::: Cuidado :::

Em pouco mais de um século “recursos” constituídos ao longo de milhões de anos de história terrestre (muito mais tempo para os lençóis freáticos) estão perto do esgotamento.

O mundo vai acabar?

Não, o mundo continuará, o que acabará é o humano. E quem acabará com o humano? O próprio humano, ou melhor, o modo de produção capitalista sustentado pelos humanos, mas precisamente por humanos_homens_brancos_rentistas_cientistas_ocidentais.

Não é sem razão, portanto, que a filósofa belga Isabelle Stengers chama nosso tempo de “tempo das catástrofes”, tempo em que as condições essenciais de existência na Terra entram em um processo de esgotamento irreverssível.

A Terra – desértica, sem água, com altas temperaturas, sem flores nem frutos – talvez continue, mas nós certamente não continuaremos, pelo menos não da maneira como “vivemos” no presente.

O fim do mundo é na verdade “o fim do mundo dos homens”.

Stengers não se limita, todavia, ao discurso catastrofista e propõe, como forma de resistir “a barbárie que vem” uma “arte do cuidado”.

“O que fomos obrigados a esquecer não foi a capacidade de ter cuidado, e sim a arte de ter cuidado. Se há arte, e não apenas capacidade, é por ser importante aprender e cultivar o cuidado, cultivar no sentido em que ele não diz respeito aqui ao que se define a priori como digno de cuidado, mas em que ele obriga a imaginar, sondar, atentar para consequências que estabeleçam conexões entre o que estamos acostumados a considerar separadamente” (Stengers).

O reaprendizado da “arte de ter cuidado”, ressalta Stengers, não é um imperativo moral, nem um apelo ao respeito ou a uma prudência que “nós” teríamos esquecido.

Quem mais precisa dar-se conta da importância desse reaprendizado são os que, no presente, na sanha de multiplicar o capital, ou pressionados por essa sanha, não esboçam nenhum sinal da arte de cuidar. Ligados à máquina capitalista, tornam a Terra improdutiva, seca, desértica, morta. Desligados da Terra cuidam apenas de “seus negócios privados” como se estes não dissessem mais respeito a tudo o que se passa no mundo.

Uma das figuras que devem aprender a arte do cuidado, segundo Stengers, é o Empresário. Para essa figura tudo é oportunidade. Ele “exige a liberdade de poder transformar tudo em oportunidade – para um novo lucro, inclusive o que põe em xeque o futuro comum”.

As coisas tendem a piorar com a articulação Empresário-Estado-Ciência. Aí, diz Stengers, aproximamo-nos da “lenda dourada” que prevalece quando se trata da “irresistível escalada de poder do Ocidente”. “Essa lenda põe efetivamente em cena a aliança decisiva entre a racionalidade científica, mãe do progresso de todos os saberes, o Estado que se livrou enfim das fontes de legitimidade arcaicas que impediam essa racionalidade de se desenvolver, e o crescimento industrial que a traduz em princípio de ação enfim eficaz”

Se o poder do empresário por si só é perigoso, quando articulado aos poderes do estado e da ciência cresce exponencialmente. A comercialização de pesticidadas cancerígenos, por exemplo, só é possível por causa desta aliança. A lenda dourada Empresário-Estado-Ciência revela-se então o oposto de uma “arte do cuidado”.

É dessa lenda, ou melhor, é das poderosas teias empresariais fortalecidas pelo poderio do Estado e da Ciência que precisamos escapar, mas, se a arte de ter cuidado deve ser reconquistada, é importante começar tendo cuidado com a maneira pela qual somos capazes de escapar. Como já diziam os antigos: “todo cuidado é pouco”.

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[[[OcupAções & CorpoAções]]]

A alegria dos corpos das ocupações primaveris chegaram ao corpo que nos quer tristes de Temer.

O corpotemer
teme o corpo.

O corpotemer, claro ou obscuro[?], recebeu reativamente a ressonância da potência de milhares de corpos que, confrontados pela destruição em série de direitos e políticas públicas, procuram pensar em formas de resistência capazes de, simultaneamente, no presente construir ações coletivas no espaço público, e no devir criar e experimentar um comum que é constituído por todos & para todos os corpos ocupados (Afinal, se a tendência é o “sem nenhum direito”, experimentar o direito comum e fazê-lo funcionar, ainda que no escopo de uma ocupação, deveria ser pelo menos visto com bons olhos e (por que não?) como uma tentativa de fazer uma outra ciência social e política, outra porque não apenas com os pares, mas também com os ímpares…).

Num tempo em que o ressentimento, o medo, a tristeza generalizada enfim, tentam impossibilitar os corpos de se agenciarem coletivamente, por que esses mesmos corpos, ao invés de caírem na impotência como desejam os impotentes, não podem descobrir o que são capazes? Por que devem permanecer no campo discursivo dos corpos fascistas que negam toda a experiência, mas que não abrem mão de criticá-las reativamente? Por que não podem diferencialmente expressar o que sentem? Por que devem ouvir eternamente as enunciações de certos intelectuais que não sabem fazer nada além do que criticar [por likes?] os quem tentam produzir algo?

O que pode um corpo, pergunta-nos Spinoza? O que podem diversos corpos juntos quando se ocupam de pensar e agir politicamente?

Para Temer nada. De acordo com declarações feitas durante um seminário em Brasília para industriais, ele vê com menosprezo os corpos que ocupam porque estes fazem, segundo sua perspectiva, uso de “argumentos físicos”, “fora do campo das ideias”, que desmobilizam a opinião pública dos enquadramentos do “””discurso oficial”””.

“Hoje, ao invés do argumento intelectual, verbal, usa-se o argumento físico. A pessoa vai e ocupa não sei o quê, põe o pneu velho, é o argumento físico”, discursou para a burguesia industrial Temer, o ilegítimo, cuja “racionalidade” já reservou para o próximo ano R$ 224 bilhões em desonerações tributárias e crédito subsidiado para o setor empresarial, incluindo a indústria. …

Para Temer, os Corpos_Cidadãos devem se ajoelhar perante o Corpo_Estado_Capital e às suas “verdades” (podemos imaginar seus presupostos) claras, distintas, pretensamente consensuais e racionais. (De certo para Temer uma taxa de desemprego de 11,8% também pode ser justificada pelo tribunal da razão?).

As ocupações não precisam se envergonhar do Corpo como deseja – para um gozo triste com sua classe – Temer. “Corpo não é pecado / Corpo não é proibido / Corpo não é mentira”, dá nos o tom Tom Zé.

Na verdade, podemos aventar, o medo de Temer do(s) Corpo(s) e a desclassificação deste(s) como CorpoPolítico, Corpolítico, oculta o medo de um outro Corpo que devém da prática ética e política dos Corpos: o Corpo_Multidão.

Sabemos desde Spinoza que a Multidão pode destituir o Corpo_Tirano.

O que o tirano Temer teme é que as ocupações se tornem ações multitudinárias.

O corpo de Temer treme perante à possibilidade de retorno do recalcado, do retorno de selvagens ações coletivas dos Corpos no espaço público, por isso ele precisa os desclassificar, os despontecializar, os desCORPOrificar, porque – talvez ele não saiba, mas seu corpo reativo pressinta – um devir revolucionário nos corpos que passaram a se ocupar, juntamente com suas ocupações do cotidiano, não apenas esta ou aquela instituição, mas por extensão, a esfera da Política.

Os políticos temem que os corpos, fora dos padrões de racionalidade esperados, e inesperadamente ocupados com questões políticas, descubram que os corpos enrolados em ternos bem alinhados e retórica vazia não os representam?

Somente um corpo potente, resultado mutante da conexão das forças movimentadas por múltiplos corpos políticos em relação, pode destituir um poder impotente e ir além da sua destituição em direção à produção de, quem sabe, uma democracia radical jamais corporificada e absolutamente fora da estrutura capitalista. Mas esse corpo ainda nos falta. Todavia, ele parece existir – ou mesmo resistir – ou ainda (re-)existir – virtualmente nas ocupações, nas quebradas do mundaréu, no som de “ilhas de calor”, debaixo das marquises, nas filas dos desempregados, nos movimentos minoritários, no filme que tremeu um cinema em SP, e mesmo nas entrelinhas das atuais falas de uma esquerda entristecida e impotente, e impotente porque triste, e triste porque atolada em disputas intestinas que não criam nada além de tristes debates no buraco negro azul do facebook.

Se Temer ataca o Corpo_Ocupação, o Corpo_Ocupação pode responder, mas não reativamente, ao contrário, pode utilizar também essa força reativa a seu favor para, dobrada, potencializar o nascimento do CorpoMultidão.

Em Curitiba as ocupações dos secundaristas já são parte desse CorpoMulitudinário.

Tatuquara presente! CIC presente! A periferia se reterritorializa no centro. O centro desterritorializado dá um rolê com a periferia no Batel e os trabalhadores/trabalhadoras, ao invés de baterem panelas como seus patrões, integram-se, uma piscadela quase imperceptível, à multidão. “A linha de fronteira se rompeu!” (Waly Salomão).

O Corpo_Multidão não captura as singularidades, porque estas preexistem (pré – existem!) a ele.

O CorpoMultidão é a multidão de singularidades criadoras. As ruas estão progressivamente sendo tomadas por relações inesperadas de cores, falas, projetos, territórios, desejos.

As ruas ganham a multidão dos corpos que ganha o corpo da multidão: CorpoMultidão.

O Corpo_Ocupação intensivo (re-)existirá “OcorpAção”. As ocupações que incomodam Temer com seus “argumentos físicos” responderão também com a “física dos argumentos”, porque esses Corpos, ao contrário do que pensa deles Temer, pensam entretanto, diferentemente do que é capaz de pensar (se pensa) Temer, porque não pensam sozinhos do alto, pensam juntos horizontalmente um horizonte de ampliação de direitos, pensam em redes [& rimam como Sabotage!] descentralizadas, pensam o que é comum a partir do desejo múltiplo e o desejo múltiplo a partir do que é comum.

O tirano que ocupa o poder, com o corpo do que há de mais violento neste país, deve cair; e a fila de cara lambida da sucessão também! O teatro burguês_oligarca_empresarial_capitalista_latifundiário_rentista que esses poderosos inconsequentes, e seu servil aparato midiático, judiciário e policial, representam como se fosse “Democracia” é incapaz de inCORPOrar os incontáveis fluxos de desejo minoritários que explodem por todos os lados o campo social, e quando os incorpora o faz para desmerecê-los, controlá-los, assujeitá-los, explorá-los, reprimi-los, encarcerá-los, violentá-los, matá-los.

A democracia não é a representação repressora da vida pelas forças molares da morte e pretensamente superioras (porque armadas até os dentes), mas a apresentação de todas as forças da vida no mesmo plano, forças humanas e não humanas, que “entre os dentes segura a primavera”. #PrimaveraSecundarista


::: Escola Autônoma Tiradentes :::

“Proibida entrada de fascistas”. Essa é uma das mensagens no portão do Colégio Estadual Tiradentes, ocupado há mais de 20 dias.

Num Estado governado por fascistas a frase é a expressão resistente de uma célula viva de autonomia no corpo de um sistema educacional gerido por um poder repressor [quem não se lembra do 29 de abril de 2015 quando Richa deu ordem à PM para ferir física e emocionalmente os professores].

Richa não é bem vindo às escolas do estado que governa. Seu poder uno e vertical vale pouco perto da potência horizontal irradiada por mais de 800 escolas ocupadas. Pedidos de reintegração de posse têm sido continuamente rejeitados ao governador cujas declarações revelam um completo despreparo para compreender as novas formas organizativas das singularidades.

Se o Estado detém o monopólio da violência, as escolas são laboratórios vivos de criação de um outro estado, mas que fique claro: não estado no sentido de Estado, mas sim estado de alegria, de experimentação de novas relações entre saberes, estudantes, professores e cidade, estado de invenção contra o poder de repressão do Estado, estado ético-afetivo contra a moral culpada do Estado.

Eu e minha amiga Brenda acabamos de entrar no Colégio Estadual Tiradentes – Curitiba, ou melhor, Colégio Autônomo Tiradentes (OCUPA Tiradentes). Assim que chegamos havia um homem do lado de fora do portão. Sua entrada não foi autorizada. Ficamos sabendo momentos depois que se tratava do diretor! O secundarista Z., que nos recebe, conta que “o diretor não apoia a ocupação e ainda está obrigando professores a assinarem uma lista em que têm que confirmar para o governo que são contra as ocupações. Além disso, diz ele, “esses dias, descobrimos uma sala com cinco microscópios, sendo que ele informou ao Grêmio Estudantil que não havia esse equipamento na escola. Sem falar nas bolas novinhas que encontramos. Jogávamos há meses com uma toda estourada”.

É uma alegria sermos recebidos pelos estudantes do Tiradentes que nos últimos dias têm vivido os dias mais difíceis desde o início do movimento. O Estado assassino tenta colar ao movimento sua pulsão de morte… Apesar da dor sentida por todos e todas pela morte de um secundarista – por razões alheias ao desejo de vida potente e de conhecimento que percorre as ocupações – os estudantes prosseguem. Eles sabem muito bem que aqueles que querem fazê-los culpados de um crime que não cometeram cometem crimes impunemente e diariamente.

“Nós não vamos desistir. A mídia e o governador dizem que somos massa de manobra como se o que dizem fosse neutro, como se eles mesmo não estivessem manobrando a opinião pública”, afirma com uma propriedade de quem está a altura da questão que coloca, a estudante X. numa sala onde acontecem oficinas e debates.

No último final de semana ela fez a primeira fase do vestibular para nutrição na UFPR. “Estou muito confiante. Vou passar! Eu e meus colegas queremos mostrar para os que estão nos criminalizando que somos capazes. E também para alguns familiares que acabam sendo influenciados pelo discurso da mídia. Meu pai até que entende porque estou aqui, mas bato de frente com minha mãe, embora entenda sua preocupação, ainda mais quando a mídia cria uma falsa imagem que não corresponde à realidade”.

O jovem Y. está no segundo ano. “Ainda não sei o quero ser, talvez advogado”. Y. é responsável pela segurança da ocupação e é perceptível seu cuidado com os colegas e com o prédio. Enquanto ele fala comigo vejo que está atento aos ruídos externos. Nos últimos dias movimentos fascistas como o MBL ameaçam invadir as ocupações. “A tensão aumentou muito. É mídia, é governador, é polícia, é mbl. É como se a pec241 e a mp746 tivessem um corpo, um corpo fascista e violento como o de dois grandalhões que estavam rondando a escola ontem à noite. Acho que eram nazis”.

Durante nossa conversa, eles retiraram suas máscaras e vendas que utilizam para não sofrerem retaliação posteriormente. Foi muito emocionante esse momento, senti que – de alguma forma – estávamos sendo integrados a algo que continuará depois, uma amizade, um vínculo, uma revolução desejante. “Eu nunca mais vou deixar de lutar”, diz X. com os olhos em estado de devir-revolucionário contra a impotência reacionária do Estado.

Nem nós X.

Curitiba, 26 de outubro de 2016, Escola Autônoma Tiradentes.


::: vergonha intelectual :::

Três anos para concluir o que todos sabíamos: o tiro que matou Oziel Terena em 2013 veio da Polícia Federal, mas esse [outro] 2013 não é lembrado pela memória seletiva dos moralistas da esquerda e da direita que, em suas narrativas estratégicas, parecem preocupar-se com as causas das minorias, mas apenas enquanto elas lhes servem para – taticamente – golpear o poder que criticam e desejam. Quando enfraquecem seus adversários políticos, ou alcançam um certo poderzinho, questões – como a questão indígena – ou mesmo a desmilitarização da polícia [ e tantas outras] – desaparecem de seus discursos tão rapidamente quanto surgiram. Alguém aí sabe quem matou o Amarildo? Pois é. E, de maneira perversamente simétrica, os que estão no poder – sempre provisoriamente – preocupam-se com as minorias apenas quando estas lhes servem para mostrar como o Estado é eficiente, mas quando o Estado é a própria máquina genocida permanecem em silêncio cúmplice, pois isso pode arranhar a imagem da representação política… No meio do fogo cruzado, das disputas interessadas das oposições e da situação [seja qual esta for], a vida [sempre em risco] das minorias, das múltiplas sociedades sem Estado, sem partido e sem capital. Onde está toda aquela revolta contra Belo Monte? Onde está a indignação com a situação dos Guarani? Onde estão aqueles extensos artigos sobre a questão indígena publicados quase que semanalmente? Estamos diante da vergonha intelectual de falar pelos outros justamente porque não podemos sustentar essa fala para além de interesses localizados, muito aquém do verdadeiro problema, ou melhor, dos verdadeiros problemas do Brasil. Para nós, concordamos com Deleuze, “o intelectual teórico deixou de ser um sujeito, uma consciência representante ou representativa. Aqueles que agem e lutam deixaram de ser representados, seja por um partido ou um sindicato que se arrogaria o direito de ser a consciência deles”


::: Aristóteles, porcos & golpistas incontinentes :::

Um dia antes da votação da #pec241,Temer ofereceu um jantar no Palácio do Alvorada para 217 deputados. O objetivo é evidente: garantir a aprovação do projeto que congela investimentos em saúde e educação por 20 anos.

Além de ser revelador de práticas – indigestas a qualquer espírito democrático – o banquete oferecido por Temer é também exteriorização da irracionalidade da alma perversa deste desgoverno.

Em certo momento da Ética à Nicômaco, Aristóteles, em sua procura pelo bem e pela felicidade humana, propõe que investiguemos a virtude humana. “Dado que a felicidade é certa atividade da alma segundo perfeita virtude, deve-se investigar a virtude, pois assim, presumivelmente, teremos também uma melhor visão da felicidade”.

Ao dizer isso, o filósofo não se dirige apenas aos cidadãos, mas também aos Estadistas. O verdadeiro estadista em sua pretensão de tornar os cidadãos bons e obedientes, argumenta, deve ocupar-se da virtude. E para tal deve estudar a alma, pois, “por virtude humana, entendemos não a do corpo, mas a da alma, e, por felicidade, entendemos atividade da alma. Se é assim, o homem político deve evidentemente conhecer de certo modo o que concerne à alma”.

A alma tem, para Aristóteles, uma parte não racional e outra dotada de razão. Da parte não-racional “uma se mostra comum e vegetativa – refiro-me à causa do alimentar e do crescer”. Esta capacidade da alma, é própria dos homens quanto dos animais. Já a outra parte da parcela não racional da alma participa, em certa medida, da razão, na medida em que obedece a esta.

Ora Temer ofereceu um jantar para os deputados um dia antes da votação da #pecdofimdomundo! Levando em consideração o que nos disse o bom e velho Aristóteles, Temer apela à parte vegetativa da alma dos deputados. Esta parte da alma, como entende o filósofo, é comum a homens e animais.

Pergunto aos amigos humanos e extra-humanos: que bicho se esconde atrás de Temer? Um porco? Quer parecer – pelo menos para mim – que não. Os porcos, agora levando em consideração a parte irracional da alma que é capaz de obedecer, são bem menos incontinentes.

Além disso, se os golpistas comeram carne de porco, tenho certeza de que os porcos jamais comeriam a carne dessa gente.


Democracia

A democracia – se substancial – é o que permanece mesmo na mudança. Golpe não tem substância. Golpe é acidente. Um golpe na substância democrática não pode destruir a democracia, se ela é mesmo substancial. E como saber se a democracia permanece mesmo neste momento em que ela é golpeada? Uma maneira de saber é recusar qualquer possibilidade de substancialidade do golpe, negar a ele o sentido de substância, resistir à violência do golpe violentamente, suportá-lo sem esmorecer, fazê-lo retornar à sua condição acidental (não somos inocentes a ponto de ignorar que se há substância democrática há sempre risco de acidente golpista). No atual estado de coisas parece-nos que não afirmar radicalmente a substancialidade democrática equivale a admitir – não o risco de um acidente golpista – mas a substancialidade do golpe mesmo, pior ainda, não afirmar a substancialidade da democracia equivale a, inconsequentemente, rebaixá-la a acidente. Não trata-se aqui de uma ingênua defesa da representação democrática, pois a representação é também algo que se atribui a democracia, trata-se da luta pela democracia como substância que sustenta uma miríade de direitos conquistados (com organização, luta e sangue da classe trabalhadora) e que pode legitimar muitos outros a serem reivindicados pelos movimentos sociais e legitimamente conquistados, trata-se da democracia como princípio multitudinário de luta, de resistência, de conquistas de minorias, de afirmação constituinte, e não de suas meras variantes apaziguadoras universalistas. A democracia é a soma diferencial de todos nós enquanto participantes ativos da sua composição heterogênea e selvagem. Se substancial a democracia persistirá, e enquanto partícipes dela resistiremos, não como forças passivas perante as forças que a querem fraca ao ponto de perder toda sua substancialidade, mas ativamente como forças radicalmente e substancialmente democráticas. Retornar à substância democrática e multiplicar a diferença contra o golpe homogeneizador (que quer impor ao múltiplo o signo da identidade para, então, desferir um golpe único contra todas as potências progressistas) parece-me uma posição que as esquerdas não podem deixar de considerar. Logo não trata-se de defender apaixonadamente o que nem quem representa a democracia, mas sim de Ser a própria Democracia, de se dizer radicalmente a partir de todas as forças que somos capazes de colocar (e estar) em relação contra a força golpista reativa que quer abolir – num golpe só – todas estas forças para afirmar seu poder absolutamente antidemocrático com aparência constitucional. A democracia não é uma força só, nem uma só força, mas a síntese disjuntiva de todas as forças democráticas, são estas que precisam se (re-)encontrar e se afetarem sem rancor nem ressentimento, o que implica em conviver com a diferença sem, o egoísta desejo de dominação, de levá-la à contradição seja para fazer dela um manso idêntico seja para expô-la como a detentora de todos os males da humanidade que deve ser destruída. A democracia é o espaço que se abre entre todas as perspectivas, entre todas as diferenças existentes e insistentes. Este espaço resultante de diferenças é a própria diferença enquanto diferença de diferenças e é dele que dizemos a democracia sempre em devir. Se democracia não é, pura forma vazia, se democracia tem conteúdo no Brasil essa é mais uma oportunidade histórica de uma geração afirmar isso com força desejante e criadora. Como dito no início, se é substância, a democracia permanecerá mesmo na mudança. E a mudança desejada não é este acidente reacionário com máscara democrática, a mudança desejada é uma tal que possibilite que a Democracia – finalmente (para alguns) novamente (para outros) – se instaure no Brasil através do desejo democrático de sua gente, isto é, aquela imensa parcela que acredita que a Diferença é nossa substância primordial e é dela que dizemos: Democracia, mais uma vez, e quantas vezes forem necessárias, diferenciando assim a democracia sempre para melhor, jamais para pior.


::: (Des-)culpa :::

Cidade agitada: ecoa na manhã o grito da madrugada. Ar elétrico: chove frio em Agosto: “mês do cachorro louco”, dizem. Um – movido por imperativos categóricos – crê – nesta altura do fim do mundo – a pureza da razão, da sua razão. Que razão há no que crê numa moral superior, mesmo depois de ter sido condenado por ela? Razão? Moral? Sujeito transcendental? Consenso? Razão. Prefiro a loucura do cachorro. Que razão há nestes motores em disparada pelas ruas? Que razão há no carro que furou o sinal ontem e quase arrancou minha perna direita? Um passo atrás antes do estraçalhamento final. Ainda tive tempo de observar o desespero no rosto da carona. Quanto ao motorista não o vi, deveria ser um fantasma como quase todos os motoristas da cidade sempre atrasados para nada ou para aquilo que é importante hoje e esquecimento amanhã. Parece-me que estamos a um passo do estraçalhamento, que vai ser imediatamente esquecido assim que ocorrer. Acostumar ao estraçalhamento é o à priori da razão do XXI? Espero que seja uma impressão ruim, uma afecção destes meses que enfraquecem as vidas enfiando goela abaixo uma tristeza, um temeroso discurso, um circo sem palhaço, um blues: um caos, um medo, um grito: perdidos na rua. Enquanto isso, no cemitério crianças caçam pokémons e nas ruas somos caçados por policiais e fascistas, tanto faz, mas deve ser só impressão, representação – de algo bem pior – que se liga mal à imaginação, perturbando corpo e espírito, ou ainda mais daquela crise de representatividade que insiste em Brasília, tanto-faz-tanto-fez. Talvez o fantasma seja eu – ou você – e assim é melhor para nossa pujante democracia, pátria amada brasil e sangue escorrendo no meio-fio. Alguém grita fora temer e viva o espírito olímpico! Tem alguém batendo na porta. Quem é? Não é ninguém, só mais um desses embrulhos com ressentimento dentro que não param de chegar às casas de alguns brasileiros desde a última eleição e que quando aberto toca a introdução do hino nacional com gritos terríveis ao fundo, como uma fita k7 gravada sobre outra desde 1964 … O embrulho é também sinônimo de jornal (do povo, garante a propaganda). Mas tudo bem, penso seduzido pela falsa consciência de que está tudo realmente bem. Tudo bem? Tudo bem responde o hábito de dizer tudo bem. Até as flores mortas do velório da “democracia” estão lindas. Respiro monóxido de carbono e sigo em frente. Tudo bem? Tudo e com você? Há ainda bastante besteira até a verdade se mostrar: e se ela for monstruosa? Vai temer? Vai encará-la com os olhos que dispõe? Afinal é tudo culpa do … E, finalmente, agora que temos – cínicos moralistas – como aquele que se vê como um Kant tropical de esquerda pronto para denunciar toda e qualquer corrupção – o culpado por cinco séculos de desgraças – para que se mover? E assim de culpa em culpa, de culpado a culpado, encontramos a desculpa ou a culpa perfeita, para não mais viver a própria vida e – pior – infectar de culpa tudo o que quer viver diferentemente, atribuindo-lhe, por analogia, todas as culpas atribuídas ao Grande Culpado, ao Corrupto, ao Doente, a Doença que deve ser extirpada. Se isso não é o fascismo me diga o que é, mas não atrás da mais nova neo filosofia reacionária que – capturado – quer me capturar como se dela fosse saltar um outro mundo livre de corrupção (um céu cristão cheio de anjos de olhos azuis?) Não, obrigado, o espírito absoluto pode ser bem perigoso às vezes. Batem à porta. Deve ser outro pacote de culpa. Atende para mim. Ou foi você quem mandou?