repente,  em frente à catedral gótica onde os últimos pombos negros e velhos bicavam o milho que não virou pipoca.

– oi. você pode me ajudar?

francis pensou em ir mas voltou e acenou com a cabeça como quem diz: “vai, diga” …

– eu não sou daqui e estou sem dinheiro para o ônibus, disse o rapaz que francis de relance percebeu estar usando uma camiseta ao contrário por baixo do casaco marrom puído; a etiqueta parecia grudada ao seu pescoço, moreno, gordo e curto.

–  amigo, estou sem dinheiro, respondeu francis já pronto para mergulhar novamente nas profundezas da tarde escura.

– & meu namorado você quer ser?

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trans

transforma tudo em pesadelo, em pesar, em lamúrio de limão seco, em lamentações no quartinho.

caminh`entre cervejas artificiais, cafés e caipirinhas de vodka sem gelo em copos de plástico vagabundo.

pessimista congênito, otimista de ocasião, pensandando no que fará quando o sistema monetário deixar de operar em suas entranhas.

a cidade trafega nas artérias.
a cidade grita nele e o habita.
a cidade é linda, mas fedida.

possui

a

cidade

o

possui.

pulso-pulsante,
fluxo-constante.

conversa em choque com o matemático de cabo verde. uma mulher o troca por um bilhete de loteria. o pecado da bahia oferece-lhe o rosto no sul para beijar e desaparece. conhece edicléia mastigando feijão com olhos de sexo. perde a peça polifônica, o tempo, o dia.

mistura caipirinha com cerveja, estímulos de toda desordem, fragmentos tácteis, cisnes

de baudelaire, fumaça com decepção, arroz com feijão, som

e edicléia.

– é duas por 5.

método deste trabalho: montagem literária (Benjamin, 1982:595 apud Canevacci, 1993: 105)

esbarra em pessoas.  pessoas esbarram nele.

observado por poe na multidão encontra-se pouco antes de ser estraçalhado numa via rápida.

quarto infestado de abelhas. café requentado.

rugas horizontais
acima dos olhos.

oxímoros na beira do abismo dos lábios.

uma das abelhas pica seu olho.


identidade

de repente, você percebe que perdeu a identidade. você olha para os lados e não há ninguém. desce as escadas e confessa para a velha do prédio que perdeu a identidade. ela sorri. você caminha pelas ruas com a respiração em descontrole atrás de sua identidade. “e se eu perguntar para aquela mulher que passa rápido com uma bolsa vermelha a tira-colo se ela viu por acaso minha identidade por aí?” você atravessa no meio de um bando de pombos na praça tiradentes. “melhor não”, você pondera, ela já dobra a esquina e os pombos formam uma mancha cinza escura no outono. “ou então para aquele homem que lê um livro por dia na porta da igreja? “ele pode pensar que enlouqueci”, você raciocina. as horas estão girando e a identidade não volta, você sente e está no meio da XV faminto como um bicho sem identidade. você decide almoçar e a comida tem gosto de identidade. resolve cortar o cabelo na rua são francisco. não comenta nada com o cabeleireiro, mas ele diz que mora em Curitiba há 41 anos e que o frio mesmo começa no dia 1 de junho porque certa vez no dia 31 de maio estava ensolarado e no dia seguinte estava gelado e brusco, que  frio mesmo é lá em são joaquim a cidade natal dele cujo inverno é bravo e neva 3 vezes. você limita-se a encarar o espelho. – se não cair neve 3 vezes o povo diz que não é inverno. à medida que o cabelo é cortado seu rosto vai mudando e você lembra que não tem mais identidade. – sou descendente de espanhóis e portugueses, 70% da população daqui não é daqui. é díficil encontrar alguém com mais de 50 anos que seja curitibano nato. – quanto é? – é 8. – obrigado. você sai apressado como se pudesse alcançar a velocidade da luz e voltar no tempo, de preferência, antes do instante em que perdeu a identidade, você delira. entra na padaria. sai da padaria, entra de novo e aborda a loira do caixa. – as pessoas sempre perdem suas identidades nos bares e padarias, você insinua.  –  é verdade. tem uma aqui. você diz que não é sua. fala obrigado e sai. olha para cima, afinal ela pode estar voando por aí. olha para baixo e nada, você quase chora.  – “lá há uma lista  com nomes de pessoas que perderam a identidade”, algúem diz. você vai, você acredita que seu nome possa estar lá. a lista é enorme, você confere. há uma pessoa com o mesmo nome que você mas não é você, você conclui. não é só com você que isso acontece, você exercita sua alteridade. mesmo assim seu caso é especial porque a sua identidade é a sua identidade, você é egoísta. você volta para seu apartamento. você perdeu o dia atrás de sua identidade. esfria um pouco. você põe um casaco. você põe a mão no bolso esquerdo e depois no bolso direito e a identidade está aí.


pois bem

devia ter uns 17 anos. dia de trote. a testa com o nome da universidade e as roupas empapadas de farinha e tinta. um certo ar de satisfação por ser, digamos, humilhado em praça pública depois da aprovação familiarmente gloriosa no vestibular para direito.

– um ajuda de custo, por favor, disse-me com um chapéu panamá na mão.
– hoje estou sem grana, respondi, sem completar “como sempre” no entanto.
– pois bem, respondeu já exercendo a advocacia.

quase voltei, todavia já interpelava o próximo cliente …


que bicho te mordeu?

1 picada de formigaranha estranha no dedo médio da mão esquerda. 34 graus. arde. no local do ataque uma bolinha vermelha do tamanho da ponta de um compasso surge. arde muito. 35 graus. “será que mais alguém foi picado?”  quando senti o ódio do bicho nem olhei para ele.  só o esfreguei contra minha pele com o dedo indicador até desintegrar. de que outro modo agir com uma formigaranha? foi tudo muito rápido como olhar para alguém de relance enquanto caminhamos apressados pela cidade e reter sua imagem até a próxima. “Será que vou morrer sem o mundo saber que bicho me mordeu?” o dedo incha. “deveria ter pelo menos o guardado”.  36 graus. arde ao extremo e  já não consigo dobrar o dedo. “deveria tê-lo fotografado”. o inchaço evolui para a mão. ando bem rápido. 37 graus. penso em pedir álcool num comércio qualquer. “mas seria bem estranho chegar dizendo que fui picado por um bicho no banco da praça”.  um ônibus bate numa banca de revista e a destrói. 38 graus.  “estou com cara de quem foi atacado por uma formigaranha?”  vejo meu reflexo no vidrô fumê de um hotel. almoço e tenho dificuldade com a faca. “pelo menos não morrerei com fome”. era meio verde esbranquiçado. 39 graus. “vamos embora antes do sol do meio dia”, escuto a mulher que conduz o cego dizer. reduzo os passos, afinal para que pressa para quem não sabe que horas morrerá?  “vamos ficar mais cinco minutos aqui”, ouço o cego responder à mulher e os perco para sempre. atravesso dezenas de ruas e cruzo com milhares de faces. entro até em uma pequena igreja vazia e vejo pessoas ajoelhadas. não é nem uma hora. “elas não foram picadas”. Será que deus sabe o que é uma formigaranha?  não deixo ninguém ver minha mão que vira um balão vermelho. começo a flutuar sobre a cidade. “todos daqui se parecem com formigaranhas”. 40 graus. explodo em milhares de formigaranhas.