Desgoverno

Diante de tudo o que, diariamente, há mais de um ano desde o início da pandemia, observo neste país desgovernado em meio a maior crise de sua história, não é nada absurdo afirmar que nós que estamos vivos agora, e até agora, somos sobreviventes. Espero que consigamos sair desse turbilhão diário de novas infecções, multiplicação de variantes e mortes, porém a cada novo dia, diante dos fatos, assim como das posturas dos que deveriam dar o exemplo, isso parece cada vez mais distante, como uma miragem que se forma no horizonte e desaparece quando nos aproximamos dela. Doloroso saber que todo esse horror resulta de uma escolha deliberada, fruto maldito de uma estratégia (imunidade de rebanho) despropositada, que acabou por provocar o aparecimento de novas variantes mais contagiosas como a P.1, consequência evidente do atraso – proposital – nas negociações e na aquisição de vacinas para toda a população. Sobreviventes de um crime contra a humanidade, simultaneamente negado e aplaudido por milhões, inconscientes de que eles próprios podem ser as próximas vítimas.


Dronecracia


Assistimos ao aparecimento de governos que editam, antes mais nada, regimes de imagens às quais devem dar ao povo, que não é chamado a governar, a impressão de participarem do governo e das tomadas de decisão.

O povo deve admirar as imagens espetaculares sem povo, imagens aéreas articuladas com discurso publicitário e trilha sonora emocionante ao fundo.

Não importa a realidade mesma dos fatos, mas o efeito de persuasão das imagens editadas sobre a percepção sensível.

O filósofo francês Guy Debord já nos anos 60 pensou a “sociedade do espetáculo”. Nesta sociedade, que é um desdobramento da sociedade capitalista em crise com a diminuição do consumo de bens não duráveis, e que precisa incentivar o consumo para continuar a existir, a produção de imagens torna-se peça fundamental para estimular a adesão irrefletida das massas ao consumo das mercadorias, inclusive as mais supérfluas.

Na sociedade do espetáculo, diz Debord, “o mundo sensível é substituído por uma seleção de imagens que existe acima dele, e ao mesmo tempo se faz reconhecer como o sensível por excelência” (Debord, 1997, p. 28, § 36).

A política, nesta sociedade descrita por Debord, também torna-se espetacular. O discurso político é substituído pelo discurso publicitário, o governo pela gestão empresarial, o público pelo privado, as ações por imagens das ações, e o cidadão participativo pelo consumidor passivo de imagens. Na era da política do espetáculo, não importa o que é, mas o que parece ser; na época de Debord na televisão, na nossa nas mídias sociais.

Se a democracia, ao menos em tese, é o que deve ser realizado pelo demos (povo) na praça da polis (cidade) hoje a política é operada por drones que sobrevoam e registram a política e a cidade que torna-se imagem assim como a população.

Bem vindo à dronecracia.


::: O mundo inteiro sob o domínio de 1% :::

Num passado recente, era comum dizermos que 20% da população detinha 80% das riquezas e que os 20% das riquezas restantes ficavam com o restante da população.

A situação hoje, na verdade, é mais dramática, como demonstrou o economista Ladislau Dowbor em seu “A Era do Capital Improdutivo”. Ele cita um estudo do grupo financeiro suíço Crédit Suisse, instituição insuspeita de antipatia para com os ricos, que mostra que o 0,7% mais rico do planeta, o que corresponde a 33 milhões de pessoas, detém 45,6% da riqueza total do mundo avaliada em 256 trilhões de dólares. Ou seja, esse seleto grupo humano, composto por gente como Elon Musk, dispõe de 116,6 trilhões de dólares e já planeja deixar o Planeta Terra e colonizar outros planetas.

Um pouco mais abaixo do topo, 365 milhões de pessoas (7,5%) possuem entre 100 mil dólares e 1 milhão, na sequência 897 milhões de pessoas (18,5%) têm entre 10 e 100 mil dólares, e a grande maioria 3,546 bilhões (73,2%) possuem de Zero (miseráveis) a 10 mil dólares. Se antes falávamos que 20% da população detinha toda a riqueza planetária, hoje, podemos constatar que 1% tem mais riqueza do que os 99% restantes do planeta. Este 1% no topo da pirâmide são os chamados “ultra-ricos” (“ultra high net worth individuals”).

Dowbor assinala que entre os “ultra-ricos” nem sempre estão os produtores, mas, em grande parte, gente que lida com papéis financeiros, fluxos de informação ou intermediação de commodities, ou seja, são pessoas que nunca puseram a mão na massa e vivem da especulação ou, como chama Dowbor, do “capital improdutivo”. Citando a Oxfam, salienta que “embora lideranças mundiais tenham se comprometido a alcançar o objetivo global de reduzir a desigualdade, o fosso entre os ricos e o restante da sociedade aumentou. Essa situação não pode ser mantida”. Ele lembra ainda que em 2016, em discurso à Assembleia Geral da ONU, Obama declarou que “um mundo no qual 1% da humanidade controla uma riqueza equivalente a dos demais 99% nunca será estável”.

Ao contrário do que afirmam os neomalthusianos, o Planeta não está sendo destruído pelo excesso populacional, mas sim, como demonstra Dowbor, “para o proveito de quando muito 1/3 da população mundial, e de forma muito particular para o proveito do 1%. Estes são os dados básicos que orientam as nossas ações futuras: inverter a marcha da destruição do planeta e inverter o processo cumulativo de geração da desigualdade”.





Lockdown & luta de classes (2)

Está cada vez mais claro que os micro e pequenos empresários caíram no canto de sereia dos neoliberais, representados em Minas por Zema e em Brasília por Bolsonaro.

Na hora mais grave da pandemia, os micro e pequenos empresários que buzinaram histericamente nas eleições em nome do mito serão abandonados à própria sorte . Bolsonaro não tem uma política emergencial para eles. Tudo o que Bolsonaro lhes dirá é que devem lutar pela liberdade sem, no entanto, lhes dizer que ser livre para se contaminar e contaminar o outro com um vírus mortal não é ser exatamente livre. Liberdade para morrer? Quem em sã consciência se dispõe a arriscar a vida enquanto luta para sobreviver? Ninguém trabalha para morrer, muito pelo contrário!

Os micro e pequenos empresários precisam olhar para o espelho do real e se verem, se identificarem, e agirem, em conjunto com a classe trabalhadora pela efetivação de direitos existentes e também para a criação coletiva de novos. O que não dá mais é caírem, ou melhor, continuarem a cair na retórica da destruição dos direitos em nome de uma liberdade que se torna cada vez mais distante na medida em que, paradoxalmente, e cinicamente, se assenta sobre a própria destruição de direitos.

Imagine se aquela retórica (do Novo mais arcaico…) de privatização do SUS tivesse vingado!? O que seria do Brasil nesta hora em que o SUS é o único recurso que a maioria da população tem para respirar.

Para avançar é preciso também criar e não apenas destruir. Se querem a liberdade terão que criar o reino da liberdade e isso não se faz com buzina e gritos histéricos. Quem sabe agora aprendam na prática e na praxis a lição histórica.


Vida & economia

A constituição em caráter de urgência de um comitê de cientistas brasileiros para definir os passos a serem seguidos pelo país na pandemia do novo coronavírus é fundamental. O cenário é catastrófico e a postura do governo federal contribuiu e continua a contribuir para que o Brasil seja ao lado dos EUA o país com mais vítimas da Covid-19.

Estes cientistas, lotados em instituições brasileiras, seriam responsáveis por apresentar às instituições e à sociedade civil as diretrizes do que deve ser feito no país como um todo no que diz respeito à pandemia.

O governo federal usa a pandemia para dividir a população a fim de manter uma base fiel visando unicamente as eleições de 2022. Pandemia é antes de mais nada uma questão de saúde pública e neste campo temos instituições públicas de ponta e cientistas capacitados que podem traçar os passos para fora do abismo em que o país e seu povo foi lançado por declarações e atitudes anticientíficas e extremamente perigosas, com consequências terríveis como as que estamos observando em todos os âmbitos da vida.

Segundo o Observatório Covid-19 BR, “a falta de uma coordenação centralizada pelo governo federal tem dificultado todas as medidas eficazes no combate à epidemia no País, que até o momento conta com poucas estratégias de testagem e rastreio de contactantes, atrasos na vacinação e demora para retomada de auxílio emergencial às pessoas mais carentes, para que elas possam sobreviver a este período de restrições econômicas e de mobilidade”.

Se o Brasil continuar a se dobrar ao negacionismo, à desinformação, às fake news e ao discurso do “novo normal” milhões morrerão em poucos meses e a economia, que tantos hoje defendem como primordial, também será destroçada, pois a escolha entre vida e economia é artificial, falsa, e está sendo taticamente produzida com finalidade eleitoreira.

Ainda para o Observatório Covid-19 BR: “sem nenhuma estratégia de contenção da epidemia, o Brasil tornou-se terreno fértil para a emergência de novas variantes de Sars-Cov-2 e sua propagação, ameaçando não apenas o País, mas todo o mundo. A intensa circulação do vírus no Brasil possibilita o surgimento de novas mutações de preocupação”.

Quem defende salvar vidas evidentemente não defende a retirada do pão da mesa da classe trabalhadora, muito pelo contrário. Os defensores da vida são justamente os defensores dos trabalhadores expostos, pela necropolítica do governo federal, ao vírus e à morte. Para sair dessa situação, de crise sanitária e econômica, é necessário sim retirar a gestão da pandemia das mãos do facínora que desgoverna o país e, simultaneamente, construir uma coordenação em âmbito nacional com pessoas com conhecimento técnico, médico, epidemiológico, econômico, antropológico, logístico, etc., capazes de abordar o problema de uma perspectiva multidisciplinar, ética e sem, evidentemente, jamais se render a interesses escusos internacionais que podem, perigosamente, se camuflar para a realização de operações de intervenção militar.


::: Educação para a Democracia e para a Vida :::

1
A decisão de retorno às aulas deve ser técnica seja quem for o/os/a/as responsável/eis. Não é falando das posturas de A ou B a saída. Pandemia não é, a princípio, uma questão de ordem pessoal nem de grupos políticos, mas de SAÚDE PÚBLICA universal. Assim, os critérios que devem balizar qualquer deliberação e tomada de decisão referente a discussão sobre a volta presencial (mesmo híbrida) às salas de aula devem orbitar questões como: números de novos casos, número de óbitos, risco de contágio em ambiente fechados ou com baixa circulação de ar, experiências em outros estados, disponibilidade de vacina, etc.
1.1
Se ainda há transmissão comunitária em curso, risco de infecção, casos em que profissionais da educação se contaminaram em outros estados em que as aulas retornaram no modelo presencial/híbrido, tudo isso têm que ser exposto à comunidade escolar com muita transparência e tecnicidade.
2
Se tem pai de aluno indo à praia ou à balada a responsabilidade, ou melhor, a falta de responsabilidade é de quem age assim. Usar desse artificio retórico para tentar forçar um retorno apressado às aulas já que em tese “todo mundo relaxou” é revelador de um desprezo mal disfarçado à ampla maioria de professores e aos demais funcionários da educação que estão levando a sério as medidas de distanciamento e isolamento, e cumprindo da melhor forma possível suas funções pedagógicas. Ora, por que os professores e funcionários têm agora que pagar por atitudes irracionais de grupos de negacionistas da pandemia? Educação começa em casa, não se esqueçam.
3
Muitos cobram dos professores e demais funcionários para voltarem às salas e demais espaços escolares, mas quase ninguém cobra “vacinação já” para todos os brasileiros. Estranho não?3.1″Ah! Mas não dá para vacinar todo mundo do nada”, alguém logo dirá. Sim, não dá, mas daria, pelo menos de uma maneira muito mais eficaz do que o atual PNI em curso, se houvesse, por parte do estado brasileiro, planejamento e negociação antecipada com governos e laboratórios. Não faz sentido resolver um problema (vacina em número insuficiente) criando outro (trabalhadores sem vacina expostos ao risco de contágio pelo Sars_Cov_2 por horas a fio em ambientes fechados).
4
As frases mais usadas pelos defensores da “volta às salas de aula” são todas de ordem impessoal: “as escolas precisam funcionar”, “as aulas precisam voltar imediatamente”, “os pais de alunos estão indo à praias e baladas”, “os protocolos serão todos cumpridos”. Tais discursos revelam da parte de seus enunciadores uma postura de invisibilização e desconsideração dos profissionais e demais funcionários da educação, percebidos como seres anônimos e fantasmáticos, que têm a obrigação automática, em um contexto pandêmico gravíssimo e de inexistência de vacinação em massa, de receberem centenas de alunos todos os dias, vindos dos mais diversos lugares da cidade e de famílias com diferentes hábitos e condições socioeconômicas.
5
Os professores e demais profissionais da educação jamais se negaram e não se negam ao trabalho e, num contexto de uma pandemia de um vírus altamente contagioso e mortal, precisam ser, como todos os trabalhadores deveriam ser, considerados, antes de mais nada, em sua dignidade humana e não obrigados – por decreto ou outro dispositivo – a retornar ao trabalho em salas muitas vezes abafadas, sem ventilação adequada, para não dizer insalubres.
6
Usar para justificar o retorno das aulas o argumento da exposição de determinados grupos de trabalhadores ao vírus e ao contágio é revelador do menosprezo de certas parcelas da sociedade por todos os trabalhadores. Não faz sentido, a não ser por vingança, defender que mais um grupo de trabalhadores deva se arriscar a contaminar quando, na verdade, os trabalhadores deveriam todos ter garantida a vacina.
7
Se o horripilante “novo normal” da humanidade implica expor o outro ao risco de morte, se a política tornou-se, como diz o filósofo Mbembe, “necropolítica”, isto é, mera gestão da morte, então é preciso se perguntar sobre que humanidade estamos nos tornando em que o valor abstrato do dinheiro se sobrepõe ao valor concreto e sagrado da Vida.
8
A pandemia do novo coronavírus é uma questão de saúde pública e no caso da Covid-19 o único tratamento 100% eficaz chama-se vacina. Então temos todos que nos unir, democraticamente, em uma única voz: #VacinaJá para TODA população e pelo #SUS.


Economia primeiro. Saúde depois?

As redes sociais hoje operam como vitrines para a exibição de modelos humanos. A máquina capitalista adentrou o espaço da intimidade. Tudo deve ser exposto, todos devem se tornar influencers, todos devem ditar modas, hábitos de consumo. Nesta nova configuração do capitalismo consumir não basta, é preciso que o consumidor faça a propaganda do seu consumo atraindo para si o olhar de potenciais consumidores. Casas, carros, motos, roupas, bicicletas, sapatos, cervejas, cafés, passeios, bebidas, relógios, animais, livros, cargos, diplomas, parceiros, filhos, boletins, contratos, tudo, sem exceção, deve ser mostrado. Até o reflexo no espelho na academia deve ser reproduzido na tela. O sucesso se mede pela capacidade de consumir. Se você consome você é alguém. Se você não consome não existe, é um fantasma na sociedade de consumo total. Imaginem como isso é problemático numa sociedade de 16 milhões de desempregados e mais de 30 milhões de miseráveis vivendo com menos de dois reais por dia? Imaginem os traumas em adolescentes que não podem reproduzir padrões existenciais e de consumo impostos pelo mercado!Já o tempo de trabalho, as horas infinitas no trânsito, na loja, na fábrica, as dificuldades, os assédios morais, os direitos previdenciários e trabalhistas destruídos tudo isso deve ser ocultado. Vale mais a performance artificial de si em rede social do que o desmascaramento das estruturas de exploração da mão de obra e espoliação do trabalhador. Vale mais defender um mito idiota, ou assistir ao BBB, do que pensar na destruição total em curso no país que caminha, claramente, para uma guerra civil. Ou você acha que um decreto que libera até a produção caseira de munição é para ir para a disney? Antigamente diziam: “o importante é ter saúde”, “sem saúde não somos nada”. Agora, o importante é a economia, mas não uma economia em que os recursos existentes beneficiam a todos igualmente, e sim uma economia para uma minoria que faz a maioria brigar até a morte por migalhas. Nesta economia parasitária se você não tem mais saúde é logo descartado como os mais de 240 mil mortos na pandemia (e sabe se lá quantos mais até que toda população esteja imunizada). Quem se importa? E se for você o morto ou a morta as máquinas continuarão a girar exatamente como estão girando agora. Eles já têm até a frase pronta para fingirem que a sociedade brasileira não está sendo trucidada por um genocida que não trouxe a vacina para todos e em tempo hábil antes de novas e mais perigosas mutações: “é o novo normal”. No antropoceno, tempo em que o humano se torna a maior ameaça para o Planeta Terra, a própria humanidade é capitalizável. Você deve render ao máximo como uma aplicação financeira. O humano tornou-se “capital humano” e o trabalhador – sem direitos – “empreendedor”. Índios? Natureza? Ecologia? Alimentos sem pesticidas cancerígenos? Vacina para todos? Aquecimento global? Poluição? Derretimento das geleiras? Perda de biodiversidade? Pandemias? Racismo? Homofobia? Democracia? Tudo isso é coisa de vagabundo, de esquerdista, dirão os nazistas sobre as pilhas de mortos que não param de aumentar. A felicidade é um imperativo. Você precisa estar sempre sorrindo, sempre de bem com a vida. Apenas os fracos adoecem. Se você não venceu é porque é um perdedor. Se você está deprimido é “mimimi”. Na era fitness estar acima do peso é um crime. Na era em que todos querem ser os burgueses felizes da propaganda de refrigerante diet a tristeza é uma aberração. Pare de reclamar e trabalhe, ordenam os filhotes de Hitler. Mal sabem eles que a frase “Arbeit macht frei” (“o trabalho liberta”) era colocada nas entradas dos campos de extermínio do regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Na era em que a extrema-direita institui a barbárie reivindicar direitos é um crime. Os trabalhadores devem aceitar as piores condições, pois, a burguesia cínica dirá: “se você não quer tem uma fila de miseráveis lá fora”. O importante é que, apesar da crise total da humanidade, você encene a fama, ainda que dure 5 minutos, isso se você não for cancelado antes por turbas digitais fascistas que sempre terão a última palavra sobre sua vida até elegerem uma outra pessoa para destruírem amanhã. Mas não se esqueça: o cancelador de ontem pode ser tornar o cancelado hoje. Neste tempo de subjetividade colonizada pelo capital, os laços de solidariedade, colaboração e coletividade são rompidos. A competição adentra todos os espaços: no trabalho, na escola, na empresa, na academia e até no mundo das artes. Todos estão em competição, e não apenas com o outro mas consigo próprios. O indivíduo torna-se seu próprio algoz. Deve sempre se superar, ir além de seus próprios limites. O céu é o limite. Elon Musk é o homem mais rico do mundo. Ele tem 188,5 bilhões de dólares. Isso não o livrará do fedor da morte, embora hoje busque um meio de comprar a fórmula da vida eterna. Cabe a cada um pensar sobre as práticas e hábitos vigentes na contemporaneidade e se perguntar se vale a pena serem cultivados ou se devem ser revistos no sentido de repensar novos modos de existir, menos vinculados aos ditames da ordem capitalista que transformou tudo e todos em meros objetos de consumo e, pior, descartáveis como a pandemia do novo coronavírus demonstra todos os dias. Economia primeiro. Saúde depois? Escute, o sinal tocou. Agora é a vez dos professores irem para o abate.


Mito sem sentido e sem referência

“Mito”! Gritou nos meus ouvidos um indivíduo ressentido com as críticas que muitos brasileiros vêm fazendo às ações nada humanas do presidente neste período de grave crise sanitária, econômica, ética e política.

Perguntei-lhe: “o que é mito”? Ele não respondeu. Pareceu-me que só queria provocar, fazer confusão,  causar mal estar. Cresceu, mas continua sendo aquele aluno falastrão e grandalhão do ensino-médio que humilha colegas e professores, que acha que suas ideias são geniais e que todo mundo está errado exceto ele. Ele até passa por esperto, é admirado por muitos, até a hora em que a vida lhe faz questões complicadas.

Será mesmo Bolsonaro um mito? Vejamos de forma bem simples sem grande elaboração para todo mundo formar uma ideia razoável.

O mito (“μυθος”) é uma forma de pensamento que antecede a razão (“logos” em grego ou “ratio” em latim).  Quando, por exemplo, explico o trovão recorrendo à ação do deus nórdico Thor estou fazendo um discurso mítico. Quando explico o trovão como um fenômeno que se segue a uma descarga elétrica estou entrando num campo discursivo racional.

Não há discurso melhor ou pior. São discursos diferentes e operam em diferentes sociedades e cumprem diferentes funções.

A razão, dizem, apareceu na Grécia há 2600 anos ou simplesmente 6 séculos antes de Cristo. A filosofia seria este momento em que desenvolvemos uma explicação racional do mundo e das coisas.

Quando alguém diz: “Bolsonaro é um mito” está fazendo uso da razão ou fazendo um discurso mítico?

Nenhum dos dois! Quem diz “Bolsonaro é um mito” está fazendo um discurso sem sentido.

Os povos indígenas do Brasil até hoje utilizam mitos para explicar as coisas. Os Yanomami acreditam que Omama criou a natureza e que a epidemia é causada pelos brancos possuídos por espíritos Xawari.

Bolsonaro, porém, não está entre os mitos indígenas, nem entre os mitos nórdicos ou gregos. Muito pelo contrário, Bolsonaro inclusive não gosta dos povos indígenas.

A ideia de que “Bolsonaro é um mito” não tem, portanto, sentido. Pois, para ser mito ele deveria estar associado a um sistema mítico. E se procurarmos Bolsonaro em um sistema de mitos nada encontramos. Encontramos Omama, encontramos Thor, encontramos Apolo, Perséfone, encontramos até o Saci-Pererê e a mula sem cabeça etc.

Para alguns lógicos para haver sentido deve haver referência e vemos claramente que a utilização de mito para definir Bolsonaro não tem nenhuma referência.

Então qual o sentido de chamá-lo de mito? Mito do que? De onde? De quando? Ele se refere a alguma entidade desconhecida? Que entidade é esta? Se ele é um mito necessariamente deveria ser ou se referir a uma entidade não humana. Veja algumas pessoas dizendo que é a besta, o diabo, em razão da maneira cínica com que ele tem se posicionado com relação às milhares de mortes por Covid-19.

Para mim ele não é a besta nem o diabo, mas humano, demasiado humano, ou melhor, apenas um político incompetente que está há 30 anos mamando nas tetas do Estado e que preparou todos os filhos para fazerem a mesma coisa.

Logo, quem chama Bolsonaro de mito ignora o que seja um mito e pensa que um homem com os piores defeitos é um mito.


“Corpo não é pecado”

4 dias proibido pelos moralistas do facebook de postar. Na verdade, mais uma vez proibido. Motivo: compartilhar uma reportagem sobre índios isolados e sobre os riscos que estes povos correm com a carta branca dada pelo desgoverno federal ao garimpo e à extração do metal, à “new tribes mission” e à extração do espiritual. A inteligência artificial – vejam só: feita de metal – detecta pecado na nudez de povos que desconhecem o pecado. Índio morto pode. Índio pelado não. Nestas horas, em que já não sei se estou condenado a encarnar episódios de um passado que não vivi ou se vivo num futuro que nada é do que imaginava que seria, só um Tom Zé para desopilar: “corpo não é pecado, corpo não é proibido, corpo não é mentira”.

pop

Os intelectuais de luvas brancas seguem confusos sobre a distinção entre cultura popular e cultura de massas. Bastaria-lhes, já que conhecem o mundo quase que tão somente através dos livros, lerem algumas páginas de Morin, Martin-Barbero ou Canclini, para entenderem que a cultura popular é obviamente anterior à massificação da cultura operada pelos meios de comunicação de massa e consequentemente anterior à cultura de massa aí (re-)produzida; e que mesmo no âmbito da cultura de massa e da indústria cultural há muitas produções esteticamente potentes como é o caso, gostemos ou não, dos Racionais MC’s. Walter Benjamin via na massificação da arte promovida pelo cinema um meio de romper a aura burguesa da fruição estética. Por fim, tanto o popular em sua conceituação original quanto o pop estão sujeitos à crítica estética e bem argumentada, formalmente distinta de nossa doxa vomitada nos dispositivos de simulação de interação social da indústria cultural neste tempo de financeirização de cada coisa, átomo e bit do planeta.