Gil Scott-Heron (*1 de abril de 1949 + 27 de maio de 2011)

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Sobre merda e automóveis

Camila depois do trabalho passeia com o marido e o casal de poodles brancos com blusa de lã rosa para que estes façam cocô crepuscular na ciclovia da Mariano Torres.

Cruzamento da Mariano Torres com a Visconde de Guarapuava. O carroceiro Felipe olha para os quatro lados como ensina o “Manual de Sobrevivência na Cidade Grande”.  O sinal fecha na Visconde Guarapuava e menos de um segundo depois o da Mariano Torres abre.  Felipe não ousa atravessar. O Catador precisa descarregar no Rebouças a carga de papelão que coletou no Centro.

Enquanto espera o momento exato para atravessar sem morrer e atrapalhar o tráfego, pensa na sopa que um grupo de mulheres serve para os moradores pobres do Rebouças.

Otávio acelera sua BMW na Mariano Torres. Seu sonho era ser piloto de fórmula 1. Fez administração de empresas para garantir.

O trânsito está nervoso. Buzinas não deixam a noite se acalmar. Parece que há uma conspiração dos semáforos.  Um fecha e o outro abre, os carros voam. Felipe com sua carroça cheia de papelão espera.

“Agora dá”,  Felipe pensa e começa a travessia da Visconde de Guarapuava.  Lembra da sopa.

Otávio não dá seta. Felipe escuta poodles latirem. Camila puxa a coleira e quase enforca o macho. Seu marido diz que esfriou. Som de pneus cantando. Por pouco FelipeBMWOtávioCarroça não tornam-se uma coisa só.

Piso no cocô.


Yndio do Brasil em Curitiba

“Como meus companheiros de vício, foi para discutir cinema que estudei teorias de linguagem, sociologias, psicologias, metafísicas várias que, de outra forma, nunca teriam me despertado o menor interesse. Naqueles ‘days of wine and roses’, todos sonhávamos em ser cineastas. Só um de nós, porém, foi com toda a força para cima do sonho. Esse mestiço alemão com húngaro, o ‘cacique do sul’, como o chamava o Glauber, que soube amar o cinema mais que todos nós”.

É cine-poeticamente que o poeta curitibano Paulo Leminski nos insere na obra de Sylvio Back e, por um milhão de coincidências, estou entrando no Auditório Paul Grafunkel da Biblioteca Pública do Paraná nesta noite fria de lua cheia para assistir ao documentário “Yndio do Brasil” que faz parte da mostra “O cinema à luz da história”, uma das atrações da “9ª Semana de Museus (Museu e Memória)” que acontece até o dia 20 de maio.

19H. A projeção começa. O documentário de Back dá um baque (!) no cérebro. “Yndio do Brasil” não é um documentário pronto e acabado. Pelo contrário, é uma obra em aberto que possibilita centenas de construções. Não há um sentido pronto, lógico e linear. O espectador, à partir de seu repertório cultural, político, filosófico e histórico, é convidado a dar (ou pelo menos buscar) sentido (ou sentidos) à obra.

Após a exibição do documentário – para a sorte de todos aqueles que – como eu – ficaram hipnotizados com o ritmo veloz da montagem e perdidos na selva de colagens de imagens, sons e poesia – a doutora em História pela UFPR e autora da tese “Poética da Angústia: história e ficção no cinema de Sylvio Back – anos 1960 e 70”, Rosane Kaminski, debateu com a plateia e expôs alguns conceitos chaves para se embrenhar na floresta verbovocovisual de “Yndio do Brasil”.

Em sua fala inicial, Rosane expôs pontos importantes para a decodificação da obra. “Não há narrativa linear e redentora. Não há uma história sendo contada. Há sim um trabalho de seleção e ordenamento de imagens”,  explanou.

Sylvio não filmou uma só cena, mas fez um verdadeiro garimpo no universo cinematográfico e, a partir da seleção de centenas de  imagens de índios brasileiros (obtidas em obras ficcionais, documentais, publicitarias e institucionais), associadas  à marchinhas com temática índigena e uma poesia ácida e autoral, montou um filme quebra-cabeça, pós-dadaísta, para o espectador remontar onde a imagem final obtida não é a imagem do índio do Brasil, imagem que o desvendaria, que o documentaria, mas sim a imagem de um índio caleidóscópico, construído cinematograficamente, absolutamente ficcional.

Por fim, Rosane sintetizou “Yndio do Brasil” como um filme onde não há a preocupação de se posicionar à respeito da questão indígena nacional, mas sim de revelar e documentar “como a imagem do índio foi construída pelo cinema brasileiro e mundial” ao longo do século XX.

Segundo Kaminski,  a obra de Sylvio Back – considerando sua produção de longas-metragens – pode ser dividida  em fases ficcionais e documentais. Na introdução de sua tese a historiadora escreve: “tais fases, grosso modo, correspondem a: (1) uma primeira fase ficcional, situada entre 1968-1976, (2) uma fase documental, que vai de 1980 (Guerra do Brasil) a 1995 (Yndio do Brasil) e, por fim, (3) uma segunda fase ficcional, que se estende de 1999 (Cruz e Souza – o poeta do Desterro) a 2004 (Lost Zweig).

Assim, na visão da pesquisadora, “Yndio do Brasil” situa-se na fase documental da cinematografia de Sylvio Back, enquanto os clássicos Lance Maior (1968), A Guerra dos Pelados( 1971) e Aleluia, Gretchen! (1976) pertencem à primeira fase ficcional . Ao longo da carreira, iniciada nos anos 60, Back realizou, ainda, curtas e médias documentais, além de comerciais para a televisão, sobretudo na primeira metade dos anos setenta.

 O cinema para Sylvio Back deve quebrar tabus e “Yndio do Brasil” é uma filme que mostra a possibilidade de um cinema que nega uma visão pronta para , através de criativas combinações de som, imagem e texto, possibilitar amplos e diversos questionamentos, interpretações e abordagens.

A saga fílmica continua. Hoje, 19/5, às 19h, no auditório da Biblioteca Púbica, será exibido o filme de ficção “Baile Perfumado” (1996) de Paulo caldas e Lírio Ferreira, seguido de debate com Pedro Plaza Pinto (DEHIS/UFPR).

Na sexta-feira, no mesmo horário e local, encerrando a mostra “O cinema à luz da história, com organização do MIS-PR em conjunto com a coordenação do curso de História: Memória e Imagem da UFPR, serão exibidos os episódios dirigidos por Ken Loach e Alejandro Gonzáles Iñarritu do mezzo documentário, mezzo ficção, “11 de Setembro” . Após a projeção haverá debate com Karina Belloti (DEHIS/UFPR), Solange Stecz (Cinemateca de Curitiba) e Erik Tavernaro (FAP) com mediação de Fernando Severo (MIS).


O sol é para todos

o sol se põe no passeio público
Por do sol no Passeio Público

Uma cidade tem a velocidade de seu trânsito.  Curitiba está acelerada e muita coisa passa desapercebida como se todos estivéssemos dentro de um grande automóvel que, pertencente a um movimento cada vez mais veloz e competitivo, revela o mundo em sua profusão fantástica de cores, sons e cheiros,  mas não possibilita a apreensão reflexiva de nada.

Do automóvel vemos  crescer a violência, o número de moradores de rua, os assaltos à mão armada, as mortes no trânsito, a intolerância.

A cidade desenvolve-se economicamente. “Está sobrando vagas” dizem os jornais.  Entretanto, os ganhos sociais parecem não evoluir na proporção das finanças.

O sol, hoje, já não brilha para todos. As contradições do desenvolvimento obscureceram a “cidade modelo”, tornando-a muito mais parecida com São Paulo (com as devidas proporções) do que com ela mesma.  A bela, a estilosa, a romântica, a educada, a limpa e organizada adquiriu o câncer social das grandes capitais do país e deseja mudar se de si mesma. Curitiba ambígua.

No fim da tarde atravesso o centro da cidade e sob o por do sol reflito e escrevo com a última luz solar.


Relato frio

17 de julho de 1975: "Curitiba Branca de Neve"

Ouvir falar do frio é uma coisa.

“Se prepare”;  “o frio aqui pega”;  “em 1975 nevou”.  Essas frases até os últimos dias em que a temperatura não para de cair pareciam apenas lendas.  Mudei-me para Curitiba em pleno verão. Os termômetros marcavam 32° naqueles dias e eu ria. “Você vai ver só”; “efeito estufa”; “o tempo ficou louco”.  À noite,  olhava para o céu abóbora e pensava: “Curitiba não é tão fria assim”.

O Outono chegou. Um ventinho cortante derrubou os maracujás, as goiabas e os limões .  A rosa escondeu dentro do botão.  Choveu pedra. O Céu ficou cinzento.  Até o último final de semana ainda era possível dormir de camiseta e com um cobertor só.  “Tranquilo, minha cidade também é fria,  região montanhosa”, eu respondia (me defendia) às pessoas que me pergutavam se eu gostava de frio.

Sentir frio é outra coisa bem mais gélida.

Sábado, quase domingo,  observava uma araucária da janela do terceiro andar de um prédio na Amintas de Barros e, sem mais nem menos,  começou a chover. Era o sinal e eu não sabia.  Passei o dia tremendo e não foi por causa do tremor de terra de magnitude 6.0 no meio do Oceano Atlântico, a 1.276 quilômetros de Natal (RN), registrado justamente no domingo.

Posto no twitter que “prefiro frio à terremotos e tsunamis” e uma resposta paranaense vem congelante:  “e se for uma nova era glacial hein?”

Descobri – sentindo – que o frio do Paraná é diferente daquele tímido friozinho lá das Minas Gerais que eu estava habituado a considerar como frio.  O frio mineiro é muito mais friagem. Já o frio de Curitiba é um frio calado,  mais profundo do que os ossos, vem do chão e sobe dos pés à cabeça.

Agora vou preparar um café forte na cozinha para esquentar as ideias e os dedos que estão congelados e lembrar que o  inverno só começa no dia 21 de junho.