Aylan Kurdi

Conheci há alguns meses um grupo de refugiados sírios que abriram um pequeno comércio próximo à Praça Tiradentes. Entre eles há um que fala inglês e recebe os fregueses. Os outros escutam atentamente e percebo que já aprederam a dizer o preço dos seus produtos: “e treis reals” ou algo assim. Entre um shawarma e um za’atar esse que fala inglês perguntou-me: “is there terrorism in Brazil?” Respondi que não (embora, pensando bem, deveria ter dito que temos uma absurda violência policial que é exercida contra pobres, negros…). Enfim disse que não porque sabia que ele estava se referindo ao terror praticado pelo Estado Islâmico em seu país. “I hope you never have terrorism in Brazil”, falou-me por fim com uma expressão triste na superfície do olhar, mas também confiante nas suas profundezas. Ele e os homens se entreolharam. Ficamos todos em silêncio. Talvez volte qualquer dia desses para falar do terrorismo da polícia militar brasileira e também do terrorismo dos ruralistas contra os indígenas. Hoje passei rapidamente lá perto e vi que, diferentemente dos outros dias em que só haviam homens adultos, havia também um menino. Pensei em Aylan Kurdi.

Advertisements

O quadro-negro da história

Capsula de bala de borracha utiliza pela tropa de choque contra os servidores públicos durante a ocupação da ALEP.
A disputa entre os servidores públicos e o governo do Paraná é também uma disputa ferrenha pelos significados da mobilização, o que passa pela forma como os fatos são enquadrados por discursos, comentários, textos jornalísticos e imagens.

Dizendo que precisava “SANEAR AS FINANÇAS” do estado, o governador Beto Richa (PSDB) produziu, na interpretação dos servidores, um “PACOTES DE MALDADES”: o “PACOTAÇO”.

O “PACOTAÇO” do governador inclui medidas contra direitos históricos dos/das servidores/servidoras.

Reagindo ao “PACOTAÇO” os servidores declararam “GREVE GERAL!”

Logo as redes disparavam os signos da greve: ‪#‎eutonaluta‬, ‪#‎eutonagreve‬, ‪#‎vempragreve‬, ‪#‎vempraAlep‬, ‪#‎vemprarua‬, ‪#‎forabetoricha‬, ‪#‎RichaCaloteiro‬.

Nas ruas estes signos da “LUTA” podiam ser reconhecidos nos adesivos, nas camisetas, nas palavras de ordem.

Redes e ruas compunham uma outra rede e abriam ruas no território fechado da política institucionalizada. A mobilização crescia. Ainda assim, na Assembleia Legislativa, o “PACOTAÇO” transformou-se em “TRATORAÇO” (“Comissão Geral”) a ser passado pelos deputados estaduais da base de Richa sobre os direitos de milhares de trabalhadores.

No dia 10 de fevereiro, os servidores (professores/as em sua maioria), com apoio de ativistas de movimentos, militantes de partidos políticos e cidadãos comuns, “OCUPARAM” a Assembleia Legislativa do Paraná, adiando o “TRATORAÇO”.

Na internet, palavras e expressões como “DESGOVERNO” e “BETO QUER RIXA CONTRA OS TRABALHADORES” acompanhavam os comentários de servidores e apoiadores sobre a “OCUPAÇÃO”.

A mídia hegemônica e a assessoria da ALEP disseram que a “OCUPAÇÃO” foi uma “INVASÃO”.

12 de fevereiro, 34 quatro graus, os deputados chegam de camburão na Assembleia para votar o “PACOTAÇO”. A tropa de choque não economiza spray de pimenta para afastar quem questiona o aparato repressivo.

Policiais cortam uma grade para que os políticos entrem na “CASA DO POVO”. Uma nova “OCUPAÇÃO” acontece apesar das bombas de efeito moral, do gás lacrimogêneo e dos cães raivosos.

Para os manifestantes um “DIA HISTÓRICO” em que conseguiram impedir – ao menos temporariamente – a votação do “PACOTAÇO”. Para Richa, entrevistado por três canais de televisão, uma ação de “baderneiros” e “infiltrados”.

Alguns segundos depois das declarações do governador, nas mídias sociais eram postadas construções como “JE SUIS BADERNEIRO” (um reenquadramento do “Je Suis Charlie” francês), “Baderneiros, não! Somos guerreiros e guerreiras. Não nos escondemos em camburões, mandamos projetos na surdina ou tentamos destruir carreiras. Lutamos pelos direitos que o seu governo não respeita!”.

Sexta-feira 13. Quase Carnaval no Brasil. A greve continua. Quais enquadramentos serão escritos e quais prevalecerão no quadro-negro destes dias históricos no Paraná?


Cidade industrial

Image
Em Curitiba, enquanto na Zona De Exclusão da FIFA tudo está pronto para a World Cup 2014 (“Falta só tirar o pó”, informa o jornal) em diversos territórios da Zona Excluída pela FIFA & pelo poder público, a chuva (que não é um problema em si) faz emergir problemas em forma de tragédias que poderiam ter sido evitadas justamente se a vida nestes territórios não fosse deixada à míngua enquanto outros interesses industriais & políticos eram escutados & potencializados. Ao fim & ao cabo, a culpa será atribuída à natureza (mas não é ela que polui o Rio Barigui, por ex!) & políticos & marqueteiros dormirão & acordarão tranquilos em suas moradas luxuosas. Quando for tempo de pedir votos pedirão sorridentes, trajando azul, & apresentarão, “biopoderosos” que são, projetos mirabolantes capazes até de evitarem certas catástrofes (que não são tão naturais assim) cujas causas – não imaginam (?) – estão associadas às suas próprias práticas “políticas” bem como à inexistência de uma outra política que não se sabe se foi perdida, se nunca existiu ou se existirá.

***

“Essa imagem é perto da minha casa, no CIC… Antes era muito difícil de alagar aí no Rio Barigüi. No ano passado deu uma enchente dessas e agora de volta, a frequência está aumentando e em 23 anos que conheço essa região nunca senti esse rio feder tanto composto químico, tá foda” – Mensagem de A.V. –

***

info_policia_080614

Há uma “Zona de Exclusão da FIFA” & uma “Zona Excluída pela FIFA” que é toda cidade, ou seja, a Copa do Mundo nunca pode ser uma Copa para todo mundo. Ou ainda, a Copa do Mundo é uma metáfora do próprio Mundo que é de todo mundo, mas não para todo mundo.

***

“Uma cidade chamada industrial: Curitiba é ecológica, CIC é infernal”

 

 


Aqui também é o Haiti: “A Festa da Bandeira do Haiti” em Curitiba (ou o ritmo que faltava)

Caminhando pelo Largo da Ordem deparei-me com um evento organizado pelos haitianos que estão em Curitiba em busca de novas possibilidades existenciais.

Diariamente os encontro – sempre em pequenos grupos – nas caminhadas que faço pelo centro da cidade. Ainda não tive a oportunidade de trocar ideias.

Percebo que são (ou estão nesta fase) mais na deles, embora em seus grupos pareçam se divertir.

Dias desses estava num dos bancos da Praça Tiradentes e um jovem sentou do meu lado. Falava ao telefone. Fiquei pensando que talvez estivesse ligando para seus parentes e falando do frio da nova terra como fiz um dia.

Observando o evento de hoje o qual, infelizmente, não fiquei sabendo antes, mas que, no acaso do lance de dados, encontrei enquanto acontecia, senti que todos aqueles pequenos grupos dispersos pela cidade haviam sido conectados. O Centro Histórico tornara-se uma TAZ.

Entusiasmei-me pensando: “estão se organizando e a arte, especialmente a dança e a música, tem um papel importante nesse processo político”.

Perguntei-me onde estariam as linhas que sustentam o movimento e que também o expandem. Desta vez, no ciberespaço as encontrei, descobrindo ainda que o evento se chamava “Festa da Bandeira” e que “celebrar os 211 anos da independência do Haiti” era um dos seus objetivos.

Ainda preciso saber mais sobre o grupo haitiano “Recife” que “evolui” em Curitiba e sobre o “Compas”, um estilo de música e dança do Haitiano cultivado agora também nas terras frias do Paraná.

“Para comemorar a memória do nosso bicolor (bandeira) o grupo haitiano Recife vai dar-lhe a atmosfera. Recife é um grupo musical de jovens do Haiti que evolui em Curitiba (Brasil). Venham dançar o Compas do Haiti com Recife o domingo do 18 maio de 2014, na vizinhança de 15H ao Memorial de Curitiba. Entrada gratuita…

Pou fete memwa drapo nou an 18 me 2014, Resif pral ba nou anbyans.
Resif se yon gwoup mizikal Ayisyen k ap pèfome nan Curitiba(Brezil).
Brezilyen e Ayisyen vini danse konpa.
Nan 3 zè aprè midi
lokal Memoryal Curitiba
Antre gratis…”


Macedusss: o melhor show que já não fui

macedusss em curitiba

Quem é Macedusss? Quem é Daniel Mittman? Macedusss é Mittman? Mittman é Macedusss? Essas perguntas presas ao desejo de identificação não importam. Relevante é informar que Mittman/Macedusss estiveram em Curitiba para uma apresentação (que não fui).

Nas semanas que se seguiram a apresentação do “Macedusss & As Desajustados Bando” num dos mais importantes palco do underground curitibano: “92 Graus The Underground Pub”, conversei ora com Mittman ora com Macedusss ora com os dois sem saber com quem estava falando.

Nesse processo, pareceu-me interessante colocar a inicial M. antes das respostas e, assim na dobra Mittman/Macedusss, dobrar ainda mais a cabeça de nossos improváveis leitores, tornando o texto de difícil compreensão assim como o som do Macedusss ou seria do Mittman ou não seria nem de um nem de outro o que elimina a necessidade de Heidegger de uma vez por todas!

A foto acima é Marlos Souza e outras podem ser vistas no fakebook.

maceduss cwb 2014

Como os curitibanos receberam a música de complexa compreensão do Macedusss?

M: A galera gritava: “que piá bem loco!”

Perdi esse acontecimento. 15 pila a entrada não deu para a classe operária. Fiquei tomando tubão ao redor do Cavalo Babão no largo da Ordem.

M: Sou dos shows grátis.  Sou contra cobrar para ver Macedusss. E acho que R$ 15 é muita grana. Sou professor de rede pública e sei bem como é a vida.  Além da entrada tem a passagem, tem a breja para beber. Nosso show com o Edu-k foi free e foi o melhor e maior show. Mas fomos tocar aí porque foi o único lugar que nos aceitou. Não é fácil aceitarem Macedusss.

Na próxima ligamos umas caixas nas Ruínas do São Francisco. Sei onde tem tomadas!

M: Estou louco para voltar a Curitiba. Adorei aí! Gostaria de marcar umas paradas. Quero lançar meu livro do pixo SP por aí!

Firmeza! No próximo rolezinho do Macedusss vamos pensar também num esquema no espaço público para que os transeuntes possam tocar …

Dale! Que afudê!

Curiosidade: no mesmo dia em que o Macedusss tocava em Curitiba, os Ornitorrincos, uma banda de Porto Alegre tocava em São Leopoldo, ou melhor, “São Hell”, terra do Macedusss, prestando-lhe uma homenagem com sacolas na cabeça.

O que acha da provocação do Murray Bookchin ao Hakim Bey? O Bookchin diz que o Bey propõe um “anarquismo estilo de vida” “mais precisamente, como um happening de Andy Warhol, a T.A.Z. é um evento passageiro, um orgasmo momentâneo, uma expressão fugaz da “força de vontade” que é, de fato, uma evidente impotência em sua capacidade de deixar qualquer marca na personalidade, subjetividade ou mesmo na autoformação do indivíduo, e menos ainda em modificar eventos ou a realidade. (…)”

M: Cara … para mim o Bey não chega a ser um anarquista… Encaro o Bey como Deleuze na prática. Concordo, em partes, com essa definição/interpretação acima. Não sou anarquista. Nem tenho interesse em tal. meu “Uso” de Bey/Deleuze é apenas cultural/comportamental. Claro que no fundo mesmo sendo estético é político, mas creio que caia no campo da política pessoal. São acontecimentos e como tais podem sim disparar mudanças subjetivas em qualquer indivíduo.

Maceduss é uma Máquina de Guerra …

M: O Terrorismo Poético é nada mais que a Máquina de Guerra na prática. O anti-Édipo é onde o Bey bebeu. Leia o Anti-Édipo junto com o “TP e outros crimes exemplares”. Um é outro. É confusão linda.

Coincidência ou não o arquivo está em anarquista.net

M:  Não é coincidência. Eu entendo que muitos pensam que Bey é anarco. E ele pode ser mesmo. Minha interpretação que é outra. Não é melhor, nem pior. Digamos que existe um neo/anarquismo (individualista?) que bebe em Bey.

Gostaria de dizer agora que esta apresentação em Curitiba que não fui mas pelo que ouvi nestes 35 segundos serve para dizer para pessoas como eu que certas experiências só acontecem uma vez… Curitiba precisa de experiências!

M: Tu vês Curitiba como muito conservadora? Pareceu-me meio fechada, mais que POA.

Existe uma Curitiba perdida (lembrando aqui do Dalton Trevisan e do seu “Em Busca da Curitiba Perdida”). Quando você a encontra é uma experiência e tanto! Mas a verdade é que ela é reprimida por um estado de coisas. Participar de algum esquema artístico tem sido difícil. Geralmente parece que tudo está pronto, formado, mesmo os poetas mais loucos circulam dentro de circuitos muito bem delimitados falta a explosão, o improviso.

M: Percebo que aí é uma mistura de São Paulo com Porto Alegre. Pegou o que tem de pior das duas.

É bem complicado fazer amigos. Em Minas você dá uma volta na rua e forma uma gangue! Mas como falei há uma ou várias Curitiba(s) perdida(s) mas que de tão perdida(s) você só encontra porque está perdido também. Então acaba sendo “Dois perdidos numa noite suja”  ou algo neste sentido, ou não.

M: Em São Paulo se relacionar é muito complicado. No Rio Grande do Sul temos o hábito de receber amigos, frequentar casa de amigos. Aqui não! É quase uma ofensa convidar alguém para vir na sua casa. Temos o hábito do chimarrão que coloca o povo em contato. O chimarrão é uma rede social antiga. Mas o que sinto falta mesmo aqui em SP é da relação com a América Latina. Nós do RS estamos muito ligados com Buenos Aires e Montevidéu. Aqui se vive um apagamento, é como se SP não fosse um estado latino americano. Dá um conferis nesse vídeo:

Sim! interessante essa ligação. São Paulo neste quesito é mais Brasil no sentido de ser um país em constante estranhamento com a América Latina.

M: E Curitiba, parece-me, ter alguma ligação, mesmo q de leve com o Paraguai. Em assunção um dos principais grafiteiros é um curitibano que vive por lá. Aí tem a Paraguaya, mulher do Caruso. Vi que tem uma outra paraguaia da música folclórica que mora aí. E o engraçado é que por algum motivo subjetivo me lembrei muito de Assunção em Curitiba. Além disso,  nos telejornais de Assunção sempre via que do Brasil eles só davam os resultados dos jogos dos times do Paraná.

E no Paraná eles dão resultados dos times de São Paulo e do Rio (rs). Acho que as cidades se misturam mesmo … Uma época quando andava pelo centro de Curitiba sentia-me que estava em Pouso Alegre, uma cidade do sul de Minas que morei por alguns anos no início dos 2000. Havia algo na arquitetura, nas fachadas dos casarões antigos que me levavam para lá ao ponto de confundir e estar muito mais lá do que aqui.

M:  Sim. Sinto-me assim. Creio que exista uma cidade que habita em nós. Isso é Debord: psico-geografia. Às vezes em Piracicaba (SP) onde vivo atualmente juro que estou em Porto Alegre. Minha memória afetiva de Porto Alegre está marcada pelo cheiro de peixe. Sempre que passo por uma feira ou mercadão que tem peixe lembro de POA na hora.

Você pretende ficar por Piracicaba, terra da pamonha, mesmo?

M:  Che, fazem 8 anos que estou no estado de SP. Morei 3 anos no centro da capital paulista, no COPAN. Fui para Rio Claro, 2 anos. Um ano e meio em Santos voltei para São Paulo. Um ano e meio.

Circulou legal. Várias experiências. Fiquei pensando enquanto digitava sobre a ideia do Ramil de estética do frio. O Maceduss tem algo desta estética do frio? É tipo um tropicalismo frio rizomático? Não haveria justamente por causa desse seu nomadismo uma variação … Claro que o frio deve estar ali de alguma forma, não? Mas também há um tropicalismo poluído… Bananas dentro da sacola plástica.

M: O Ramil é foda. Para mim o músico mais foda atualmente. Macedusss tbm tem o seu manifesto:  “estética da preguiça”.  Tu é natural de pouso alegre, né?

Não. Sou de São José dos Campos, interior de SP, mas passei a maior parte da minha vida em Paraisópolis, sul de minas, tanto tempo que me considero mineiro. Morei em Borda da Mata, cidade do capeta, e em Pouso Alegre onde obtive informações sobre punk, contracultura, etc

M:  Que pensa sobre BH?

BH … Gostei do que vi. Há uma alegria, uma receptividade, mas é bem distante do sul de Minas q tem mais relação com São Paulo. Mas sinto cada vez mais que as metrópoles são impraticáveis para pessoas como eu que não compreendem a lógica dos automóveis. São cidades onde ter um automóvel é um imperativo.

M:  Então… vivo meio que esse dilema. Odeio carro!  Não me imagino dirigindo. nunca. Outro dilema é: quando moro em uma grande cidade acho que quero morar no interior. Quando estou no interior, como agora, quero me mandar para uma metrópole. Parece que falta coisas. Gostei muito de Santos. Fazia tudo de bike. Muitas ciclovias.

É uma escolha. A vantagem de se viver no sul de minas – pelo menos na região onde morei –  que é perto de São Paulo. Pego um busão e estamos lá. Então compensa ficar no interior e ir para a cidade grande por assim dizer quando rola alguma coisa interessante, enfim …

M:  Aqui estou a 170km de São Paulo. Duas horas de bus estou lá, mas não é fácil participar também. Os paulistanos são muito fechados e desconfiados. Penso em Porto Alegre como uma cidade de um bom padrão 1.400.000 gente. Não sei se é por que me criei com o povo do rock de lá, mas sempre tem convite para show de Macedusss.

São Hell está a quantos KM de POA?

32km

Então é o canal!

M: Tem o trem que liga as cidades por R$ 1,70 o que é maravilha

As duas dimensões muito próximas e tal. Voltando para o mundo dos ruídos. Em Curitiba, Macedusss pode fazer rizoma com o Selo Meia-Vida, conhece?

M: Sim, bem afudê. Tava vendo a parada. Vou ver se sigo trocando ideia com o pessoal do selo. Afinal, é só chamar que Macedusss vai

Viu estes gaúchos vintage [http://vimeo.com/93560021]?

Esse povo hipster me cansa um pouco. Macedusss não frequenta muito estes lugares. Pode ser preconceito meu, mas sei lá, mas confesso que me canso com esse povo classe média: meio de esquerda, meio alternativo… Se chamarem Macedusss para tocar ele vai, toca em qualquer lugar, chamam uma vez e depois nunca mais. hehehehhehehehe. Esse ano mesmo: fizemos apenas um show. Em 2013 que foi mais agitado.

Saquei qualé. Há ainda os que falam de Deleuze, Foucault sem terem lido uma obra sequer ….

M: Falam em linha de fuga, multiplicidade, mas basta propor algo diferente do que eles imaginam q já censuram. É a praga do FDE! Eta merdaaaaaaaaaaaa!

Distorcem completamente conceitos que possuem uma potência enorme … Mas o q importa mesmo é pensarmos numas esquema que tensionam esse status quo, certo? Acho que neste sentido Macedusss tem muito a nos informar …

M: Cara, fizeram um vídeo de como foi o Festival. Dá para ter uma ideia de como foi o show de Macedusss em Curitiba. Achei lindo!

Ficou lindo mesmo. o melhor show que já não fui

M: kkkkkkkkkkkk. Ótimo. Melhor q já nao fui

Esse aí vai ser o título da entrevista que talvez eu não escreva.

Escreva. Segue aí uma entrevista “séria” com Macedusss: https://www.facebook.com/macedusss/posts/145798788921824


Hurtmold faz show explosivo no paiol de pólvora

Fotografia de Mano Gabz

Hurtmold no Teatro Paiol em Curitiba. Fotografia: Mano Gabz

Assim que tomo meu lugar na plateia para assistir o retorno dos paulistas do Hurtmold em palcos curitibanos, mais precisamente no Teatro Paiol, miro – enquanto a banda não atravessa as cortinas negras, o “set list” que repousa ao lado da bateria.

De acordo com a lista escrita com pincel atômico azul em folha de sulfite a música que abrirá a apresentação da banda em Curitiba é “Guita”. Penso: “Guita? Trata-se de alguma música nova?”

Todos os acentos são ocupados: “estamos trancados no paiol de pólvora“.

– Aê! Uhu! Clap Clap! Aô! Fiu fiu!

A plateia, mesmo sentada, agita-se no teatro de arena enquanto os membros do grupo – Mauricio Takara (bateria e trompete), Fernando Cappi (guitarra), Mário Cappi (guitarra), Guilherme Granado (teclado), Marcos Gerez (baixo) e Rogério Martins (percussão)  –  aproximam-se de suas máquinas estéticas.

Granado diz para “quebrar o gelo”: – “Tá frio, hein?”. O público acostumado a temperaturas bem mais baixas sorriu.

“Sejam bem-vindos à cidade zero grau piazada do Hurtmold”,  diriam os rappers que habitam as entranhas de CWBeats.

Fernando Cappi inicia a apresentação, o som da guitarra ecoa pelos corredores sombrios do Paiol, as luzes vermelhas iluminam a poeira no ar que gira. A música é “Hervi”  (ou “Guita” para os íntimos …)  terceira do novo disco do grupo: “Mils Crianças” (Submarine)

Imediamente após o final preciso da execução, “paralisados no paiol de pólvora“, os curitibanos – natos e também os adotados – aplaudem entusiasmaticamente. A sensação é de um gol do time preferido (pense no seu) logo no primeiro minuto de jogo.

Olho ao redor e não vejo ninguém com os “olhos vendados no paiol de pólvora“, mas alguns “dentes cerrados no paiol de pólvora” sim, talvez intrigados de sentirem corporalmente o que o crítico Bernardo de Oliveira escreveu sobre o álbum Mils Crianças (2013):

“A síntese de estrutura rigorosa e experimentação rítmica em Mils Crianças contribui para demarcar um outro momento estético no trabalho do grupo. Se até então elaboravam uma sonoridade cerebral com descontração punk, desta vez desenvolveram um trabalho punk com uma consciência profunda de estrutura, timbre, composição, instrumentação, etc”.

Ao final da segunda música, Takara anuncia: “a pele do bumbo estourou”. Um homem grita “pô Takara!”, um “e agora?” também surge tímido … Concentro-me tentando enxergar uma saída para uma apresentação que tem tudo para ser histórica.

“Só tem entrada no paiol de pólvora
Ninguém diz nada no paiol de pólvora
Ninguém se encara no paiol de pólvora
Só se enche a cara no paiol de pólvora”

Sim! “O azar é sorte no paiol de pólvora” e Takara com ajuda de Martins soluciona, rapidamente o problema não deixando a vida tornar-se morte no paiol de pólvora. “A vida é morte no paiol de pólvora”, todavia não nesta noite.

O Hurtmold retoma com “Beli” trazendo a sensação de que “são tudo flores no paiol de pólvora“. Na sequência vieram “Telê” música que abre o “Split With The Eternals” lançando em 2003 em conjunto com o grupo de Chicago The Eternals, “Tomele Tomele”, “Chavera”, “SNP”, “Naca”, estas 4 do novo álbum,  além da climática “Olvécio e Bica” do álbum homônimo de 2007.

Entrando com precisão na reta final, Joji aos 2`13″ fez os fãs de hardcore presentes chacoalharem seus cérebros. Vale aqui direcionar o holofote jornalístico para a perfomance intensa e apaixonada do guitarrista Mário Cappi ao longo de toda apresentação.

Na sequência, a percussiva “Churumba” de 2007 – que aos ouvidos deste contador de memórias póstumas foi o ponto alto da perfomance hurtmoldiana em CWB – substitui definitivamente a “TV a cores no paiol de pólvora” pela possibilidade de novas partilhas estéticas vivas ao vivo na capital paranaense.

Shows como o do Hurtmold apontam que o momento é de quebra de paradigmas, de destruição de preconceitos de toda ordem, de pesquisa, de composições e decomposições, de aberturas sonoras ao infinito, experimentações e improvisações sem limites. Artistas “tomem lugares no paiol de pólvora“, explodam as velhas estruturas! Você pode dizer agora um foda-se para a bossa nova sem deixar de achar a bossa nova foda.

Há um novo paradigma estético como anunciou Guattari flutuando como a poeira iluminada pela luz vermelha que agora gira na velocidade de “Pigarro” que encerra “Mils Crianças” e a apresentação do Hurtmold em Curitiba.  Desta forma, enquanto há “mils crianças” correndo dentro de cada um de nós “vai pelos ares o paiol de pólvora“.

* Texto-hibridação: Hurtmold + “Paiol De Pólvora” de Toquinho  &  Vinicius de Moraes

Estamos trancados no paiol de pólvora
Paralisados no paiol de pólvora
Olhos vedados no paiol de pólvora
Dentes cerrados no paiol de pólvora

Só tem entrada no paiol de pólvora
Ninguém diz nada no paiol de pólvora
Ninguém se encara no paiol de pólvora
Só se enche a cara no paiol de pólvora

Mulher e homem no paiol de pólvora
Ninguém tem nome no paiol de pólvora
O azar é sorte no paiol de pólvora
A vida é morte no paiol de pólvora

São tudo flores no paiol de pólvora
TV a cores no paiol de pólvora
Tomem lugares no paiol de pólvora
Vai pelos ares o paiol de pólvora


Hurtmold em CWB

Hurtmold em CWB