geração pós-coca

– O viciado aquece a lata de refrigerante para inalar o crack.  Além do vapor da droga aspira alumínio;

– O metal chega ao pulmão e circula pela corrente sanguínea;

– O sangue com o alumínio vai até os rins que não consegue fazer com que o corpo elimine toda a impureza pela urina;

– O alumínio continua na corrente sanguínea e se deposita no cérebro, onde se une às proteínas, e nos ossos, ocupando os espaços do cálcio;

– No cérebro, o alumínio causa encefalopatia, uma alteração que gera demência;

– Nos ossos, provoca osteomalácia.

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#ruasreais


De cada 3 blogs 4 falam sobre a revolução 2.0 onde a internet teria um papel fundamental na mobilização da sociedade para que esta saia de trás dos computador e vá à rua transformar o planeta.

Como ficou visível nas manifestações que culminaram na queda de Mubarak no Egito, nos protestos na Espanha,  no churrasco de gente diferenciada em Higienópolis, em torno de grande parte da discussão sobre a Marcha da Maconha e no aniversário da Thessa, as mídias sociais se revelaram importantes instrumentos de mobilização social, entretanto não podem ser elevadas como produtoras de redes sociais com real capacidade de promover ações transformadoras. Pelo menos, ainda não …

No ótimo texto “A revolução não será tuitada”, o jornalista e escritor Malcolm Gladwell defende que “o ativismo em mídias sociais como o facebook e twitter deriva de vínculos fracos entre seus participantes, que não correm riscos reais como os militantes tradicionais, unidos por vínculos fortes, em ações hierarquizadas e de alto risco”

Ontem (19/06) ocorreu em Curitiba, assim como em outras 40 cidades do país, a Marcha pela Liberdade. Na capital paranaense, cerca de 250 pessoas marcharam, frustrando a expectativa da organização que esperava 2,5 mil pessoas.

Durante a semana, na mídia social facebook 1,8 mil pessoas haviam confirmado presença. Ao chegar à Praça Rui Barbosa, local de concentração da passeata ( marcha soa meio marcha da família …), levei o famoso choque de realidade. O número de  presentes era bem menor do que o que havia cogitado levando em consideração as adesões via “face”.

As minorias estavam sim representadas, mas pelas suas próprias minorias.

Obiviamente o movimento GLBT é muito maior do que os poucos que bradaram contra a homofobia e contra as posturas retrógradas do deputado Bolsonaro, assim como o número de pessoas que fumam maconha é superior aos que entoaram “Dilma Rouseff libera o beck!” ; e o número daqueles que usam a bicicleta como meio de transporte é inversamente propocional aos cicloativistas que pediram “menos carro, mais bicicleta”.

Na marcha curitibana estavam presentes de corpo, mente e coração membros de partidos políticos, políticos, feministas, punks, músicos, gays, jornalistas, ambientalistas, ciclistas, atores (etc) que  representaram em sua individualidade uma coletividade muito maior e, claro, existente na cidade e que, sem dúvida, compartilham das ideias que significam a PASSEATA!

Mesmo sem a adesão anunciada no facebook, a Marcha da Liberdade reuniu importantes segmentos da sociedade que expuseram através de faixas, cartazes, ou através do próprio corpo,  no gogó ou no megafone, suas reivindicações para as pessoas que por inúmeros motivos não acessam a internet com frequência (ou não têm nenhum acesso) e, portanto, não tinham ideia do acontecimento mas estavam no centro da cidade no exato instante em que a movimentação acontecia e  presenciaram com olhos atentos e impressionados a quebra da ordem do dia, a vitalidade das ideias, a multiplicidade de temas, a beleza da juventude e, claro, a possibilidade de se manifestar e expressar livremente sobre tudo.

A parte pelo todo marchou metonímica, bateu palma, apitou, cantou, pulou, bloqueou o trânsito, chamou a atenção dos transeuntes e dos moradores para questões políticas de suma importância como descriminalização das drogas, criminalização de movimentos sociais, concentração de renda, miséria, política econômica, novo código florestal, Belo Monte …

Embora a marcha tenha sido linda, colorida, organizada e pacífica, poderia ter sido bem maior se outros mecanismos de mobilização tivessem sido acionados.  A liberdade de expressão prometida pelo facebook ou twitter demonstrou se socialmente limitante.

A rede social materializada em Curitiba pelas pessoas que tiveram a coragem de bradar pelas ruas do centro da cidade: “Vem/ Vem pra rua vem/ contra a censura!” não reflete a rede social produzida pela mídia social facebook. Falsebook?

O lema da marcha “Em casa somos um, juntos somos todos” revela a dimensão urbana desejada pelos organizadores da marcha que apesar de ter conseguido a adesão de muitos não conseguiu a adesão de todos aqueles que acreditam em ideiais tão humanos e revolucionários como os que foram expostos neste sábado ensolarado pelas ruas da cidade.

Curtir algo atrás de um computador não significa ir para as ruas lutar por mudanças estruturais da sociedade. Assim, o um continua a ser um. Mas como transformar o um em todos? Certamente através do facebook não é. Não só! Por isso, textos como “a revolução não será tuitada” vale a pena ser lido e, se for o caso, curtido …

Quem não teve coragem de ir ou se equivocou com um clique revolucionário no mouse, mas que no fundo acredita na possibilidade de construção coletiva de um país melhor e realmente heterogêneo em suas opiniões, ideias e modos de existir, marchou através de quem esteve presente.

A passeata ocorreu justamente porque algumas pessoas sabem que a internet é só um meio de comunicação. Imagine se todo mundo que confirmou presença no facebook não fosse? Que fiasco revolucionário seria! Que geração mais bunda mole perceberíamos ser…

A verdadeira comunicação não é a mediada pelo facebook, twitter, orkut, msn, mas a face a face. Passeatas possibilitam isso, ao permitirem que informações e tensões represadas ganhem territorialidade, circulem e sejam debatidas na esfera pública.

Expressar livremente pelo direito à liberdade de se expressar  é testar na prática os limites da nossa democracia. E isso só é possível nas ruas, entre todas as instituições, de cara a cara com a polícia, com a vida, com a sociedade.

Portanto – sem descartar a capacidade de mobilização das mídias sociais – se existe um espaço para as mudanças começarem a acontecer, este lugar é a rua, a realidade, “rualidade”… E nem é muito novidade. Muito antes de Malcolm Gladwell dizer que a revolução não será tuitada, o músicopoeta Gil Scott-Heron lá no início da década de 70 profetizou: “the revolution will not be televised”.


Sujeitos indeterminados

Uma tragédia por dia basta.

Caiu – se jogou – ah! tanto faz! – da janela do quinto andar defronte ao Guaíra e não era teatro nem canção da Legião Urbana.

13:42. Amintas de Barros. Ed. Flamengo, 439.

– 30 anos.

– Zelador.

– Caiu.

– Pulou.

– Você o conhecia?

– Não.

– Depois da queda, como se fosse possível viver um pouco mais, ainda caminhou.

– Está é a segunda tragédia que acontece com ele. Aquele negócio no rosto.

– Eu viajo por todo país. Já vi cada coisa. Perna prum lado da estrada, braço na contramão.

– Não dá para saber se dói.

– Até acidente de avião presenciei. Fiz dois treinamentos de primeiros socorros. Já vi cada coisa nessa vida.

– Todos morreremos.

– Carne esmagada. Acidente de caminhão e moto é feio.

– Não adianta fugir uma hora …

– Nunca imaginei que meu pai morreria. Quando teve AVC levei um susto.

– A hora da morte não está no relógio.

A maca com o zelador:  corpo empoeirado, camiseta com a sujeira captada ao longo da queda, musgos, folha seca, calça jeans, tênis preto rainha.

– Ainda está vivo.

A boca fala sangue.


Outros outonos

O sol brilha no rio cheio de esgoto. Um homem, terrivelmente inspirado pelas emanações das águas fétidas, escreve encostado numa árvore  resplandecente. Outro, de bicicleta,  é atropelado perto da ponte.  Mais adiante, à esquerda,  parado no meio da pista, cercado por carros, vestido com trapos sujos, mais outro e, conversando com outro na esquina, um outro, cabelo-armado-amarelo-torrado-pelo-sol, aproveita quando fecha o sinal para fazer alegres malabares com limões para os outros.

Decidi ir à pé. Caminho apressado. Tenho que chegar cedo. Primeiro dia de trabalho. É inevitável não olhar a realidade.

Avenida. 32 graus!  Blusão preto sobre lã e camisa por baixo. Sinto-me um extraterrestre.

– Você sabe onde fica a?

– Não sei  não.

– Obrigado.

Do lado direito da calçada um bairro pobre.  Muito lixo colorido fruto de coleta amontoado nas vielas. Uma mulher na laje recolhe roupa do varal. Um jovem descalço pilota uma moto com uma menina morrendo de rir na garupa sem capacete.

“De manhã quebrei um equipamento de inalação”, lembro. “Que vacilo”. “Pressa”

– Não fica mal com isso não
– É a pressa. Desculpa …
– Sussi.

– Que horas são aí mano? Um cara de jaqueta jeans desbotada e olhos embaçados pergunta.
– Uma e trinta e cinco.

Centenas de automóveis enfileirados. Sinto-me – à pé – fora do contexto da sociedade do automóvel . “Nem parece mais uma avenida”. Cruzo-a até a metade e encontro no canteiro central um jovem pai que carrega uma criança nos braços envolto em uma cobertinha azul acompanhado de sua também jovem esposa. “Talvez estejam vindo do hospital”; “Ou indo para”; “ou nada disso”.

Atravesso.

– Você sabe se tem entrada para a … por aqui?
– Ali na frente… Explica reticente a moça cujo rosto não lembro mais  no ponto de ônibus.

Digo para o guarda da:

– Sou o … da ..
– Não. Não sou.
– Não! Sou eu …
– Ah sim! Pensei que você estava pergunta se eu era o … da …. Pode entrar.

Subo escadas e aprendo o trabalho. Hora de voltar.

O sinal fecha. Um negro faz malabarismos com bolas de ping-pong. Um outro vem em minha direção. “Acho que vai me assaltar”.  Nada.

Esfriou bastante. Minhas blusas fazem sentido. Caminho sem cantar e sem olhar para os lados. Meus passos fazem sentido.

Sob a árvore tem uma mulher. Um cara de barba e boné de uns 26 anos me vê e vem.  Sempre acho que serei assaltado e, nesse intermédio de tempo, entre o pensamento e a ção,  engatilho meu discurso que, na maioria das vezes se resume a “só tenho isso cara”.

– Arruma umas moedas aí para inteirar a pinga maluco.

– Estou sem grana amigo …

Dou dois passos.
– Então descola um cigarro.
– Não fumo mais.  Digo sem parar e completo com uma frase vaga que nem o cara nem eu entendemos direito:

– Vou sempre passar por aqui.