Histórias [ou o fim da história do fim da história]

A ideia de uma única história da filosofia ou do espírito é uma concepção colonizadora que pretende conquistar para si o mundo de outrem, empobrecendo-o a partir de suas certezas insensíveis.

Para sair desta concepção idealista e formalista de uma longa história universal do pensamento, Valentim aponta para uma experimentação geográfica da filosofia: “Pense-se, por exemplo, nas consequências para a história da filosofia: se a geografia for finalmente considerada como fator determinante da produção filosófica, contrariando assim a suposta universalidade de uma só tradição, multiplicar-se-iam exorbitantemente as histórias da filosofia”.

Trata-se de recuperar a pluralidade movente que foi capturada por um único movimento ou movimento do único: o da metrópole à colônia e da colônia saqueada de volta à metrópole.

A colonização continua em operação nos diagramas curriculares. “Impor o estudo dos assim chamados clássicos como condição de primeira ordem para a formação filosófica é, sem dúvida, um expediente colonial”, dispara Valentim.

O estudante é levado a sentir-se inferior por não dominar a língua do dispositivo colonial. Dispõe-se a sentir fraco e incapaz, nega sua própria potência e singularidade. Nesta posição subalterna receberá as formas da normalização do corpo, da escrita e da palavra. Uma maneira de escapar desta maquinaria de captura, segundo Valentim, seria por meio de uma alteração dos currículos universitários da área “com a inclusão de outros mundos de pensamento além do ocidental-europeu-moderno, como objetos de estudo com igual importância. Não faria mais sentido (não faz mais sentido!) compreender, por exemplo, os fundamentos da subjetividade moderna apenas por recurso às meditações dos filósofos”.

A revolta, porém, é adiada pelo investimento temporal, libidinal e obediente para ser como o mestre que aparenta ser uma entidade transcendente, mas é só alguém que replica docilmente os comandos de um poder disperso em milhares e milhares de páginas, às quais, embora distintas na superfície, funcionam sob a mesma lógica da identidade única e totalitária da história dos que contam, da perspectiva deles, a nossa (nossa?) história.

A história do Brasil que aprendemos é na verdade a história do capitalismo. O Brasil mesmo, já disse Eduardo Viveiros de Castro, não existe. “O que existe é uma multiplicidade de povos, indígenas e não indígenas, sob o tacão de uma “elite” corrupta, brutal e gananciosa, povos unificados à força por um sistema mediático e policial que finge constituir-se em um Estado-nação territorial. Uma fantasia sinistra. Um lugar que é o paraíso dos ricos e o inferno dos pobres. Mas entre o paraíso e o inferno, existe a terra. E a terra é dos índios. E aqui todo mundo é índio, exceto quem não é”.



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