Filosofia braZileira?

O sonho de uma filosofia brasileira é o sono pesado do colonizado – mais ainda depois de uma cumbuca de feijoada, três garrafas de cerveja e duas doses de caipirinha – simplesmente porque Brasil é um mundo sem cercas tornado latifúndio após um batismo de sangue que escorre aos nossos pés ainda hoje. Não precisamos de uma filosofia brasileira deste Brasil a não ser que queiramos repetir ad infinitum, e ad nauseam em caso de indigestão com o bispo sardinha, tudo o que se passou após a colonização portuguesa até a colonização miliciano_fascista do presente. O Brasil é um “projeto” colonial e tudo o que se seguiu é o desdobramento e o redobramento de tal “projeto”, inclusive a ideia transcendente, novamente em voga, de uma filosofia brasileira. Brasileira? Brasileira de que Brasil? Do Brasil em que Olavo de Carvalho é filósofo desde os EUA? Ou do BraZil que bate continência para Trump? Do Brasil dos bacharéis-sabe-com-quem-você-está-falando? Do Brasil classe-média que, em 2015, cantou enfastiada de macarronada, coca-cola e democracia (e democracia!) o hino nacional com camisa da seleção e saudade da ditadura e da tortura? Do Brasil do “doutor” Mouro e das ideias fora do lugar? De um Brasil governado por uma besta fascista louca para exterminar o pensamento no canto da praia? Sinto muito (não, não sinto muito; não por isso): este Brasil, espero, que acabe junto com sua pretensa “filosofia”. Se quisermos mesmo uma filosofia podemos … pensar. No infinitivo, na imanência da terra e da Terra, sem adjetivos, sem pátria, sem universais, sem escola, sem catecismos, sem ídolos, sem ressentimento, sem culpa nem culpabilização e, principalmente, sem (re-)produzir tanta besteira.

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Simpatias neoliberais

A causa ambiental mobilizada de maneira desarticulada da questão social permite ao burguês performar uma preocupação com o universal sem arranhar seu egoísmo microcósmico. A preservação da natureza é defendida apaixonadamente enquanto o questionamento de sua própria forma de vida, baseada em consumo desenfreado, distinção e, não são poucos os casos, na transformação sub-reptícia da coisa pública em benesse para si e para os mais próximos, é dissimulado. Hume ensinava em suas pesquisas sobre a natureza humana que “não contraria a razão preferir a destruição do mundo inteiro a um arranhão no dedo”. “Preservar a Natureza” pode até vir a ser um imperativo válido para todos, mas só fará sentido se associado à criação de condições e instituições capazes de devastar uma outra natureza: a natureza egoísta de todos os homens sejam eles absolutamente despreocupados com a Natureza sejam eles preocupados apenas com a Natureza e com o trágico destino do próprio dedo. No deserto de captura generalizada da vida fascista e não-fascista pela maquinaria neoliberal um amigo esboçou uma possibilidade de fuga: “conectar as agendas libertárias, trabalhistas, ecológicas será o desafio da esquerda nas próximas décadas. Mas o denominador comum de todas essas lutas é a resistência contra o neoliberalismo. Sem uma crítica concreta a este modelo nefasto, a Amazônia queimará até o fim”.


Anarcocapitalismo de Estado?

Já tinha visto jovens tomando sopa no restaurante universitário e defendendo o fim da universidade pública, mas achava que a confusão parava por aí.

A verdade é que essa juventude “anarcocapitalista”, “ultraliberal” e “libertariana” ocupa cargos no Estado e comanda páginas com mais de 500 mil seguidores e canais no youtube com 570 mil inscritos e vídeos com mais de 700 mil visualizações.

De acordo com a reportagem “Quem são os libertários e anarcocapitalistas, que pregam o fim do Estado” publicada pelo jornal Folha de São Paulo, “Paulo Guedes levou para sua equipe uma vasta gama de liberais, e os libertários e anarcocapitalistas não foram excluídos. Estrategicamente, eles estão em áreas que cuidam da redução do Estado na atividade econômica. Um deles é Geanluca Lorenzon, 26, diretor de Desburocratização do Ministério da Economia e fundador do Clube Farroupilha, de Santa Maria (RS), uma das muitas entidades ultraliberais surgidas nos últimos anos”.

Esse componente juvenil do governo bolsonaro é algo que precisaria ser estudado mais a fundo. Ele, ao que parece, fornece a bolsonaro, no plano ideológico, um tipo de atração entre jovens na faixa entre 20 e 30 anos ligados nas ideias de Mises, Hayek, Ayn Rand e Rothbard, criptomoedas e aceleracionismo de direita.

Parece-me que a política econômica do desgoverno bolsonaro pode, paradoxalmente, ser definida como “anarcocapitalismo de Estado”. Trata-se de um governo que se utiliza dos aparatos do Estado – e da força contestatória da juventude – para destruir o Estado. Lebrun certa vez disse que os liberais são aqueles que serram o próprio galho. Diria que os ultraliberais serram o próprio galho e celebram o acidente. Há um desejo de abolição em suas linhas de fuga.

O desejo revolucionário de significativas parcelas da juventude brasileira foi capturado por uma máquina que estimula seus sonhos de liberdade entregando-lhe no mesmo pacote informacional o delírio sem limites do capitalismo, a ilusão de um “livre mercado” que nada tem de “libertário”. De repente, tornou-se ‘cult’ defender com uma pistola automática ou um rifle o fim do SUS e da universidade pública para todos e todas.

E não pensemos que o desejo por armas é apenas efeito retórico. Ele é real, mas circula fora do radar dos titios e titias do FB e do Twitter. As ameaças recentes de atentado armado a universidades brasileiras estavam sendo planejadas em sub-fóruns do 4chan que permite e encoraja a interação anônima entre seus usuários. O 4chan é o maior fórum do mundo, com doze milhões de visitantes por mês. O que se passa neste momento nas profundezas da web? Quais são seus efeitos na superfície do real? Um deles não se expressaria justamente na defesa do governo por parcelas significativas da juventude? Defesa que na verdade não é a defesa do político (há 30 anos no Estado) Bolsonaro, mas defesa de um desejo geracional capturado por estrategistas de campanha como Steve Bannon e identificado com a imagem vazia do “mito”.


::: E se o céu cair? :::

Indico o belíssimo livro “A Queda do Céu” do xamã e líder Yanomami Davi Kopenawa. É possível pensar e viver sem destruir a Floresta! É possível, cara pálida, vivermos sem termos que apoiar a abertura de mineração predatória por empresas privadas nos ‘tekohas’ (territórios sagrados) dos povos originários desta terra a que se convencionou chamar Brasil. Leiam “A Queda do Céu” e depois reflitam sobre o que se passa neste país em transe. Por que esse delírio fanstasmático pelo metal? Por que tanto investimento do desejo em mercadorias? Qual o sentido de apoiar expansão de garimpo em terra indígena? Qual o intuito de desacreditar informações científicas sobre o aumento do desmatamento na Amazônia? Por que não cuidamos de nossas vidas e deixamos os índios fazerem o que bem entenderem de suas vidas? Por que essa insistência em questionar o modo de vida e a cosmovisão desses povos plurais e singulares? Por que ainda persiste uma crença cega em tudo que certos políticos, claramente incompetentes, discursam sem produzirem efeitos reais e benéficos na realidade? Bolsonaro, por exemplo, está há 30 anos no poder garimpando o Estado brasileiro. Por que devemos acreditar nele? Por que as pessoas acreditaram nele, mesmo sabendo que em toda sua trajetória não apresentou um projeto sequer para o bem dos brasileiros!? Não! A extrema-direita não é a “nova política”, muito pelo contrário, é a materialização das mais velhas práticas e vícios públicos se passando como novo. Leiam “A Queda do Céu” e depois reflitam sobre o presente e o futuro (se ainda houver algum) desse país em que sob o pretexto da mineração prepara-se o extermínio final dos povos indígenas. Os brasileiros permitirão mais esse desastre? E se o céu cair? Palavras de um xamã. Palavras de Omama.

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Geologia da moral petropolítica

O discurso moralista sobre corrupção não é o resultado de um esforço de entendimento do sentido ou dos múltiplos sentidos que a corrupção tem em uma determinada sociedade e em um determinado período histórico, mas expressa uma satisfação perversa em atribuir a alguém ou a um conjunto de pessoas a pecha de corrupto, como se aqueles que o proferem pairassem desde sempre acima de toda e qualquer corrupção. Visa-se antes, por interesses escusos (e corrompidos?), a aniquilação de uma pessoa ou de um grupo do que propriamente a corrupção, esse obscuro objeto do desejo de acusar e condenar (em muitos casos sem provas). Em seu famoso texto “Teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista” Adorno diz que “a esmagadora maioria dos pronunciamentos de todos os agitadores é direcionada ad hominem”. Os convictos discursos da corrupção na Petrobras serviram aos moralistas não exatamente para criarem “um Brasil livre da corrupção” (como tanto alardearam) mas para, através da personalização da corrupção, produzirem o simulacro de uma empresa corrompida, quebrada, deficitária e estabelecerem as condições para, progressivamente, venderem-na a preço menor do que o preço da banana nanica sob o aplauso e os likes dos cidadãos de bem irmanados de verde e amarelo contra a corrupção dos outros, nunca a de si próprios e de seus heróis justiceiros, flagrados com as mãos sujas de óleo. O moralizador da corrupção não é, entretanto, tão esperto quanto esforça-se para parecer, deixou no caminho suas manchas. Um vazamento de informação encontra um vazamento de óleo. É como se informação e petróleo corressem agora nos mesmos dutos. O filósofo Reza Negarestani chama de “petropolítica” a cartografia do óleo como uma entidade onipresente narrando as dinâmicas da Terra. A língua do século XXI está suja de petróleo. “A petropolítica pode ser estudada para perseguir a emergência da Xerodrome (Terra-Deserto) como um clímax plano para a Odisséia da Tubulação ou um mundo cuja narrativa é primariamente conduzida através e pelo petróleo”.


Fature-se

Começaram com a escola sem partido, concomitantemente passaram a atacar o ensino de filosofia, sociologia, história e geografia no ensino médio, com a PEC do teto de gastos aboliram investimentos em saúde e educação por 20 anos, aprovaram a reforma do ensino médio e desestruturaram o programa de iniciação à docência (PIBID), acusaram as universidades públicas de balbúrdia, colocaram a população contra professores e pesquisadores, cortaram verbas, pregaram violência e ignorância, espalharam narrativas delirantes como a da terra plana para deslegitimar o discurso científico. Depois de anos de ataques à educação, às ciências e às instituições públicas de ensino encenam o receituário retrógrado neoliberal num cenário kitsch futurista. A “ponte para o futuro” criou as condições de possibilidade para o “future-se”. Sopra-nos melodicamente o Luiz: “tá tudo solto na plataforma do ar. Tá tudo aí, tá tudo aí. Quem vai querer comprar banana? Quem vai querer comprar a lama? Quem vai querer comprar a grana?” Quem vai futurar-se, ou melhor, quem – “empresário de si” – vai faturar-se? Quem obedecerá a velha e nova ordem (e progresso?) da destruição em curso?


Vertigem

Para que a democracia adentre um estado de vertigem pressupõe-se um substrato democrático, mas parece haver uma zona cinzenta (em geral não sensível a quem parte do pressuposto da democracia) a que poderíamos chamar, não sem horror, de zona vertiginosa em que, apesar da garantia de alguns direitos, fundamentalmente distribuídos constam bolsões vertiginosos de miséria, de fome, de desabrigo, de tortura, de racismo, de injustiça, de massacres, de incerteza do amanhã, de ausência de expectativas. E quem, talvez a maioria da população, não tem netflix, dentre tantas outras não posses muito mais essenciais, não é justamente quem vive, de fato, na pele, no corpo, no cérebro, algo – em alguns casos por inteiro – desta vertigem (democrática?)? A questão, compreendida a dimensão material que precede a fruição estética, não seria então, a de podendo ver não ver ou ver, nem gostar ou não gostar, mas anterior ainda, isto é, do poder sobre o visível, do poder do capital de dirigir o olhar, de iluminar, mas também de ocultar, e sempre de cobrar. Pagar pela imagem – póstuma – da derrocada da democracia não seria a imagem da própria derrocada da democracia, esta sim a imagem não documentada pela burguesia, mas vivida pelos pobres sem direitos e, quase sempre, sem internet, sem netflix e outras comodidades tão naturais à(s) classe(s)-média(s) – à esquerda e à direita – possuir? Talvez as imagens do desespero humano, feitas com celular, após o fuzilamento do músico Evaldo dos Santos Rosa e do catador Luciano Macedo pelo exército brasileiro documentem a vertigem de quem nunca teve tempo nem dinheiro aplicado, muito menos democracia, para consumir a imagem da ‘democracia em vertigem’. Os mortos da história têm direito à democracia ou apenas à pura vertigem de seus ‘mecanismos’ sofisticados de ausência? “O exército não matou ninguém”, responde o presidente (o presidente! o presidente?) ou seria aquele torturador vomitando por sua boca? Um filme que se arrisca a pensar o Brasil contemporâneo precisa ser capaz de estimular a libertação dos corpos e das mentes dos automatismos, inclusive midiáticos, do sistema de (re-)produção capitalista, bem como intensificar forças revolucionárias inimagináveis ao ponto de fazer tremer os latifúndios e as coberturas. Prender o desejo, os múltiplos afetos, a possibilidade de criação política, à reiteração do óbvio só serve para entristecer ou dar a cada um uma alegria vazia, a velha boa consciência por estar, ou ter estado, do lado certo da história. Mas e agora? Haverá uma imagem, não uma justa imagem, mas justo um imagem, capaz de nos libertar da passividade dos espectadores da democracia? Uma imagem que não se reduza à representação da vertigem? Uma imagem que não seja a imagem espelhada da vertigem, mas a vertigem numênica como a que sente quem tem fome sob o sol do meio-dia. Que nos coloque diante da inevitabilidade da destruição de todas as estruturas de opressão. Que liberte da mesma vertigem em que se (con-)fundem Lula e Rafael Braga.

Não chegaremos a uma civilização pela harmonia universal dos infernos.