Dronecracia


Assistimos ao aparecimento de governos que editam, antes mais nada, regimes de imagens às quais devem dar ao povo, que não é chamado a governar, a impressão de participarem do governo e das tomadas de decisão.

O povo deve admirar as imagens espetaculares sem povo, imagens aéreas articuladas com discurso publicitário e trilha sonora emocionante ao fundo.

Não importa a realidade mesma dos fatos, mas o efeito de persuasão das imagens editadas sobre a percepção sensível.

O filósofo francês Guy Debord já nos anos 60 pensou a “sociedade do espetáculo”. Nesta sociedade, que é um desdobramento da sociedade capitalista em crise com a diminuição do consumo de bens não duráveis, e que precisa incentivar o consumo para continuar a existir, a produção de imagens torna-se peça fundamental para estimular a adesão irrefletida das massas ao consumo das mercadorias, inclusive as mais supérfluas.

Na sociedade do espetáculo, diz Debord, “o mundo sensível é substituído por uma seleção de imagens que existe acima dele, e ao mesmo tempo se faz reconhecer como o sensível por excelência” (Debord, 1997, p. 28, § 36).

A política, nesta sociedade descrita por Debord, também torna-se espetacular. O discurso político é substituído pelo discurso publicitário, o governo pela gestão empresarial, o público pelo privado, as ações por imagens das ações, e o cidadão participativo pelo consumidor passivo de imagens. Na era da política do espetáculo, não importa o que é, mas o que parece ser; na época de Debord na televisão, na nossa nas mídias sociais.

Se a democracia, ao menos em tese, é o que deve ser realizado pelo demos (povo) na praça da polis (cidade) hoje a política é operada por drones que sobrevoam e registram a política e a cidade que torna-se imagem assim como a população.

Bem vindo à dronecracia.