Yndio do Brasil em Curitiba

“Como meus companheiros de vício, foi para discutir cinema que estudei teorias de linguagem, sociologias, psicologias, metafísicas várias que, de outra forma, nunca teriam me despertado o menor interesse. Naqueles ‘days of wine and roses’, todos sonhávamos em ser cineastas. Só um de nós, porém, foi com toda a força para cima do sonho. Esse mestiço alemão com húngaro, o ‘cacique do sul’, como o chamava o Glauber, que soube amar o cinema mais que todos nós”.

É cine-poeticamente que o poeta curitibano Paulo Leminski nos insere na obra de Sylvio Back e, por um milhão de coincidências, estou entrando no Auditório Paul Grafunkel da Biblioteca Pública do Paraná nesta noite fria de lua cheia para assistir ao documentário “Yndio do Brasil” que faz parte da mostra “O cinema à luz da história”, uma das atrações da “9ª Semana de Museus (Museu e Memória)” que acontece até o dia 20 de maio.

19H. A projeção começa. O documentário de Back dá um baque (!) no cérebro. “Yndio do Brasil” não é um documentário pronto e acabado. Pelo contrário, é uma obra em aberto que possibilita centenas de construções. Não há um sentido pronto, lógico e linear. O espectador, à partir de seu repertório cultural, político, filosófico e histórico, é convidado a dar (ou pelo menos buscar) sentido (ou sentidos) à obra.

Após a exibição do documentário – para a sorte de todos aqueles que – como eu – ficaram hipnotizados com o ritmo veloz da montagem e perdidos na selva de colagens de imagens, sons e poesia – a doutora em História pela UFPR e autora da tese “Poética da Angústia: história e ficção no cinema de Sylvio Back – anos 1960 e 70”, Rosane Kaminski, debateu com a plateia e expôs alguns conceitos chaves para se embrenhar na floresta verbovocovisual de “Yndio do Brasil”.

Em sua fala inicial, Rosane expôs pontos importantes para a decodificação da obra. “Não há narrativa linear e redentora. Não há uma história sendo contada. Há sim um trabalho de seleção e ordenamento de imagens”,  explanou.

Sylvio não filmou uma só cena, mas fez um verdadeiro garimpo no universo cinematográfico e, a partir da seleção de centenas de  imagens de índios brasileiros (obtidas em obras ficcionais, documentais, publicitarias e institucionais), associadas  à marchinhas com temática índigena e uma poesia ácida e autoral, montou um filme quebra-cabeça, pós-dadaísta, para o espectador remontar onde a imagem final obtida não é a imagem do índio do Brasil, imagem que o desvendaria, que o documentaria, mas sim a imagem de um índio caleidóscópico, construído cinematograficamente, absolutamente ficcional.

Por fim, Rosane sintetizou “Yndio do Brasil” como um filme onde não há a preocupação de se posicionar à respeito da questão indígena nacional, mas sim de revelar e documentar “como a imagem do índio foi construída pelo cinema brasileiro e mundial” ao longo do século XX.

Segundo Kaminski,  a obra de Sylvio Back – considerando sua produção de longas-metragens – pode ser dividida  em fases ficcionais e documentais. Na introdução de sua tese a historiadora escreve: “tais fases, grosso modo, correspondem a: (1) uma primeira fase ficcional, situada entre 1968-1976, (2) uma fase documental, que vai de 1980 (Guerra do Brasil) a 1995 (Yndio do Brasil) e, por fim, (3) uma segunda fase ficcional, que se estende de 1999 (Cruz e Souza – o poeta do Desterro) a 2004 (Lost Zweig).

Assim, na visão da pesquisadora, “Yndio do Brasil” situa-se na fase documental da cinematografia de Sylvio Back, enquanto os clássicos Lance Maior (1968), A Guerra dos Pelados( 1971) e Aleluia, Gretchen! (1976) pertencem à primeira fase ficcional . Ao longo da carreira, iniciada nos anos 60, Back realizou, ainda, curtas e médias documentais, além de comerciais para a televisão, sobretudo na primeira metade dos anos setenta.

 O cinema para Sylvio Back deve quebrar tabus e “Yndio do Brasil” é uma filme que mostra a possibilidade de um cinema que nega uma visão pronta para , através de criativas combinações de som, imagem e texto, possibilitar amplos e diversos questionamentos, interpretações e abordagens.

A saga fílmica continua. Hoje, 19/5, às 19h, no auditório da Biblioteca Púbica, será exibido o filme de ficção “Baile Perfumado” (1996) de Paulo caldas e Lírio Ferreira, seguido de debate com Pedro Plaza Pinto (DEHIS/UFPR).

Na sexta-feira, no mesmo horário e local, encerrando a mostra “O cinema à luz da história, com organização do MIS-PR em conjunto com a coordenação do curso de História: Memória e Imagem da UFPR, serão exibidos os episódios dirigidos por Ken Loach e Alejandro Gonzáles Iñarritu do mezzo documentário, mezzo ficção, “11 de Setembro” . Após a projeção haverá debate com Karina Belloti (DEHIS/UFPR), Solange Stecz (Cinemateca de Curitiba) e Erik Tavernaro (FAP) com mediação de Fernando Severo (MIS).

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