Economia primeiro. Saúde depois?

As redes sociais hoje operam como vitrines para a exibição de modelos humanos. A máquina capitalista adentrou o espaço da intimidade. Tudo deve ser exposto, todos devem se tornar influencers, todos devem ditar modas, hábitos de consumo. Nesta nova configuração do capitalismo consumir não basta, é preciso que o consumidor faça a propaganda do seu consumo atraindo para si o olhar de potenciais consumidores. Casas, carros, motos, roupas, bicicletas, sapatos, cervejas, cafés, passeios, bebidas, relógios, animais, livros, cargos, diplomas, parceiros, filhos, boletins, contratos, tudo, sem exceção, deve ser mostrado. Até o reflexo no espelho na academia deve ser reproduzido na tela. O sucesso se mede pela capacidade de consumir. Se você consome você é alguém. Se você não consome não existe, é um fantasma na sociedade de consumo total. Imaginem como isso é problemático numa sociedade de 16 milhões de desempregados e mais de 30 milhões de miseráveis vivendo com menos de dois reais por dia? Imaginem os traumas em adolescentes que não podem reproduzir padrões existenciais e de consumo impostos pelo mercado!Já o tempo de trabalho, as horas infinitas no trânsito, na loja, na fábrica, as dificuldades, os assédios morais, os direitos previdenciários e trabalhistas destruídos tudo isso deve ser ocultado. Vale mais a performance artificial de si em rede social do que o desmascaramento das estruturas de exploração da mão de obra e espoliação do trabalhador. Vale mais defender um mito idiota, ou assistir ao BBB, do que pensar na destruição total em curso no país que caminha, claramente, para uma guerra civil. Ou você acha que um decreto que libera até a produção caseira de munição é para ir para a disney? Antigamente diziam: “o importante é ter saúde”, “sem saúde não somos nada”. Agora, o importante é a economia, mas não uma economia em que os recursos existentes beneficiam a todos igualmente, e sim uma economia para uma minoria que faz a maioria brigar até a morte por migalhas. Nesta economia parasitária se você não tem mais saúde é logo descartado como os mais de 240 mil mortos na pandemia (e sabe se lá quantos mais até que toda população esteja imunizada). Quem se importa? E se for você o morto ou a morta as máquinas continuarão a girar exatamente como estão girando agora. Eles já têm até a frase pronta para fingirem que a sociedade brasileira não está sendo trucidada por um genocida que não trouxe a vacina para todos e em tempo hábil antes de novas e mais perigosas mutações: “é o novo normal”. No antropoceno, tempo em que o humano se torna a maior ameaça para o Planeta Terra, a própria humanidade é capitalizável. Você deve render ao máximo como uma aplicação financeira. O humano tornou-se “capital humano” e o trabalhador – sem direitos – “empreendedor”. Índios? Natureza? Ecologia? Alimentos sem pesticidas cancerígenos? Vacina para todos? Aquecimento global? Poluição? Derretimento das geleiras? Perda de biodiversidade? Pandemias? Racismo? Homofobia? Democracia? Tudo isso é coisa de vagabundo, de esquerdista, dirão os nazistas sobre as pilhas de mortos que não param de aumentar. A felicidade é um imperativo. Você precisa estar sempre sorrindo, sempre de bem com a vida. Apenas os fracos adoecem. Se você não venceu é porque é um perdedor. Se você está deprimido é “mimimi”. Na era fitness estar acima do peso é um crime. Na era em que todos querem ser os burgueses felizes da propaganda de refrigerante diet a tristeza é uma aberração. Pare de reclamar e trabalhe, ordenam os filhotes de Hitler. Mal sabem eles que a frase “Arbeit macht frei” (“o trabalho liberta”) era colocada nas entradas dos campos de extermínio do regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Na era em que a extrema-direita institui a barbárie reivindicar direitos é um crime. Os trabalhadores devem aceitar as piores condições, pois, a burguesia cínica dirá: “se você não quer tem uma fila de miseráveis lá fora”. O importante é que, apesar da crise total da humanidade, você encene a fama, ainda que dure 5 minutos, isso se você não for cancelado antes por turbas digitais fascistas que sempre terão a última palavra sobre sua vida até elegerem uma outra pessoa para destruírem amanhã. Mas não se esqueça: o cancelador de ontem pode ser tornar o cancelado hoje. Neste tempo de subjetividade colonizada pelo capital, os laços de solidariedade, colaboração e coletividade são rompidos. A competição adentra todos os espaços: no trabalho, na escola, na empresa, na academia e até no mundo das artes. Todos estão em competição, e não apenas com o outro mas consigo próprios. O indivíduo torna-se seu próprio algoz. Deve sempre se superar, ir além de seus próprios limites. O céu é o limite. Elon Musk é o homem mais rico do mundo. Ele tem 188,5 bilhões de dólares. Isso não o livrará do fedor da morte, embora hoje busque um meio de comprar a fórmula da vida eterna. Cabe a cada um pensar sobre as práticas e hábitos vigentes na contemporaneidade e se perguntar se vale a pena serem cultivados ou se devem ser revistos no sentido de repensar novos modos de existir, menos vinculados aos ditames da ordem capitalista que transformou tudo e todos em meros objetos de consumo e, pior, descartáveis como a pandemia do novo coronavírus demonstra todos os dias. Economia primeiro. Saúde depois? Escute, o sinal tocou. Agora é a vez dos professores irem para o abate.


:: Carnaval populista ::

Uma das estratégias de dominação cada vez mais perceptível na arena política é o populismo. Através do populismo, políticos se dirigem ao povo como se fossem “do povo”, porém o fazem para obter uma posição de poder e, tendo o alcançado, para se manterem acima da população empobrecida como se estivessem ao seu lado . O populista quer ser “o representante do povo”, “a voz do povo”. Mas o que é “o povo”? Quem é “o povo”?

Para o populista a existência objetiva do povo não importa desde que o chamado ao povo surta um efeito nas massas e produza uma identificação delas com o político. O que importa, em suma, é que um grupo de pessoas se sinta com partícipe desta miragem de povo e dê guarida para as ações do político populista.

A política populista é antes de tudo um “modo” de exercício do poder. Sua característica básica é o contato direto entre as massas urbanas desorganizadas empobrecidas e o líder carismático, facilitado na contemporaneidade pelas redes sociais.

Para ser eleito e se manter no poder, o político populista procura estabelecer um vínculo emocional com o “povo”. Isso implica em um sistema de táticas, discursos que criam um nós e um eles, promessas e ações efetivas para o aliciamento das classes sociais de menor poder aquisitivo, além da classe média urbana, como forma de angariar votos e prestígio através da produção de uma simpatia crescente.

O populista geralmente começa seus discursos com a palavra “povo”. Além deste artifício retórico, alguns populistas, no presente, têm abdicado do famoso terno e usado camisas de time de futebol. Afinal, se alguém usa uma camisa de um time popular é do povo, não é mesmo?

Ao lado das críticas há também considerações positivas do populismo. O cientista político Ernesto Laclau vê no populismo um espaço em que as classes excluídas são convocadas para exercerem o poder do qual foram historicamente alijadas. Para ele, essa prática política representa uma articulação profunda por mudanças institucionais e “teve um papel positivo para a democracia” na América Latina, onde os movimentos de massa têm provocado mudanças políticas, com a ascensão de governos de corte nacional-popular.

Porém, na prática, a inclusão dos excluídos pelos populistas no jogo político nunca é integral. Afinal, os populistas precisam dos precariamente integrados para permanecerem no jogo. Eles, como se costuma dizer, doam as migalhas para permanecerem na mesa da casa grande com direito a um naco da fatia mais nutritiva do pão ou então dizem “chega de migalhas para nosso povo! faremos a nova política”, porém tão logo eleitos dobram-se ao mais velho jogo (que nunca na verdade deixaram de jogar), em que a maioria permanecerá excluída, embora acreditando que finalmente participa do banquete.

Em sua versão de extrema-direita, a política populista tira do povo (que a legitima com seu voto de confiança) direitos trabalhistas e previdenciários conquistados através de lutas históricas, mas utilizando leite condensado torna o arrombamento dos direitos amargamente conquistados muito mais doce.


A representação da política da representação

Na “sociedade do espetáculo”, para relembrarmos o conceito do filósofo Guy Debord, a atividade política é antes de mais nada espetáculo. Incapaz de transformar a realidade, a política torna-se imagem ideal desta transformação que nunca acontece. Parecer é condição suficiente para as redes sociais se movimentarem.

As imagens e os discursos não devem tornar visíveis a decadência que são obrigados a abordar mas apenas, mobilizados através de uma narrativa que vai do moderno ao vaporwave, modulados por dispositivos computacionais de edição, operar uma retórica de progresso abstrato, desenhar um arco-íris de esperança sobre o abismo a fim de convencer as massas silenciadas que amanhã vai ser maior.

A catástrofe ecológica não deve ser percebida em sua magnitude apocalíptica, mas apenas como imagem fantasmagórica veloz a ser esquecida tão logo o próximo assunto for também rapidamente abordado. O problema do desemprego não deve ser problematizado a fundo desde suas causas, mas ao desempregado deve ser dada a esperança retocada pelo photoshop de uma vaga em um local de trabalho que ainda nem concretamente existe (apesar da fila imensa no lá fora não enquadrado).

A gravidade da pandemia do novo coronavírus e os milhares de mortos não devem fazer as pessoas pensarem sobre o risco de infecção nem, muito menos, pensarem sobre a própria morte. A mensagem que circula acima dos 230 mil caixões de brasileiros é que apesar dos cadáveres importam as cores de uma economia (que no final da contas mantém mais de 14 milhões de brasileiros na miséria absoluta).

Porém, por alguma força subsistente do real, algo vaza pelas brechas da estetização espetacular da política: a decadência velada se revela. A verdade é horrível, mas a mentira mais ainda.

Nós sabemos quem vocês são e o que representam.


Se você morrer você não saberá

Já não me assusto com aglomerações, gente com máscara no pescoço ou sem máscara.

Já não me pergunto por que as pessoas não se revoltam e exigem do Estado o controle da pandemia e a garantia, sim econômica, de poderem permanecer seguras em casa enquanto isso não ocorre.

Afasto-me. Viro o rosto. Quem olha demais para o abismo arrisca-se a cair disse um destes filósofos há mais de 100 anos.

Muitas – das mais de 170 mil – mortes poderiam ter sido evitadas; se falAr (falta ar) adiantasse.

Lembro do filósofo, do risco do abismo e afasto-me.

O Estado optou pelo genocídio. Não tenho, ninguém sozinho tem, forças para deter uma máquina que opera em nome da morte que não deve angustiar.

A morte é o “novo normal”. É o morto sob o guarda-sol no Carrefour, é João Alberto espancado até a morte, ou o morto na padaria sob um saco preto enquanto o expresso é servido (para outros mortos?).Uma senhora escreveu: “eles não fazem nada”. Eles não farão nada senhora. Por incrível que pareça (aos que ainda se importam com a vida) a estratégia do governo federal é que o máximo de pessoas se exponha ao contágio viral.

É o que os operadores da necropolítica, da política que administra a morte, da banalidade do mal, chamam de “imunidade de rebanho”.

Ninguém impedirá. Nem polícia, nem lei, nem fiscalização, nem a moral cristã.

A maioria da população faz exatamente o que o governo de extrema-direita ordena e arrisca-se a contaminar-se para adquirir uma pretensa imunidade.

“É só tomar cloroquina que tudo ficará bem”.

O resultado todos sabem: pilhas e mais pilhas de cadáveres e a frase pronta para os que se impressionarem: “não se importe com os mortos, o importante são os curados e estes são maioria”.

Sim, este é um país que perdeu o amor à vida. O que são milhares de mortos? “Pelo menos não é você”.

Há uma voz que diz uma coisa desde o começo e agora mais: “salve-se quem puder”.

1 de Dezembro de 2020: 173.165 mortos e nenhum sinal de que o extermínio retrocederá.

Mais um brasileiro afoga-se em seu próprio pulmão cheio de sangue.

A morte é insípida, inodora, mas tem cor.


Reversão cosmopolítica

19/05/2020: “Nas últimas 24 horas, foram contabilizados 1.179 óbitos pela doença causada pelo coronavírus, com média de uma a cada 73 segundos. Ao todo, o país registra 17.971 mortes pela covid-19”.
 
21/05/2019: Em novo recorde, Brasil registra mais de mil mortes em 24h pela 2ª vez na semana Foram 1.188 mortes por covid-19 confirmadas de quarta para esta quinta; óbitos somam 20.047.
 
Quando a sociedade brasileira perceberá o massacre em curso e que aumenta a cada minuto? Quando perceberá que os irresponsáveis que desgovernam o país não dão a mínima para nenhum dos 20.047 mortos até agora? Quando entenderá que sem uma quarentena bem feita a pandemia não retrocederá? Quando o país e seu “presidente”  perceberão que apenas com isolamento horizontal, distanciamento e realização massiva de testes, as atividades poderão, em algum momento, ser retomadas com um mínimo de segurança? (Digo mínimo, pois sem imunização o risco de contágio permanece).
 
“Economia primeiro e saúde depois”, escreve-me um humano condicionado por um bot. Do jeito que está não vai haver nem saúde nem economia, mas ainda mas mortes e crise social, política e econômica.
 
Daqui de casa escuto por vezes os comentários dos comerciantes lá fora. Já há algum tempo estes comentários podem ser reunidos em um só: “tá fraco”. Este “tá fraco” revela algo sobre eles e sobre nós, os esperados por eles de quem nos distanciamos. Há uma desconexão com um certo modo do capital, mas não uma desconexão com o capital, muito pelo contrário, talvez nunca estivemos tão, impessoalmente, conectados aos fluxos monetários. “Tá fraco” e isso é dito à procura de uma conexão, no caso do comerciante através da mercadoria com um consumidor desejado; mas talvez esse modo de conexão já não exista mais. Quais existem agora? Este (a que estamos reduzidos), mas não só.

Há infinitos processos infinitos articulados que não se deixam pensar separadamente. O novo coronavírus é (mais uma) prova evidente disso. Ao ganhar, cada vez mais, agência na relação com os corpos pode colapsar o mundo como conhecemos, pode afetar economias inteiras, pode matar milhões de humanos, pode, no limite, exterminar a humanidade, ou então criar algo que chamarei de sobreviventes espectrais, capazes de viver assim como estamos “vivendo”.
 
O vírus não vem de fora do mundo, mas está no mesmo mundo que o homem, mundo que este homem, ao se pensar absoluto, aniquila e ao aniquilá-lo aniquila simultaneamente a si próprio, pois não há homem fora do mundo senão nas suas próprias fantasias.
 
Não há homem fora do mundo, mas há mundo, mundos, fora do homem. O mundo não existe só quando subsumido pela percepção sensível e pelo entendimento. Se não houver um pensar ‘da complexidade’, um pensar dos diferentes processos simultâneos reticulares, se não compreendermos que o que chamamos, ilusoriamente à distância, de natureza, como se não estivéssemos imediatamente implicados, tem forças e agências indomesticáveis, vamos ser esmagados por problemas (em larga escala criados e potencializados por nós mesmos): pandemias, aquecimento global, derretimento de geleiras, acidificação dos oceanos, perda de biodiversidade. “Tá fraco”.
 
O ar dos tempos requer uma nova política, uma “cosmopolítica” renovada que desloque o humano do centro da ação política e reconheça efetivamente uma multiplicidade de agências e agentes políticos, inclusive inorgânicos. É preciso aprender (novamente) a respirar neste cosmos povoado por uma infinidade de agências humanas e não-humanas. Esta cosmopolítica, nos lembra Philippe Descola, “não é um prolongamento do projeto kantiano de formular as regras universais por meio das quais os humanos,  onde quer que estejam poderiam levar uma civilizada e pacifica.  Mas literalmente, como uma politica do cosmos. 
 
A presença de um vírus que ao infectar o humano ataca o sistema respiratório talvez seja, não por certo a primeira, mas talvez a decisiva lição desta reversão cosmopolítica para o que há como para o que não há por vir.


Histórias [ou o fim da história do fim da história]

A ideia de uma única história da filosofia ou do espírito é uma concepção colonizadora que pretende conquistar para si o mundo de outrem, empobrecendo-o a partir de suas certezas insensíveis.

Para sair desta concepção idealista e formalista de uma longa história universal do pensamento, Valentim aponta para uma experimentação geográfica da filosofia: “Pense-se, por exemplo, nas consequências para a história da filosofia: se a geografia for finalmente considerada como fator determinante da produção filosófica, contrariando assim a suposta universalidade de uma só tradição, multiplicar-se-iam exorbitantemente as histórias da filosofia”.

Trata-se de recuperar a pluralidade movente que foi capturada por um único movimento ou movimento do único: o da metrópole à colônia e da colônia saqueada de volta à metrópole.

A colonização continua em operação nos diagramas curriculares. “Impor o estudo dos assim chamados clássicos como condição de primeira ordem para a formação filosófica é, sem dúvida, um expediente colonial”, dispara Valentim.

O estudante é levado a sentir-se inferior por não dominar a língua do dispositivo colonial. Dispõe-se a sentir fraco e incapaz, nega sua própria potência e singularidade. Nesta posição subalterna receberá as formas da normalização do corpo, da escrita e da palavra. Uma maneira de escapar desta maquinaria de captura, segundo Valentim, seria por meio de uma alteração dos currículos universitários da área “com a inclusão de outros mundos de pensamento além do ocidental-europeu-moderno, como objetos de estudo com igual importância. Não faria mais sentido (não faz mais sentido!) compreender, por exemplo, os fundamentos da subjetividade moderna apenas por recurso às meditações dos filósofos”.

A revolta, porém, é adiada pelo investimento temporal, libidinal e obediente para ser como o mestre que aparenta ser uma entidade transcendente, mas é só alguém que replica docilmente os comandos de um poder disperso em milhares e milhares de páginas, às quais, embora distintas na superfície, funcionam sob a mesma lógica da identidade única e totalitária da história dos que contam, da perspectiva deles, a nossa (nossa?) história.

A história do Brasil que aprendemos é na verdade a história do capitalismo. O Brasil mesmo, já disse Eduardo Viveiros de Castro, não existe. “O que existe é uma multiplicidade de povos, indígenas e não indígenas, sob o tacão de uma “elite” corrupta, brutal e gananciosa, povos unificados à força por um sistema mediático e policial que finge constituir-se em um Estado-nação territorial. Uma fantasia sinistra. Um lugar que é o paraíso dos ricos e o inferno dos pobres. Mas entre o paraíso e o inferno, existe a terra. E a terra é dos índios. E aqui todo mundo é índio, exceto quem não é”.


Espírito em quarentena e alienação material

Enquanto uma parcela considerável da esquerda, detentora de tempo livre, de recursos materiais e intelectuais, expressa-se de modo idealista e moralista nas redes e nas lives, “da ponte pra cá” ouvimos ecoar o seguinte discurso dos pobres (que o bolsonarismo captura e modula para reforçar seu populismo autoritário):
“Tem que abrir, morre quem tiver que morrer, resolve logo isso aí”. “Estão querendo sacanear a gente”. “Enquanto está tudo parado, as contas não param de chegar”.
Acreditar, sem elaborar e efetivar ações concretas na base material, que apenas o apelo humanista e a crítica douta da religião e da política bolsonarista vão funcionar é encaminhar-se para a derrota certa.
Ainda que as lives e os textos sejam importantes para se apreender o que se passa, as atenções e as ações precisam estar voltadas também para as outras dinâmicas materiais da sociedade. Neste campo o bolsonarismo, apesar de toda sua dimensão teológica e de toda escatologia cristã que parece seguir, mostra-se efetivamente materialista.
Se ainda há de fato algum desejo por democracia radical isso passa inevitavelmente por sermos capazes de dobrarmos contra a  extrema-direita a força que ela capturou e utiliza para poder avançar com seu projeto apocalíptico de aniquilação e extermínio.
Não basta desvelar e atacar o bolsonarismo metafisicamente. É necessário também encontrar disposição para se mobilizar por questões práticas em que a máquina bolsonarista falha miseravelmente como, por exemplo, em torno do auxílio emergencial (rapidez e continuidade dos pagamentos, aumento do valor, desburocratização, acesso, redução das filas) e outras medidas como suspensão de pagamentos de alugueis, contas diversas até a efetivação de um programa permanente de renda mínima.
Trata-se de exigir de Bolsonaro e de sua base empresarial de sustentação o que com a esmola de R$ 600, assistencialismo barato e muita oração se desobrigam a garantir, ou seja, a possibilidade de toda a população ficar em casa durante a pandemia com segurança financeira e alimentar.

Os mortos não têm jet ski

Os mais de 700 brasileiros mortos nas últimas 24h não têm jet ski, nem lancha, nem direito a um velório digno. A cena claramente montada do churrasco em alto mar pelos que desgovernam o país é extremamente violenta, digna de gente incapaz de mostrar um sentimento de pesar, por mínimo que seja, frente às mais de 10 mil mortes (sem falar nas milhares de subnotificações). E, como se não bastasse, ao final do pronunciamento macabro à nação, diz para o grupo de atores que interpretam um grupo de riquinhos negacionistas boçais que mais de 70% dos brasileiros “pegarão o vírus”. Isto que alguns chamam de presidente sabe o que são 70% de mais de 200 milhões de pessoas? Sabe que a taxa de mortalidade por Covid-19 está em 6,9% e é a maior do que as taxas registradas em todos os países do mundo? Obviamente não será bolsonaro quem adoecerá (se já não adoeceu e oculta) ou morrerá, nem as milhares de réplicas dos boçais que aguardavam o presidente para “o teu churrasco né cara” regado com água e sangue de pulmão infeccionado, nem o queiroz, nem os demais milicianos, nem os banqueiros para quem ele e o necroliberal guedes deram 3 trilhões, mas milhões de trabalhadores que não têm nem um milésimo das regalias que essa coisa empesteada, fria e genocida esbanja, pendurada no Estado há 30 anos sem nunca apresentar um projeto sequer para a nação. Mais de 10 mil mortos e ao invés de prestar condolências às milhares de famílias enlutadas tem a desfaçatez de produzir uma montagem nauseante de um churrasco amaldiçoado para defender a continuidade de um regime suicidário que precisa ser, urgentemente, posto no chão sem dó nem piedade. Você sabe o que sente alguém com Covid-19 em estado grave?

Mito sem sentido e sem referência

“Mito”! Gritou nos meus ouvidos um indivíduo ressentido com as críticas que muitos brasileiros vêm fazendo às ações nada humanas do presidente neste período de grave crise sanitária, econômica, ética e política.

Perguntei-lhe: “o que é mito”? Ele não respondeu. Pareceu-me que só queria provocar, fazer confusão,  causar mal estar. Cresceu, mas continua sendo aquele aluno falastrão e grandalhão do ensino-médio que humilha colegas e professores, que acha que suas ideias são geniais e que todo mundo está errado exceto ele. Ele até passa por esperto, é admirado por muitos, até a hora em que a vida lhe faz questões complicadas.

Será mesmo Bolsonaro um mito? Vejamos de forma bem simples sem grande elaboração para todo mundo formar uma ideia razoável.

O mito (“μυθος”) é uma forma de pensamento que antecede a razão (“logos” em grego ou “ratio” em latim).  Quando, por exemplo, explico o trovão recorrendo à ação do deus nórdico Thor estou fazendo um discurso mítico. Quando explico o trovão como um fenômeno que se segue a uma descarga elétrica estou entrando num campo discursivo racional.

Não há discurso melhor ou pior. São discursos diferentes e operam em diferentes sociedades e cumprem diferentes funções.

A razão, dizem, apareceu na Grécia há 2600 anos ou simplesmente 6 séculos antes de Cristo. A filosofia seria este momento em que desenvolvemos uma explicação racional do mundo e das coisas.

Quando alguém diz: “Bolsonaro é um mito” está fazendo uso da razão ou fazendo um discurso mítico?

Nenhum dos dois! Quem diz “Bolsonaro é um mito” está fazendo um discurso sem sentido.

Os povos indígenas do Brasil até hoje utilizam mitos para explicar as coisas. Os Yanomami acreditam que Omama criou a natureza e que a epidemia é causada pelos brancos possuídos por espíritos Xawari.

Bolsonaro, porém, não está entre os mitos indígenas, nem entre os mitos nórdicos ou gregos. Muito pelo contrário, Bolsonaro inclusive não gosta dos povos indígenas.

A ideia de que “Bolsonaro é um mito” não tem, portanto, sentido. Pois, para ser mito ele deveria estar associado a um sistema mítico. E se procurarmos Bolsonaro em um sistema de mitos nada encontramos. Encontramos Omama, encontramos Thor, encontramos Apolo, Perséfone, encontramos até o Saci-Pererê e a mula sem cabeça etc.

Para alguns lógicos para haver sentido deve haver referência e vemos claramente que a utilização de mito para definir Bolsonaro não tem nenhuma referência.

Então qual o sentido de chamá-lo de mito? Mito do que? De onde? De quando? Ele se refere a alguma entidade desconhecida? Que entidade é esta? Se ele é um mito necessariamente deveria ser ou se referir a uma entidade não humana. Veja algumas pessoas dizendo que é a besta, o diabo, em razão da maneira cínica com que ele tem se posicionado com relação às milhares de mortes por Covid-19.

Para mim ele não é a besta nem o diabo, mas humano, demasiado humano, ou melhor, apenas um político incompetente que está há 30 anos mamando nas tetas do Estado e que preparou todos os filhos para fazerem a mesma coisa.

Logo, quem chama Bolsonaro de mito ignora o que seja um mito e pensa que um homem com os piores defeitos é um mito.


A morte entrópica do bolsonarismo

Bolsonaro introduz confusão no sistema comunicacional democrático. Os jornais, sites, blogs e redes sociais ao reproduzirem seus atos elevam a força que lhe resta a uma força que ele não tem. O resultado desse processo é o fortalecimento político do bolsonarismo (vide tomada de corpo do frame #obrasilnãopodeparar) e o enfraquecimento relativo das forças que se articulam de diferentes maneiras contra Bolsonaro e, principalmente, contra a pandemia, pois acabam por permanecerem dispersas, sem capacidade para compor um antagonismo destituinte com relação ao presidente, e sanitário com relação ao vírus. Com o avanço da pandemia, e a multiplicação de casos confirmados e de mortos, mais informações sobrecarregarão o sistema já sobrecarregado. Há informações também que as comunidades pobres não têm mais condições materiais para permanecerem em quarentena (estão sem alimento e sem dinheiro). Para onde dissipará toda essa energia social que circula nos territórios da cidade e nos territórios informacionais numa retroalimentação constante? Bolsonaro, a meu ver, age de forma a mobilizar um quantum de força suficiente para tentar um movimento que ele sozinho, isolado, não tem capacidade de realizar. O bolsonarismo não é um movimento político, mas um movimento informacional que modula uma política que temos dificuldade de conceituar pois assume formas variáveis, moventes, disformes, dinâmicas, contextuais, dúbias: são fascistas, populistas e suicidárias para uma grande parte da população, mas também são salvadoras, míticas para a outra parte que o elegeu e que, em larga medida, ainda o sustenta pois ainda submetida a altas doses de desinformação providas por robôs, mas também por uma ampla rede de pequenos e médios empresários com poder sobre a vida dos trabalhadores que só têm o tempo e a força de trabalho para vender. Se o ruído Bolsonaro não for retirado de circulação, a pandemia da Covid-19 matará ainda mais pessoas do que as estatísticas apontam, pois o presidente desorganiza a sociedade, ao ponto de conduzi-la para a morte entrópica, quando o Brasil deveria estar organizado para lidar com os efeitos do vírus Sars_Cov_2 sobre a população.