No abismo das convicções

Nesta época em que o mais certo é o incerto verifica-se o uso recorrente da palavra convicção. Uma defesa? “Eu tenho convicção de que X é culpado”. “Eu tenho convicção de que a reforma X é boa para o povo brasileiro”. “Eu tenho convicção de que a esquerda …”. Este ‘eu’ convicto incapaz, ou com medo, de colocar-se em questão afirma estar convicto de alguma que sabe, profundamente, questionável, frágil. Ele próprio, admitamos logo, é questionável, frágil, e por isso fantasiar-se como absolutamente inquestionável passa a ser necessário para produzir uma aparência de verdade quando expressar suas convicções. O sujeito de convicção deve ser uma convicção aceita tácita e passivamente por todos. Convicto de sua própria substancialidade, e certo de que o público não tem dúvidas quanto a isso, declara sua convicção em alguma coisa: “eu tenho plena convicção de que a reforma X vai gerar mais empregos”. O sujeito convicto de si, e questionável, declara sua convicção em alguma coisa incerta, que não consegue demonstrar. A convicção neste segundo nível opera para doar um efeito de verdade, gerar uma atmosfera de credibilidade, para um discurso sem fundamento. A convicção é uma âncora lançada no sem fundo. Hoje, ao amanhecermos mais uma vez com menos futuro, os brasileiros não debatemos a, terrível para a maioria, normal para a minoria, aprovação da reforma da previdência, mas o voto de um eu convicto. E a convicção neste eu convicto – seja para defendê-lo seja para criticá-lo – mais uma vez nos estraçalha e a previdência, a questão, o problema, é abandonado. Lembro de Nietzsche para quem “não foi o conflito de opiniões que tornou a história tão violenta, mas o conflito da fé nas opiniões, ou seja, das convicções”.

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Extinção

O mundo em que nascemos existe cada vez menos. O século XXI só está começando e pode não acabar bem [para a humanidade]. O fim do mundo não é o fim do mundo, mas o fim do mundo como nós conhecemos. Veja as notícias: os seres humanos estão divididos em grupos como macacos em guerra. No Brasil, o “presidente” naturaliza estupro, defende trabalho infantil, goza com armas e sonha com torturadores. Um juiz de província, tornado ministro da justiça pelos serviços sujos prestados, condena e absorve a seu bel prazer sádico. Nos EUA a entidade no poder constrói um muro na fronteira com o México para segregar. Você consegue perceber os signos da mais completa decadência e da destruição? Ou o vírus zumbi já te infectou e tudo o que consegue dizer é que odeia o (complete). Você foi programado para odiar? Game over. Não há remédio para curar o ódio do corpo, da mente ou da língua. Não adianta gritar que isso é ideia de esquerdista. As categorias políticas do século XX não fazem mais sentido. Esquerda? Direita? Ninguém sabe quem realmente está no comando (ou sabe, mas tem pavor de assumir). Ninguém sabe o que vai acontecer no próximo segundo (ou sabe, mas tem pavor de admitir). O fato é que não há ponto de retorno do apocalipse zumbi desencadeado. A aceleração de todos os processos terrestres é evidente. Mesmo o Paraíso de céu azulado faz sua parte. Memes [aparentemente inocentes] são micro-dispositivos da escalada total. A inteligência artificial não é previsível como os seres humanos. Máquinas venceram as eleições. A verdade morreu no zap com a terra plana sob os pés e com uma mamadeira de piroca na mão. Celulares e fake news sejam louvados. Steve Bannon é um homem ou um robô? Tudo que parece pode não ser.


Vertigem

Para que a democracia adentre um estado de vertigem pressupõe-se um substrato democrático, mas parece haver uma zona cinzenta (em geral não sensível a quem parte do pressuposto da democracia) a que poderíamos chamar, não sem horror, de zona vertiginosa em que, apesar da garantia de alguns direitos, fundamentalmente distribuídos constam bolsões vertiginosos de miséria, de fome, de desabrigo, de tortura, de racismo, de injustiça, de massacres, de incerteza do amanhã, de ausência de expectativas. E quem, talvez a maioria da população, não tem netflix, dentre tantas outras não posses muito mais essenciais, não é justamente quem vive, de fato, na pele, no corpo, no cérebro, algo – em alguns casos por inteiro – desta vertigem (democrática?)? A questão, compreendida a dimensão material que precede a fruição estética, não seria então, a de podendo ver não ver ou ver, nem gostar ou não gostar, mas anterior ainda, isto é, do poder sobre o visível, do poder do capital de dirigir o olhar, de iluminar, mas também de ocultar, e sempre de cobrar. Pagar pela imagem – póstuma – da derrocada da democracia não seria a imagem da própria derrocada da democracia, esta sim a imagem não documentada pela burguesia, mas vivida pelos pobres sem direitos e, quase sempre, sem internet, sem netflix e outras comodidades tão naturais à(s) classe(s)-média(s) – à esquerda e à direita – possuir? Talvez as imagens do desespero humano, feitas com celular, após o fuzilamento do músico Evaldo dos Santos Rosa e do catador Luciano Macedo pelo exército brasileiro documentem a vertigem de quem nunca teve tempo nem dinheiro aplicado, muito menos democracia, para consumir a imagem da ‘democracia em vertigem’. Os mortos da história têm direito à democracia ou apenas à pura vertigem de seus ‘mecanismos’ sofisticados de ausência? “O exército não matou ninguém”, responde o presidente (o presidente! o presidente?) ou seria aquele torturador vomitando por sua boca? Um filme que se arrisca a pensar o Brasil contemporâneo precisa ser capaz de estimular a libertação dos corpos e das mentes dos automatismos, inclusive midiáticos, do sistema de (re-)produção capitalista, bem como intensificar forças revolucionárias inimagináveis ao ponto de fazer tremer os latifúndios e as coberturas. Prender o desejo, os múltiplos afetos, a possibilidade de criação política, à reiteração do óbvio só serve para entristecer ou dar a cada um uma alegria vazia, a velha boa consciência por estar, ou ter estado, do lado certo da história. Mas e agora? Haverá uma imagem, não uma justa imagem, mas justo um imagem, capaz de nos libertar da passividade dos espectadores da democracia? Uma imagem que não se reduza à representação da vertigem? Uma imagem que não seja a imagem espelhada da vertigem, mas a vertigem numênica como a que sente quem tem fome sob o sol do meio-dia. Que nos coloque diante da inevitabilidade da destruição de todas as estruturas de opressão. Que liberte da mesma vertigem em que se (con-)fundem Lula e Rafael Braga.

Não chegaremos a uma civilização pela harmonia universal dos infernos.


Flor vermelho sangue

O golpe não é um golpe. São golpes. Golpes diários. Sucessão ininterrupta de golpes. Ameaças anônimas de ataque a pessoas e a instituições. Agressões verbais e corporais. Falsificação histórica. Precarização total dos direitos trabalhistas. Mercantilização dos direitos sociais (em pauta: diminuição do SUS, cobrança em Universidades Públicas, destruição da Previdência). Cerceamento de liberdades. Invasão de tekohas. Mineração desenfreada. Abdicação de todo e qualquer interesse nacional estratégico. Liberação indiscriminada de agrotóxicos cancerígenos. Perseguição a professores. Cortes drásticos na educação. Amor por armas e ódio por livros. Golpes e mais golpes até que a situação não seja mais de golpes, mas de uma sociedade profundamente golpeada, prostrada, se perguntando quando o golpe aconteceu. Não há um golpe. Há golpes e eles estão aí, presentificados de formas diversas em nossas vidas, enquanto, uns mais outros menos, acreditamos ainda, talvez devido a um hábito nefasto, em uma certa “normalidade democrática”. Golpes e mais golpes e mais golpes. Evaldo dos Santos Rosa, Luciano Macedo, Kauã Victor Nunes do Rozário, golpeados com tiros de fuzil pela Ordem. É preciso aguentar? É preciso resistir? É preciso cuidar do jardim? Mas até quando regá-lo com sangue negro, indígena, com sangue de milhões de brasileiros aprisionados no hoje, sem expectativas, numa batalha inglória para garantir tão somente o pão do amanhã? É preciso defender a democracia ou ela existe por si só? É um valor abstrato ou uma expressão concreta de uma sociedade que transforma em valor sua luta por direitos, assim como reconhece a luta dos mortos da história que acreditaram, e por isso foram assassinados, por acreditarem , que esta terra poderia ser diferente, não esse mar de lama e sangue, de ódio e rancor. Vêm-me à memória José Cláudio Ribeiro da Silva e a sua esposa Maria do Espírito Santo, assassinados por defenderem a Floresta [https://youtu.be/i60vlrrRpfA] Uma democracia pode existir exposta a tantos golpes? Pode haver, afinal, uma democracia não cerceada pelos ditames do mercado, pela truculência dos ignóbeis? Faz ainda algum sentido falar em democracia neste país?


Frio

Nestes tempos cabisbaixos de (tentativas seguidas de) aniquilação preventiva de todo e qualquer horizonte de expectativa, de (seguidas manobras de) destruição do que permanece em presença resistente à deterioração do próprio presente, enxergo o idoso caído, a cabeça apoiada sobre um saco de lixo (talvez com roupas e com um ou outro objeto que lhe restou – ou encontrou – em sua caminhada pelo labirinto da noite sombria que quer tomar conta de todo país). À procura (há dias, meses, anos?) de uma saída resta-lhe – no fio tênue e cortante do hoje – entregar-se ao cansaço (de uma vida?) ou descansar para (combater?) o (terror?) que à existência se discursa como: urgência, reforma, medida amarga, gestão eficiente, salvação do país, mas não passa de preparação (técnica, jurídica, etc.) para a ampliação das populações matáveis, a serem deixadas expostas ao desabrigo, à repressão, aos fuzilamentos, à fome, à morte. Chovia e ventava durante a manifestação. Ele gesticula, trêmulo diz algo que não ouço à princípio. Aproximo para escutar: – não quero dinheiro não. Quero um cobertor. Estou com frio.


#MENTIRA

Assim como o desgoverno mente à população sobre as universidades, sobre a ciência, sobre a educação, mente sobre a reforma da previdência, sobre o salário mínimo, sobre o aprofundamento da crise, sobre o crescimento vertiginoso do desemprego, sobre a volta da fome e da miséria. Sua única verdade é a mentira. As fake news que o elegeram são usadas para sustentá-lo no poder. São diariamente mobilizadas para justificar a destruição dos direitos do povo brasileiro. Inimigos são inventados, culpados, condenados. É sempre um outro fantasmático que justifica um ato de supressão de um direito. Não se assume absolutamente nada. O que mantém o Brasil sem saída é a mentira. A mentira está em cada gesto, em cada ato, em cada olhar, em cada pronunciamento. Estamos sob o governo da mentira. O horror que vivemos é o efeito de uma mentira absurda que nos violenta para justificar outra. Se não sabemos o que a verdade é, ao menos intuímos o que ela não é. O que justifica um governo de mentiras e de mentira é a mentira institucionalizada como modo de governar. Recuperar o sentido da democracia passa por recuperar, ainda que de maneira especular, o sentido da verdade de cada palavra, gesto, corpo. Algo de muito fundamental está sob ataque. À vida, em sua verdade óbvia e inacessível por inteiro, cabe resistir com muita força para expelir o poder maligno da mentira que faz os homens acreditarem nos discursos da servidão como se fossem da liberdade.


Pode a técnica dispensar o pensamento?

Bolsonaro e o ministro da educação desprezam as ciências humanas e sociais a partir de uma perspectiva fundada no senso comum à respeito da técnica. Tivessem minimamente um entendimento histórico acerca das reflexões filosóficas e sociológicas sobre a técnica estariam calados ou pensando nas formas contemporâneas em que o pensamento se articula com inúmeros dispositivos … técnicos. O problema hoje não se coloca a partir da aniquilação de alguns campos do saber em favor de outros, mas da afirmação simultânea destas criações e da articulação delas em novas instituições que saltam o abismo de certas visões tacanhas que, ao pressuporem a existência de uma incompatibilidade total entre pensamento e a técnica, acabam por criar um conflito, quando não um confronto, entre as múltiplas formas de vida que habitam a terra, humanas, transumanas, pós-humanas, mais que humanas, não humanas, etc. Podemos – e temos – grandes universidades que pensam – sem separar – o que está separado nos cérebros (caso ainda possuam) de bolsonaro e weintraub. O problema, portanto, não é a Filosofia, que relaciona humanidades e técnica (de inúmeras maneiras, inclusive para criticar filosoficamente essa relação), mas o fascismo, ou o que for isso que ameaça nossa experiência no mundo, que separa, que abomina o que difere minimamente de um sistema de crenças extremamente violento, que se esforça para não pensar e dar demonstrações, seguidas, de que de fato não pensa. O fascismo contemporâneo, vemos isso diariamente exemplificado numa destas contas do twitter, faz uso dos dispositivos técnicos sem pensar para condenar o pensamento, inclusive, o pensamento da técnica. A técnica do fascismo neste século XXI é o fascismo da técnica. O pensamento – separado da técnica – deve ser condenado e a técnica sem pensamento usada, explorada, escravizada, para perseguir o pensamento que resistir. Neste tempo de caça à filosofia pela apropriação autoritária da técnica que dispensa o pensamento, o ódio à filosofia se apresenta como filosofia, mas uma filosofia vazia de conteúdo ou, de outra perspectiva, cheia de ódio. E a filosofia que não se dobra àquela filosofia como técnica de resistência, dispositivo de radicalização e invenção democrática, máquina de guerra antifascista. O ódio à filosofia que se diz filosofia é a expressão ressentida de uma vontade suicidária de destruição. O amor à filosofia do amanhã é criação. Olavo de carvalho, o presidente e o ministro da educação, definitivamente, não são criadores, a não ser se passarmos a chamar de criação a morte do pensamento.