Mito sem sentido e sem referência

“Mito”! Gritou nos meus ouvidos um indivíduo ressentido com as críticas que muitos brasileiros vêm fazendo às ações nada humanas do presidente neste período de grave crise sanitária, econômica, ética e política.

Perguntei-lhe: “o que é mito”? Ele não respondeu. Pareceu-me que só queria provocar, fazer confusão,  causar mal estar. Cresceu, mas continua sendo aquele aluno falastrão e grandalhão do ensino-médio que humilha colegas e professores, que acha que suas ideias são geniais e que todo mundo está errado exceto ele. Ele até passa por esperto, é admirado por muitos, até a hora em que a vida lhe faz questões complicadas.

Será mesmo Bolsonaro um mito? Vejamos de forma bem simples sem grande elaboração para todo mundo formar uma ideia razoável.

O mito (“μυθος”) é uma forma de pensamento que antecede a razão (“logos” em grego ou “ratio” em latim).  Quando, por exemplo, explico o trovão recorrendo à ação do deus nórdico Thor estou fazendo um discurso mítico. Quando explico o trovão como um fenômeno que se segue a uma descarga elétrica estou entrando num campo discursivo racional.

Não há discurso melhor ou pior. São discursos diferentes e operam em diferentes sociedades e cumprem diferentes funções.

A razão, dizem, apareceu na Grécia há 2600 anos ou simplesmente 6 séculos antes de Cristo. A filosofia seria este momento em que desenvolvemos uma explicação racional do mundo e das coisas.

Quando alguém diz: “Bolsonaro é um mito” está fazendo uso da razão ou fazendo um discurso mítico?

Nenhum dos dois! Quem diz “Bolsonaro é um mito” está fazendo um discurso sem sentido.

Os povos indígenas do Brasil até hoje utilizam mitos para explicar as coisas. Os Yanomami acreditam que Omama criou a natureza e que a epidemia é causada pelos brancos possuídos por espíritos Xawari.

Bolsonaro, porém, não está entre os mitos indígenas, nem entre os mitos nórdicos ou gregos. Muito pelo contrário, Bolsonaro inclusive não gosta dos povos indígenas.

A ideia de que “Bolsonaro é um mito” não tem, portanto, sentido. Pois, para ser mito ele deveria estar associado a um sistema mítico. E se procurarmos Bolsonaro em um sistema de mitos nada encontramos. Encontramos Omama, encontramos Thor, encontramos Apolo, Perséfone, encontramos até o Saci-Pererê e a mula sem cabeça etc.

Para alguns lógicos para haver sentido deve haver referência e vemos claramente que a utilização de mito para definir Bolsonaro não tem nenhuma referência.

Então qual o sentido de chamá-lo de mito? Mito do que? De onde? De quando? Ele se refere a alguma entidade desconhecida? Que entidade é esta? Se ele é um mito necessariamente deveria ser ou se referir a uma entidade não humana. Veja algumas pessoas dizendo que é a besta, o diabo, em razão da maneira cínica com que ele tem se posicionado com relação às milhares de mortes por Covid-19.

Para mim ele não é a besta nem o diabo, mas humano, demasiado humano, ou melhor, apenas um político incompetente que está há 30 anos mamando nas tetas do Estado e que preparou todos os filhos para fazerem a mesma coisa.

Logo, quem chama Bolsonaro de mito ignora o que seja um mito e pensa que um homem com os piores defeitos é um mito.


“Corpo não é pecado”

4 dias proibido pelos moralistas do facebook de postar. Na verdade, mais uma vez proibido. Motivo: compartilhar uma reportagem sobre índios isolados e sobre os riscos que estes povos correm com a carta branca dada pelo desgoverno federal ao garimpo e à extração do metal, à “new tribes mission” e à extração do espiritual. A inteligência artificial – vejam só: feita de metal – detecta pecado na nudez de povos que desconhecem o pecado. Índio morto pode. Índio pelado não. Nestas horas, em que já não sei se estou condenado a encarnar episódios de um passado que não vivi ou se vivo num futuro que nada é do que imaginava que seria, só um Tom Zé para desopilar: “corpo não é pecado, corpo não é proibido, corpo não é mentira”.

pop

Os intelectuais de luvas brancas seguem confusos sobre a distinção entre cultura popular e cultura de massas. Bastaria-lhes, já que conhecem o mundo quase que tão somente através dos livros, lerem algumas páginas de Morin, Martin-Barbero ou Canclini, para entenderem que a cultura popular é obviamente anterior à massificação da cultura operada pelos meios de comunicação de massa e consequentemente anterior à cultura de massa aí (re-)produzida; e que mesmo no âmbito da cultura de massa e da indústria cultural há muitas produções esteticamente potentes como é o caso, gostemos ou não, dos Racionais MC’s. Walter Benjamin via na massificação da arte promovida pelo cinema um meio de romper a aura burguesa da fruição estética. Por fim, tanto o popular em sua conceituação original quanto o pop estão sujeitos à crítica estética e bem argumentada, formalmente distinta de nossa doxa vomitada nos dispositivos de simulação de interação social da indústria cultural neste tempo de financeirização de cada coisa, átomo e bit do planeta.


Casa-grande necroliberal & cibersenzala

O argumento dos liberais com as ideias fora do lugar e dos neoliberais da escola de pinochet de que as estatísticas sobre desemprego são inválidas porque as metodologias não captam o trabalho informal é falso.

Sim elas captam. Quando somos informados acerca da população com emprego o dado é a soma dos trabalhadores formais e informais. As estatísticas oficiais acerca do emprego indistinguem o trabalho formal do informal (a distinção quando feita é feita secundariamente num nível de formalização dos dados primários e ela é fundamental para que se obtenha uma medição da qualidade dos postos de trabalho que estão sendo gerados).

O IBGE adota parâmetros definidos pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e não exatamente o que Bolsonaro ‘acha’.

As estatísticas do desemprego referem-se às pessoas que, dentro do universo da população economicamente ativa, está procurando emprego. Neste quesito são – SIM – 12 milhões de desempregados dentro do universo da população economicamente ativa. Esses 12 milhões não são trabalhadores formais nem informais.

E mais: o número do desemprego pode ser ainda maior pois há ainda os desalentados que nem entram nas estatísticas pois sequer estão procurando emprego (cerca de 4,9 milhões estão nesta situação). Poderíamos mencionar ainda os 6,7 milhões de subocupados.

Se o desemprego parou de crescer não é difícil ver que é porque muitos brasileiros foram vender fruta e bugiganga na esquina (literalmente) e porque muita gente parou de procurar emprego.

Penso que o atual governo reflete a incapacidade histórica de uma certa elite em superar uma mentalidade escravagista, expressão extemporânea da insistência da casagrande em manter à mão a senzala em pleno século XXI, abolindo direitos trabalhistas, apostando na flexibilização, no trabalho intermitente, para assumir de vez, e desavergonhadamente, a precarização da vida de milhões de cidadãos.

Enquanto no primeiro mundo governos apoiam, por exemplo, pesquisa em computação quântica que processará dados a velocidades hoje inimagináveis por aqui o pior governo da história bate bumbo para aplicativo de entrega com bicicleta.

Não por acaso, a fuga de capital do país segue vertiginosa. Quem vai apostar numa país em que sua juventude está condenada a, informalmente, pedalar para empresas de fast food ou a dirigir para a uber?


A vertigem da democracia sem predicado

O problema fundamental não é “Democracia em Vertigem” (ainda que problemas de diferentes ordens possam aí ser apontados e analisados), mas as classes para as quais pensar a democracia em seu sentido radical, sem o predicado liberal, causa-lhes vertigens terríveis (leia-se medo de perderem privilégios) e por isso negam qualquer processo vertiginoso de contestação da ordem e do progresso capitalista, especialmente se esta contestação vier de fora das teias do poder “democrático” instituído. Antes de ser estética a vertigem é política. Ninguém passa fome ou mora na rua esteticamente. A vertigem da democracia em que amplas parcelas do demos são excluídas do governo da cidade e do governo de si é nossa coisa pública mais bem, tática e estrategicamente, distribuída.


As vísceras da imagem do terror

O século XXI começa a ter suas especificidades sinistras também em nossas vidas. Há manifestações óbvias q ainda não conseguimos explicar. O mais arcaico ultrapassa o mais futurista. Neointegralistas filmam e postam no youtube um ataque terrorista à sede de um grupo de humor que opera na netflix. A sociedade controlada nas redes sociais dissemina velozmente as imagens. É real? É mais uma piada? Um episódio transmidiático de uma série total em que todos os espectadores são protagonistas? A imagem do espetáculo agora é uma imagem viral desespetacularizada. O regime grotesco das imagens das vísceras do final do século passado fora suplantando pelas vísceras da imagem em 2019, o ano em que o século XXI começou (a ser transmitido). Alguém postou sobre uma conspiração q não se sabe d onde vem nem p onde vai, q chega aos pedaços, arquivo corrompido, em um download lento de um mundo sem mundo e sem tempo, em chamas e violento ao extremo, registrado por milhões de câmeras de segurança de todos os ângulos possíveis.


Lunga morreu

Bacurau da vida real. “1.546 pessoas foram mortas pela polícia do Rio de Janeiro no ano de 2019. O número é o maior da história”. Se algum Lunga houve nesta história escrita com sangue de gente pobre é bem possível que esteja entre os mortos a golpes de facas pela polícia no Morro do Fallet ou que fosse um dos meninos que no caminho da escola foram encontrados pelas balas “perdidas” dos fuzis do poder necropolítico. Discutimos as leis, os pacotes anticrime, encontramos corretamente maneiras de não serem a encarnação da barbárie absoluta, mas nunca, ou quase nunca, questionamos o poder que as suspende quando bem entende naqueles territórios que nossos olhos, bem policiados, delimitados e adestrados, não podem, e nem querem, ver. O terror em si (de corpos exterminados amontoados, por exemplo) é insuportável então simplesmente, quase que como um defesa natural, o suportamos no marco representacional da lei, mas sabemos que a lei, um universal, por si só não significa nada, mas ainda cremos na sua efetividade particular simplesmente porque preferimos o prazer a dor. Antes um mínimo de prazer do que a dor dos jovens de Paraisópolis, dor que não pode passar, porque não estão mais vivos, para dançar, para amar, para gozar, para que passe. Não é que somos egoístas, somos parciais. Se Lunga está morto lamentamos,  dizemos “é a correlação de forças”, e seguimos em frente.