#MENTIRA

Assim como o desgoverno mente à população sobre as universidades, sobre a ciência, sobre a educação, mente sobre a reforma da previdência, sobre o salário mínimo, sobre o aprofundamento da crise, sobre o crescimento vertiginoso do desemprego, sobre a volta da fome e da miséria. Sua única verdade é a mentira. As fake news que o elegeram são usadas para sustentá-lo no poder. São diariamente mobilizadas para justificar a destruição dos direitos do povo brasileiro. Inimigos são inventados, culpados, condenados. É sempre um outro fantasmático que justifica um ato de supressão de um direito. Não se assume absolutamente nada. O que mantém o Brasil sem saída é a mentira. A mentira está em cada gesto, em cada ato, em cada olhar, em cada pronunciamento. Estamos sob o governo da mentira. O horror que vivemos é o efeito de uma mentira absurda que nos violenta para justificar outra. Se não sabemos o que a verdade é, ao menos intuímos o que ela não é. O que justifica um governo de mentiras e de mentira é a mentira institucionalizada como modo de governar. Recuperar o sentido da democracia passa por recuperar, ainda que de maneira especular, o sentido da verdade de cada palavra, gesto, corpo. Algo de muito fundamental está sob ataque. À vida, em sua verdade óbvia e inacessível por inteiro, cabe resistir com muita força para expelir o poder maligno da mentira que faz os homens acreditarem nos discursos da servidão como se fossem da liberdade.

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O debate de cinco séculos

O pensamento esfumaçado pelo “debate do século” não percebeu que fora convocado para o “debate de cinco séculos”.

Depois dos ataques e intimidações desferidos nas últimas semanas por Bolsonaro aos povos indígenas, especialmente, aos Yanomami, estes divulgaram um vídeo em resposta ao presidente de extrema-direita.

Bolsonaro desde o primeiro dia de seu desgoverno desfere sucessivos ataques, discursivamente nas mídias sociais, nos jornais e por atos de governo, aos povos indígenas, às suas organizações políticas, e às instituições do estado reconhecidas como canais de mediação, como é o caso da FUNAI e da SESAI.

No dia 8 de abril, o jornal Valor Econômico noticiou: “o presidente Jair Bolsonaro prometeu rever as demarcações de terras indígenas e afirmou que pretende explorar a região amazônica em parceria com os Estados Unidos”.

“Quero explorar a região amazônica em parceria com os Estados Unidos”.

Está escrito com sangue na bandeira furada com 80 tiros de fuzil: Bolsonaro está disposto a exterminar os povos originários remanescentes cujos territórios figuram entre os mais preservados da Terra, e abrir as fronteiras do país para a exploração norte-americana.

Davi Kopenawa, líder, xamã e pensador Yanomami foi o último entre as lideranças de seu povo a se manifestar no vídeo em que os argumentos criminosos de Bolsonaro contra os índios são rebatidos um a um por diversas lideranças Yanomami.

Em dado momento, Kopenawa diz que tem dificuldade de enxergar Bolsonaro. Seria Bolsonaro aos olhos do xamã uma entidade perigosa, bem mais perigosa do que imaginamos? Mas o xamã, este diplomata cósmico, não acusa Bolsonaro de nada. Ele diz que quer conversar com ele, que quer olhar em seus olhos.

O presidente não aparece com nitidez para Kopenawa que parece pressentir algo que se oculta nas palavras e ações de Bolsonaro. Que voz é essa que quer exterminar os Yanomami e não se revela para seu xamã?

Mas Davi não gosta de falar ‘à toa’. As palavras são sagradas para os Yanomami. Não são sem razão. Ele diz não querer uma guerra sangrenta, mas um debate.

É provável que Bolsonaro fuja para não ter descoberto seu poder epidêmico, mas mesmo que o faça, cedo ou tarde, receberá a visita do xamã em seus sonhos. Talvez não presenciemos este “debate de cinco séculos”.

Bolsonaro fora intimado a ouvir as palavras de Omama. E vai ouvir! Acordado ou, se fugir, dormindo.


Justiça?

O que teme a Justiça? Que os movimentos sociais expressem a gravidade da situação? Que denunciem a injustiça da reforma trabalhista que não gerou nenhum dos efeitos prometidos? Que sejam radicalmente contra a reforma da previdência que poupa as castas privilegiadas? Que questionem o fim da política de valorização do salário mínimo? Que não concordem com o esvaziamento das esferas de participação social? Que se posicionem contra o desmonte da universidade pública? Que exijam ações políticas capazes de conter o aumento vertiginoso do desemprego e do endividamento das famílias? Que mostrem para o mundo o absurdo da volta do país ao mapa da fome? Que se indignem com o fuzilamento de um trabalhador pelo exército? Que resistam à fúria do capitalismo autoritário em conluio com Estado sobre os territórios indígenas e quilombolas? O que teme a Justiça? Que os condenados da terra perguntem sobre o próprio sentido de Justiça?


Drama e trevas com volume

“Abrimos um portal muito perigoso”, enunciava Tantão na faixa “Portal” do álbum “Espectro” de 2017. Dois anos depois, em “Drama”, álbum recém lançado no oceano dos sons digitais, o artista carioca parece enfrentar os fantasmas que saíram por aquele portal “letal, perigoso, maravilhoso, barra pesada”.

Na imanência de agenciamentos eletrônicos desconcertantes, que afetam o corpo para uma dança caótica, e versos cortados com precisão do caos informacional e existencial, Tantão, numa incorporação de Burroughs e Andy Stott, apresenta com volume, declama grave, berra, repete até a exaustão, o drama que o afeta, não como uma essência idêntica a si mesma – o drama ali não se define – antes é a experiência, o vivido, de um fluxo caótico de acontecimentos ora sublimes ora absolutamente banais.

O artista vive o drama do tempo fora dos gonzos do contemporâneo e devém dramático.

Blocos de informação sonoros ruidosos e imagéticos intensos são repetidamente disparados por “Tantão & os Fita”. O entendimento tenta organizar um conhecimento sustentando-se nestas repetições que parecem fornecer-lhe o tempo necessário e suficiente para operar um juízo e oferecer uma explicação. Entretanto, a série de repetições verbovocovisuais é entrecortada por uma nova série. O entendimento desiste e deixa a fruição para a sensibilidade e para a imaginação que, em colaboração, não se atêm a emitir um juízo desinteressado de beleza e mergulham no caos, na velocidade das informações, para uma experimentação.

A música do futuro, expressa terríveis acelerações, mas também incríveis lentidões, fricciona com um presente político vivido em uma rede social iluminada por luzes estroboscópicas.

Vivemos num mundo perigoso, o mundo corre um grande perigo, sabemos de tudo, acompanhamos os fatos quase no instante em que acontecem, fixados no horizonte das telas, assaltados a cada instante por uma sucessão ininterrupta de urgências angustiantes e memes que nos aliviam. O casamento do príncipe William torna-se mais próximo do que as balas perdidas que encontram nossos corpos, do que a política de extermínio e encarceramento da juventude negra e pobre.

Nos interstícios das repetições do disco digital que toca no bandcamp ou no youtube o ouvinte muda de tela e mantém a música de fundo, não suporta a repetição e quer uma novidade, mas a fuga compõe-se com a repetição, a fuga é mais ainda para dentro da repetição.

A imagem da lama de rejeitos capturada pelas câmeras da empresa de extração predatória de minérios é assistida em um vídeo no youtube compartilhado no facebook e no twitter enquanto “Drama” continua a tocar no bandcamp. “Crise nas infinitas terras”. “Crise nas infinitas terras”.

A obra não transcende os dados, continua a ser composta com eles, deles. O mundo é trilha imagética para o disco.  “Infinitas são as dores e a dor não para, a dor nunca para”; (…) “ninguém nunca voltou”;

“Vai rolar a divisão dos mundos”. O espectador, atraído por uma enunciação fulgurante que inaugura uma nova série de repetições, volta à tela de Tantão.

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De uma série Tantão fulgura, a partir de uma palavra diferencial, uma nova série que passará a ser repetida sem transcender àquela.  Mas a repetição não é do mesmo. O que repete são série iniciadas com um dado diferencial. O dado é ele mesmo uma diferença que inicia uma série que repete até a inserção de um novo dado.

Obra, mundo, ouvinte compõem uma estranha máquina com múltiplas entradas e saídas.

Em um de seus regimes de funcionamento não haverá mais um Eu substancial que ouve a obra, o eu descobre-se fragmentado, ora tragado ora centrifugado, forçado a compor com a obra que lhe abre outras condições de composição do mundo, que lhe aparece em processo de decomposição.

“Crise nas infinitas terras” “crise hídrica”; “crise”; “infinitas são as dores e a dor não para, a dor nunca para”; “se você cair, vai”; “ninguém nunca voltou”; “vai não volta”; “vai rolar a divisão dos mundos”; “está pegando fogo”; “está pegando”; “a brutalidade do estado”; “você tem coragem?”; “Choque! “Um corpo estranho. Um golpe estranho!” “Cabeças vão rolar”; “Eixo do Mal”. Estas são as informações que temos.  O drama é o que se presentifica sob a hegemonia do “eixo do mal”?

A imaginação e a sensibilidade parecem não suportar a quantidade excessiva de informações. As informações disponíveis também não possibilitam uma afirmação política. Enxames de fakenews atacam o sistema de segurança humano.  Um imenso ruído envolve os ouvidos e faz tremer a carne agora glitchzada.

Não há criação possível no “eixo do mal”, ao lado de justiceiros moralistas e tiranos patéticos no poder. Incêndios, rompimentos de barragens, reformas impopulares, extermínio de pobres em favelas e ocupações, perseguição a movimentos sociais e intelectuais, comemoração da morte de uma criança, obscurantismo, recrudescimento penal e licença para a polícia matar. Encontramo-nos sob a subordinação, quase completa, do drama que Tantão sintoniza e nos informa logo nos primeiros instantes do disco.

Dados dispersos, despedaçados, fragmentados, signos da decadência entre signos de potência ativa e resistência, alcançam o pensamento e este em sua crueza maquínica é forçado, violentado, a pensar, a selecionar, e a expressar um outro sentido – não reativo – para estas forças violentíssimas que o confrontam como um pássaro que canta sob as sirenes de emergência em Mariana ou em Brumadinho ou em…

A repetição repete até que o pensamento_ouvinte dissolvido sintetize um outro sentido. A criação tem relação com novos sentidos. A criação de Tantão, mas poderíamos incluir aqui perfeitamente Negro Leo, levada ao limite força o pensamento a criar. A arte encontra a filosofia.

“Há um corpo estranho. Há um golpe estranho. Há um corpo estranho. Há um golpe estranho”.

Há uma possibilidade de resistência descobre o pensamento que não dirá que a resistência agora é impossível, mas criará um novo conceito para resistência. Concomitantemente ao anúncio do avanço do “choque”, de que “cabeças vão rolar” e da presença do “eixo do mal”, os signos concretos da resistência se manifestam… Nem tudo é dominação. Onde há poder, há resistência. E Tantão pergunta quantos Negros tem aqui? Quantos Índios tem aqui? Quantas Trans têm aqui? Quantos Gays tem aqui? Quantas Minas tem aqui? Quantas Vidas tem aqui?

A entidade Tantão toma o partido da vida, das minorias, dos ameaçados, do que se esforça para viver e criar, da vontade potente a que nada falta, um sintoma para um novo conceito de resistência que traça uma linha de fuga radicalmente democrática ao mesmo tempo em que faz fugir as forças tiranas do iluminismo sombrio que Jards Macalé, antena da raça, em sua evocação antropofágica ao Cantos I de Pound, também captara.

“Trevas, Trevas                                    Treva, a mais negra, sobre homens tristes”

Ameaçadas pelo terror necropolítico que deseja perversamente se impor sobre o corpo e sobre a alma que é o pensamento do corpo, as obras de Macalé e Tantão atravessam-se.

“Há um golpe estranho”; “Chegamos ao limite da água mais funda”; “Há um golpe estranho”; “Chegamos ao limites da água mais funda”.

Ao pensamento abalado com o que lhe chega através do delírio disjuntivo da sensibilidade, do entendimento, da imaginação resta resistir. Mas reagir aos sinais do fascismo é insuficiente. Girar no denuncismo alivia a consciência, mas não muda as coisas de fato. Resistir nesses termos é reação às relações determinadas pelos poderes da máquina estatal completamente engolida pelo regime capitalista. Resistir precisa também ser ação, início de uma cadeia causal, criação e não apenas resposta à ação da tirania.

Parece necessária a criação, ou recuperação, de um conceito de resistência que não se limite a simbolizar estaticamente um mover-se reativo, culpabilizante, ao terror, mas sim, e principalmente, que encarne uma prática, um enxameamento, um revesamento de ações estéticas (por que não?), éticas, políticas, organizativas, moleculares e molares, individuais e sociais. Ao conceito de resistência somam-se componentes de criação, organização e ação, nas redes e nas ruas. Resistência como máquina revolucionária e não apenas reacionária.

“Chegamos ao limite da água mais funda” e, neste afogamento desesperador, sufocante, as forças da vida prevalecem, e então: levantamos, com Macalé e Tantão, o olhar pro céu. Conforma-se aí “uma nação” enquanto multiplicidade de vidas que resistem ao baixo, ao vil, ao escravizador, em diferenciação criadora.

Através dos álbuns “Drama” de Tantão e “Besta Fera” de Macalé escutamos que é possível resistir às forças retrógradas sem reatividade, mas com invenção. Resistência, criação e ação no mesmo plano de imanência que mergulha no caos e traça linhas para uma organização revolucionária.

Macalé e Tantão nos fazem pensar um conceito de resistência criadora para que o mundo, este mundo, mundo de extermínios como o cometido no Fallet por forças policiais (com amplo apoio, ou vista grossa, dos setores remediados das classes médias) nunca mais se repita.

Situados no terceiro gênero de conhecimento estes artistas convidam à produção de algo novo, “para que a vida possa passar, para que novas linhas estéticas, éticas, politicas, cientificas, filosóficas passem, para que novas formas de vida surjam”.


A gestão dos gestos & os gestos da gestão

Gestos dizem muito sobre uma época & os gestos desse tempo deixam, cada dia mais, de serem de vida para exprimirem medo, desejo de vingança, ódio e morte. Um grupo de zumbis, pequenos burgueses, dentre eles meu melhor amigo de infância, sinaliza com as mãos revólveres e metralhadoras. Comemoram mais um curso de MBA finalizado. Pergunto-me: a morte de quem está sendo gestada no inconsciente dessa gente? Quem ou o que deseja a morte através dessas mãos que desejam, alegremente, portar tristes armas? É estranho saber que tenho um grande amigo junto com os que estão sendo preparados para matar ou achar natural o extermínio de quem pensa diferente deles. Ele, no primeiro plano da imagem, sorri com sua fantasmática arma na mão. A turma inteira dispara uma alegria armada, menos o professor, sério no centro da turma, e um outro aluno; os dois únicos negros na sala. O capitalismo é um gigantesco e bem sucedido empreendimento da morte, opera milimetricamente a gestão dos gestos até que estes reproduzam em todos os espaços e momentos os gestos da gestão.


Cores & valores

Ao ler a recente entrevista do Mano Brown [https://goo.gl/WhS7v2] entendi um pouco melhor “Cores & Valores”, o último álbum de estúdio dos Racionais. Nesse disco de 2014, algumas canções acabavam antes do que sentíamos que poderiam acabar [https://youtu.be/LUCmRVPY2Qc], cortes bruscos [https://goo.gl/ZyUdQk], picos foda que não duravam [https://goo.gl/j8fGp1], talvez como nossos surtos democráticos. Enfim, “Cores e Valores” se colocava, assim como o Brasil, numa encruzilhada, e assumia contradições, ambiguidades, tensões históricas, reveses momentâneos, sem demasiadas, além das já existentes, ilusões.

Em “Eu Compro” é possível constatar uma dimensão desta encruzilhada. Nesta composição, ouvimos versos que podemos identificar com o discurso de pessoas que ascenderam economicamente durante os governos do PT, que o sociólogo Jessé de Souza denominou “batalhadores”, mas algo parece incompleto ou em aberto (como soam algumas músicas de “Cores & Valores”) para esses indivíduos. O próprio Jessé em sua obra “Os batalhadores brasileiros” reconhecia a importância do fator econômico, via políticas sociais, por exemplo, para a ascensão dos batalhadores (que não podem ser confundidos com a classe-média), mas insistia também em investimentos em “capital cultural”. Apenas o capital econômico, sem o cultural, não produziria, a longo prazo, diminuição da desigualdade, pois as classes superiores se reproduzem também culturalmente e não apenas economicamente ….

“Minha ambição tá na pista, pode pá que eu encosto
BM branca e preta M3 com as roda cinza eu gosto
Os nego chato no rolê de Mercedes
Apenas dois, três, quatro é foda poucos vencem
E seu sonho de ter a Fire Blade vermelha Repsol CBR
Uma VMax, um apê, R8 GT
Ou uma Porsche Carrera, pôr no pulso um Zenith
Ou um Patek Philippe”

Estes versos cantados por Ice Blue contêm uma ambivalência no âmago. Há neles, ao mesmo tempo, uma satisfação por ter vencido (ou ter uma representação do que é vencer na contemporaneidade) e um lamento porque são poucos os que venceram até então. “Os nego chato no rolê de Mercedes / Apenas dois, três, quatro é foda poucos vencem”.

Uma das direções possíveis de “Cores e Valores” é a afirmação de valores éticos, políticos, comunitários, estéticos, mas também monetários [“O vil metal só não quer quem morreu”, afirma Brown em “Você Me Deve”]); uma outra direção é puramente a dos valores monetários e seus esperados desdobramentos: status, distinção, ostentação, as cores do dinheiro e os valores do capitalismo em primeiro plano e talvez único plano. Explosões, rajadas de metralhadora, vitrines estilhaçadas, sirenes e armas sendo engatilhadas impregnam a atmosfera do álbum. Tensão na encruzilhada.

As canções de “Cores & Valores”, ouvidas em conjunto e da perspectiva do presente, tentavam, assim parece-nos, interpretar uma situação política, econômica e social marcada pelo expressivo aumento do poder de consumo entre os mais pobres (quem não se lembra do “funk ostentação”?), buscavam pensar o instante atribulado e seus devires a partir de signos confusos e desencontrados, davam uma letra sobre um estado de coisas que sentíamos não ser completa (talvez propositalmente se considerarmos a irresolução no plano político que vivíamos e vivemos), lançavam estilhaços de ideias, propunham ações sem desenrolar todo o plano [https://goo.gl/sJxtbp], apontavam possibilidades [https://youtu.be/y61PWnBp2sU], caiam, por vezes, em contradições terríveis, dilemas [https://goo.gl/3m9L8T], mas não decidiam unilateralmente, pois, como lemos na entrevista de Brown quem decide (e decidiu) é o povo. “O povo elege quem quer. Consome o que quer, come o que quer, veste o quer”.

E Ice Blue prossegue:

“Pingente de ouro com diamante e safira
No pescoço um cordão, os bico vê e não acredita
Que o neguinho sem pai que insiste pode até chegar
Entrar na loja, ver uma nave zera e dizer:
“Eu quero, eu compro e sem desconto!”

Mas, assombrando a ascensão econômica e o sucesso no capitalismo, o fantasma estrutural do racismo:

“À vista, mesmo podendo pagar
Tenha certeza que vão desconfiar
Pois o racismo é disfarçado há muito séculos
Não aceita o seu status nem sua cor”

Esses versos de “Eu compro” apontam que ter apenas o valor para pagar à vista não apagará da vista, não da noite para o dia, uma história de exploração, preconceito e violência (simbólica e no corpo) contra os pobres e negros no Brasil, como atesta também “Preto Zica”: “um truta meu me disse que o chicote estrala, o inimigo dá risada da sua vala no sofá da sala”.

Mas em 2018 Brown analisa que a escolha foi feita. A encruzilhada foi transposta. Os valores que os Racionais defendiam, segundo ele, foram negados para a afirmação de um único valor: “eu compro”, valor que, ressalte-se, os Racionais em “Cores e Valores” não negaram, mas propunham que fosse pensado no plural enquanto “valores” [https://youtu.be/TouWW2VoW8A] e em relação com a multiplicidade da gente pobre brasileira e de suas cores. Mas, constata Brown,

“hoje, a maioria está reclamando porque não tem iPhone. Você tem realidades distintas. Hoje, a luta que as pessoas dizem ter é individual. Não vejo mais luta de classes. A luta é por conforto. A periferia está pedindo segurança, votando em polícia, se escondendo dentro de igreja e atrás de pastor, não assumindo a parte que lhe cabe. Então, qual seria a importância dos Racionais hoje? Falar de Deus, de família? Não. Isso é o que fala o discurso da direita no Congresso. Que é homofóbica, racista, um monte de coisas. Os discursos se misturaram. A extrema-esquerda, hoje, virou direita, de tão à esquerda que está. A gente vai ter de rever os conceitos. Você pega os pensadores do movimento (hip hop): eles estão neutros. Porque, hoje, você é apedrejado por falar de Lula. É linchado na internet, junto à opinião pública. Então está todo mundo com medo. A gente sabe o que é bom para o povo, a gente sabe em que momento o povo esteve melhor ou pior. Eu tenho idade suficiente para dizer: vivi vários momentos e vi o Brasil muito mal. Já vi o negro neste país mal a ponto de alisar o cabelo, de clarear a pele, afinar o nariz. Mal a ponto de esconder onde morava, ter vergonha da mãe. A gente não vive mais isso. Hoje, o negro vive o orgulho, e o branco vive a vergonha do que fez. E muitas vezes as pessoas se confundem por isso”.

“Eu compro” volta a tocar e acaba como um tiro, seco, repentino, com mais de 13,2 milhões de pessoas desempregadas [https://goo.gl/iB2X76] segundo as estatísticas. Cada vez mais menos pessoas podem comprar. E os que compraram, e que hoje já compram menos, não querem perder e, para se protegeram deste risco iminente, arriscam até votar em que defende a volta da ditadura militar, aquela que nunca foi, para muitos, embora de verdade. Ou seja, na interpretação de Brown, a periferia chama a polícia, justamente a máquina viva da ditadura que prosseguiu, no interior da democracia, exterminando seus filhos.

No capitalismo, “apenas dois, três, quatro, é foda, poucos vencem”. Brown, Pedro Paulo Soares Pereira, “negro drama entre o sucesso e a lama”, sabe bem disso e diz não ter nada a celebrar nestes 30 anos de caminhada dos Racionais. “É luto, meu parceiro. Os caras que eram fãs, hoje, me perseguem. Me chamam de maconheiro, defensor de bandido, petralha, Lei Rouanet – que nem sei como usa, nunca usei. Celebrar?”


O signo da morte & da vida por vir

O brutal assassinato do professor Marcondes Namblá do povo Laklãnõ-Xokleng é a terrível continuação do extermínio da população indígena no Brasil.

Em outubro de 2017, o relatório “Violência contra os povos indígenas no Brasil”, divulgado pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), informou que 118 indígenas foram assassinados no país em 2016.

O maior número de vítimas, 44, foi registrado em Roraima, entre o povo Yanomami. O Mato Grosso do Sul, onde vivem os Guarani-Kaiowá, registrou 18 mortes por agressões.

O relatório do CIMI [https://goo.gl/yQFbGS] traz ainda uma série de artigos que apontam que os assassinatos estão associados a um processo mais amplo de desconstrução dos direitos indígenas estabelecidos na Constituição Federal.

Os dados referentes a 2017 ainda não foram divulgados, todavia os números da violência (que não é só uma questão numérica!) que se abate sobre os povos indígenas serão novamente alarmantes haja vista a intensificação da relação espúria de Temer com a bancada ruralista e da bala, e o desmonte da FUNAI.

A morte de Namblá não pode ser apenas um número nas estatísticas de 2018 (nem conhecemos as de 2017!). Ela pode ser o começo, o signo disparador, de uma profunda reflexão, com e para além dos círculos ativistas e acadêmicos, acerca do extermínio em curso dos povos indígenas no Brasil.

Até quando receberemos passivamente as estatísticas da violência contra indígenas?