“Marcha das Vadias” em CWB

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#ruasreais


De cada 3 blogs 4 falam sobre a revolução 2.0 onde a internet teria um papel fundamental na mobilização da sociedade para que esta saia de trás dos computador e vá à rua transformar o planeta.

Como ficou visível nas manifestações que culminaram na queda de Mubarak no Egito, nos protestos na Espanha,  no churrasco de gente diferenciada em Higienópolis, em torno de grande parte da discussão sobre a Marcha da Maconha e no aniversário da Thessa, as mídias sociais se revelaram importantes instrumentos de mobilização social, entretanto não podem ser elevadas como produtoras de redes sociais com real capacidade de promover ações transformadoras. Pelo menos, ainda não …

No ótimo texto “A revolução não será tuitada”, o jornalista e escritor Malcolm Gladwell defende que “o ativismo em mídias sociais como o facebook e twitter deriva de vínculos fracos entre seus participantes, que não correm riscos reais como os militantes tradicionais, unidos por vínculos fortes, em ações hierarquizadas e de alto risco”

Ontem (19/06) ocorreu em Curitiba, assim como em outras 40 cidades do país, a Marcha pela Liberdade. Na capital paranaense, cerca de 250 pessoas marcharam, frustrando a expectativa da organização que esperava 2,5 mil pessoas.

Durante a semana, na mídia social facebook 1,8 mil pessoas haviam confirmado presença. Ao chegar à Praça Rui Barbosa, local de concentração da passeata ( marcha soa meio marcha da família …), levei o famoso choque de realidade. O número de  presentes era bem menor do que o que havia cogitado levando em consideração as adesões via “face”.

As minorias estavam sim representadas, mas pelas suas próprias minorias.

Obiviamente o movimento GLBT é muito maior do que os poucos que bradaram contra a homofobia e contra as posturas retrógradas do deputado Bolsonaro, assim como o número de pessoas que fumam maconha é superior aos que entoaram “Dilma Rouseff libera o beck!” ; e o número daqueles que usam a bicicleta como meio de transporte é inversamente propocional aos cicloativistas que pediram “menos carro, mais bicicleta”.

Na marcha curitibana estavam presentes de corpo, mente e coração membros de partidos políticos, políticos, feministas, punks, músicos, gays, jornalistas, ambientalistas, ciclistas, atores (etc) que  representaram em sua individualidade uma coletividade muito maior e, claro, existente na cidade e que, sem dúvida, compartilham das ideias que significam a PASSEATA!

Mesmo sem a adesão anunciada no facebook, a Marcha da Liberdade reuniu importantes segmentos da sociedade que expuseram através de faixas, cartazes, ou através do próprio corpo,  no gogó ou no megafone, suas reivindicações para as pessoas que por inúmeros motivos não acessam a internet com frequência (ou não têm nenhum acesso) e, portanto, não tinham ideia do acontecimento mas estavam no centro da cidade no exato instante em que a movimentação acontecia e  presenciaram com olhos atentos e impressionados a quebra da ordem do dia, a vitalidade das ideias, a multiplicidade de temas, a beleza da juventude e, claro, a possibilidade de se manifestar e expressar livremente sobre tudo.

A parte pelo todo marchou metonímica, bateu palma, apitou, cantou, pulou, bloqueou o trânsito, chamou a atenção dos transeuntes e dos moradores para questões políticas de suma importância como descriminalização das drogas, criminalização de movimentos sociais, concentração de renda, miséria, política econômica, novo código florestal, Belo Monte …

Embora a marcha tenha sido linda, colorida, organizada e pacífica, poderia ter sido bem maior se outros mecanismos de mobilização tivessem sido acionados.  A liberdade de expressão prometida pelo facebook ou twitter demonstrou se socialmente limitante.

A rede social materializada em Curitiba pelas pessoas que tiveram a coragem de bradar pelas ruas do centro da cidade: “Vem/ Vem pra rua vem/ contra a censura!” não reflete a rede social produzida pela mídia social facebook. Falsebook?

O lema da marcha “Em casa somos um, juntos somos todos” revela a dimensão urbana desejada pelos organizadores da marcha que apesar de ter conseguido a adesão de muitos não conseguiu a adesão de todos aqueles que acreditam em ideiais tão humanos e revolucionários como os que foram expostos neste sábado ensolarado pelas ruas da cidade.

Curtir algo atrás de um computador não significa ir para as ruas lutar por mudanças estruturais da sociedade. Assim, o um continua a ser um. Mas como transformar o um em todos? Certamente através do facebook não é. Não só! Por isso, textos como “a revolução não será tuitada” vale a pena ser lido e, se for o caso, curtido …

Quem não teve coragem de ir ou se equivocou com um clique revolucionário no mouse, mas que no fundo acredita na possibilidade de construção coletiva de um país melhor e realmente heterogêneo em suas opiniões, ideias e modos de existir, marchou através de quem esteve presente.

A passeata ocorreu justamente porque algumas pessoas sabem que a internet é só um meio de comunicação. Imagine se todo mundo que confirmou presença no facebook não fosse? Que fiasco revolucionário seria! Que geração mais bunda mole perceberíamos ser…

A verdadeira comunicação não é a mediada pelo facebook, twitter, orkut, msn, mas a face a face. Passeatas possibilitam isso, ao permitirem que informações e tensões represadas ganhem territorialidade, circulem e sejam debatidas na esfera pública.

Expressar livremente pelo direito à liberdade de se expressar  é testar na prática os limites da nossa democracia. E isso só é possível nas ruas, entre todas as instituições, de cara a cara com a polícia, com a vida, com a sociedade.

Portanto – sem descartar a capacidade de mobilização das mídias sociais – se existe um espaço para as mudanças começarem a acontecer, este lugar é a rua, a realidade, “rualidade”… E nem é muito novidade. Muito antes de Malcolm Gladwell dizer que a revolução não será tuitada, o músicopoeta Gil Scott-Heron lá no início da década de 70 profetizou: “the revolution will not be televised”.