Gestores da morte

A política em sua forma necropolítica contemporânea faz a gestão da morte. Políticos de direita e de extrema-direita se negam a defenderem a população por meio de proposições de medidas econômicas e sanitárias que permitam às pessoas se protegerem do vírus e da aniquilação da existência. E, ao ocultarem, que o Estado tem sim poder e dever de defender a população vitalmente e economicamente terminam por defender que as pessoas se exponham ao contágio viral e à morte.

Nesta época de retorno à barbárie, a política, desvirtuada de sua orientação clássica para o bem viver, decide quem pode morrer e a vida humana torna-se objeto de cálculo, planilhas, estatísticas, controle e certamente objeto de cálculo eleitoral. Para alguns “representantes do povo” nenhuma das vidas entre as mais de 260 mil aniquiladas pelo sars-cov-2 é mais importante do que uma nota suja de dinheiro ou uma possibilidade de voto numa futura eleição que, pasmem dado a gravidade dos últimos acontecimentos, nem sabemos mais se haverá. Acostumaram tanto com o passado que nem cogitam que o futuro depois dessa tragédia poderá nem chegar e se chegar será em um mundo completamente diferente do que o que até hoje conhecemos. Bem vindos ao século XXI, bem vindos ao mundo em que o homem destruiu. Mas enquanto esse futuro para eles não chega (pois para nós que estamos mortos já chegou e eles não perceberam) continuarão a insistir na ideia de que a roda não pode parar, tomando sempre o cuidado, “e os devidos protocolos”, de que o número de mortes seja administrável e não impressione muito a população.

Durante o holocausto haviam os homens que operavam os trens que levavam os judeus para os campos de concentração e de extermínio. Esses homens, como vimos através do conhecido caso Eichmann, não se importavam com o que se passava depois que os trens eram liberados, afinal o trabalho deles era apenas fazer com que a logística funcionasse e nisso eles eram exímios cumpridores do dever a eles incumbido.

Quando ouvimos certos discursos que vão do “economia primeiro saúde depois” até as promessas de milhões de vacinas (que nunca chegam de fato), lembro de Eichmann, cujo depoimento, mais tarde, em tribunal internacional revelou que sua participação na barbárie nazista fora uma participação alienada, de alguém que estava apenas cumprindo ordens, as quais desconhecia de onde vinham e a que visavam. Ele apenas tinha que liberar os trens… O mal às vezes é feito por homens como Eichmann, “cidadãos do bem”, acima de qualquer suspeita, a isto a filósofa Hanna Arendt chamou de “banalidade do mal”.

A defesa de volta às aulas num cenário de mutação viral acelerada, e de óbitos atingindo também a camada mais jovem da população, é mais um capítulo da continuidade da política macabra, da “necropolítica”, em operação no Brasil da cloroquina, mas sem vacina. Poderia agora resumir tudo isso, notando que em geral os que fazem essa defesa não são ignorantes e passaram orgulhosos por diversas instituições de ensino, e lembrando aquele senhor que muitos devem odiar assim como odeiam todos aqueles educadores que agora questionam ações imprudentes que podem colocar milhares de vida em risco: “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.


Lunga morreu

Bacurau da vida real. “1.546 pessoas foram mortas pela polícia do Rio de Janeiro no ano de 2019. O número é o maior da história”. Se algum Lunga houve nesta história escrita com sangue de gente pobre é bem possível que esteja entre os mortos a golpes de facas pela polícia no Morro do Fallet ou que fosse um dos meninos que no caminho da escola foram encontrados pelas balas “perdidas” dos fuzis do poder necropolítico. Discutimos as leis, os pacotes anticrime, encontramos corretamente maneiras de não serem a encarnação da barbárie absoluta, mas nunca, ou quase nunca, questionamos o poder que as suspende quando bem entende naqueles territórios que nossos olhos, bem policiados, delimitados e adestrados, não podem, e nem querem, ver. O terror em si (de corpos exterminados amontoados, por exemplo) é insuportável então simplesmente, quase que como um defesa natural, o suportamos no marco representacional da lei, mas sabemos que a lei, um universal, por si só não significa nada, mas ainda cremos na sua efetividade particular simplesmente porque preferimos o prazer a dor. Antes um mínimo de prazer do que a dor dos jovens de Paraisópolis, dor que não pode passar, porque não estão mais vivos, para dançar, para amar, para gozar, para que passe. Não é que somos egoístas, somos parciais. Se Lunga está morto lamentamos,  dizemos “é a correlação de forças”, e seguimos em frente.


Ágatha

Ela segura balões coloridos. Está fantasiada de mulher-maravilha. Ela sorri. É feliz como são felizes todas as crianças de 8 anos. Ágatha não sabe que nasceu num país em que o extermínio de crianças e adolescentes pobres tornou-se “dano colateral” de uma malfadada “política” de “segurança” e mais uma notícia no jornal. Inocente, não pode conceber, nem em seus piores pesadelos infantis, que um governador, apoiado pelo presidente e pelo ministro da “Justiça”, conduz uma guerra aos pobres. Ágatha jamais saberá teoricamente o que é “Racismo de Estado” ou o que significa “Necropolítica”. Marielle soube mas, assim como Ágatha, foi executada. Ágatha Félix, Marcos Vinícius da Silva, Marielle Franco, Evaldo Rosa dos Santos, Luciano Macedo, todos mortos por um poder que não deixa viver e faz morrer. Durante a madrugada penso em Ágatha e na palavra grega “agathón”. Agathon significa ‘bem’ e seu superlativo ‘áriston’ o “supremo bem”. “Áriston” é o fim último do indivíduo e do Estado. No caso de Ágatha, o Estado que, em tese, deveria visar o “Sumo Bem” fez-lhe o mal, arrancou-lhe brutalmente a vida com um tiro de fuzil nas costas. Agathón sangra. Ágatha Vitória Sales Félix está morta. O exercício do mal torna-se cada vez mais banal no país: quase ninguém se importa com o extermínio de crianças como Ágatha, muitos inclusive apoiam efusivamente a política que conduz esse extermínio; tantos outros fingem que nada acontece, precisam, entre um elogio ou crítica a Bacurau, multiplicar os negócios do capital. Quem disse que nossa bandeira jamais seria vermelha se equivocou: nossa bandeira é sim vermelha: vermelho-sangue dos mortos de uma história em que, como lembra Walter Benjamin, “o inimigo não tem cessado de vencer”.


#necrocapitalismo

Quando a esfera do capital engolir totalmente a do pensamento então pensar só será admitido se provar que pode fazer o capital render ainda mais; a médio prazo nem isso será permitido ao pensamento ‘uberizado’. O capital se move aceleradamente para alcançar um patamar de presença em todos os estratos da vida e dispensar mesmo o pensamento mais obediente para se reproduzir. Não é que “nós não vimos nada ainda”. Nós já vimos tudo. O capital faz do aniquilamento da vida sua fonte de rentabilidade: #necrocapitalismo. Se há alguma possibilidade de resistir à asfixia do pensamento ela já deve estar presente, pois o pensamento é justo o que resiste (não um pensamento justo, mas justo um pensamento). Cabe ao pensamento realizá_la. Mas como? Uma primeira hipótese seria encontrar uma relação ainda não totalmente determinada pelo capital. Seria esta a tarefa do pensamento na contemporaneidade entrópica? No limite sobreviver ao sistema de valores assassinos e suicidários do capitalismo passaria, talvez, por suportar a desvalorização monetária do corpo e da mente, isto é, o desemprego, a fome e até a miséria, e ao mesmo tempo em ser capaz de instituir com outras mentes (“modos do atributo pensamento”) outros valores que não mais os valores de produção e de reprodução nauseante do capital. Morrer para a morte transcendente imposta pela máquina capitalista e afirmar a vida em outra direção, em múltiplas direções. A parada e o salto criador. A aurora do XXI é o tempo que se abre para que esta tarde seja a do crepúsculo do capitalismo.